Uma Aventura no Tempo
2 Recomeços
Notas iniciais
1948, Nova Iorque
Peggy largou a arma no chão e se jogou no colo de Steve, dando-lhe um beijo apaixonado. O beijo que ela estava guardando para ele desde o fim da guerra, o beijo que ela nunca pôde dar. Ele a beijava da mesma maneira, com a mesma urgência, explorando cada pedacinho daquela boca, sentindo o gosto dela, gosto esse que ele sempre teve vontade de provar, há mais de 80 anos. Separaram-se pela simples necessidade de respirar, mas logo colaram os lábios um no outro novamente: já tinham perdido tanto tempo que qualquer segundo agora faria falta.
Depois de longos minutos, enfim, separaram-se. Peggy sorriu ao ver o rosto de Steve totalmente manchado pelo batom vermelho dela. Ele não havia mudado nada, continuava do mesmo jeito que ela se lembrava. Sempre foi bonito, mas ficava ainda mais adorável com aquele olhar apaixonado e sorriso bobo nos lábios. Acariciou a face dele, apenas para certificar-se de que não era um sonho e que ele realmente estava ali. Ele apoiou a mão sobre a dela e sorriu de volta. Era ela, sua Peggy. Sim, esse beijo não deixava a menor dúvida: ela ainda o amava. E caso o beijo não fosse suficiente, ainda tinham os olhos dela como prova. Ele a abraçou quando notou duas lágrimas teimosas escorrerem das orbes castanhas dela e sentiu-a inspirar profundamente e respirar novamente no seu pescoço, o que lhe causou um leve arrepio.
— É você mesmo... – ela sussurrou no ouvido dele – Achei que tinha te perdido pra sempre... como é possível?
— Ah Peggy... – ele falou, ainda abraçado a ela – Tanta coisa aconteceu, tenho tanto a te contar.
— E eu quero saber, de cada detalhe. Deve ter sido uma grande aventura! – ela respondeu animada, separando-se do abraço, mas mantendo-se de mãos dadas com ele.
— Você não faz nem ideia... – ele sorriu ao falar – E você vai saber de tudo, de cada detalhe, mas não sem antes me deixar pagar a dívida que tenho com você, levando-a para dançar... Isso se ainda não for tarde demais.
— Acho que posso perdoá-lo pelos quase 4 anos de atraso... contanto que você me compense por esse tempo.
— Te compensarei de todas as formas que quiser... – ele respondeu fazendo-a abraça-lo novamente dando-lhe mais um beijo, dessa vez, mais suave.
— E onde você está morando, capitão Rogers?
— Bem... – ele coçou a cabeça, sem graça. Tinha planejado todos os seus passos até ali, mas não se preocupara com coisas básicas, como moradia – Eu ainda não sei... na verdade... cheguei hoje e... ainda não...
— Vai ficar em casa, então. – vendo que ele relutava, pela cara que fez, ela continuou, firme – Está decidido!
— Peggy, eu não posso, não seria correto.
— Não é como se fôssemos morar juntos ou algo assim, Capitão... – ela sorriu – Apenas até que encontre um lugar adequado.
— Eu não quero atrapalhar...
— Não vai... – ela falou dando mais um selinho nele – E não aceito um não como resposta.
— Sim sra. – respondeu ele brincando, batendo uma continência.
Ela enlaçou o braço nele e começaram a caminhar, como dois namorados, rumo ao apartamento dela.
Ao entrarem, encararam os olhares maldosos do porteiro e de alguns moradores que encontraram no elevador, afinal, não era de bom tom uma moça solteira como ela chegar em casa acompanhada de um rapaz àquela hora da noite. Steve olhava para baixo, sentindo-se embaraçado, mas Peggy parecia não se importar com o julgamento de quem ela nem conhecia. Caminharam pelo longo corredor, até chegarem ao apartamento 45. Ele olhava para os lados, preocupado com vizinhos fofoqueiros que pudessem estragar a reputação dela, porém a garota seguia agindo naturalmente, destrancando a porta como se estivesse sozinha.
