Uma Balada para Lionor
6 De amores perdidos e correntes
Notas iniciais
– Como assim “se foi”?
Wilhem achou que Nigel Klein mentia. Claire jamais o abandonaria daquela forma, sem se despedir, sem sequer deixar um recado. Mas Hermes confirmou; quando o criado descera com a comida, ela já não estava mais lá. Ainda assim, o garoto ferido pensou que os dois rapazes poderiam estar blefando. Exigiu ir até a cela, para ver pessoalmente.
– Mal consegue se levantar, como quer ir até a cela? – Nigel deu um tapa na própria testa, indignado.
Quase se esquecera de que fingia sentir dores lancinantes, para as quais sempre eram receitados fortes remédios. Sabia que um dia sua farsa seria descoberta e voltaria para a cela comum, mas naquele momento não se importava mais com a cama limpa e acolchoada da enfermaria. Tudo que queria era saber por qual motivo Claire o decepcionara daquela forma.
– Wilhem, seja razoável. – pediu Lionor, que estava contente por Claire ter partido. – Como queria que ela reagisse? Que ficasse na cela esperando por você? Nenhuma mulher seria tão tola.
O prisioneiro estava tão desolado que era quase digno de pena. Nigel caçoou.
– Tomara que Hermes não sinta dó dele e não queira libertá-lo também.
O casal de jovens deixou a enfermaria, mas o duque continuou no local, encostado a uma maca, com os braços cruzados, fitando a corrente em volta dos pulsos de Wilhem com ar pensativo. Após um longo instante de reflexão, aproximou-se do garoto.
– Como está o ferimento?
– Horrível – ele gemeu, exagerado – Afinal, a lança me atravessou um rim. Quase morri.
– Não o fiz com a intenção de matá-lo. Mas achei que você mataria Nigel, que é membro da guarda pessoal do rei. Se eu permitisse que fizesse isso, eu teria perdido um valioso amigo, e você... com certeza você teria sido enforcado. Penso que podemos resolver isto de maneira civilizada. Nigel e Lionor apenas cumpriram ordens minhas. Se tem contas a prestar com alguém, deverá ser comigo, e não com eles.
Wilhem olhou para Hermes, de alto a baixo. O homem parecia ter o dobro do seu tamanho em largura, e era mais alto do que ele jamais seria. Os braços eram fortes demais, e as cicatrizes demostravam que ele já sobrevivera a mais de um atentado. Como aquele garoto franzino e ferido ousaria enfrentá-lo?
– Prestar contas... – falou, desolado – Não há como reparar o mal que foi feito. Tirou-me meu lar, quase me matou e sou eu que cumpro pena. Afinal de contas, não há quem me defenda. Talvez se eu fosse amigo do rei seria eu a ter razão.
– Não está em posição de questionar o que quer que seja. Mas o entendo. Também me sentiria injustiçado, no seu caso.
Não era compreensão que Wilhem queria. Pouco lhe importava que o duque o entendesse. Virou-se com dificuldade, de costas para ele, aborrecido e infeliz. Assim que fechou os olhos, a lembrança do sorriso de Claire o comoveu.
Recordava-se dela ao seu lado desde as lembranças mais remotas, da infância em Curvavento. Corriam pelas margens do Água de Carpas, pescavam e nadavam nas partes rasas do rio, compartilhavam segredos e brinquedos. Os pais os tratavam como se ambos fossem da família, embora Wilhem fosse estrangeiro, e houvesse sido dado de presente aos pais de Claire por um casal de corsários. O comandante do navio dizia que o menino não era filho dele, por causa dos cabelos ruivos e das sardas, e ao encontrar por acaso uma família inteira de cabelos avermelhados, o homem largara o menino nos braços da mãe de Claire, dizendo-lhe “ele se parece mais com sua filha do que com os próprios irmãos”. Ninguém poderia dizer se era verdade, pois o homem voltara ao navio e desaparecera. Mas os pais de Claire jamais reclamaram do presente, e sempre acharam que o menino seria muito mais feliz cuidando dos cavalos e das hortas da família do que roubando, saqueando e atirando balas de canhões em outros navios para afundá-los.
Quando Wilhem deixou o vilarejo para estudar, Claire também viajara ao seu lado. Cuidava dele na ausência de sua mãe, cozinhava e arrumava a casa. Ela dizia que pareciam casados; disse até que se casaria com ele, se não fossem irmãos. “Mas não somos irmãos” ele dizia, ansioso para que ela aceitasse aquilo, mas ela dizia “somos sim”, e ria, e lhe dava um beijo na testa. Era muito pequena para se lembrar do casal de corsários, e achava seus cabelos e olhos parecidos demais com os dele para que ele fosse adotado. Parecia achar que a mãe inventara aquela história, mas ele sabia que era verdade. Queria arranjar um jeito de convencê-la. Mas isso havia sido antes do surto de peste, e antes de Curvavento arder. Agora já não tinha mais importância se eram irmãos ou um futuro casal. Ela o deixara.
O silêncio na enfermaria era tão profundo que Wilhem imaginou estar sozinho. No entanto, ouviu passos que se aproximavam, e olhou por cima do ombro. Hermes tinha nas mãos uma penca de chaves, e puxou as mãos do garoto.
– Vou livrá-lo disso. Sei que, ferido como está, não vai poder correr para lugar nenhum, mesmo que quisesse.
