Uma Balada para Lionor

30 De Colinas, Rios e Barcos


Notas iniciais
Cheguei com capítulo novo. Desta vez, acompanharemos Claire e Wilhem. O que acham que eles farão agora? O que seria mais a cara dos dois, fugir ou insistir na vingança? Foi muito difícil dar um nome a esse capítulo, sem dar spoiler. Tentei varios, mas nenhum parecia se encaixar. Talvez, nas próximas revisões, acabe mudando, mas acho que esse ficou bastante apropriado. Boa leitura!

Encolhida a um canto, Claire abraçava as próprias pernas, mantendo-se imóvel. Não conseguia dormir, e suas mãos tremiam. Como Vicente fora capaz de uma traição tão baixa? Tal atitude, após a confiança que depositara em seu informante, lhe doía como uma punhalada. Mas, na realidade, o havia enganado primeiro. Havia se insinuado para ele em troca de informações, não podia culpa-lo por vendê-la a seus verdadeiros patrões.

— Ele te fez algo, Claire?

Wilhem se sentou ao seu lado, no chão sujo da casa abandonada. A luz fraca do toco de uma vela iluminava fantasmagoricamente apenas metade do seu rosto.

— Quem? — ela fez, distraída — Vicente?

— Não! — ele balançou a cabeça, incrédulo — Nigel Klein!

— Ah... — Claire fitou a chama da vela — Somente me puxou pelos cabelos, me arrastou e quase me bateu quando gritei. Mas não abusou de mim, se é o que quer saber. E me disse... bem, eu não entendi bem, mas me disse que somente você ia ser executado, e que eu simplesmente iria ficar presa por um tempo, por causa de alguma coisa que Vicente lhe disse para me inocentar. E Nigel me disse também “coitada de você, se ficar presa nas masmorras do castelo. Nem Hermes poderá interceder por você outra vez”.

O garoto fechou o punho, prestes a dar um murro na parede, mas se conteve. Pareceu arrependido por não tê-lo matado de uma vez.

— Wilhem, você matou o duque... e agora?

— Como assim “e agora”? Já estou condenado à morte. Matar um, quatro ou dezoito pessoas já não faz diferença agora.

A vela estava quase no fim, e a luz praticamente se extinguia. Quando se apagou completamente, a casa mergulhou em completa escuridão.

— Às vezes você me assusta, Wilhem...

— Também me assusto comigo às vezes.

Puxou-a para si e deixou que ela descansasse a cabeça em seu peito. E assim ficaram, por um longo tempo, sem saber se eram horas ou minutos que se passavam, escutando o pio das corujas nas árvores secas em volta da casa. Súbito, Claire sentiu os olhos se abrirem em meio à escuridão, após um movimento brusco de Wilhem, e somente neste momento percebeu que havia cochilado.

— Temos que ir embora daqui antes que amanheça. — o garoto afastou-a delicadamente e tateou à procura de uma luz, mas Claire encontrou o candeeiro antes dele e o acendeu.

— Para onde iremos?

— Para os portos. Traga somente o necessário.

Mas Claire achava que tudo era necessário: suas roupas e as do irmão, as moedas de ouro, a arma descarregada, dois pães velhos, uma garrafa de rum, alguns objetos pessoais e um unguento que as irmãs do Consolo dos Desamparados haviam lhe dado. Quando partiram da casa abandonada, cada um levava uma sacola às costas, atrasando a marcha.

Caminharam até a alvorada, mas provavelmente não chegariam aos portos antes da metade do dia. Após pararem duas vezes para descansar, pedir água em casas de desconhecidos, e comerem os últimos pães duros que haviam trazido, Claire fitou as colinas à frente, por trás das quais o sol surgia em um céu riscado de dourado. Pensar em subir tudo aquilo e descer novamente a fez ter saudades do burro e do cavalo que havia comprado e vendido no norte. Suspirou, e olhou para trás. Wilhem tentava alcançá-la, ofegante, mas ao vê-la parada, também parou e curvou-se, com a mão no mal curado ferimento da lança, e uma careta curiosa, com um olho mais fechado que outro.