— Seja bem-vindo, capitão Rogers.
Ela acendeu as luzes do imóvel e Steve olhou maravilhado cada detalhe: era impressionante como ele podia notar as nuances da personalidade dela na decoração, nos móveis. Também conseguia identificar elementos característicos da época, mas que fazia muito tempo que ele não via. Chegava a ser engraçado que ele tivesse que se reacostumar a objetos que lhe eram tão comuns após viver pouco mais de 10 anos com tecnologia de última geração.
— Aposto que está com fome. – Peggy falou, tirando-o de seus pensamentos, caminhando em direção à cozinha – Não sou uma exímia cozinheira mas certamente minha comida é melhor do que ficar com o estômago roncando.
— Duvido que seja pior que a comida do quartel. – ele sorriu, apoiando-se na parede.
— Quem comia a comida da Sra. Richardson come qualquer coisa, de fato... – concordou ela, rindo.
Ela fez uma sopa para que ambos jantassem e por alguns instantes ele sentiu como seria ser o esposo de Peggy Carter. A refeição ocorreu praticamente em silêncio, como se qualquer palavra que dissessem pudesse estragar aquele momento. Ele a ajudou a lavar a louça e arrumar a cozinha, depois, foram para a sala, onde conversaram por algumas horas, relembrando os tempos antigos, acompanhados de algumas doses de whisky.
— E quando você entrou na quarta base da Hidra que invadimos e aquele soldado te chamou de Capitão Porto Rico, apenas para te irritar. – Peggy falou às gargalhadas.
— E eu bati várias vezes com o escudo na cara dele, para que ele nunca se esquecesse que o nome era Capitão América... – Steve completou rindo – Acho que fui um pouco violento demais naquele dia...
— Foi a única vez que te vi com o orgulho ferido... Você geralmente não se importava com isso.
— Tem que me dar um desconto... A missão foi exaustiva naquele dia.
— Oh, sim... o Capitão América também se cansa e fica irritado... – ironizou Peggy.
Steve olhou para baixo e riu levemente antes de responder.
— Era engraçado como as pessoas me viam como diferente delas... algum tipo de máquina programada para lutar, que não precisa dormir ou se alimentar... – e suspirando, concluiu – Sou um cara normal... que comete erros e tem defeitos como qualquer outra pessoa... Que salta sobre prédios mas não tem a mínima ideia do que é um fondue.
— E que não sabe dançar também... – Peggy falou, tomando mais um gole de whisky.
— Sim, isso também... – ele concordou, rindo.
— Steve... você pode achar que é um cara como outro qualquer... e no fundo é mesmo... – Peggy falou, depositando o copo de whisky na mesa de centro e se levantando em seguida – Mas isso não muda o fato de que você é especial.
Ela caminhou até a vitrola que tinha no canto da sala, escolheu cuidadosamente um dos discos, certificou-se qual era o número da canção que desejava e colocou o LP no aparelho. Quando a música começou a tocar, ela fechou os olhos e começou a balançar o corpo lentamente, no ritmo da melodia que tocava, se aproximando da onde Steve estava sentado.
— O que não o isenta de cumprir com sua promessa... – falou esticando a mão, convidando-o a se juntar a ela.
— Peggy, eu... – Steve relutou.
— Sei que não sabe dançar... essa é uma ótima oportunidade para aprender.
— Eu sei é que... eu...
— Com medo, Capitão Rogers? – ela perguntou, com o braço ainda esticado.
— Não é isso, eu só... queria fazer isso direito dessa vez.
— Steve... – ela falou, se ajoelhando em frente a ele, apoiando as mãos em seus joelhos – devia saber melhor que eu que o momento certo somos nós que fazemos. Ficar esperando pela hora mais adequada para fazer alguma coisa... pode significar que talvez nunca tenhamos a chance de fazê-la novamente.
