Kitz era um bom homem. Considerado pelos moradores da vila uma pessoa gentil e prestativa, além de muito bem humorado e brincalhão. Sempre participava das brincadeiras junto aos garotos e gostava de ver o espírito competitivo que crescia neles. Desafiava-os e os ensinava como agir em cada situação. Dessa forma, ele imaginava que os garotos cresceriam fortes e saudáveis. Além disso, ele e o pai de Lamp eram grandes amigos.

E foi Kitz que salvou o filho de seu camarada certa vez. Quando ainda completava seu oitavo aniversário, o menino adentrara a floresta na procura de um Mareep que se afastou do rebanho do qual ele estava responsável por pastorar. O dia havia sido de céu limpo e ensolarado. Porém, naquela tarde, nuvens carregadas chegaram a região e uma forte chuva caia no lugar. Ao alcançar um riacho que dava para uma queda d’água, Lamp resolveu atravessa-lo. Normalmente as águas dali eram calmas e o fluxo de água era tranquilo, qualquer pessoa atravessaria sem problemas. Porém, naquele momento, as águas estavam agitadas e a corrente muito forte. Uma criança não passaria ali. Ele poderia ter seguido por um caminho mais seguro, um pouco mais longe. No entanto, ele pensou que o Mareep poderia estar em uma situação pior que a dele e arriscou a travessia. O esperado aconteceu e a forte correnteza o levou em direção à queda d’água. Felizmente, Lamp conseguira se segurar em uma rocha com uma das mãos, mas não seria por muito tempo.

Kitz, o carpinteiro que tinha vindo buscar a madeira de uma árvore derrubada por um raio de um temporal de alguns dias atrás, – ele não costumava cortá-las com frequência, e quando o fazia, replantava o triplo de mudas da árvore – ouviu os gritos do que parecia ser um garoto. Ele correu até o lugar de onde ecoavam os gritos e encontrou Lamp se afogando no riacho. Ele o reconheceu rapidamente e nadou até o menino para salvá-lo. Após retirá-lo da água ele fitou-o com um olhar sério, percebendo que o garoto tinha tentado atravessar a correnteza. “Você deve pensar duas vezes antes de fazer alguma coisa. Arriscar, na maioria das vezes não é a melhor opção. Só faça aquilo que é capaz de fazer”.

Lamp lembrou-se dessa frase no momento em que olhou para o telhado prestes a desabar em cima de Kitz. Ele sabia que seria impossível salvá-lo a tempo. Não tinha como tirar o homem dali mesmo que o puxasse. Não havia nada que ele pudesse fazer.

— Tem que ter algum jeito! – pensou Lamp.

Ele tinha que se apressar. As chamas se espalhavam rapidamente e ficava cada vez mais difícil de respirar lá dentro por causa da fumaça.

— Lamp! O que houve?! – gritou Kein, do lado de fora, percebendo que as paredes da loja estavam muito destruídas e não se sustentariam por muito tempo – Vocês dois tem que sair daí rápido! Esse lugar vai desabar!

Lamp então notou que eles já tinham puxado o dono da loja. Ficara só ele e Kitz. O garoto pensou que não deveria dizer ao amigo o estado do homem. Kein poderia desesperar-se e isso acabaria dificultando ainda mais a situação, que, embora já estivesse praticamente certo o que ia acontecer, Lamp ainda possuía alguma esperança.

— Tá tudo bem! – gritou o garoto, tossindo de dentro da loja – O senhor Kitz apenas desmaiou como a gente tinha imaginado! – disse, ocultando o fato de que a perna do homem estava soterrada pelos escombros – Mas eu já vou tira-lo daqui!

O garoto então viu uma pá de ferro próxima a alguns objetos de madeira já carbonizados.

— Eu só preciso ser rápido o suficiente! Se eu puder tirar os escombros mais leves, talvez eu consiga puxar a perna dele – disse Lamp, pegando a pá que estava um pouco quente.

Estrondos ecoaram pela rua onde a loja ficava. Kein correu pela calçada e viu que vários Machoke e Machop vinham naquela direção, destruindo tudo pelo caminho.

