Notas iniciais
Conforme prometido, um capítulo novo bem rapidinho. Voltamos a encontrar Claire e seus planos para salvar seu irmão da fortaleza. Ela é tão destemida e esperta que já estou pensando que devíamos estar lendo Uma Balada para Claire. Acho até que Lionor poderia se inspirar um pouquinho nela, não?

Claire andava com dificuldade, e um leve tilintar acompanhava cada um de seus passos cansados. Havia vendido o cavalo, e agora era obrigada a caminhar por estradas e caminhos estreitos para continuar com seus negócios. Comprava e vendia inúmeros produtos e animais, por dias, até ter dinheiro suficiente para comprar uma arma sem ter que passar fome para tal. As moedas estavam guardadas em pequenas bolsas de pano, costuradas por baixo das camadas de tecido do seu vestido puído. Esperava que ninguém percebesse quanto dinheiro ela levava escondido; a última coisa que desejava era ser assaltada depois do trabalho que tivera para conseguir estar mais perto do seu objetivo.

O caminho para a parte mais larga do rio, de onde vinham e de onde partiam os navios dos corsários, era uma estradinha obscura e sinuosa que rodeava uma gigantesca montanha nua, de terra e pedras. Costumavam chamá-la de As Pedras, assim mesmo, no plural, embora fosse apenas uma. Claire dava passos longos, sobressaltando-se a qualquer ruído ou vulto suspeito, com receio de ser atacada. Não era todo dia que uma menina contornava As Pedras sozinha e desprotegida. Tudo que havia trazido para sua defesa havia sido uma afiada faca de cozinha, que de nada serviria contra uma espada, um punhal ou uma espingarda. Para sua sorte, a estrada era tão deserta que nem os malfeitores costumavam perder seu tempo passando por ali. Apenas as carroças que levavam os produtos dos navios para a feira eram vistos ocasionalmente passando de um lado para outro, mas nem os malfeitores ousavam assaltar carroças de corsários. Estariam mortos antes de conseguir gastar o dinheiro do roubo.

Os pais de Claire e Wilhem costumavam comprar tapeçaria com um homem tão caricato quanto seu navio. Baltazar assemelhava-se a um pirata de histórias infantis a tal ponto que suas velas negras traziam crânios desenhados com tinta branca. Para fazer gozação do homem, alguém lhe presenteara com um papagaio. Coloque-o no ombro, e ninguém terá dúvidas de que seja um pirata. O corsário mantivera o animal em seu ombro por uma quinzena, e depois viajara para saquear mais navios; quando retornou, a ave havia desaparecido, e ninguém ousou perguntar-lhe o que acontecera.

Quando avistou as velas negras dos navios, Claire suspirou, exausta. Já era o terceiro dia seguido que caminhava até o porto na esperança de encontrar o navio de Baltazar. Se não o encontrasse, teria que abordar um corsário desconhecido – e as chances de ser violentada e jogada ao mar eram maiores que as de fazer negócio. No entanto, um olhar mais apurado avistou a caveira nas velas de um navio que se aproximava. Ansiosa, ela se escondeu e aguardou que o navio chegasse ao porto. Quando o viu ancorar, correu para o píer e se misturou a alguns comerciantes e prostitutas.

Teve que gritar seis ou sete vezes no píer para que Baltazar aparecesse, e ele não a reconheceu até que ela contasse que seus pais costumavam comprar tapetes com ele.

– Tapetes! Sim, sim, agora recordo. Mas não tenho mais tapetes, senhorita; há tempos não consigo interceptar um carregamento bom. Tenho perfumes e condimentos, e também garrafas de vinho e barris de cerveja de Frills. Tenho charutos, e carne salgada naqueles tonéis. Os Heine compraram quase metade do carregamento de tecidos, mas se achar algum que te interesse entre os que sobraram, poderemos conversar.

E estendeu a mão para ajudá-la a subir ao convés. O homem devia ter quase cinquenta anos, mas era forte e esbelto, e parecia já ter sido bonito, antes das rugas surgirem pela constante exposição ao sol, antes das cicatrizes marcarem seu rosto e dos brincos pesados terem-lhe esticado as orelhas. Os cabelos grisalhos tinham leves ondas e, se não estivessem amarrados, quase cairiam sobre seus ombros. O navio era um amontoado de caixas e barris, alguns abertos para expor as mercadorias. Alguns homens desciam os produtos com cuidado até o píer.

– Não quero perfumes ou carne, tampouco vinhos. – ela sussurrou – Preciso de uma arma.

– Minhas armas são para uso pessoal – o corsário não se incomodou em baixar o tom de voz, pois não lhe importava se alguém escutasse – Não estão à venda.