Ela se levantou e esticou novamente a mão na direção dele, porém, dessa vez ele aceitou o convite. Enlaçou uma das mãos na cintura dela e usou a outra para segurar uma das mãos dela. Peggy sorriu, segurou a mão dele e colocou a outra ao redor de seu pescoço. Começaram a dançar devagar, e logo nos primeiros passos ele pisou de leve no pé dela. Ambos riram do pequeno incidente.
— Me desculpe. – ele falou.
— Não tem problema... – ela respondeu, sorrindo.
Seguiram dançando e Peggy encostou a cabeça no peito dele, fechando os olhos em seguida. Steve também fechou os olhos e encostou a cabeça na dela, curtindo o som que os embalava, aproveitando o momento, sentindo o coração dela bater tão acelerado quanto o dele. Abriram os olhos quase que simultaneamente e beijaram-se docemente, torcendo para que aquela música não acabasse nunca mais.
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2023, Nova Iorque
Sam Wilson treinava combate corpo a corpo em um dos simuladores de luta criados por Tony Stark, na base dos Vingadores. Depois de um cansativo embate, caiu, pela terceira vez consecutiva. A mensagem sonora do simulador informava que ele tinha fracassado, de novo.
— Mais uma vez. – Natasha falou, da torre de controle do simulador, ao que Sam, ainda ofegante, concordou, levantando-se mais uma vez e se preparando para reiniciar, enquanto a ruiva reiniciava o teste.
Após 10 minutos, com muita dificuldade, Sam finalmente conseguiu concluir a simulação. Ele comemorou e despencou, exausto, no chão.
— Muito bem, Sam, é isso aí! – Clint parabenizou, da cabine de controle. Ele acompanhava o treinamento, ao lado de Natasha.
— Mais uma vez. – Natasha falou novamente, com a mesma frieza de antes, ante o olhar perplexo de Clint.
— O que? – Sam reclamou, levantando-se imediatamente do chão – Ah, qual é! Eu acabei de concluir esse treinamento de cabo a rabo, depois de tentar umas mil vezes! E você está me mandando fazer de novo?
— Você foi muito lento. – Natasha falou simplesmente.
— Muito lento? Eu poderia voar, se você me deixasse utilizar minhas asas e aí...
— E aí esse treinamento não faria sentido algum. – interrompeu a Viúva Negra – O Capitão América não voa, Sam. Se quer melhorar suas habilidades de luta, deve treinar sem depender de suas asas.
Sam continuou reclamando, mas Natasha fechou o canal de áudio para não ouvir seus xingamentos. Clint, que até então observava calado, resolveu se pronunciar:
— Nat, está pegando pesado com ele, não acha?
— É necessário. – ela respondeu ainda com a expressão fechada, sem tirar o olho dos botões e se preparando para reiniciar o treinamento.
— Ele está muito cansado, não vai conseguir fazer mais rápido se repetir o treino agora. Dê um tempo a ele.
— Um tempo? – ela falou e riu, ironicamente – Quantas vezes lutamos fadigados, no nosso limite? Inimigos não dão tempo. Thanos não nos deu tempo. Será que alguém aprendeu alguma coisa com tudo o que aconteceu? Ou o fato de não termos nenhuma ameaça relevante nos últimos meses já nos deixou moles? – ela respondeu irritada, praticamente gritando com Clint.
— Eu entendo seu ponto de vista, mas... Ele ainda está se acostumando a ser o Capitão América. – Clint disse, ainda calmo.
— Os inimigos não aguardarão até que ele aprenda a usar o escudo. O que acontece se alguém atacar Nova Iorque aqui e agora? Chamamos Steve? Oh, espere um momento... Ah sim, é verdade. Ele está velho e não pode mais lutar!
— Nat! Você está se ouvindo? – Clint aumentou o tom – Pressioná-lo não fará com que aprenda e se desenvolva mais rápido.
