Notas iniciais
Despedidas... ainda não é hora de me despedir dos leitores, mas já me sinto com saudades de postar esta história. Acho que será mais apropriado escrever mais sobre isso nas notas finais, para evitar spoilers, então não deixem de ler.

O quarto parecia envolto em névoa quando ele abriu os olhos e fitou o teto decorado. Talvez fosse o sono, ou seus olhos se acostumando à penumbra, mas não reconheceu o local onde estava. O coração ainda batia descompassadamente com a lembrança do sonho que tivera. Sonhara que ela o havia deixado. Que havia ido embora. Que estava morta. E o pesadelo o havia destroçado por dentro. Sentia os olhos úmidos, mas não se lembrava de ter chorado. Poderia tê-lo feito enquanto dormia?

Sentiu a presença de alguém ao seu lado, mas não conseguiu se virar para ver quem era. Sua cabeça dava voltas, devaneava. As lembranças do sonho se misturavam a outras, imaginárias, aqueles cabelos ruivos, o gosto da poeira da estrada, o som dos cavalos relinchando, o baque surdo da queda do animal, e havia rostos, uma série de rostos, Vicente fugia e depois retornava, e havia aves, grandes e pequenas. Havia Hermes e seu falcão, e caçavam gente em vez de animais; e havia sangue por todo o lado, a árvore na beira da estrada, Lionor. Ela era quente e apaixonada, mas Claire também era quente: sua pele, seus lábios. Mas era cruel. Claire, não Lionor. Lionor era doce, forçadamente valente, mas apenas uma menininha. Havia a trança em seus cabelos, que se desmanchara. Havia uma mancha de sangue em seu peito, névoa, escuridão, um estampido, mais outro, dor. Uma confusão tão grande de lembranças que Nigel sentia-se sufocado.

Tentou se erguer, apoiando-se nos cotovelos, mas uma dor lancinante o fez cair novamente sobre o colchão. Somente agora sentia-se estranhamente consciente da dor nos braços, nas pernas, na sobrancelha acima do olho esquerdo. Nem mesmo conseguia se mexer, jamais conseguiria se erguer. Ergueu uma mão, desesperado, lutando contra a sensação das feridas sendo abertas, mas tudo que viu foi linho branco enrolando seus braços.

— Não pode se mover — disse-lhe uma voz, que baixou o seu braço devagar.

Sentiu cheiro de lavanda, de flores recém-colhidas. Tentou perguntar onde estava, mas a língua parecia embolada. Alguém parecia tê-lo dado algumas ervas para amenizar a dor.

Foi então que a realidade finalmente o atingiu.

Se ele estava ferido...

Lionor estava morta.

Agarrou o pulso da pessoa que o ajudava, em pé ao lado da cama.

— Onde ela está?

O longo silêncio o desesperou. Por favor, alguém diga que foi somente um pesadelo, que ela cuidou de mim enquanto eu estava ferido, diga que a cota de malha a protegeu...mas ele sabia que uma cota de malha jamais pararia uma arma de fogo.

— Senhor... chamarei o Duque. Pediu para chama-lo quando o senhor acordasse...

Era óbvio que Vicente deixava o quarto para se esquivar da conversa sobre o que acontecera. Aos poucos, Nigel conseguiu se recordar.

O tiro atingira Lionor no peito, formando uma mancha vermelha ao redor de um buraco no vestido, entre seus seios. Os cabelos cobriram-lhe o rosto quando a cabeça pendeu para a frente. Nigel não se lembrava de sua reação, ou preferia não se lembrar. Devia ter xingado e agredido Wilhem, mas nada conseguira, tendo uma flecha enfiada no corpo dolorido pela queda. Em resposta, o garoto bateu em seu rosto com a arma.

Foi naquele momento que Claire fez a pergunta, mas nem agressor nem agredido sabiam responder.

— Por que não o mata de uma vez, Wilhem?

O garoto com a arma hesitou. Debruçou-se sobre Nigel, para que Claire não escutasse.

— Em sua terra, vocês queimam seus mortos em vez de enterrá-los... cuidou dos nossos mortos como se fossem seus... apenas por isso não vou te matar.

— E por que... Lionor...? — não completou a pergunta, como se sua jovem esposa fosse continuar viva caso ele não pronunciasse a palavra morta.

