Uma Balada para Lionor
26 De informantes e pretendentes
Notas iniciais
O suave aroma do perfume encheu a casa abandonada, substituindo o habitual odor de poeira e madeira mofada. Wilhem estava cortando cenouras para a sopa quando Claire passou pela cozinha, rodopiando com um vestido verde mar que deixava à mostra seus ombros pálidos. Os cabelos caíam-lhe pelas costas, brilhantes e macios após serem escovados uma centena de vezes. O garoto parou com a faca a meio caminho das verduras, a boca entreaberta.
– Está tão... graciosa, Claire...
Ela sorriu, agradecendo o elogio. Uma panela de água descansava sobre o fogão, mas as brasas estavam quase apagadas, e a água, quase fria.
– Wilhem, não precisa fazer sopa para mim. Não estarei em casa para o jantar.
– Vai se encontrar com o seu informante? – ele enfiou a ponta da faca na tábua. Uma cenoura rolou para o lado e quase caiu da mesa. – Tive a oportunidade de conhecê-lo, e ele... tem a nossa idade... e é bem apessoado...
Tentou disfarçar o ciúme na voz, mas Claire já o conhecia bem o suficiente para compreender. Gargalhou.
– Ora, meu querido irmão, estou investigando sobre nossos ilustres inimigos no castelo. Pensa que estou indo me distrair e jantar com um pretendente?
– Você tem o direito... – Wilhem recolheu as cenouras, lentamente – ...de sair, se distrair e jantar... e de ver rapazes. Não precisa tentar esconder de mim, Claire. Ninguém se banharia, se pentearia e se arrumaria tanto para interrogar um informante.
Ainda tinha esperanças de que ela negasse, mas Claire limitou-se a corar levemente, e a baixar o olhar para o assoalho de madeira estragada da casa. Wilhem fechou as mãos ao redor do cabo da faca, arrancou-a da tábua e atirou-a na pia. Não haveria necessidade de sopa.
– Wilhem... – ela parecia não saber o que dizer – Eu não... na verdade... pensei que não teria nada de mais... me arrumar um pouco... não tive a intenção de te aborrecer...
– Não se preocupe – ele esboçou um sorriso – Se ele for bom para você, e puder te dar um bom futuro, Claire, e se ele gostar de você a ponto de querer se casar, eu ficaria mais tranquilo ao saber que você não estaria desamparada caso aconteça algo comigo.
– Não diga isso, meu irmão! Nada acontecerá com você – ela se aproximou e beijou-lhe o rosto. – Esta fase ruim vai passar, você verá.
Estava se afastando dele, mas ele a puxou de volta e deu-lhe um abraço longo e apertado. Wilhem acariciou-lhe a nuca e, por um momento, pareceu a Claire que ele havia fungado. A garota segurou-lhe pelos ombros e procurou seus olhos, procurando por um brilho de lágrimas, mas ele virou o rosto.
– O que aconteceu, Wilhem?
– Nada – ele tocou o rosto da garota, carinhosamente – Amo você, Claire.
– Eu também, irmão – ela se afastou devagar, sorrindo e caminhando de costas em direção à porta.
Ele a seguiu com o olhar, um ar de decepção no rosto. Não foi preciso que dissesse nada para que Claire compreendesse. Ele me ama ela pensou, mas não como irmã. Sentiu as costas tocarem o umbral da porta, mas não teve coragem de sair sem esclarecer aquilo. Teve vontade de sacudi-lo pelos ombros para que esquecesse aquela ideia, que jamais tocasse naquele assunto novamente, que quando toda aquela confusão acabasse ele encontraria uma mulher que o faria feliz. Uma que não chamasse de mãe a mesma mulher que ela também chamara de mãe.
– Wilhem... por favor... somos irmãos.