— Se ele não aguenta a pressão de ser o Capitão América, não devia ter aceitado o escudo! – ela esbravejou, batendo os punhos cerrados na mesa de controle.
— Oh... e aí está o problema real... – Clint sorriu e balançou a cabeça, negativamente.
— O que você quer dizer, Barton? – Natasha perguntou, ainda irritada.
O Gavião abriu novamente o canal de comunicação com Sam, que já tinha desistido de chamar a atenção de um dos dois para si e falou:
— Sam, o treino acabou por hoje. Pode ir.
— Ah, parece que alguém aqui tem bom senso! — ele respondeu para Clint, mas olhando para Natasha – Obrigado, Barton! Muito obrigado!
— Eu te fiz uma pergunta! – Natasha insistiu ainda mais irritada, ao perceber que tinha sido completamente ignorada por Clint.
— Você, Natasha... você é o problema. – ele respondeu enquanto se levantava da cadeira e olhava diretamente nos olhos dela, ainda tomados de raiva – Não consegue aceitar o fato de que Steve optou por ter uma vida longe de nós.
— O que você está dizendo? Isso não faz sentido algum... – ela respondeu em um tom mais baixo, virando-se de costas para que ele não visse os olhos vermelhos marejarem.
— Nat... eu te conheço. – ele falou se aproximando dela, colocando as mãos em seus ombros, que ainda mantinham-se tensos – Você está descontando sua frustração no Sam porque queria que fosse outra pessoa que estivesse com aquele escudo nas mãos... Acha mesmo que isso é justo?
Ela nada respondeu, apenas abaixou a cabeça, mantendo a mesma postura, sem virar-se de volta.
— Olha... É claro que ele faz falta. Mas o Sam está se esforçando, tente ser mais compreensiva.
Natasha nada respondeu. Permaneceu na mesma posição, como se Clint não tivesse dito absolutamente nada.
— A quem queremos enganar, não é mesmo? – ele tirou as mãos dos ombros dela e desceu-as para os braços da ruiva, alisando-os – Sabemos que o problema não é o Sam...
— Eu não entendo... – Natasha finalmente se pronunciou, já com a voz embargada.
— O que exatamente você não entende? Ele ter abdicado do escudo ou ter optado por viver com Peggy ao invés de ficar aqui com você? – Clint falou direto, sem rodeios. Natasha virou-se bruscamente, espantada. Era uma espiã, esconder seus sentimentos era algo que ela fazia com maestria, como ele tinha percebido?
— Oh, sim... eu sei sobre você e Rogers... – e como que respondendo à pergunta que ela se fez mentalmente, ele seguiu – E não, ele não comentou nada comigo.
Natasha abaixou a cabeça, envergonhada. Ela tinha se esforçado tanto para que ninguém percebesse nada... Como Clint tinha percebido?
— Nat... eu não estou te criticando nem julgando... Mas te conheço melhor que qualquer outra pessoa... Você pode até tentar mentir pra si mesma... Mas não vai mentir pra mim.
A porta da sala de comando abriu repentinamente, assustando os dois.
— Interrompo? – perguntou uma Wanda sem graça, colocando a cabeça pra dentro.
— De jeito algum... – Clint falou simpático – Já tínhamos terminado por aqui. Certo, Nat?
— Sim, sim... – Natasha respondeu rapidamente, já recomposta.
— O Tony está precisando de vocês dois. Lá na sala de reunião.
— Diga a ele que já estamos indo. Obrigada, Wanda.
A Feiticeira Escarlate sorriu e se retirou. Natasha ia segui-la, mas Clint puxou-a pelo braço, de forma delicada.
— Conte comigo para o que precisar, sempre que precisar. – disse sorrindo.
Ela apenas concordou com a cabeça e saiu, com a mesma postura inabalável, típica da Viúva Negra.