– Por tudo que nos fez, pelo meu ferimento, pela prisão, pelo que fez a Claire, por tê-la desejado, por tê-la tocado, por ter-nos condenado à morte, por ter me transformado em um assassino e ladrão. Terá algo para lamentar pelo resto de seus dias, assim como eu — enfiou a mão por baixo da camisa do rapaz e encostou a arma em seu peito em uma posição que tornaria impossível um ferimento mortal .

Nigel estranhou. Daquele jeito, a bala lhe feriria a pele, mas não entraria em seu corpo. O que Wilhem tentava fazer?

— Nigel — ele sussurrou-lhe — Finja-se de morto para que Claire fique satisfeita, e eu irei embora.

— E se eu não o fizer?

— Então eu levarei o corpo dela comigo — apontou para Lionor com o queixo — e nunca mais o verá. O jogarei no rio durante a fuga.

A ideia deixou Nigel tonto — ou seria o sangue que perdia pelos ferimentos a flecha? Já havia sido chamado de assassino, de impiedoso, de frio, mas não tinha adjetivos para descrever Wilhem. Desejou esbofeteá-lo, chutá-lo, sem se importar em levar um tiro. Nada mais importava. Mas não podia deixar que fizessem mal ao corpo de Lionor. Sentiu um arrepio. O corpo dela... o cadáver dela.

— Você é pior que eu. Jamais pensei em uma coisa dessas. — estava fraco demais para ameaças, e não estava em uma posição vantajosa, mas não conseguiu se conter — o caçarei até o inferno, e vou arrancar cada membro de seu corpo depois que eu violar a puta da sua...

Um soco o calou.

— Sua boca é terrível, Nigel Klein — Wilhem pôs-se de pé, com a arma apontada para a cabeça do rapaz — Me fez até mudar de ideia. Irá se juntar à sua amada no inferno. É uma pena. Eu gostaria de ter jogado mais uma partida de cartas. Em outra vida, poderíamos ter sido amigos.

Tudo pareceu a acontecer ao mesmo tempo. Claire soltou um grito agudo, a arma disparou, e Wilhem caiu para trás, com uma flecha enfiada no estômago. Ninguém jamais soube se, antes de cair, ele soube quem a havia atirado. Cádiz costumava ter a mira tão perfeita que conseguia disparar e acertar mesmo de distâncias absurdas. Foi o último a chegar ao local; Vicente vinha na frente, e Hermes imediatamente atrás.

— O duque... — Claire rastejou para trás, sentada no chão, apavorada. Parecia estar vendo um verdadeiro fantasma. Tateou pelo chão à procura da espada, e agarrou-a quando a encontrou — Mas Wilhem o matou.

— Se o houvesse feito, provavelmente eu não estaria caminhando na sua direção... — observou Hermes, lançando um rápido olhar ao redor.

— Lionor! — Vicente levou a mão à testa, chocado.

Só então o Duque reparou na garota, sentada desajeitadamente ao pé de uma árvore. Não estava caída no chão apenas por estar com as mãos amarradas, mas seu corpo estava imóvel e ensanguentado. Quando o homem correu para desamarrar a garota, Claire saiu do seu caminho, com medo de que Hermes a agredisse, e teria fugido se Vicente não a houvesse agarrado.

— Me largue — ela apontou-lhe a espada, e desferiu um golpe, mas Vicente possuía um escudo, de modo que a lâmina não atingiu o escudeiro. Súbito, ela atirou a espada ao chão e desabou em prantos, ajoelhada na poeira da estrada, berrando — Ceús! Meu irmão... o mataram... oh, pelos céus... o que vocês fizeram com a minha vida... oh, como amaldiçoou o momento em que cruzei com estes dois miseráveis a caminho do vilarejo!

— Devia amaldiçoar a hora em que teve a ideia de conspirar para mata-los, isso sim — interveio o arqueiro, se juntando ao grupo;

— Vocês a mataram — a voz de Hermes estava calma, mas ele estava visivelmente transtornado. Desamarrara Lionor e a abraçara, para que pudesse carrega-la com mais facilidade. Os braços da menina pendiam inertes, sobre seus ombros. Ainda havia calor em seu corpo — Lionor... a mataram! Só não os mato aqui mesmo por que eu não participo deste jogo de vingança. Levarei os dois para que o rei os julgue, como deve ser.

O arqueiro ajudou Nigel a se sentar. Ele sentia o sangue escorrer de sua orelha, abundante, onde a bala o atingira. Por poucos centímetros, não fora atingido no crânio. Sua cabeça girava, sua camisa estava encharcada de sangue, sua perna latejava, mas fez um esforço sobre-humano para tentar se erguer e ir ao encontro de Hermes.