Tirou as correntes de suas mãos, e encarou-o por um segundo, como se esperasse escutar um agradecimento. Wilhem limitou-se a respirar aliviado. As peças de metal haviam feito marcas em sua pele, e já as carregava há tantos dias que sentiu os pulsos estranhamente leves quando o duque as levou embora. Virou-se novamente, e abriu os braços como não fazia desde a noite em que fora transpassado pela lança. A dor que sentiu fez sua cabeça girar, e nem precisou fingir, como das outras vezes, para que seu rosto formasse uma careta. Seu gemido foi quase um murmúrio.
– Espero que, depois disso, deixe de pensar em mim como um carrasco – Hermes atirou as correntes a um canto e guardou a chave na bolsa.
Mande-me trazer comida da sua própria mesa, liberte-me, ordene que procurem Claire e tire dos escombros os cadáveres carbonizados dos nossos pais, para que os coloquemos em sepulturas, e reconstrua nosso lar, e talvez eu pense no seu caso. Wilhem entortou a boca, num muxoxo, e Hermes pareceu ler o seu rosto.
– Tudo bem. Não preciso mesmo que goste de mim.
Assim que o Duque deixou a enfermaria, fechando a porta atrás de si, Wilhem apurou o ouvido, a fim de escutar o som habitual da chave dando duas voltas dentro da fechadura. Mas não o escutou. Seu coração acelerou, com a expectativa. Hermes saíra e não trancara a porta! Seria um mero esquecimento, ou uma armadilha? Ou realmente o homem acreditava que o ferimento no corpo de Wilhem estaria tão dolorido que o rapaz não seria capaz de fugir, como ele mesmo falara ao soltar as suas correntes?
Descer da maca foi uma tarefa difícil. Suas pernas pareciam enferrujadas; mal as usava, de tanto que permanecia deitado, fingindo estar se sentindo mal. Normalmente, quando descia para usar a latrina ou simplesmente para ficar de pé e mudar a roupa, era amparado por criados. Mas estava completamente sozinho, e era uma sorte que ele precisava desesperadamente aproveitar.
Deu alguns passos pela enfermaria, com cuidado, até que suas pernas se acostumassem novamente a andar. Não tinha certeza de que podia correr; viviam lhe dizendo que o impacto de seus pés contra o chão poderia reabrir a ferida, mas acreditava que, com os pontos e os unguentos, o buraco da lança já havia fechado parcialmente. E precisava sair dali, mesmo ferido e sangrando, mesmo que estivesse morrendo.
Sentiu o metal gelado na palma de sua mão, mas não girou o trinco para abrir a porta. Se fosse uma armadilha, seria presa fácil. Espiou pelo buraco da fechadura, e somente ao se certificar de que o corredor estava completamente deserto, ousou entreabrir a porta e colocar a cabeça para fora, à procura de guardas. Normalmente não havia ninguém guardando a enfermaria; só precisaria se preocupar com os vigias na saída. Procurou desesperadamente qualquer instrumento metálico e cortante ou perfurante que pudesse utilizar para se defender, na ausência de um punhal ou uma espada, mas percebeu que tudo havia sido cuidadosamente trancado em gavetas com cadeados, e não havia a menor chance de arrombá-los sem fazer barulho suficiente para chamar a atenção de toda a fortaleza. Então, subiu na cadeira, arrancou as cortinas brancas que cobriam as janelas, e retirou a barra de ferro que as mantinha penduradas. Era o melhor que conseguira. Sabia que não conseguiria passar por eles desarmado, mas haveria um jeito de esgueirar-se, se esconder e rastejar até a saída, e ainda poderia acertar cabeças com a barra de ferro da cortina. Estava em uma fortaleza; era difícil entrar ali, mas não havia sido construída para dificultar a fuga. Afinal, não estava nas masmorras, e sim em um lugar que era reservado aos soldados, com inúmeras rotas de evacuação estrategicamente construídas para que possibilitasse mais de uma opção de saída em caso de uma invasão. Era uma lástima que não houvesse visto o caminho por onde viera, pois chegara até o local praticamente desacordado.
Assim que se sentiu pronto para correr, o fez. Não estava correndo exatamente, mas trotando o mais rápido que podia, tentando não fazer barulho, olhando para a escada, e se preparando para descê-la, quando um braço colocou-se à sua frente, tão rígido quanto uma barra de ferro, fazendo-o parar repentinamente quando seu pescoço se chocou contra ele. Curvou-se para tossir, enquanto Hermes surgia à sua frente.
– Demorou para sair. Estou aqui escondido atrás da coluna há tempos.
Wilhem estava sem palavras. Quis xingar o Duque, mas aquilo não o ajudaria.
– Vejo que está saudável o suficiente para correr, menino. Penso que é hora de retornar para as masmorras.
– Acho que não – ele ergueu a barra de ferro e investiu contra Hermes, com toda a força que seu corpo enfraquecido conseguiu reunir, mas assim que o metal pareceu que iria atingir a testa do duque, as duas mãos fortes do homem agarraram a arma improvisada. Wilhem ouviu uma voz atrás de si.
– Eu concordo com ele, Hermes, ainda não é hora de voltar para as masmorras. É hora de voltar para a enfermaria.
Era Nigel. Wilhem tentou girar o corpo e se virar para o rapaz que acabara de chegar, mas sentiu um forte soco no exato local do ferimento, e a dor o fez perder os sentidos.
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