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1948, Nova Iorque
Peggy foi acordada pelos raios de sol que invadiam seu quarto através da fresta da cortina. Espreguiçou-se lentamente e sorriu, ainda de olhos fechados. Não se lembrava a última vez que tinha dormido tão bem. Alisou carinhosamente o peito de Steve, ainda adormecido, que tinha lhe servido de travesseiro. O movimento, ainda que suave, fez com que ele despertasse. Abriu os olhos devagar e assustou-se por alguns segundos, até que seu cérebro processasse aonde ele estava. E principalmente, com quem.
— Bom dia... – Peggy falou sorridente, apoiando os braços no peito dele, para erguer-se um pouco, afim de olhá-lo nos olhos.
— Bom dia... – ele respondeu, ainda sonolento, beijando-a suavemente.
— Espero que tenha dormido bem porque hoje teremos um dia cheio! – ela falou levantando-se da cama e vestindo um robe.
— Estou te devendo algumas explicações... – ele concordou, sentando-se na cama.
— Sim, várias! – brincou ela – Mas antes que você comece, preciso encontrar algumas pessoas. Pessoas que ficarão tão felizes quanto eu por saberem que o Capitão América está de volta.
— Peggy... – ele suspirou antes de continuar – Eu acho que seria melhor você ouvir sozinha o que eu tenho para dizer antes de conversarmos com qualquer outra pessoa.
A agente olhou pra ele com um sorriso misterioso nos lábios que ele não soube decifrar, antes de responder.
— Steve... eu tenho certeza que a sua explicação inclui alguma história fantástica por trás, algo que eu provavelmente não acreditaria se fosse contado por outra pessoa... mas quero que fique tranquilo. As pessoas que vou chamar aqui provavelmente são as únicas que, junto comigo, acreditarão na sua história.
— Peggy, eu...
— Você confia em mim? – ela interrompeu.
— Sim... mas é claro que sim. – ele respondeu sorrindo.
— Ótimo! Então fique aqui bem quietinho e me espere voltar. Vou aproveitar e... – ela falou e se perdeu no que ia dizer ao fixar os olhos no peito e no abdômen desnudos de Steve, repetindo a mesma sensação que teve ao vê-lo sair da máquina de Stark da primeira vez — ... te trazer roupas. Sim, definitivamente você precisará de roupas... Eu volto logo. – ela falou saindo apressada em direção ao banheiro, antes que mais uma olhada nele a fizesse voltar pra trás.
Ao escutá-la fechar a porta, Steve se levantou da cama, arrumou-a e procurou por suas roupas. Encontrou-as no chão, misturadas às de Peggy, formando uma trilha que terminava na sala. Riu pra si mesmo enquanto recolhia tudo e relembrava a noite anterior. Parecia que enfim a sorte estava começando a virar pro seu lado.
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Após o fiasco da noite anterior, Sousa resolveu dar um basta em sua covardia e tomar uma atitude em relação a Peggy. Hoje ele a convidaria para jantar. Não esperaria mais. Afinal, como ela sempre dizia, a vida é um sopro, acaba quando menos se espera.
Chegou ao escritório e estranhou que ela não estivesse ali ainda, afinal, Carter não era de se atrasar. Não demorou muito e ela entrou apressada pela porta, sem falar direito com ninguém.
— Bom dia, Carter! – ele respondeu brincando, ao vê-la praticamente atropelar as pessoas em seu caminho.
— Ahn... bom dia pra você também, Sousa! – ela respondeu enquanto folheava sua agenda, sem dar maior atenção a ele e nem ao menos olhar-lhe nos olhos.
— Está tudo bem? – ele preocupou-se.
— Sim! Na verdade, está tudo maravilhoso! – ela falou e só então olhou pra ele com um sorriso tão encantador que o fez estremecer.
— Você está com uma cara ótima, posso ver a felicidade estampada em seu rosto. Não sei o que é, mas está ainda mais bonita esta manhã. – ele falou galanteador, juntando toda a coragem que conseguiu.
