Uma Balada para Lionor
33 De poções
Notas iniciais
Lionor abriu os olhos, e vislumbrou uma tênue claridade anunciando a proximidade da alvorada. Mais um dia, pensou, bocejando. Mais um dia caminhando pelos vilarejos. Rolou para o lado preguiçosamente, enquanto uma voz em seu interior lhe ordenava que se levantasse. Havia tido um sonho conturbado e, nos primeiros segundos em que percebera-se acordada, as lembranças haviam se atropelado em sua mente. Mas agora nada havia além da sensação estranha de desejar desesperadamente se lembrar de algo que nem ao menos sabia o que era. Olhou ao redor, e percebeu sua vista levemente turva. Nigel estava profundamente adormecido ao seu lado, o cabelo acobreado cobrindo-lhe metade do rosto, a boca entreaberta, um braço jogado tortuosamente por debaixo do travesseiro. O lençol escorregara para o lado e ele, a despeito do frio, estava completamente descoberto da cintura para cima. Com cuidado para não acordá-lo, Lionor sentou-se na cama e estendeu a mão para o lençol, mas não conseguiu segurá-lo; tentou novamente, mas era como se seu corpo fosse feito de névoa. E percebeu que não sentia o frio, embora estivesse despida.
— Nigel — ela o chamou, mas a sua voz parecia abafada. Era como se somente ela mesma se escutasse. Aflita, tentou tocar o rapaz, mas ele não reagiu, nem mesmo se moveu. A respiração profunda fazia seu peito subir e descer lentamente.
Desesperada, Lionor olhou para trás, e quase congelou de terror. Deitada na cama, lá estava seu corpo, profundamente adormecido, o rosto tranquilo e uma de suas mãos descansando perto de sua orelha. Debruçou-se sobre si mesma, e tentou imaginar se estava morta ou viva. Seu corpo parecia tão belo e atraente que, em um instante de loucura, aproximou-se lentamente de si mesma e beijou os próprios lábios. Jamais teria outra oportunidade de fazê-lo na vida — ou na morte, já não sabia mais.
— Lionor — ela sussurrou para si mesma, para aquela parte de si que jazia na cama, com um leve sorriso nos lábios, e a camisola suada colada à pele. — Lionor!
E, de repente, já não era ela que sussurrava, era uma voz mais grave, com um “r” diferente, um “r” com o gostoso sotaque do além-mar.
— Lionor!
Ela abriu os olhos, sobressaltada, e sentiu o travesseiro sob sua cabeça. O coração estava acelerado e, a respiração, ofegante. Nigel estava debruçado sobre ela, com ar preocupado.
— Parecia estar tendo um pesadelo — ele tocou-lhe o rosto, e enxugou o suor da testa da garota com as mãos — O que aconteceu?
— Eu... — ela não sabia o que dizer. Um sonho, sim, um pesadelo. Mas havia sido tão realista que ainda conseguia sentir aquela estranha sensação de estar flutuando — Eu tive um sonho conturbado.
Já havia amanhecido, e a claridade adentrava as janelas do quarto através das cortinas brancas que agitavam-se ao vento. Percebeu que Nigel segurava uma de suas mãos.
— Precisamos nos levantar.
— Agora? — sentia-se cansada demais para se levantar.
No dia anterior, passara a manhã e a tarde cavalgando ou caminhando, procurando informações ou oferecendo recompensas para a captura dos dois fugitivos. E passara a noite inteira sentindo o peso do corpo de Nigel sobre o seu, as pernas em volta do corpo dele, uma das mãos cobrindo-lhe a boca para que não fizesse barulho — e ele lhe mordera o dedo mindinho, mais forte do que pretendera, e tinham rido daquilo. E haviam descansado, e voltado a se amar, de todas as formas que sabiam, e ele lhe dissera que a amava mais que tudo na vida. Quando fechava os olhos, ainda podia sentir as mãos dele deslizando pelo seu corpo, ainda poderia senti-lo dentro de si, mas teve medo de que, caso fechasse os olhos, pudesse ter aquele pesadelo outra vez.
