Uma Balada para Lionor
35 De Flechas e Água Cristalina
Notas iniciais
A lebre parou repentinamente, equilibrando-se sobre as patas traseiras, o focinho mexendo discretamente. Os olhinhos pretos moveram-se de um lado a outro, até se fixarem no humano imóvel ao lado de uma árvore. Mal parecia respirar. O animal desatou a correr, e a flecha não o atingiu por pouco. Maldição, Wilhem pensou. Quase o acertava. Se fosse um animal maior, como um cavalo ou um boi, era certo que o teria abatido.
— Lá se foi o almoço — lamentou Claire.
A cada instante que avançavam pelo caminho por onde haviam vindo, tornava-se mais perigoso frequentar estalagens e feiras livres na beira da estrada. Caminhavam por dentro das matas, debaixo de densas copas de árvores frondosas, pisando em grama e trepadeiras esparramadas pelos arbustos de hibisco, pois receavam serem reconhecidos. No dia anterior, uma velha vendedora de carnes assadas em um bar sujo havia dito que um grupo de homens do rei havia aparecido com uma sentença de morte para dois jovenzinhos “muito, mas muito parecidos com vocês. Devem ter cuidado para não serem confundidos com malfeitores, meus queridos fregueses”.
Desde então, a carne assada fora a última refeição feita em uma mesa de um bar. A água limpa que haviam trazido do rio para beber também estava acabando, e resolveram encher a garrafa pela última vez antes de esconderem o barco em meio aos arbustos, mas aquele trecho do rio estava demasiadamente barrento. Acabaram desviando do caminho original, para que encontrassem uma fonte de água cristalina que, segundo costumavam dizer, nascia em uma pedra côncava. Claire dizia que poderia haver um urso ou outro animal na caverna, mas a entrada da formação rochosa era pequena demais para merecer aquele nome. Estava longe de ser uma caverna, mas servia para que passassem a noite razoavelmente protegidos.
— Para onde vamos fugir? — a garota perguntou, talvez pela centésima vez. Estava tão cansada de planos que não davam certo que já não sabia por que fazia aquela pergunta.
— Vamos ficar embrenhados no mato até morrer de velhice, fugindo dos homens do rei — resmungou Wilhem, mal-humorado, sentando-se em uma pedra — O que acha?
Parece uma ideia melhor que a de virar corsário, ela pensou, mas nada disse. Wilhem empurrava com o pé as cinzas da fogueira que haviam acendido na noite anterior, com ar distraído. Cinzas, iguais às de sua terra natal. Sua casa não era mais que cinzas, agora. Não ter uma casa para onde voltar parecia pior que a expectativa da execução.
— Claire — ele ergueu os olhos, subitamente — Eu não vou morrer. E nem você.
— É o que pretendo também... ficar viva... e como pretende fazer isso?
— Está na nossa cara, Claire, mas o tempo todo não percebemos porque estávamos muito focados em manter nossas raízes em Curvavento, minhas raízes nos navios dos Corsários, mas podemos tentar algo completamente novo! Vamos para o Sul, Claire?
A garota pôs a mão no queixo, pensativa.
— A estrada passa pela frente do castelo. — ela lembrou-lhe — Seremos pegos.
— Não, porque iremos pelo rio, Claire! E não pela estrada! Colocaremos o nosso barco no Água de Carpas, e deixaremos que a correnteza se encarregue de nos tirar do reino. No Sul, não chegou a notícia de nossa execução. Quando chegar, já estaremos longe, em outro reino onde ninguém nos conheça. Que eu me lembre, o Água de Carpas desagua em outro rio na fronteira. Esqueçamos a estrada, onde os cavalos se cansam e onde somos obrigados a nos sentar por horas, com dores na coluna e carregando mochilas. O barco é tudo de que precisamos, poderemos fugir até mesmo deitados, protegendo- nos do sol com capuzes que nos esconderão o rosto. Acha que qualquer membro da guarda ou qualquer camponês irá pular na água para nos capturar? O sul é a solução, Claire. Curvavento é o passado.
Era uma ideia excelente, mas Claire entristeceu-se com a ideia de abandonar definitivamente o lugar que tanto amara. Não conseguiu disfarçar a angústia. Embora Wilhem houvesse sido criado no vilarejo durante toda a vida, ele não era nativo do lugar. Com certeza doeria menos nele. Talvez ele ansiasse mais por navegar. Eram as águas a sua terra natal.
— Os ossos de nossos pais e amigos jamais serão colocados debaixo da terra com dignidade. É tão triste que toda a nossa luta tenha sido em vão.