— Obrigada! – ela respondeu sem dar maior importância ao elogio – Estou realmente mito feliz, algo de extraordinário aconteceu. – ela falou e voltou a olhar a agenda.
— Fiquei curioso para saber o que neste mundo a faria ficar tão feliz assim... Será que posso saber o que é?
Peggy pareceu finalmente encontrar o que buscava na agenda. Marcou a página e pegou-a juntamente com mais alguns documentos antes de responder a ele:
— E você vai, muito em breve. Mas preciso resolver algumas coisas primeiro.
Carter saiu feito um foguete, ainda mais apressada do que quando entrou, deixando Sousa totalmente confuso pra trás. Ele não sabia o que tinha acontecido, mas entendeu como bom presságio ela não estar lá de manhã bem no dia que ele tinha resolvido que diria o que sente a ela. Pegou seu chapéu, sua muleta e resolveu providenciar algumas coisas para complementarem seu convite para uma noite romântica.
Peggy foi até uma das salas de reunião da Shield, trancou-se lá dentro e teclou o aparelho telefônico para utilizar uma linha segura. Discou o número e aguardou ansiosamente até que alguém lhe atendesse do outro lado.
— Residência de Howard Stark, bom dia?
— Jarvis? Oi, sou eu, a Peggy.
— Srta. Peggy! Que imenso prazer falar com a srta. novamente! Sinto falta de nossas aventuras.
— Bem, então pode ficar feliz, pois preciso novamente de sua ajuda, como nos velhos tempos.
— Parece empolgada! Deve ser algo emocionante. — respondeu o mordomo do outro lado da linha.
— Você nem faz ideia do quanto! – Peggy respondeu sorridente. Mal podia esperar para ver a reação dele e de Stark quando soubessem da novidade.
— Do que precisa? — Jarvis perguntou curioso.
— Preciso que passe naquele alfaiate que tem roupas para pronta entrega e compre umas três ou quatro trocas de roupa com as medidas que vou te passar. Te pago assim que nos encontrarmos para que me entregue as peças. – Peggy passou o tamanho das roupas e esperou até que Jarvis anotasse. Ele ficou esperando o que mais ela pediria.
— E o que mais? – perguntou Jarvis, ansioso pelo complemento de sua nova missão.
— Assim que pegar as roupas, preciso que venha junto com o Stark à minha casa.
— Só isso? – falou ele decepcionado – Não querendo desmerecer a “missão”, mas acredito que não precise de minha ajuda para isso. Comprar roupas não é perigoso e nem emocionante.
— Mas será emocionante quando você souber para quem são as roupas.
— E são para...?
— Isso você vai saber quando chegar em minha casa com Stark. Obrigada, Jarvis! Seja breve. – Peggy falou e desligou o telefone.
— Senhorita! Senhorita! – Jarvis gritou com o aparelho telefônico na esperança que Peggy não desligasse.
— Nossa, Jarvis, mas que gritaria é essa logo cedo! – Howard Stark falou, descendo as escadas de sua mansão totalmente descabelado, com cara de poucos amigos – Não se pode mais dormir nesta casa...
— Me perdoe, senhor, não queria interromper seu sono nem o de sua amiga. – respondeu Jarvis, sentido.
— Não se preocupe com o sono da Alicia, ela dorme feito uma pedra... – respondeu Stark enquanto se jogava na poltrona.
— Alice, senhor.
— Sim, foi o que eu disse, Alice... – e abrindo o jornal do dia, que estava na mesinha ao lado, continuou – E quem lhe tirou a paciência logo cedo?
— Só uma pessoa faz com que me exalte dessa maneira, senhor.
— Carter? – ele falou baixando o jornal, deixando apenas os olhos de fora, para olhar Jarvis de volta.
— A própria.
— E no que ela se meteu dessa vez? – ele falou de forma despreocupada, sem interromper sua leitura.
— Não sei bem ainda. Me pediu para comprar roupas masculinas e levar pra ela com urgência.