— Agora — Nigel ajudou-a a se levantar mas, assim que ela fez menção de tirar a camisola, ele a abraçou e puxou-a pela nuca para dar-lhe um beijo.
Lionor encostou as mãos no peito do rapaz, para afastá-lo mas, quando deu por si, já o havia deixado derrubá-la na cama novamente e tirar-lhe a roupa de dormir. Não havia mal algum em se atrasar um pouco. Procuravam os fugitivos há dias, e nada haviam encontrado. Alguns minutos, ou meia hora, que fosse, não iria fazer mal algum. Jogou a cabeça para trás ao senti-lo beijando seu pescoço. Havia se passado um quarto de hora, quando escutou batidas à porta.
— É Hermes — ela sobressaltou-se, como se fosse seu pai ou sua mãe batendo à porta, e ela fosse uma menininha fazendo algo errado — Nigel, Nigel!
— Esqueça Hermes... — ele resmungou. Apertou-lhe o braço com força, a respiração ofegante — Deixe que bata.
Prendia o corpo da garota junto ao seu com tal força que Lionor não era capaz de sequer pensar em se afastar. Tentando se desvencilhar, ela jogava o peso do corpo para trás, e tentava afastar Nigel de si como se lutasse contra ele. E ele demorou a se importar; quando o fez, contudo, afastou-se de forma estúpida.
— O que acontece, Lionor? Por que ontem podia e hoje não?
— Por que não pode e pronto — ela cruzou os braços como se desejasse esconder os seios pequenos — Eu faço contas, oras... conto os dias, entende? Eu não quero ser mãe...
Nigel franziu a testa, como se demorasse a compreender. E, ao perceber que se tratavam das regras, fez um gesto de desdém.
— Contas? Poupe-me, Lionor. É claro que também não quero ser pai, mas não sei o que te faz pensar que eu me casei para ficar parado esperando os dias de fertilidade irem embora. O que você tem que fazer é procurar uma curandeira e arranjar uma daquelas poções. É o que todas as outras garotas fazem.
— Não sou as outras garotas — ela fez um gesto brusco, aborrecida — Sou sua esposa. Devia ter consideração, Nigel. Deixe que eu me arrume sozinha. Vai!
Estava verdadeiramente furiosa por causa da opinião de Nigel, mas não queria começar o dia com uma discussão. De todas as preocupações que Lionor já tinha, era terrível ter que acrescentar mais uma. Por um desesperante segundo, se imaginou em casa, cercada de crianças, como uma mãe de família pacata e submissa. Como poderia cavalgar, disputar torneios, lutar, fazer parte de missões longas, se tivesse filhos?Talvez Nigel até tivesse um pouco de razão. Várias conhecidas haviam falado sobre poções e infusões de ervas, e a própria Nina as usara quando era casada.
Demorou tanto para se recompor e se arrumar que, ao descer as escadas até a sala, com a água pingando de seus cabelos longos por todo o assoalho, se deu conta de que os rapazes — incluindo Nigel — haviam resolvido sair sem ela. Vicente terminava de comer bolinhos com calda de laranja, e tomava cerveja quente.
— Senhora — ele fez uma discreta reverência com a cabeça — Hermes, Nigel e Cádiz esperaram pela senhora, mas...
— Não precisa justifica-los — Lionor pegou um bolinho, mas estava tão mal-humorada que não sentia fome — E não me chame de senhora. Chame-me Lionor.
Ele assentiu. Lionor deu uma mordida no bolinho, e lhe pareceu incrível.
— Vicente... já que conhece este vilarejo, há aqui por perto alguma curandeira ou alguma mulher das ervas?
— Está doente, senh... Lionor? — o garoto mostrou preocupação.
— Não. É para... prevenção, você não entenderia. Leve-me até lá, se for possível.
