Uma Balada para Lionor

9 De carne de porco e pólvora


Notas iniciais
De volta com um capítulo novo. Revisar esse capítulo me deu água na boca. Farofa é uma das melhores coisas da vida, não é? Já estou revisando mais de um capítulo por vez; assim posso deixar o capítulo programado para ser postado em um outro dia. E resolvi diminuir o tempo entre as postagens, ou então demorarei uma vida inteira para concluir a história, pois quando fui ver em que parte da história eu já estava, me surpreendi com "página 35 de 188". Fiquei pensando "Mas gente, jamais vou concluir essa história se demorar a postar", então aqui vai mais um capítulo quentinho feito um porco assado!

Havia tanta carne na mesa que Lionor mal sabia por onde começar. Escolheu algumas fatias de porco, com batatas assadas cobertas com molho de ervas e uma farofa gordurosa que se espalhava pela mesa e sujava as roupas dos comensais. Nigel contava aos guardas acerca de suas lutas no último torneio realizado na corte, descrevendo os oponentes que derrotara, e a forma como quase fora atingido mais de uma vez. Lionor já o havia escutado contar aqueles casos para dezenas de pessoas diferentes – e, quando Nigel se distraía, contava a mesma história mais de uma vez para a mesma pessoa. Entediada, a garota voltou-se para Hermes.

– Conte-me mais sobre as pólvoras nos canos!

– Desculpe-me... – o duque não compreendeu.

– Nigel disse mais cedo que os piratas carregam canhões pequenos nas mãos... que podem ser disparados com um único dedo...

Se não fosse sempre tão sério e compenetrado, Hermes teria rido. Talvez aquela sua expressão de surpresa, um leve movimento dos lábios, poderia até mesmo ser uma sombra de um sorriso.

– São armas de fogo. Nunca vi uma pessoalmente. Atiram balas, como os canhões, mas não têm o mesmo formato e nem a mesma forma de uso. Por que o interesse?

– Curiosidade – ela pegou mais uma colher de farofa, mas antes que conseguisse derramá-la no prato, Nigel fez um gesto exagerado para mostrar como fazia para usar duas espadas ao mesmo tempo, e o cotovelo do rapaz chocou-se contra o pulso de Lionor, espalhando uma chuva de farinha misturada com banha por cima da garota.

Ao perceber o que fizera, ele tentou limpar o colo da noiva com as mãos, de forma desajeitada, tendo cuidado para não sujar o curativo.

– Desculpe-me, querida...

Ela se levantou, dando leves tapas no próprio corpo para limpar o vestido, mas de nada adiantaria. Era pão torrado e moído, misturado ao óleo da gordura do porco. Mesmo que a farinha saísse de suas roupas, ainda estaria suja e gordurosa. Saiu resmungando sozinha pelo descampado, voltando para os seus aposentos particulares para trocar o vestido. A criada que a despiu e a vestiu novamente percebeu que havia farinha até mesmo no cabelo da garota, e passou um pente finíssimo entre seus cabelos.

No momento em que voltava para a mesa de madeira armada no pátio externo da fortaleza, notou um vulto no meio da mata. Lionor sentiu um arrepio, enquanto a criada segurava o seu braço com um gritinho agudo.

– Viu isso, senhora?

– Eu... eu vi.

Lionor estreitou o olhar em direção à escuridão, mas não viu mais nada além das moitas e árvores cujas folhas oscilavam ao vento, e a noite tão negra que podia esconder completamente o que quer que fosse. Teria sido um animal, ou um malfeitor qualquer, ou simplesmente algum pedinte? Felizmente, estava distante o suficiente para se sentir segura. Apressou o passo e voltou para a mesa, com ar apreensivo. Nigel segurou-a pelo queixo e beijou seus lábios.

– Que pena que se trocou. Parecia ainda mais deliciosa coberta de farofa.

Não comentou com o rapaz, e nem com o duque, sobre o vulto que vira nas moitas. Não queria parecer uma simples menininha assustada. Saberia se defender e, se não soubesse, haveriam guardas para defendê-la, seu perspicaz e letal noivo, e um amigo silencioso e invencível.

Sentia o estômago estufado quando foi para a cama, e decidiu permanecer sentada para evitar uma indigestão. Nunca mais havia comido tanto quanto naquela noite. Nigel, ao contrário, adormeceu assim que descansou a cabeça no colo da garota, com o rosto corado pelo vinho. Naquele instante, ela achou-o tão belo e desamparado que mal o reconhecia. Lembrou-se que sua irmã referia-se a ele como “o assassino”, entre outras alcunhas sinônimas, mas pensara que Lionor não sabia dos apelidos ofensivos. A princesa Oriana o chamava de mentiroso e dizia que ele tomara parte em conspirações contra ela, e a rainha também o odiava, por causa dos comentários sobre ele ter dormido com o rei. Poderia ser muito mais difícil amá-lo, com tantas pessoas ao seu redor envenenando-a contra ele, mas ela a amava com uma força que era muito maior que o ódio das outras garotas da corte. Sentia que talvez não devesse tê-lo perdoado tão rapidamente pela traição na estalagem, que resultara em uma tentativa de assassinato; poderia fazê-lo pensar que ela não se importava que ele desejasse uma aventura qualquer. Ela se importava, e sofria. Felizmente, era forte.

Quando finalmente decidiu deitar, precisou empurrar a cabeça do rapaz para fora do seu colo, e ele acabou acordando, ligeiramente atordoado, resmungando “minha mão”.

