Uma Balada para Lionor
4 De prisioneiros, da justiça e injustiça
Notas iniciais
Lionor não suportou encarar Nigel, por uma noite inteira e uma manhã. Mas, após a refeição, quando transportavam os dois prisioneiros para a Fortaleza do Água, sentiu uma irresistível vontade de descer do cavalo, puxá-lo pela camisa e esbofeteá-lo, até que conseguisse minimizar uma parte da raiva que sentia. No entanto, limitou-se a emparelhar o seu cavalo com o dele e fitá-lo com o olhar decepcionado.
– Como pode?
Ele desviou o olhar. Não iria discutir com ela, não na frente de Hermes e dos dois prisioneiros. Wilhem e Claire estavam amarrados um ao outro, no fundo de uma carroça de madeira, expostos à visão de todos que passavam pela estrada, como se fossem malfeitores. A menina estava envergonhada e não parava de chorar, mas Wilhem estava tão entorpecido pelas ervas que tomara e tão paralisado pelos emplastros e ataduras em volta do ferimento em suas costas que mal ousava abrir os olhos. O sol, os mosquitos e a poeira os incomodava, mas já não podiam reclamar, depois que o duque lhes colocara trapos de tecido em cada boca.
– Conversamos na fortaleza, Lionor. – o cavalo de Nigel deixou-a para trás.
Mas não conversaram. Estavam mais ocupados em interrogar os prisioneiros, tentando dialogar com os dois depois que haviam sido desembarcados da carroça e levado para celas no subsolo da Fortaleza, um lugar escuro e úmido com grades que permitiam ver o rio. Era impossível conversar com Wilhem, a cabeça pendendo, os olhos meio fechados e a boca meio aberta, ainda sob o efeito de fortes poções. Hermes havia cuidado do ferimento que ele mesmo inflingira, sob os protestos de Nigel, que achava que o Duque devia tê-lo deixado morrer.
– Digam-me – Hermes falava calmamente, voltado para Claire – O motivo desta tentativa de assassinato.
– Eles incendiaram nossas casas, Duque... – ela falou, fungando — com nossa família dentro.
– Estavam mortos – interveio Nigel, indignado – todos mortos pela peste. Do jeito que fala, parece que os assassinei.
Hermes fez um gesto para que o rapaz se calasse. Nigel era inquieto demais, e andava em círculos, nervoso, segurando a mão imóvel e enfaixada.
– Incendiaram porque eu ordenei – o duque falou, como se explicasse algo a uma criança. — E pretendo restituir a todos os sobreviventes que retornarem um vilarejo reconstruído, devolvendo-lhes o valor em bens materiais que possam ter sido levados pelas chamas. O rei Miguel providenciou um orçamento generoso para que as casas sejam refeitas.
A menina ruiva balançou a cabeça, desgostosa.
– Bens materias não me importam. Mas a minha família merecia um enterro digno, com cântigos e preces, e não um fim numa pira, tal qual selvagens.
– Aposto que não se importam com seus cântigos e preces depois que os corações já não batem e os olhos se fecham – Nigel interrompeu novamente – Fizemos um favor a vocês. Se tocassem nos corpos contaminados, vocês dois poderiam contrair a peste e estariam mortos agora, tal qual seus entes queridos.
Uma sombra pareceu abater-se sobre o rosto de Hermes. Por um momento, Nigel se esquecera de que o caçador também tivera a família dizimada pela peste, e se arrependeu das palavras proferidas para ferir Claire. Envergonhado, decidiu deixar o Duque conversar com os prisioneiros a sós.
Encontrou Lionor à entrada da fortaleza, banhando-se no sol da tarde enquanto cacheava os cabelos com os dedos, o olhar perdido no vazio. Abraçou-a pelas costas, mas ela se desvencilhou. Estava zangada demais para que um simples abraço a fizesse esquecer. Jamais considerara Nigel um santo; estava muito longe disso, e ela não era cega. Mas o que ele havia feito a ferira profundamente, pois havia sido bem debaixo de seu nariz.
– Nigel, tenha a decência de...
– Perdoe-me – ele não deixou que ela terminasse, e contornou-a para beijar-lhe os lábios – Perdoe-me, Lionor. Se houver algo que eu possa fazer para que possamos esquecer o que houve, então me diga, e eu o farei.
Ela estreitou o olhar. Sentiu que escutava palavras vazias. Não era a primeira vez que o via escapulir enquanto a fazia esperar, mas ele mesmo jamais esperara por ela.
– É esse tipo de respeito que diz ter por mim, Nigel Klein? Ou respeito, para você, limita-se somente a não me desonrar?
