Uma Balada para Lionor
18 De castigos
Notas iniciais
– E o rei, onde está?
Anna Thereza parecia ainda menor e mais jovem, sentada ao trono, com as saias de seda esparramadas ao seu redor. Ainda assim, o mensageiro de dentes tortos e rosto espinhento quase tremeu ao ouvir a pergunta pela segunda ou terceira vez. Miguel estava atrasado, bem mais do que deveria, e a rainha já estava perdendo a paciência.
– S-sua Majestade está contando uma história para Sua Alteza, o príncipe Tomás.
– Devia tê-lo trazido assim mesmo – Oriana interveio. – Tom tem um ano de idade. Tenho certeza de que nem perceberá se a história ficar pela metade.
– Eu vou buscá-lo – decidiu Hermes, escorregando rapidamente porta afora.
Foi encontrar Miguel no quarto do príncipe. Estava com o livro no colo, mas o bebê já estava profundamente adormecido e ele continuava a ler, com a habitual voz arrastada. Hermes soltou um som curioso que podia ser confundido com uma risada abafada.
– Acho que seu ilustre herdeiro não está mais interessado. Por que continua lendo?
– Porque eu estou interessado no final da história – Miguel fechou o livro com um gesto brusco – Mas posso ler depois. Não consigo prestar atenção quando a minha digníssima esposa manda uma pessoa diferente me chamar a cada três minutos.
Deixaram o bebê aos cuidados da ama, e seguiram pelo corredor até as escadas em espiral. Hermes parou no meio da descida, com um pé em um degrau e o outro no degrau de baixo, quando o rei indagou o motivo da conversa.
– Ela quer falar sobre Nigel. Oriana me contou antes de descer... – e, antes que Miguel retrucasse, se adiantou – Não pretendo ser maledicente, e você é testemunha de que somos amigos bem próximos. Mas percebo nele um comportamento violento, e nem sempre sei como lidar com certas atitudes.
– O que quer dizer? – o rei franziu as sobrancelhas – Nigel não é nobre, é estrangeiro e não foi criado na corte. Não espere dele o comportamento de um Lorde.
O Duque assentiu, acenando com a cabeça e continuando a descer as escadas. A porta da sala do trono estava entreaberta e, assim que adentrou o cômodo, Miguel sentiu-se bombardeado pelas palavras da rainha.
– Majestade, recebemos hoje a denúncia de que Nigel Klein violentou uma jovem no norte.
A expressão estupefata no rosto de Nigel revelou que ele havia sido o último a saber do motivo do encontro. Olhava para o rei e para Hermes como se pedisse ajuda.
– É uma acusação grave – Miguel puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, erguendo os olhos para o rapaz – o que tem a dizer sobre isso, Klein?
– Que sou inocente, Majestade – ele evitou lançar um olhar de ódio para a rainha, e preferiu fitar os próprios sapatos do rei quando falou – E desconhecia tal acusação.
Quando Anna Thereza e Oriana repetiram as palavras ditas pela menina ruiva que haviam encontrado na procissão, o choque que Nigel sentira foi se transformando em indignação. O ar acusador estava presente em toda a narrativa, como se não lhe fosse possível negar algo que supostamente era um fato inquestionável. Tanto a rainha quanto a princesa pareciam ter se esquecido de que não tinham prova alguma contra ele, nem mesmo o depoimento da acusadora que, segundo as duas, desaparecera no meio da multidão. O rapaz não descartava a ideia de que as duas estivessem mentindo; sabia que elas o odiavam, cada uma por um motivo diferente: Oriana o acusava de ter fomentado mentiras para envenenar o rei contra ela no passado, e a rainha o hostilizava por ciúme motivado por boatos. Seria loucura se ninguém percebesse que as duas desejavam prejudicá-lo a qualquer custo.
Somente quando descreveram fisicamente a jovem que o acusara, Nigel percebeu a armadilha em que havia caído. Era Claire, que atravessara tantas milhas para colocar a corte contra ele, acusá-lo de um crime que não cometera! Como podia ter saído do norte só para isso? Teve vontade de interromper a rainha e a princesa, de contar como tudo acontecera, que apenas tinha feito com que ela o tocasse, que a havia desrespeitado mas que não a violara, mas não ousava ser tão petulante a ponto de não esperar que Sua Majestade e Sua Alteza terminassem suas falas. Evitou olhar para Lionor, após perceber que a garota parecia tão decepcionada com ele que aparentava estar prestes a chorar.
Oriana findou o discurso com uma sentença.
– Todos sabemos que, aqui neste reino e no Além Mar, a pena para estupradores é a mutilação.
Encostada a um canto, Lionor estremeceu, sentindo-se nauseada. Mutilação. Parecia prestes a gritar um desesperado “NÃO”; ela sonhava em se casar com ele, em ter filhos com ele, o que faria se ele fosse mutilado? Mas não foi necessário fazer uma cena; quando a garota olhou para o rei, ele parecia prestes a dar um murro na mesa à sua frente, mas se conteve.