— Lionor — ele falou, como se esperasse uma resposta que jamais viria. O esforço para se levantar o fez perder os sentidos.

Depois daquilo, havia poucas lembranças. O choro de Claire era incessante, seus soluços desesperadores. Wilhem estava desacordado durante quase todo o tempo, e parecia sangrar tal qual um porco abatido. Era provável que morresse na carroça antes que chegasse ao local da execução; segundo Cádiz, a flecha atingira algum órgão vital. Nigel estava muito mais ferido, mas apenas nos músculos e na cartilagem da orelha. Não corria risco de morte, embora houvesse sangrado bastante no caminho. Alguém lhe dera um remédio amargo para tomar, e a dor cessava quase completamente antes que ele caísse em um sono profundo. Sempre que acordava, perguntava por Lionor, mas não lhe deixaram ver o corpo, depois de terem contado que ele a abraçara implorando que acordasse, chamando seu nome centenas de vezes e perguntando por que ela dormia tanto, se já era dia, se ela estava doente ou se não respondia por estar aborrecida com ele. Seus apelos eram de cortar o coração, mas Hermes explicaria mais tarde ao escudeiro e ao arqueiro que aquela reação era perfeitamente admissível, e havia sido causada pelas características levemente alucinógenas dos remédios para as dores. Nigel se envergonhava da cena, e estava quase satisfeito por não se recordar de praticamente nada.

Depois que Vicente deixou o quarto, Nigel olhou ao redor. Aquele quarto simplório só poderia ser um dos aposentos do Consolo dos Desamparados. Pensou, com amargura, que estava sendo cuidado na instituição da rainha, que sempre tivera por ele uma profunda antipatia.

O próprio rei, acompanhado do duque, adentrou o aposento atrás de Vicente. Nigel ainda enxergava através de uma tênue névoa, mas conseguiu ver o alívio no rosto de Hermes, sob uma expressão de sofrimento. Havia escutado a sua voz na carroça, enquanto pensavam que Nigel estava desacordado. Todos que amo, ele dizia, como se Lionor fosse mais um de seus filhos que partira deste mundo.

— Onde ela está? — apressou-se em lhe perguntar.

— Na casa da Condessa. — Hermes respondeu, enquanto o ajudava a se sentar, a despeito das caretas de dor e lamentos do rapaz — quanto a Wilhem e Claire, ainda devem estar pendurados nas cordas, pelo pescoço, a essa hora.

Forca? O que havia acontecido com a decapitação, e com todas as punições que podiam ter sido dadas? Era uma punição muito branda. Nigel balançou a cabeça levemente.

— Deviam tê-los arrastado pela cidade amarrados a um cavalo. Mataram Lionor...

Só então, ao pronunciar a palavra, é que pareceu compreender que jamais voltaria a vê-la, que ela o havia deixado. Era uma dor tão profunda, tão intensa, que as dores em seu corpo pareceram-lhe totalmente insignificantes.

— Descanse — sugeriu Hermes — Acredito que não esteja forte o suficiente para seguir viagem, e o sepultamento será amanhã. Espero que as ervas mantenham-no sem dor por tempo suficiente para que o acompanhe.

O enterro. Nigel não sabia se suportaria assistir. Deviam tê-lo chamado para a execução; esta sim valeria a pena ser assistida.

Notas finais
Perdi vários personagens de uma vez só, então este foi um capítulo que fez realmente jus ao nome. Estou acostumada a repetir os mesmos personagens em várias histórias, mas alguns deles ficaram para trás, e confesso que foi estranho revivê-los depois de dois anos. Foi mais ou menos como escrever de novo. Talvez, quando tiver passado mais alguns anos, eu releia essa história, para voltar a revivê-los. Sou do tipo que seria capaz de mandar imprimir a história para reler quando eu tiver esquecido, mas acho que é um pouquinho de exagero, não? Se bem que nem acho que seja falta de humildade se apaixonar pela própria história. Gostaria de ter dado um destaque muito maior a Hermes na conclusão dessa história, mas ele acabou estando praticamente ausente. Confesso que fiquei na vontade; acho que vou ter que escrever algo onde Hermes seja o principal. Vou ficar devendo isso para mim mesma. No próximo fim de semana a história estará se encerrando, mas eu espero que outras pessoas possam lê-la mesmo depois de concluída. Se você conhece alguém que curte o estilo, poderia indicar? Agradeço desde já. Até o final, gente!