— Não posso deixar que eles se aproximem! Esse lugar não aguenta levar mais danos! – pensou Kein.

Porém, no momento em que virou-se para voltar até onde estavam Zet e Shroom um raio de luz amarelo passou em frente ao seu rosto e quase o atingiu.

Kein percebeu que o ataque vinha de um Tyranitar furioso que estava do outro lado da rua. E, mesmo que o Hyper Raio não tenha atingido o garoto, acabou acertando em cheio a parede frontal que ainda estava de pé e segurava a parte do telhado que estava sobre Lamp e Kitz.

— Ah não! – Kein lamentou-se, caindo sentado no chão, olhando para o lugar desmoronando.

Ainda estava longe da meia-noite e a lua cheia já brilhava no céu escuro. O telhado desabara enquanto Lamp tentava arduamente tirar os entulhos da perna de Kitz. O esperado aconteceu e Lamp não conseguiu salvar o homem. Ele apenas viu de relance, – no momento em que o telhado caia – que o buraco que zet tinha feito estava dez vezes maior e que dois vultos entraram por ele. O garoto sentiu ser puxado pelo tronco e viu que o segundo vulto era de um Pokémon que segurava Kitz. Lamp em um piscar de olhos então percebeu que estava fora da loja que acabara de desmoronar, sendo segurado por um homem, ao lado de Shroom, Zet e o Pokémon que segurava Kitz – um Blaziken.

O garoto sentiu uma dor vinda de sua perna, e, ao olhar, notou uma pequena queimadura. Além disso, suas mãos também estavam um pouco queimadas.

— Isso não é lugar para um garoto como você estar – disse o homem que mantinha Lamp em seus braços.

Ele notou que o menino estava ferido, percebeu também que havia um homem desmaiado no chão junto do Riolu e do Shroomish. Porém, ele viu que aquele que o Blaziken segurava estava em um estado bem pior e precisava ser levado para um hospital urgentemente.

— Este moleque estava tentando tirar aquele homem dali sozinho? – pensou o homem – Não sei se ele é corajoso ou só imprudente mesmo!

Lamp, que estava um pouco perdido na situação – pois tudo tinha acontecido muito rápido – virou-se para o homem e perguntou:

— Quem é você? – disse Lamp, fixando um olhar turvo naquele que o salvara.

Logo após dizer isso o menino desmaiou.

— Talvez isso tenha sido demais pra ele! – o homem falou em voz baixa olhando para o garoto.

Enquanto isso, Shroom afastou-se deles e foi pela calçada até a esquina para chamar Kein, chegando na frente da loja destruída. Os Pokémon selvagens alcançaram o garoto e estavam prestes a ataca-lo. Porém, antes que um potente soco desferido por um Machoke o acertasse, o braço do Pokémon parou, e, o semblante da criatura que era fúria e agressividade mudou e pareceu voltar ao estado normal. O mesmo aconteceu para os outros que também estavam ao redor.

Lamp acordou em uma cama de um lugar que parecia ser um hospital – havia um curativo na sua perna. Zet estava sentado em um cadeira ao lado da cama e veio até ele depois de perceber que o garoto tinha despertado.

— O que aconteceu depois que eu desmaiei? – o menino perguntou ao amigo – Onde estão o Kein e o senhor Kitz?

Lamp ouviu uma voz fraca ecoando em sua mente.

A porta do quarto em que estavam abriu. O homem que o resgatara entrou, junto do Blaziken, que ficou encostado na parede.

— Como está, garoto? – o homem perguntou – Já é de manhã!

— Estou bem! – Lamp respondeu.

— A queimadura na sua perna não foi tão grave! Porém, você inalou muita fumaça, e isso te fez desmaiar! – ele disse ao garoto.

— E o Kein? E o senhor Kitz?! Eles estão bem? – Lamp indagou rapidamente.

— Seu amigo está bem! Ele me explicou o que aconteceu! Já o pai dele, embora fosse o que estava em estado mais grave, não corre mais perigo de vida. O outro homem teve apenas algumas queimaduras superficiais como as das suas mãos. Disse que voltaria pra casa pra ver se ela estava inteira.