— Claire — arquejou — trouxemos muitas coisas. Vamos jogar metade do conteúdo dessa sacola no meio da estrada!

— Não se sente bem? — ela jogou a própria sacola no chão e correu para ele.

— Estou ótimo! — ele abriu a sacola e atirou para fora a garrafa de rum e dois pares de sapatos que traziam — Não precisamos disso.

Parecia fazer um esforço sobre-humano para continuar a marcha, e Claire teve pena dele. Quando subiram a colina, finalmente pararam, à sobra de uma árvore torta, vislumbrando um trecho largo do afluente do Água de Carpas que desembocava no mar.

— Wilhem, você não está pensando em atravessar o mar, não é? — Claire indagou, hesitante — Jamais teremos moedas para atravessar este rio, imagine o mar!

Mas o garoto não respondeu. Estava encostado ao tronco da árvore, as pernas afastadas, os olhos fechados e a testa franzida.

— Está se sentindo mal? — ela debruçou-se sobre ele, aflita.

Ele abriu os olhos, devagar, e surpreendeu-se ao ver o rosto de Claire tão próximo ao seu. Estendeu a mão e tocou-lhe o queixo, com um sorriso.

— Não é nada, Claire, é que tenho feito muito esforço desde ontem, e temo que a ferida possa reabrir. O que estava dizendo mesmo?

— O que estamos fazendo nos portos? Você não chegou a me explicar o plano...

— Precisamos de um barco que nos leve até o mar. É o único lugar fora de Curvavento onde poderemos encontrar corsários que nos vendam munição para nossa arma. De nada nos adiantará ter uma arma sem balas, ainda mais sabendo que nossos perseguidores tem uma ainda carregada.

Ela fitou os barcos ao longe, tão longe que Claire não queria acreditar que aquele lugar não era nem metade do destino final. As velas eram todas brancas, e havia barcos menores, sem velas, nos quais homens remavam. Àquela distância, pareciam de brinquedo. Lembrou-se da lei que proibia os corsários de caminharem em terra firme por qualquer lugar do reino exceto Curvavento, e refletiu se seria mais trabalhoso seguir pela estrada de volta ao norte, ou tentar arranjar um barco para seguir o plano de seu irmão de criação. Jamais teriam moedas suficientes para comprar um.

— Wilhem, não creio que o que você quer é comprar balas. Eu pensei que estava planejando nossa fuga.

— Nós fugiremos, Claire. Depois que eu me vingar de Nigel. Cada coisa a seu tempo.

— Eu também quero vê-lo morto, mas o que é mais importante agora? A morte dele ou as nossas vidas?

A pergunta irritou Wilhem.

— Eu tinha um plano, e teria dado certo se seu pretendente estúpido não nos tivesse traído. Então faça-me o favor de não sugerir que fujamos com o rabo entre as pernas feito cachorros de rua. Só sairei deste reino com o sangue de Nigel em minhas mãos.

Surpresa, Claire não soube o que responder. Tinha tanta raiva e tanta sede de vingança quanto ele, mas estava assustada demais com os eventos da noite anterior para não admitir que estavam em grande desvantagem. Quando possuíam duas armas, era fácil enfrentar um grupo em quantidade maior. Mas agora que tinham apenas uma, e descarregada, a garota achava que deveriam considerar a opção de fugir. No entanto, não discutiu com o irmão de criação, considerando que ele seria sensato o suficiente para reconsiderar a ideia assim que o calor da raiva começasse a diminuir.

Desceram a colina até um povoado ribeirinho, com casas de madeira na margem enlameada do afluente do Carpas. À beira do rio, homens conversavam e bebiam, e alguns jogavam cartas. Wilhem lançou um olhar curioso e quase faminto para a mesa das apostas, antes de seguir adiante.