– Sua mão? O que é que tem?

Ele tinha o olhar tão perdido que parecia estar sonâmbulo. Lionor cogitou a ideia de que o rapaz estivesse sonhando com o momento em que o punhal o atingira, mas ele repetiu.

– Minha mão – e fez uma careta de dor.

Pela manhã, quando ele mesmo desenrolou as ataduras em volta do ferimento, percebeu que o corte estava inflamado, com pus surgindo dos pontos que já haviam parecido tão limpos. A pele estava vermelha ao redor da ferida, que ardia. O cura ralhou com o rapaz, dizendo-lhe que cuidava tão mal do ferimento que parecia nem se importar se perdesse a mão.

– Foi o porco, senhor – por ser o cura já idoso, era quase divertido vê-lo chamar de senhor um rapaz de dezoito anos – Pessoas com ferimentos abertos não devem comer porco. Nunca lhe disseram isso?

– Nunca! O que eu faço agora? – ele gemeu, enojado com o pus – Não posso vomitar o porco que comi...

– E nem adiantaria. O que tem a fazer é cuidar melhor dessa ferida e não usar essa mão até que esteja completamente curada.

Lançou um olhar rancoroso para Wilhem. Por culpa dele, estava na enfermaria todos os dias, para trocar ataduras, tomar poções e derramar unguentos sobre a ferida. O punhal havia atravessado sua mão, de um lado a outro, e agora mal podia mexer os dedos inchados. Como poderia voltar a lutar com uma espada em cada mão? Era uma lástima que Hermes não o deixara mais sozinho com o garoto. Gostaria realmente de ter acabado com ele.

Wilhem continuava com os olhos fechados, a boca entreaberta. Por um instante, Nigel achou que o garoto poderia estar fingindo novamente, e pensou em ir até lá e sacudi-lo pelos ombros, mas o duque o havia proibido de se aproximar do ferido.

– O que vamos fazer com o moleque quando partirmos para a corte? – perguntou a Hermes, quando deixou a enfermaria.

– Vamos largá-lo aqui, preso por tentar te matar – Hermes respondeu, como se fosse óbvio. – Esqueça o prisioneiro.

– Se sua mão estivesse dolorida e cheia de pus por causa dele, duvido que se esquecesse – retrucou o rapaz, aborrecido.

Quando chegou o momento de partirem para a corte, o ferimento de Nigel já havia melhorado consideravelmente, embora ele ainda sentisse os dedos enrijecidos pelos dias em que ficaram imobilizados. Comer, cavalgar, treinar com uma única mão se tornara rotineiro – mas nem por isso era fácil. Um pouco antes da viagem, pediu que Lionor o ajudasse a se banhar.

– Ora, você tem a criadagem – ela lembrou-lhe, desejando que ele insistisse, apesar de se sentir envergonhada com a ideia.

– A criadagem não tem mãos tão macias quanto as suas – ele piscou um olho – E sabe que se eu não estivesse com uma mão doente, te ajudaria a se banhar também.

Ela corou, e balançou a cabeça, recusando veementemente, apenas para parecer casta. Na realidade, queria desesperadamente dizer que sim. Mas ela já perdera a conta de quantas vezes aquele tipo de situação quase os fizera perder o controle, para que depois se afastassem com o coração acelerado, a fim de que Nigel pudesse manter a promessa que fizera à família da garota. Não aja como uma desfrutável, eles lhe diziam, seus pais e irmãs, se o fizer, ele não a desposará. Lionor lembrava que sua irmã se casara com o conde sem um beijo sequer; provavelmente se escandalizaria com as maneiras que o seu noivo lhe ensinara para que tivessem prazer sem que ele precisasse deflorá-la.

– É uma garota e tanto – ele deu-lhe um tapinha nas costas, como se ela fosse um de seus companheiros da guarda, e se afastou, para terminar os preparativos para a viagem.

Hermes havia amontoado tudo que lhe parecia necessário em uma pequena sacola negra, e Nigel havia colocado seus pertences em um saco de linho não muito grande. Já Lionor necessitou de um baú para suas roupas e objetos pessoais. Depois que Nigel caçoou dela, dizendo-lhe que ia ficar para trás acompanhando uma carroça, ela resolveu levar somente uma única muda de roupa e suas armas, em uma bolsa que cabia no lombo da sua montaria. Havia se esquecido de que era a única mulher na comitiva, e era difícil fazer com que tivessem paciência com ela e se lembrassem de que ela tinha gostos e necessidades diferentes das dos rapazes.

Partiram com a alvorada, descendo a estrada à margem do Água de Carpas. O rio cortava o reino de norte a sul, e era possível orientar-se facilmente por ele, para ir a qualquer lugar. Lionor sentia o vento fresco em seu rosto, e por vezes fechava os olhos, sob a cela, seus lábios formando um discreto sorriso. Quando os abria, fitava a belíssima paisagem em seu caminho, desejando colher as flores na margem da estrada para enfeitar-lhe os cabelos. Mas logo balançava a cabeça negativamente, como se desejasse afastar a ideia. Parte dela era um guerreiro, não uma dama delicada, e este guerreiro estava fazendo desaparecer a menininha que havia nela.

Notas finais
Espero que estejam gostando do enredo e que a duração da história não os assuste. Acreditem, vocês não perderão tempo ao esperar pelas próximas surpresas.