– É complicado, Lionor – Não havia como fazê-la entender; ela nunca se sentiria como um rapaz de dezoito anos, jamais se dividiria entre o desejo e o que ele denominava respeito. Se conseguisse fazê-la entender que a tentativa de assassinato que sofrera era mais importante do que o motivo que o levara a subir as escadas da estalagem com os dois jovens de Curvavento, talvez o fato se tornasse menos relevante para ela – Deve entender que, se a trato dessa forma, é porque gosto de você e a considero importante. E aquela garota ruiva... nem sequer lembro o nome. É em você que penso, e é você que amo.
– Compreendo. E há coisas que não podem ser feitas com a mulher amada... somente com as vagabundas e os rapazes das tavernas – ela ergueu os ombros, fingindo não se importar – Fico até contente que não me coloque no mesmo nível que esse tipo de gente.
Mas não estava contente, estava muito longe disso.
Mais tarde, perguntou a Hermes o que fariam com os prisioneiros. Não podiam enforcá-los, pois não havia acusação que justificasse a pena; a ameaça mal fora concretizada, por serem os acusados demasiadamente amadores. Tampouco poderiam ser mantidos presos eternamente, já que uma situação como aquela pedia uma pena mais breve. O Duque pretendia mantê-los nas masmorras por alguns meses, até que se convencessem que haviam errado e pudessem retornar para o vilarejo já expurgado e reconstruído. Se tivessem tempo para a reflexão, sozinhos nas masmorras frias, escutando o som da correnteza do rio e se alimentando de mingaus brancos e frangos com verduras, talvez compreendessem que o duque ordenara o incêndio para preservar-lhes a saúde e evitar que a epidemia os seguisse pelo Água de Carpas, chegando até a corte e até mesmo nas distantes Terras do Sul, onde o rio tornava-se mais largo e o reino terminava. Lionor achou a ideia excelente; se fossem sensatos, Wilhem e Claire até mesmo agradeceriam.
– Ou, talvez, quando saírem, tentem me matar de novo – lembrou Nigel – Certifique-se de que eu já esteja na corte quando os soltarem.
– São apenas camponeses – lembrou Hermes – Tem medo deles?
– Tem razão, são somente camponeses – ironizou, erguendo a mão ferida, e apontando com a outra o fino corte que Wilhem fizera em seu pescoço quando encostara a lâmina. Podia apostar que o Duque e Lionor concordavam em libertá-los somente porque não havia sido o sangue deles no assoalho do quarto na noite anterior.
– Ora, se não fomos pegos de surpresa – Lionor fez questão de ressaltar – eles jamais conseguirão nos ferir.
Haviam sido colocados em celas separadas, a fim de que não pudessem conspirar para escapar dali. Não havia nenhum guarda nas portas; não era necessário. Não eram criminosos, muito menos perigosos. Bastavam as grades, e um cadeado. A janela gradeada permitia que vissem uma parte do céu, mas era alta demais para que tentassem olhar através dela. E, se o fizessem, veriam somente alguns metros de abismo, embora estivessem no subsolo, pois a Fortaleza era localizada em uma encosta.
Apesar da janela, a cela era mal iluminada, e pequena demais; a cama limitava-se a um banco de pedra, e a latrina ficava à mostra, algo completamente humilhante para uma moça. Claire agradecia aos céus por estar sempre na penumbra, pois odiaria ser flagrada urinando por algum dos criados que levava a comida.
Cada minuto na cela parecia um dia inteiro, e cada dia, um mês. Na primeira noite em que passara na cela, a garota teve a ideia de raspar um pequeno traço na parede a cada pôr do sol, para saber a quantidade de dias que passava ali. Mas a noite fora longa demais, cheia de lágrimas e medo. Jamais imaginara, em sua vida inteira, que dormiria num cárcere. Sempre fora leal, justa e trabalhadora, e nunca fizera nenhum mal a qualquer pessoa, mas a visão do seu vilarejo em ruínas enegrecidas, os tufos de fumaça sufocando-a e confundindo-a, impedindo-a de achar o caminho de casa, despertara em seu peito o desejo de vingança. Ainda que lhe entregassem um castelo no lugar de sua humilde casa de Curvavento, ainda que buscassem entre os escombros os corpos carbonizados de seus familiares e os enterrassem no cemitério pessoal da família real, de nada adiantaria. Ela não se conformava; era culpa de Nigel Klein e Lionor Braga, e também do Duque, o fato de estar presa naquele momento, e de Wilhem estar ferido, quase inconsciente e sozinho numa cela mal cuidada e mal cheirosa, deitado na cama de pedra, sem conseguir se levantar. Hermes o atravessara com a lança, e o ferimento podia ter lhe causado a morte. Por tudo aquilo, e por tudo que haveria de sofrer enquanto permanecessem nas masmorras, Claire se vingaria. Ainda não sabia como, mas teria tempo de sobra para pensar a respeito.
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