Uma Balada para Lionor
9 De carne de porco e pólvora
Notas iniciais
Havia tanta carne na mesa que Lionor mal sabia por onde começar. Escolheu algumas fatias de porco, com batatas assadas cobertas com molho de ervas e uma farofa gordurosa que se espalhava pela mesa e sujava as roupas dos comensais. Nigel contava aos guardas acerca de suas lutas no último torneio realizado na corte, descrevendo os oponentes que derrotara, e a forma como quase fora atingido mais de uma vez. Lionor já o havia escutado contar aqueles casos para dezenas de pessoas diferentes – e, quando Nigel se distraía, contava a mesma história mais de uma vez para a mesma pessoa. Entediada, a garota voltou-se para Hermes.
– Conte-me mais sobre as pólvoras nos canos!
– Desculpe-me... – o duque não compreendeu.
– Nigel disse mais cedo que os piratas carregam canhões pequenos nas mãos... que podem ser disparados com um único dedo...
Se não fosse sempre tão sério e compenetrado, Hermes teria rido. Talvez aquela sua expressão de surpresa, um leve movimento dos lábios, poderia até mesmo ser uma sombra de um sorriso.
– São armas de fogo. Nunca vi uma pessoalmente. Atiram balas, como os canhões, mas não têm o mesmo formato e nem a mesma forma de uso. Por que o interesse?
– Curiosidade – ela pegou mais uma colher de farofa, mas antes que conseguisse derramá-la no prato, Nigel fez um gesto exagerado para mostrar como fazia para usar duas espadas ao mesmo tempo, e o cotovelo do rapaz chocou-se contra o pulso de Lionor, espalhando uma chuva de farinha misturada com banha por cima da garota.
Ao perceber o que fizera, ele tentou limpar o colo da noiva com as mãos, de forma desajeitada, tendo cuidado para não sujar o curativo.
– Desculpe-me, querida...
Ela se levantou, dando leves tapas no próprio corpo para limpar o vestido, mas de nada adiantaria. Era pão torrado e moído, misturado ao óleo da gordura do porco. Mesmo que a farinha saísse de suas roupas, ainda estaria suja e gordurosa. Saiu resmungando sozinha pelo descampado, voltando para os seus aposentos particulares para trocar o vestido. A criada que a despiu e a vestiu novamente percebeu que havia farinha até mesmo no cabelo da garota, e passou um pente finíssimo entre seus cabelos.
No momento em que voltava para a mesa de madeira armada no pátio externo da fortaleza, notou um vulto no meio da mata. Lionor sentiu um arrepio, enquanto a criada segurava o seu braço com um gritinho agudo.
– Viu isso, senhora?
– Eu... eu vi.
Lionor estreitou o olhar em direção à escuridão, mas não viu mais nada além das moitas e árvores cujas folhas oscilavam ao vento, e a noite tão negra que podia esconder completamente o que quer que fosse. Teria sido um animal, ou um malfeitor qualquer, ou simplesmente algum pedinte? Felizmente, estava distante o suficiente para se sentir segura. Apressou o passo e voltou para a mesa, com ar apreensivo. Nigel segurou-a pelo queixo e beijou seus lábios.
– Que pena que se trocou. Parecia ainda mais deliciosa coberta de farofa.
Não comentou com o rapaz, e nem com o duque, sobre o vulto que vira nas moitas. Não queria parecer uma simples menininha assustada. Saberia se defender e, se não soubesse, haveriam guardas para defendê-la, seu perspicaz e letal noivo, e um amigo silencioso e invencível.
Sentia o estômago estufado quando foi para a cama, e decidiu permanecer sentada para evitar uma indigestão. Nunca mais havia comido tanto quanto naquela noite. Nigel, ao contrário, adormeceu assim que descansou a cabeça no colo da garota, com o rosto corado pelo vinho. Naquele instante, ela achou-o tão belo e desamparado que mal o reconhecia. Lembrou-se que sua irmã referia-se a ele como “o assassino”, entre outras alcunhas sinônimas, mas pensara que Lionor não sabia dos apelidos ofensivos. A princesa Oriana o chamava de mentiroso e dizia que ele tomara parte em conspirações contra ela, e a rainha também o odiava, por causa dos comentários sobre ele ter dormido com o rei. Poderia ser muito mais difícil amá-lo, com tantas pessoas ao seu redor envenenando-a contra ele, mas ela a amava com uma força que era muito maior que o ódio das outras garotas da corte. Sentia que talvez não devesse tê-lo perdoado tão rapidamente pela traição na estalagem, que resultara em uma tentativa de assassinato; poderia fazê-lo pensar que ela não se importava que ele desejasse uma aventura qualquer. Ela se importava, e sofria. Felizmente, era forte.
Quando finalmente decidiu deitar, precisou empurrar a cabeça do rapaz para fora do seu colo, e ele acabou acordando, ligeiramente atordoado, resmungando “minha mão”.
– Sua mão? O que é que tem?