E era tão humilhante fugir, mas era a única alternativa. Wilhem pisou em um pedaço de carvão, dissolvendo-o debaixo da sola de sua bota.
— Tudo que devemos fazer é esperar que tenham um bom descanso. Se voltarmos para procurar seus ossos nos escombros, com certeza nós seremos sepultados ao lado deles. Além disso... — ele fez uma pausa, pensativo — há povos que queimam seus mortos em fogueiras, em vez de enterrá-los...
Claire lançou-lhe um olhar de reprovação, e deu um riso irônico.
— Como Frills? Não venha me falar do povo promíscuo e de caráter duvidoso do além-mar. E daí que queimam seus mortos? Nem eu e nem você somos de lá. Eles são pervertidos e violentos, não há razão para nos comparar com eles.
Está falando isso porque são os meus pais, não os seus, que estão lá naquele lugar, ela teve vontade de dizer-lhe, os seus devem estar bem vivos, em um navio qualquer sobre as ondas. Desistia muito facilmente do propósito de enterrar a família, como se a vingança fosse a única coisa que os movia.
— Não tive a intenção de comparar, Claire. Desculpe-me se a ofendi com o comentário. Tudo que eu quero é que possamos reconstruir nossas vidas. Tudo que precisamos é deixar o barco em uma posição propícia na margem do Carpas para a nossa fuga depois que pegarmos aqueles dois. Se ainda estiverem na mesma casa para onde Vicente te levou, com certeza passam todo dia pela estrada principal.
— Dois? — Claire olhou para qualquer ponto indefinido no céu — São três: Nigel, Lionor, e Vicente.
Ele merecia, por decepcioná-la tanto.
— Que seja. Sem o Duque, não acho que será difícil. Vicente não anda armado, e Lionor só tem uma espada. De nada servirá contra um arco.
— E Nigel? Ele está com nossa arma carregada. Como pretende duelar contra uma arma de fogo com apenas um arco e algumas flechas? — ela pôs as mãos na cintura larga, batendo os pezinhos com ar desafiador.
— Não poderá atirar de volta se não conseguir ver de onde estarei atirando. Lembra-se de Doiradomonte?
Claire se lembrava perfeitamente. Wilhem saía com os colegas de estudo para caçar e, enquanto cada amigo havia disparado duas flechas, o garoto disparava cinco a seis. Na época, ninguém sabia o motivo que o fazia treinar para atirar tão rápido — na verdade, nem ele mesmo sabia. A maioria dos seus amigos passava a maior parte do tempo tentando aperfeiçoar a leitura e a confecção de mapas, a interpretação de textos antigos e o nome das estrelas e das constelações do céu, além da caligrafia perfeita dos manuscritos que copiavam a cada dia, pois haviam viajado para estudar tais coisas e se tornarem homens cultos no futuro; Wilhem, no entanto, sempre arranjava tempo para treinar pontaria e velocidade, e brincar de espadas com os colegas mais velhos. Em pouco tempo havia se tornado mais habilidoso que qualquer aluno dos sisudos e teóricos mestres da Torre Doirada.
O garoto se levantou e mirou em uma árvore. Disparou uma série de cinco flechas com tanta rapidez que Claire mal podia ver seus movimentos. Impressionada, o aplaudiu, mas não pode deixar de observar que ele errava o alvo de duas delas, e uma terceira estava um pouco torta. De nada adiantaria ser rápido e não acertar o alvo.
— Bem, eles são três. Só preciso paralisá-los o suficiente para que não representem perigo, e então...
— Matar a todos? — ela estremeceu.
— Pouparei alguém se me pedir para fazê-lo — ele baixou o tom de voz.
Parecia esperar que ela pedisse para que Vicente fosse poupado, mas ela não o fez. Não o queria morto, mas se ele ficasse vivo, os denunciaria. Talvez pudesse deixa-lo apenas ferido na estrada, e alguém encontraria, ou... não, não, estava confusa demais.
— Você decide, Wilhem — ela falou, confusa — Essa conversa de morte me deixa com arrepios. O modo como o Duque foi baleado, como ele sangrava antes de corrermos para fora da taverna...
— Sabe que tem que me ajudar — ele baixou o arco.
— A matar alguém? — ela franziu as sobrancelhas, aflita. — Não, eu não sei se eu conseguiria... eu posso segurar a garota, tenho um punhal, e ela é bem menor que eu, mas não me peça isso.
Teve medo de que o garoto insistisse, mas ele não o fez, e Claire suspirou aliviada.