– Não somos irmãos, nem mesmo meio irmãos. Nem somos parentes – ele despejou aquelas palavras como um desabafo, mas não quis parecer grosseiro, e apressou-se em acrescentar – Se eu pudesse, seríamos outro tipo de família. Eu me casaria com você, Claire, mas eu já estou morto.
– Não, não está. – ela conteve as lágrimas a muito custo – Eu resolverei tudo, como já fiz mais de uma vez. Não saia da casa até eu voltar; não demorarei.
Quando deixou a casa abandonada, estava quase correndo. Sentiu as lágrimas quentes escorrendo pelas suas bochechas, e enxugou-as com a manga do vestido. Que tolo ele era! Que tolo! Estava tão confusa e cansada, tão deprimida, com tantas saudades da sua vida antes de toda aquela confusão, não precisava acrescentar mais uma preocupação a tudo aquilo. Já tinha problemas demais para ter que se preocupar em não partir o coração de seu irmão de criação.
Parou em frente à Taverna da Lua e respirou fundo. Não podia ser vista com lágrimas nos olhos. Mais importante que seu vestido, seu perfume e os cabelos ruivos cuidadosamente escovados, era o sorriso suave que plantou no rosto quando adentrou o local.
Era fim de tarde, e a taverna já estava quase lotada. O local estava na penumbra, e poucas velas já estavam acesas, lançando uma luz amarelada sobre as mesas de madeira já sujas com restos de comida e garrafas vazias. Claire estreitou o olhar e procurou seu informante, mas tudo que viu foi um grupo de bêbados em cada mesa, alguns acompanhados por mulheres trazidas do bordel que ficava bem em frente. Alguns garçons tentavam se movimentar entre as mesas, e as lembranças da estalagem do Água de Carpas começaram a surgir em sua mente.
Ainda estava parada à porta quando um falcão a sobrevoou. Assustada, ela recuou. A ave pousou na Lua de madeira que decorava a entrada da taverna e virou a cabeça para observá-la.
– Não sou uma caça. Saia daqui – sentia-se idiota em falar com uma ave, mas começara a se sentir incomodada com a presença do animal.
– Fala com animais, Claire?
Assim que ouviu a voz familiar atrás de si, a garota se virou com um grande sorriso, e estendeu os braços à frente.
– Vicente! – ela o abraçou – Tive receio de ter chegado cedo demais.
– Chegou bem na hora – ele deu um sorriso tímido.
Pediram um vinho, queijos, pães, codornas. Tinha ouro em uma bolsinha de veludo, e Claire estranhou; o cavalariço quase nunca tinha dinheiro. Dava aos pais e à avó tudo que ganhava trabalhando no castelo. Mas a garota não ousou questionar, pois gostava de finalmente poder sentar para comer e beber de verdade com ele em vez de ser obrigada a dividir uma caneca de cerveja como das outras vezes. Na realidade, não estava mais tão interessada no que havia sobre a mesa quando trocaram um beijo tímido. Vicente era sempre muito retraído e respeitoso, mas naquele dia o vinho forte havia lhe concedido um pouco mais de ousadia. Descansou a mão na coxa de Claire quando inclinou-se para beijá-la mais apaixonadamente. Não parecia muito acostumado a beijar, mas era esforçado. A garota começou a imaginar com quantas meninas ele já havia estado antes, e se alguma vez em sua vida ele havia se deitado com alguma delas. Depois, se lembrou do bordel em frente à taverna, mas não quis imaginar aquele garoto simples e tímido com uma prostituta voluptuosa e vulgar. Tocou-lhe o rosto com as duas mãos, sem se importar com as piadas dos bêbados quando começaram a ficar cada vez mais próximos.
Por uma ou duas vezes, Claire se lembrou que estava ali para coletar informações, mas aquilo já não parecia mais importar. Pediria qualquer informação de que necessitasse depois que ele afastasse aqueles lábios com sabor de vinho dos seus.