— E os Pokémon?! Eles voltaram ao normal? Pararam de atacar a cidade ?! – O garoto perguntou euforicamente.

— Calma, calma! – o homem começou a falar – Uma coisa de cada vez! E aliás, eu ainda não disse quem eu sou! Meu nome é Pludy! E aquele Blaziken ali é meu parceiro Blaze! – o Pokémon concordou com a cabeça – Nós somos do esquadrão Pokémon de Neirton!

— Eu ouvi um homem falar algo sobre isso! – Lamp acrescentou.

— Nós dos esquadrões somos treinadores normais. Porém, em situações de perigo em que a polícia local não é suficiente, em ataques envolvendo muitos Pokémon, por exemplo, nós somos chamados.

— Então vocês vieram de Neirton?! – Lamp perguntou novamente.

— Exatamente! E isso acabou complicando a situação! Demoramos a receber o chamado. Então, quando chegamos, a cidade já estava muito destruída. – Pludy continuou – Depois de chegar e nos dividirmos, eu vim pela entrada leste e vi seu amigo Zet e o Shroomish do outro garoto. Observei que a loja incendiava e que os dois Pokémon estavam muito assustados. Então eu e o Blaze conseguimos tirar você e o homem a tempo.

Lamp levantou-se e sentou na cama.

— Mas eu ainda não entendo por que os Pokémon estavam daquele jeito! – disse Lamp.

— Isso ainda não sabemos também! Depois que você desmaiou os Pokémon voltaram ao normal! De qualquer forma no momento estamos focados em analisar os estragos feitos na cidade. Os Pokémon chegaram a destruir o gerador de energia e todo o lugar está sem eletricidade. Graças a um pequeno gerador, o hospital ainda permanece com um pouco de energia. – Pludy falou.

— Deve ter sido a explosão do gerador que ouvi quando cheguei a cidade! – Lamp adicionou.

— Além disso percebi que vocês também não são daqui! De onde vieram? – o homem perguntou perguntou.

— Nós somos de uma vila que fica a poucos quilômetros daqui! – o garoto enfim respondeu.

— Entendo! Bom, agora tenho que ir! Caso sinta-se melhor, pode ir visitar os seus amigos! – o homem despediu-se.

— Muito obrigado, Pludy! – Lamp disse, fixando um olhar de agradecimento no homem.

O homem disfarçou um leve sorriso ao passar pela porta do quarto.

— Aquele garoto é interessante! – Pludy disse enquanto andava pelo corredor com o Blaziken – Você também percebeu, Blaze? A queimadura que ele tinha no braço desapareceu!

Lamp, que estava no quarto com Zet, logo lembrou-se dos outros.

— Fico feliz em saber que o senhor Kitz está bem! – o garoto falou – O que acha, Zet? Vamos lá vê-lo? Aproveitamos e vemos o Kein também!

O Riolu concordou e eles saíram do quarto. Lamp avistou uma enfermeira e ia até ela para perguntar em qual quarto Kitz e Kein estavam. Então, enquanto passavam pelo corredor, Lamp viu dois homens conversando e escutou sua conversa.

— Onde você estava quando o caos começou? – disse o primeiro homem – Te procurei pela cidade inteira!

— Cara, eu estava fazendo uma trilha pela cordilheira! – o segundo respondeu.

— Então você viu os Pokémon invadindo a cidade? – o primeiro homem perguntou novamente.

— Eu só me lembro de ter visto uma luz roxa vindo lá do monte branco! – o segundo falou – Um tempo depois disso os Pokémon selvagens começaram a descer das montanhas!

Lamp ouvia atentamente e então lembrou de algo.

— Zet, as nossas mochilas estão lá no quarto? – o garoto perguntou curioso.

O Riolu assentiu e eles voltaram ao quarto.

— Eu sabia!! – disse Lamp, pegando o mapa em sua bolsa – O monte branco é o lugar que tá marcado no mapa do meu pai!!