Voltar novamente para buscar o barco no ponto onde o mesmo havia sido largado parecia uma grande perda de tempo; no entanto, a expectativa e a ansiedade de Claire e Wilhem haviam feito o caminho parecer estranhamente mais curto. Trazer o barco do afluente até o Água de Carpas foi mais complicado do que pensavam. A princípio, pensavam em puxar o barco pela corda, enquanto caminhavam pela margem, mas perceberam que havia sido uma ideia estúpida que apenas servira para afundar seus pés na lama. Foi preciso que embarcassem e remassem contra a correnteza, se revezando até chegar ao rio principal. Ainda tiveram que decidir o melhor local para esconder o barco para que não fossem roubados enquanto estivessem longe dali. Acabaram encontrando uma árvore torta debruçada sobre a água, em cujo tronco amarraram a grossa corda do barco. Depois, acharam agradável descansar deitados dentro do barco, com a sombra das folhas batendo em seus rostos, sentindo o balanço das águas debaixo de si. Wilhem fazia uma careta de dor, mas quando Claire lhe perguntou o que ele sentia, ele disse que era somente cansaço, ela não precisava se preocupar. Ainda assim, a garota deu-lhe um pouco da água do rio para beber. Tinha cor de chá, como em toda a extensão do rio, mas era limpa e saudável. Por um segundo, Claire pensou que poderiam esquecer a vingança e desamarrar a corda, daquele mesmo jeito que se encontravam, para que o barco os levasse ao sul, enquanto sentiam o sol sobre seus rostos e descansavam a cabeça das sacolas com seus pertences, mas foi apenas um devaneio. Ele merece a morte. O Klein e sua equipe, mas principalmente ele. Só assim teriam um pouco de paz.
— Claire... — garoto falou, preguiçosamente — sei que está tão confortável aqui, mas...
— Não — ela não o esperou terminar — o que quer que seja, pode esperar. Está tão bom aqui... não desejo me levantar para fazer o que quer que seja.
Colocou um braço para fora da embarcação, deixando que seus dedos tocassem a água. Ele insistiu.
— Penso que está na hora de fazermos o que nós fazemos melhor.
— E o que seria?
— Blefar.
Mais tarde, ao pôr do sol, tiveram a ousadia de aparecer em um vilarejo qualquer, a meia hora da beira do rio. Pediram um pouco de pão velho e leitão assado, com maçãs cozidas, e um copo de leite com cravo. Quando colocaram a moeda sobre o balcão, sentiram o olhar curioso e intenso do vendedor, um menino de cabeça desproporcional e queixo fino. Parecia tentar reconhecer os dois fregueses, e Claire refletiu se o comerciante poderia ter ouvido falar que eram procurados pelos homens do rei.
— Garoto — Wilhem falou, descansando o copo vazio sobre a mesa, com um fino bigode branco formado pela espuma do leite — Estamos procurando um casal. Os dois trabalham para a coroa. Ele é um palmo mais alto que eu, tem cabelos claros e lisos, uma falha na sobrancelha e uma cicatriz em uma das mãos. A garota é bem magra, tem cabelos muito cumpridos e castanhos, e veste roupas de montaria. Os viu passando por aqui?
Na verdade não estavam procurando, e sim, sendo procurados, mas aquilo não importava no momento. O menino atrás do balcão hesitou.
— Bem, eu vi um rapaz de cabelos claros com uma cicatriz na mão, mas ele estava acompanhado de um homem alto e forte, de olhos e cabelos negros e que entrou aqui com um falcão empoleirado no braço — contou, olhando para um grupo de cadeiras vazias como se ainda os enxergasse — meu irmão disse que ele era o duque. E, bem, não havia nenhuma menina com eles, mas se estiver falando de Lionor Klein, a que desafiou a morte e saiu cavalgando depois de ser ferida mortalmente, ela não estava com eles.
Claire quase engasgou. Ferida, Lionor? Não havia tomado um tiro sequer, nem de raspão; de onde haviam tirado uma ideia tão estupida? Wilhem a cutucou disfarçadamente, parecendo ter o mesmo pensamento.
— Só se foi o fantasma do duque — interrompeu a garota, tensa. Não acreditava que ele pudesse ter sobrevivido a tantos tiros, mas tudo era possível — Para que lado foram?
— Eu não vi, senhora. Estou sempre dentro da estalagem, jamais saio.
— Pois bem, isso não importa. Iremos para o norte, precisamos torcer para não encontra-los. Espero que ninguém denuncie que estamos indo para o norte...
Fez questão de enfatizar a palavra e repetir mais duas vezes, em conversas triviais com Claire durante a refeição. O blefe, ela pensou. Era o que sabiam fazer de melhor. Terminaram a refeição rapidamente, pois ainda precisavam alardear sua suposta ida para o norte em mais outras estalagens e bares.
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