— Carter? Pedindo roupas masculinas? Isso explica muita coisa. – Stark riu de seu próprio comentário maldoso.
— Pelo tamanho, não são pra ela, Senhor.
— E pra quem seriam, então? Algum amante? Não achei que Carter fosse disso...
— Ela disse que saberíamos em breve. Que explicaria tudo quando nós lhe entregássemos as roupas.
— Você quis dizer quando você entregasse, certo? – corrigiu Howard.
— Não, senhor. Quis dizer nós mesmo. Ela pediu que o senhor me acompanhasse.
— É sério que ela vai fazer esse mistério todo só pra apresentar um namorado? Ela por acaso acha que eu não tenho mais o que fazer?
— Vou dizer a ela então que o senhor não pôde ir e...
— Mas é claro que eu vou, está louco? Não perderei isso por nada. Me dê cinco minutos e estarei pronto.
Jarvis apenas revirou os olhos e se retirou.
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Peggy caminhava de um lado ao outro da sala, impaciente.
— Acalme-se, vai acabar fazendo um buraco no chão. – brincou Steve – logo eles estarão aqui.
Ela olhou contrariada pra ele, mas não teve tempo de dizer nada pois a campainha tocou. Peggy apressou-se em abrir a porta:
— Até que enfim! Qual a dificuldade de comprar algumas peças de roupa, Sr. Jarvis? O senhor já foi melhor. – ela falou enquanto pegava os pacotes das mãos dele.
— Acho bom ter um excelente motivo pra ter feito o MEU mordomo deixar de fazer coisas pra mim para comprar roupas para seu namorado misterioso. – Stark falou fingindo-se de ofendido, não dando chance a Jarvis de explicar-se.
Peggy geralmente não deixaria este tipo de afronta passar em branco, mas apenas sorriu para os dois antes de responder:
— Acreditem. É um excelente motivo... – ela falou, abrindo então a porta por completo, de modo que Howard e Jarvis puderam ver Steve na sala.
— Por todos os santos! – Jarvis disse totalmente surpreso, quase desmaiando.
Howard nada disse. Entrou pelo apartamento de Peggy e deu um abraço emocionado em Steve, que correspondeu. Deu um suspiro ao abraçar Stark: aquilo fez com que ele se lembrasse de outro Stark, um que ficou no futuro.
— Seja bem vindo de volta, amigo. – Howard respondeu, tentando esconder a emoção, dando tapinhas nas costas do loiro.
— Bem, agora que estão todos recuperados. – Peggy falava e olhava para Jarvis, que terminava de tomar a água que ela lhe oferecera, ainda com as mãos trêmulas – Acho que alguém aqui nos deve muitas explicações.
Steve respirou fundo antes de começar a falar. Olhou para os três pares de olhos ansiosos à sua frente, ávidos por informação e repassou mentalmente, uma vez mais, o discurso que tinha preparado para contar a eles tudo o que tinha havido, de forma a parecer menos loucura possível.
— Antes que eu comece, peço apenas uma coisa. – Steve pediu – Deixe-me concluir a história, e só então me façam perguntas.
Os três concordaram e Steve começou, explicando tudo o que houve desde quando foi descoberto no gelo, quase 70 anos após o fim da guerra, até a luta contra Thanos e sua decisão de voltar ao passado. Obviamente ele não falou para nenhum dos três nada sobre seus futuros. Não seria correto interferir dessa maneira nos acontecimentos. Esse seria um fardo que ele teria que carregar sozinho.
E apesar de ser algo incrível, Stark e Peggy acreditaram na história de Steve. Jarvis também acreditou, mas ainda tentava processar tudo.
— Quer dizer então que meu filho desenvolveu uma máquina do tempo? Isso é realmente incrível! – Stark falou orgulhoso.
— Concordo, senhor! É algo inimaginável! Imagine só, voltar pra trás, ir pra frente, pra época que quisesse. Estupendo... e perigoso.