As sobrancelhas da garota curvaram-se num ar choroso de decepção; antes que conseguisse as palavras certas para insistir, Baltazar prosseguiu.

– Mas, se tiver dinheiro suficiente para pagar, podemos conversar. Até a água que nos é dada de graça pode ser vendida, e até a dignidade pode ser comprada. Se tiver a quantia certa, a arma é sua.

– Eu tenho! – ela mal esperou que o homem terminasse, desesperada por fechar o negócio – Tenho moedas de ouro! Qual o seu preço?

Ele pôs uma mão no queixo, estudando-a com desconfiança.

– Tem moedas de ouro! Dê-me então um único motivo para que eu não tome o seu dinheiro à força, a leve para minha cabine e arranque suas roupas, e depois a devolva à terra sem dinheiro, sem arma e nem nada.

Ela sentiu um arrepio de medo, mas não deixou transparecer.

– Dou-lhe dois motivos em vez de um. O primeiro é que Curvavento tem um acordo de paz com os corsários. Sei muito bem que podem negociar em nossas terras e caminhar livremente sem serem incomodados pela guarda do Duque, desde que não saqueiem nossas casas nem violem as mulheres da nossa região, nem roubem ou enganem nossos comerciantes. E o segundo motivo... é que conhecia meus pais, e embora estejam mortos, eram seus clientes... bem, bem, não é isso que importa. Creio que não conheça meu irmão Wilhem, mas preciso salvá-lo da fortaleza onde foi preso injustamente pelo pessoal do rei Miguel.

A gargalhada de Baltazar mostrou dentes amarelos atrás dos bigodes.

– Mas não sabe atirar, pequena, como pretende salvar seu irmão? Aposto que nunca atirou na vida. Na verdade, aposto que jamais sequer viu uma arma.

– Wilhem caçava com espingardas quando viajamos – ela lembrou – me mostrou como se usa, várias vezes. Ele tem prática e excelente pontaria...

– Mas está preso! Quem tem que saber atirar é você, pequena, e espero que seja sensata o suficiente para tirar da sua cabeça a ideia que uma menina sozinha conseguiria entrar numa fortaleza para salvar um preso.

O rosto redondo de Claire voltou a ter uma expressão chorosa. Baltazar aproximou-se dela, com um sorriso faminto, e tornou a sorrir.

– Se for para a cama comigo, ensino-a a atirar.

Ela empurrou-o, indignada. Estava enojada com o toque e com a expressão horrorosa no rosto dele, que provavelmente pretendeu parecer sedutor.

– Mas não sou uma qualquer! Sou uma donzela!

– Donzela! – os olhos dele se iluminaram – Se for para a cama comigo, entro na fortaleza com você e salvo seu irmãozinho pessoalmente.

Por um instante, ela pensou em empurrá-lo novamente, com mais força, e correr do navio, saltando para o píer. No entanto, pensou melhor. Podia não conseguir o que queria somente com dinheiro, mas ainda tinha a sua melhor arma: o blefe.

– Não é uma má ideia. Mas só cumpro minha parte do trato quando cumprir a sua. Quem me garante que não irá me deflorar, me matar e depois lançar meu corpo ao mar, deixando meu irmão apodrecer na prisão? – achava improvável que Wilhem permanecesse preso por mais que alguns poucos meses, mas o corsário não precisava saber.

– Minha palavra. – ele estava esperançoso, e já a devorava com olhares.

– A palavra de um corsário não vale nada para mim.

O homem bufou.

– Em Curvavento, vale. Prometemos não saquear, e não saqueamos. Prometemos não pilhar, nem violentar ninguém e cumprimos nossa palavra fielmente. Mas a sua palavra... como posso saber que, depois de salvar o seu irmão, você não vai fugir com ele e deixar de cumprir a sua parte no trato?

Ela estremeceu, mas jamais poderia deixá-lo perceber que blefava. Tentou achar uma resposta rapidamente.

– Você vai estar com uma arma na mão – ela lembrou-lhe como acha que eu irei fugir?

Baltazar sorriu, satisfeito, e estendeu a mão à menina. Haviam feito excelentes negócios, para ambos. Pelo menos era o que ele pensava.

Notas finais
Trouxe mais um elemento novo neste capítulo: corsários! Amo o mar, e os navios, e acho que eles não poderiam ficar de fora, não é? E preciso comentar, eu é que não queria receber uma cantada desse pirata ridículo, eu hein! Pobrezinha da Claire. Ser ruiva e gordinha gostosa da moda está cada vez mais difícil, ainda mais desacompanhada em um lugar tão perigoso. No próximo capítulo, vamos voltar para a corte. Continuem acompanhando! Ainda tem muita coisa surpreendente para acontecer.