A hospedaria era, de longe, a construção mais feia e suja que Claire já havia visto, mas não tinham moedas suficientes para nada mais confortável. As camas cheiravam a mofo, e eram estreitas e baixas, e só havia uma em cada quarto. E a comida era horrivelmente sem gosto, fazendo com que os dois irmãos de criação sentissem saudades da comida do Consolo dos Desamparados, pois já não podiam se lembrar do sabor da comida de seu antigo lar verdadeiro.

Quando caiu a noite, uma miríade de grilos principiou um insuportável concerto à beira do rio. Claire já não suportava a sinfonia dos insetos, e afundou a cabeça debaixo do travesseiro, quando Wilhem tocou seu braço avisando que ia sair.

— Posso ir com você? — ela indagou, já sabendo a resposta.

— Claire... vou jogar um pouco. Me distrair e apostar. — piscou para ela, antes de se virar para a porta. Assim que o garoto estendeu a mão para puxar a porta, Claire percebeu que ele levava a espada escondida por baixo da roupa. Pensou em questioná-lo, mas desistiu. Que ele fizesse o que bem entendesse, se conseguisse com isso expurgar de suas vidas toda aquela confusão.

Sozinha, debruçada na janela da hospedagem, Claire não conseguia parar de remoer a traição de Vicente, as mãos de Nigel puxando-lhe os cabelos com força e suas ameaças sussurradas ao ouvido. Quase podia escutar a voz dele, dizendo-lhe “Coitada de você, Claire”. E começou a compreender que Wilhem tinha razão: uma tentativa mal sucedida de vingança originara toda aquela confusão: a prisão, as mortes, a ordem de execução. Seriam fracos se fugissem. E ela não era fraca, não depois de ter passado por tudo aquilo.

Já passava da meia noite quando Wilhem retornou. Abriu a porta com cautela, acreditando que Claire já dormia, mas ela o aguardava com ansiedade. Assim que o viu entrar, lançou-lhe um olhar interrogativo, e ele abriu um sorriso em resposta.

— Claire, não vai acreditar. Perdi algumas moedas nas apostas, mas ganhei um barco! Diga-me, não sou o melhor jogador de cartas de todo o reino?

Ela assentiu, com um sorriso forçado, mas havia desconfiança no franzir de suas sobrancelhas. Wilhem sempre havia jogado, e apostado. Como qualquer apostador, ganhava e perdia com a mesma frequência. Era uma curiosa coincidência que houvesse ganhado um objeto de que necessitavam.

— E o que apostou, para ter ganhado um barco?

— Ora, isso não importa mais — ele despiu-se do casaco — poderemos partir amanhã bem cedo.

Deu um passo à frente, mas Claire o deteve com um gesto.

— Wilhem, não minta para mim. Se ganhou mesmo o barco em uma aposta, por que tem sangue em seus sapatos?

A expressão animada morreu no rosto de Wilhem, que empalideceu. Permaneceu calado até que achasse as palavras certas para se justificar.

— Bem... eu... nós precisávamos do barco. Fiz isto por você. Por nós. Não foi minha intenção mentir para você, só não quero que tenha medo de mim. Não sou um ladrão, Claire. Eu nunca fiz isso antes, e jamais teria feito se não estivéssemos muito necessitados.

Mas nenhuma justificativa poderia dissolver a decepção no rosto de Claire. Wilhem mordera a isca, não havia sangue nenhum em seus sapatos.

Notas finais
Quando estava revisando e vi essa expressão "miríade de grilos", fui no google pesquisar de onde eu teria tirado essa expressão, mas enfim... isso existe, só que é meio esquisito ainda assim. E preferi não mexer nisso na hora da revisão, porque é engraçado... Agora Claire e Wilhem estão tão distantes dos outros personagens que fico pensando para onde está indo essa história. Eu nem ia revisar mais capítulos hoje, mas estou curiosa! Não percam o próximo capítulo, voltaremos a encontrar Lionor.