– Anna – havia uma fúria contida em sua voz – Eu estava colocando nosso filho para dormir e você interrompe este momento agradável para sugerir que um membro da nossa guarda que, a propósito, é noivo da cunhada do meu primo, seja punido por causa de uma acusação de uma desconhecida qualquer, de quem não sabemos nem o nome, e que pode muito bem ter inventado isso por um motivo estúpido qualquer? Toma-me por um tolo?
– Não, claro que não, Vossa Maj...
– Então por que diabos reuniu estas pessoas aqui para que fizéssemos papel de idiotas? – ele quase gritava. Lionor não se lembrava de já ter visto o jovem rei tão bravo – O que te faz pensar que eu posso perder meu tempo com esse tipo de coisa? Acusações sem provas, boatos e fofocas não tem lugar aqui nesta torre e nem em nenhuma parte do castelo. Peço-lhes que se retirem. Quero aqui somente o meu grupo da empreitada de Curvavento.
Oriana deu um sorriso amargo.
– Por que será que eu sabia que ia acabar assim? Sempre o protege.
Por um instante, pareceu querer iniciar uma discussão, mas resignou-se e deixou o aposento, juntamente com a rainha e os guardas que as acompanhavam. Assim que elas deixaram a sala do trono, Nigel soltou um suspiro de alívio e caiu de joelhos diante do rei.
– Obrigado.
Mas o olhar que Miguel lhe lançou continha fúria.
– Não fez o que dizem que fez, não é, Nigel Klein?
– Claro que não – ele se levantou – Ofende-me quando pensa que eu seria capaz.
– Então que motivos essa garota teria para acusá-lo?
A pergunta soou como um desafio. Nigel sabia que precisava de algo mais concreto que simples desculpas. Precisava contar-lhe como as coisas haviam acontecido, mas a presença de Lionor fazia as palavras morrerem-lhe na garganta.
– Preferia que conversássemos a sós.
– Se não tem nada a temer, não será necessário. – Miguel entrelaçou os dedos e descansou as duas mãos sobre a mesa – Se não consegue falar, dê a permissão para que uma testemunha fale em seu nome.
– Se me permite – interveio Hermes, esperando que Nigel concordasse antes de continuar a frase. Mas ele não permitiu. Ele mesmo desejava falar.
Demorou alguns instantes, que pareceram uma eternidade para os demais, para que Nigel achasse as palavras certas.
– Ela tem motivos... essa garota. O nome dela é Claire. Dizia que queria ter enterrado seus mortos, mas encontrou apenas carvão e cinzas onde outrora estivera sua vila. É irmã do sujeito que me fez este ferimento.
E ergueu a mão esquerda, já sem atadura, a cicatriz muito visível em sua palma. Miguel pôs a mão no queixo, pensativo.
– Ah, sim, me recordo agora... Hermes contou-me na carta que eles devem ter aproximadamente quinze anos – e havia um tom de deboche em sua voz – E que tentaram te matar. Mas conte-me: por que a menina se dirigiu à rainha lançar acusações caluniosas somente a você, e não Lionor ou o próprio Duque?
– Por que... enquanto estavam presos... eu fui até a cela dela...
Lionor deu as costas e se retirou, sem pedir licença ao rei, batendo a porta ao sair. Miguel a seguiu com o olhar e resmungou, com a voz em falsete “Com a sua licença, Vossa Majestade, tenho permissão para me retirar?”. Voltou-se para Nigel com a voz normal.
– Agora termine de contar, e já que a pobre donzela foi embora, não nos poupe dos detalhes sórdidos.
Contou o que fizera com a voz tão baixa e resmungada que Miguel mal escutava suas palavras. Hermes cruzou os braços, mas ainda que se mexesse, ainda parecia uma estátua em pé no meio da sala, as pernas ligeiramente afastadas e o ar concentrado de quem gostaria de fingir ser invisível.
– Está envergonhado por falar sobre isso? Não parece tão envergonhado quando está fazendo.- Mas o rei não lhe pediu para repetir a narrativa. Em vez disso, sentenciou – Estou afastando-o da empreitada de Curvavento. E a propósito, a garota também, por não ter me pedido permissão para se retirar. Alonzo irá no lugar dos dois.
– Não, por favor – implorou Nigel. Parecia prestes a ajoelhar-se novamente — Não nos tire da missão, Miguel, farei o que quiser, o que me pedir.
– Não está entendendo, Nigel Klein. Parece que está se esquecendo que, antes de ser seu amigo, sou seu rei. Irá fazer o que eu quiser, o que eu pedir, e eu não tenho que te prometer nada em troca. Sinta-se satisfeito, pois a minha irmã e a minha gentil esposa tinham uma ideia mais cruel para castigá-lo. Agora tem minha permissão para sair.
Mas Nigel não se moveu. Sentia-se injustiçado. Era Wilhem que devia ser punido, ele e quem quer que houvesse matado os guardas em Curvavento.
– Ouça-me... Majestade...
– Tem minha permissão para sair – e a permissão soava como uma ordem.
E apontou com dois dedos da mão direita na direção da porta.
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