Após o desjejum, Vicente a guiou por casas pequenas e muito juntas, à porta das quais os vizinhos fitavam-nos com curiosidade. Lionor se lembrou da fama de destemida e imorrível, na palavra inventada do pessoal simples do lugarejo, mas se sentia mais como uma menininha fazendo uma travessura que como uma heroína. Roía as unhas enquanto caminhava apressadamente, seguindo o escudeiro, que andava muito rápido.
— É aqui.
Apontou uma casa amarela, com paredes malfeitas e janelas escoradas com tábuas. Uma menina com olhos baços estava debruçada ao parapeito, e parecia a própria caricatura do desânimo. Vestia uma roupa desbotada, e os cabelos estavam amarrados para trás, com uma franja assanhada e ressecada que mais parecia um topete. Era um lugar tão pouco convidativo que Lionor sentiu-se contagiada pelo esmorecimento.
— Bom dia... — ela forçou-se a dar um passo à frente.
— Oi — a menina respondeu-lhe, erguendo uma sobrancelha. — é o quê?
Lionor não sabia como se explicar. Torcia as mãos, nervosamente.
— Bem... eu estava precisando de... é que ouvir dizer que... existem porções para... bem — sentiu-se envergonhada ao se dar conta de que Vicente escutaria a conversa — No caso de um rapaz e uma moça quererem evitar a concepção.
Uma voz de mulher berrou um nome feminino, de dentro da casa. A menina voltou o olhar para dentro, enquanto a voz indagava.
– Quem é? É a Catarina que já está tendo bebê?
– Não, mãe — a menina desanimada gritou-lhe de volta — É mais uma fidalga querendo coisa pra não fazer bebê.
Lionor sentiu o rosto queimar de vergonha, chocada pela indiscrição. Fechou o punho com força, sentindo as unhas enterrarem-se nas palmas de suas mão. Não se lembrava de já ter sido exposta e público daquela forma em qualquer momento da sua vida. Até mesmo Vicente fitou o chão, sem graça, desenhando na terra seca com a ponta dos pés.
Uma mulher gorda, com os cabelos brancos e muito longos trançados com desleixo, surgiu enxugando as mãos em um avental encardido. Seu rosto se iluminou ao encostar-se às costas da filha.
— Ah, olha quem é! O neto da Bernardina... Vicente... — estendeu a mão para uma estante e pegou um frasco de vidro com uma poção encardida. — Pode levar, menina, é de graça pra você. Jamais ia deixar o neto da Bernardina fazer filho numa fidalga.
— Vicente? — Lionor olhou para o escudeiro, que lançou-lhe um olhar de desesperada vergonha. Sentiu pena do rapaz; havia lhe pedido um favor, e ele estava sendo envolvido em uma história que ele desconhecia. Apressou-se em explicar. — Não, está havendo um mal entendido. Eu sou casada, Vicente é o escudeiro de meu marido, que é Condestável, um dos homens do rei.
A mulher gorda deu uma gargalhada.
— Em se tratando deste rei, essa história de ser um homem do rei pode ter vários significados. Mas este é um motivo maior ainda pra tomar logo essa poção; se esse seu marido fica sabendo que Vicente pode enfiar-lhe um bebê no bucho, é capaz de mandar mata-lo.
— Eu não... — começou Vicente, mas percebeu que ninguém lhe daria ouvidos, e desistiu de falar. Ademais, parecia uma honra para ele que pensassem que ele poderia fazer um filho na senhora Lionor Klein.
Sentindo-se prestes a chorar de vergonha, Lionor tirou uma moeda do seio e colocou no parapeito da janela, desabafando.
— Pensem o que quiserem, não me importo mais. E dê-me cá essa poção antes que eu me sinta ofendida demais para aceitar.
Tomou a garrafa das mãos da velha e deu meia volta, se afastando tão rápido que Vicente mal conseguia acompanha-la. Esperava que aquela poção pudesse deixa-la mais tranquila e agradar Nigel, pois o preço que pagara — não a moeda, mas a humilhação — havia sido muito caro.
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