Ele tinha o olhar tão perdido que parecia estar sonâmbulo. Lionor cogitou a ideia de que o rapaz estivesse sonhando com o momento em que o punhal o atingira, mas ele repetiu.
– Minha mão – e fez uma careta de dor.
Pela manhã, quando ele mesmo desenrolou as ataduras em volta do ferimento, percebeu que o corte estava inflamado, com pus surgindo dos pontos que já haviam parecido tão limpos. A pele estava vermelha ao redor da ferida, que ardia. O cura ralhou com o rapaz, dizendo-lhe que cuidava tão mal do ferimento que parecia nem se importar se perdesse a mão.
– Foi o porco, senhor – por ser o cura já idoso, era quase divertido vê-lo chamar de senhor um rapaz de dezoito anos – Pessoas com ferimentos abertos não devem comer porco. Nunca lhe disseram isso?
– Nunca! O que eu faço agora? – ele gemeu, enojado com o pus – Não posso vomitar o porco que comi...
– E nem adiantaria. O que tem a fazer é cuidar melhor dessa ferida e não usar essa mão até que esteja completamente curada.
Lançou um olhar rancoroso para Wilhem. Por culpa dele, estava na enfermaria todos os dias, para trocar ataduras, tomar poções e derramar unguentos sobre a ferida. O punhal havia atravessado sua mão, de um lado a outro, e agora mal podia mexer os dedos inchados. Como poderia voltar a lutar com uma espada em cada mão? Era uma lástima que Hermes não o deixara mais sozinho com o garoto. Gostaria realmente de ter acabado com ele.
Wilhem continuava com os olhos fechados, a boca entreaberta. Por um instante, Nigel achou que o garoto poderia estar fingindo novamente, e pensou em ir até lá e sacudi-lo pelos ombros, mas o duque o havia proibido de se aproximar do ferido.
– O que vamos fazer com o moleque quando partirmos para a corte? – perguntou a Hermes, quando deixou a enfermaria.
– Vamos largá-lo aqui, preso por tentar te matar – Hermes respondeu, como se fosse óbvio. – Esqueça o prisioneiro.
– Se sua mão estivesse dolorida e cheia de pus por causa dele, duvido que se esquecesse – retrucou o rapaz, aborrecido.
Quando chegou o momento de partirem para a corte, o ferimento de Nigel já havia melhorado consideravelmente, embora ele ainda sentisse os dedos enrijecidos pelos dias em que ficaram imobilizados. Comer, cavalgar, treinar com uma única mão se tornara rotineiro – mas nem por isso era fácil. Um pouco antes da viagem, pediu que Lionor o ajudasse a se banhar.
– Ora, você tem a criadagem – ela lembrou-lhe, desejando que ele insistisse, apesar de se sentir envergonhada com a ideia.
– A criadagem não tem mãos tão macias quanto as suas – ele piscou um olho – E sabe que se eu não estivesse com uma mão doente, te ajudaria a se banhar também.
Ela corou, e balançou a cabeça, recusando veementemente, apenas para parecer casta. Na realidade, queria desesperadamente dizer que sim. Mas ela já perdera a conta de quantas vezes aquele tipo de situação quase os fizera perder o controle, para que depois se afastassem com o coração acelerado, a fim de que Nigel pudesse manter a promessa que fizera à família da garota. Não aja como uma desfrutável, eles lhe diziam, seus pais e irmãs, se o fizer, ele não a desposará. Lionor lembrava que sua irmã se casara com o conde sem um beijo sequer; provavelmente se escandalizaria com as maneiras que o seu noivo lhe ensinara para que tivessem prazer sem que ele precisasse deflorá-la.
– É uma garota e tanto – ele deu-lhe um tapinha nas costas, como se ela fosse um de seus companheiros da guarda, e se afastou, para terminar os preparativos para a viagem.
Hermes havia amontoado tudo que lhe parecia necessário em uma pequena sacola negra, e Nigel havia colocado seus pertences em um saco de linho não muito grande. Já Lionor necessitou de um baú para suas roupas e objetos pessoais. Depois que Nigel caçoou dela, dizendo-lhe que ia ficar para trás acompanhando uma carroça, ela resolveu levar somente uma única muda de roupa e suas armas, em uma bolsa que cabia no lombo da sua montaria. Havia se esquecido de que era a única mulher na comitiva, e era difícil fazer com que tivessem paciência com ela e se lembrassem de que ela tinha gostos e necessidades diferentes das dos rapazes.
Partiram com a alvorada, descendo a estrada à margem do Água de Carpas. O rio cortava o reino de norte a sul, e era possível orientar-se facilmente por ele, para ir a qualquer lugar. Lionor sentia o vento fresco em seu rosto, e por vezes fechava os olhos, sob a cela, seus lábios formando um discreto sorriso. Quando os abria, fitava a belíssima paisagem em seu caminho, desejando colher as flores na margem da estrada para enfeitar-lhe os cabelos. Mas logo balançava a cabeça negativamente, como se desejasse afastar a ideia. Parte dela era um guerreiro, não uma dama delicada, e este guerreiro estava fazendo desaparecer a menininha que havia nela.
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