— O que Jarvis? Não, não estou falando sobre viajar pelo tempo, pessoa de pouca fé. – Stark falou, revirando os olhos – Estou achando incrível o fato de eu ter tido um filho! Ser um gênio é somente uma consequência.
Steve riu ao ver Howard falando. Tony se parecia com ele mais do que podia imaginar.
— Você deve ter sofrido muito... Acordar numa época que não é a sua, sem ninguém conhecido... – Peggy falou compadecida, envolvendo os braços ao redor do pescoço dele.
— Fácil não foi... – ele falou com um sorriso fraco nos lábios – Mas isso compensou tudo. – concluiu acariciando a face dela.
— Beeeem... se os pombinhos não se importam, temos algumas coisas a decidir aqui... – Stark interrompeu.
— Sim, você tem razão. – Peggy concordou.
— Eu acho que posso ajudar a Shield, como Capitão América. Considerando que o meu outro eu está congelado nessa linha temporal, não temos o risco de ter dois de mim correndo por aí. Fora que se ninguém estiver me procurando, ninguém me encontrará, ou seja, é provável que meu outro eu permaneça congelado para sempre neste tempo.
— Você tem certeza disso? – Peggy perguntou, olhando nos olhos dele.
— Sim. Pensei muito sobre isso e acredito que será o melhor a se fazer. Ainda que signifique ter que deixar passar algumas coisas... não posso interferir tanto assim nos fatos futuros. Por isso, quanto menos souberem, será melhor. Eu não direi nada além daquilo que já disse.
— E eu concordo! Por mais que esteja tentado a saber várias coisas, mas... – Stark falou – Será o melhor pra todos. Sobre sua volta, não se preocupe. Já sei o que vamos dizer para as demais pessoas. Deixem isso comigo. Peggy, marque uma reunião extra com todos da agência para hoje à tarde. Eu vou fazer minha mágica e ninguém vai desconfiar de nada.
— Conto com isso, Howard. – a agente falou.
— Mas o mais importante de tudo é que nada do que foi dito aqui saia desta sala. Sei que não preciso pedir isso a vocês, mas... é imprescindível que as coisas que falei permaneçam somente aqui, restrito a essas pessoas.
— Fique tranquilo com relação a isso, Capitão. – Jarvis falou.
Steve suspirou aliviado, parecia ter tirado um peso gigante das costas. Não suportaria mentir para Peggy e ficou mais confortável ao poder dividir isso com outras pessoas de confiança. Estava começando a sentir-se seguro novamente, como se aquela estivesse começando a ser sua nova família.
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2012, Em algum lugar isolado da galáxia
Misturado à população local daquele planetinha sem graça, ele caminhava sem chamar atenção, com a aparência de uma das poucas fêmeas da raça que ali habitava. Agia como eles, conversava como eles e até trabalhava como eles, sem ser notado. Ria pra si mesmo ao notar quanta sorte tinha.
Após ter sido capturado pelos Vingadores e quase deportado novamente para Asgard, o universo enfim conspirou a seu favor e ele acabou recuperando o Tesseract. Ele tinha percebido um movimento estranho, como se mais alguém além dos Vingadores estivesse atrás dele ou de sua joia. Não tinha compreendido ainda o que era, mas sabia que não era coisa do titã.
E ele sabia disso justamente porque seu maior trunfo era ter feito Thanos acreditar que ele estava morto. Isso lhe daria tempo para que pudesse pôr em prática seu novo plano, sem ser atrapalhado por Thanos nem por ninguém. E sem nenhuma pressa, também. Tempo era tudo de que ele precisava para que as coisas saíssem perfeitas da próxima vez. E sairiam, ele tinha certeza.
Ao entrar em sua atual casa, Loki olhou-se no espelho e retomou sua aparência natural, sorrindo para seu reflexo. Próximo passo: recuperar o báculo com a joia da mente.
++++++++++ CONTINUA ++++++++++
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