– Claire – ele finalmente se afastou dela, apenas o suficiente para que seus lábios continuassem a roçar o rosto da garota enquanto falava. Aquele ar tímido o deixava ainda mais charmoso – As pessoas estão olhando, rindo da gente...
Um bêbado os mandou procurar um quarto, outros disseram que os dois iam terminar fazendo um bebê no meio da taverna, na frente de todos os outros clientes, e outros ainda faziam piadas tão sujas que os dois fingiam não escutar.
– Tem razão – ela deu um sorriso sapeca, e duas covinhas surgiram em suas bochechas – Acho que é o vinho... acabamos exagerando um pouco.
Vicente baixou os olhos para os ossos da codorna na bandeja sobre a mesa. Parecia medir as palavras.
– Claire... não pretendo faltar-lhe com o respeito de forma alguma, mas gostaria que pudéssemos ter um pouco de privacidade. Se confiar que não lhe farei mal, e que nada farei contra a sua vontade, gostaria que pudéssemos ir para a casa de minha avó, aqui neste mesmo vilarejo.
– Mas sua avó não brigaria com você? – na realidade, o medo de Claire era de que a avó do garoto a confundisse com uma prostituta.
– Ela não está em casa... na verdade, não tem ninguém em casa.
Ela assentiu, mas já estava arrependida quando se puseram a caminho. Bem, ele prometeu que não me desrespeitaria, pensou, mas quantos homens não cumpriam suas promessas quando se encontravam a sós com mulheres – especialmente depois de dividirem com a referida mulher uma garrafa de vinho forte. Pensou em desistir, mas não quis decepcioná-lo. Ele a guiava com a mão gelada ao redor de seu pulso. Quase parou para perguntar se ele estaria bem, mas não quis evidenciar o nervosismo dele.
– Vicente, jure que não... que não... – ela não sabia como falar. Queria que ele jurasse que não a forçaria, mas achou que soaria grosseiro – Jure que sabe se comportar perante uma donzela e que jamais deixará que o vinho o leve a cometer atos que não são convenientes a um cavalheiro.
– Claire, juro que não dormiremos juntos – ele desviou o rosto para que a garota não o visse corar.
A casa da avó de Vicente estava tão confortável e limpa que Claire desejou passar a noite ali, naquela cama larga e coberta com macios lençóis brancos. A casa tinha aroma de lavanda e, embora fosse um local bastante simples e pobre, tudo ali era aconchegante. Era tudo tão diferente da casa abandonada que havia invadido com Wilhem que até se sentiu culpada por ter conforto, ainda que por apenas alguns instantes, enquanto o irmão se afundava na bagunça e na poeira.
O colchão afundou quando ela se sentou na beirada da cama, e Vicente se sentou ao seu lado, o rosto afogueado pelo vinho. Claire fechou os olhos e sentiu os lábios do garoto nos seus, e corpo dele contra o seu, uma das mãos suavemente pousada em seu pescoço, descendo com muita leveza até quase tocar o seu seio.
– Perdoe-me, Claire – ele murmurou, enquanto a mão acariciava o decote de seu vestido – Perdoe-me...
Ela sentiu um forte puxão nos cabelos da nuca e, por um instante, teve receio de que Vicente estivesse desejando violá-la, mas não abriu os olhos. O gesto a deixara com ainda mais vontade de beijá-lo com mais ousadia. A mão do garoto agora envolvia seu seio, e a outra apertou-lhe a cintura.
Então... Ela abriu os olhos, aterrorizada. De quem é a mão na minha nuca?
Não teve tempo para conjecturar; a mão puxou sua cabeça para trás com estupidez, afastando-a de Vicente. Ela deu um rápido grito agudo quando foi arrastada para fora da cama e quase caiu sentada no chão. Enquanto tentava se levantar, torceu o rosto para um lado e conseguiu ver, com o canto do olho, um brilho no olhar de Nigel.
– Claire. Há quanto tempo...
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