Os Frosmoth os deixaram na floresta que se estendia ao lado oeste de Creminin. Quando aterrissaram, os três retiraram as suas coisas da rede de gelo, e em seguida ela se desfez em uma nuvem de pequenos cristais brilhantes que caíam no chão. Após isso, os Pokémon alçaram voo e rumaram de volta ao Monte Branco.

— Muito obrigado pela carona! – Lamp exclamava, acenando com as duas mãos estendidas.

A viagem fora rápida, portanto os resquícios de claridade do dia que se dissipava ainda estavam presentes, e adentravam por entre as árvores, que não formavam um aglomerado muito denso. O clima ali embaixo era mais ameno, o que permitia que tirassem o excesso de roupa.

— Que caminho tomaremos ? – Arceus indagou.

— Primeiro temos que ver qual é o santuário mais próximo daqui. – Malie disse.

Lamp havia pego o mapa e o observava com seu camarada.

— Se Malie veio de Jitran e ele estava lá, então deve ter partido do Monte Branco para Scranz. Fica a 2000 quilômetros daqui. – o garoto os olhou, após ver a informação no papel.

— Humm… é bem longe. Mas como chegaremos lá ? A cidade está destruída e levará um bom tempo se quisermos alcançar Neirton a pé. – a mulher falou.

— Ainda não disponho de energia suficiente para nos teletransportar distâncias tão longas. – Arceus disse.

Lamp pôs a mão no queixo, pensando sobre alguma solução. Então, veio a sua mente que a estação ferroviária de Creminin permanecia funcionando, pois antes de sair da cidade passou próximo a ela, e ouviu de algumas pessoas que era um dos únicos locais que não foram atacados.

— Nós podemos ir de trem! – ele deu a ideia.

— Ah! É verdade. – Malie também sabia sobre a estação. – Podemos até ter sorte de pegar um que nos leve diretamente a Scranz.

Sem demora eles pegaram suas bagagens e caminharam para fora da floresta, seguindo pela estrada que dava na entrada oeste de Creminin.

— Ei, Arceus, se aquele cara pode se transformar em Pokémon e tudo o mais, então será bem difícil alcançá-lo antes de ele conseguir todas as essências. – Lamp disse enquanto caminhavam.

— Ele ainda não é poderoso o suficiente para que possa pegá-las todas de uma vez. Como já expliquei, ele possui limitações: sendo um humano, as energias o corroem por dentro, e devem debilitá-lo imensamente. Por esse motivo, é provável que ele deva aguardar um tempo antes de seguir para o próximo santuário.

— Mesmo assim esse cara ainda é muito forte, certo? Devemos ter cuidado quando o encararmos de frente. – Malie interpelou.

— De fato, porém é possível ter uma ideia do poder que ele possui agora. Quando os atacou, eu fui capaz de revidar, utilizando uma grande parte da minha energia para amplificar a força deste aqui. – o espectro apontou Zet, que o olhou de volta. – Obviamente o fato de ele já ser resistente foi de grande importância.

Eles já se aproximavam das primeiras casas, ou o que restou delas, quando Malie disse:

— Ei, esperem! Nós não podemos andar por aí com você flutuando com a gente. – ela se direcionou para Arceus. – As pessoas vão te ver!

— Compreendo. É realmente melhor que quanto menos humanos possível me vejam.

Após dizer isso, a aura amarela começou a mudar de forma e se transformou em uma pequena esfera de luz. Logo em seguida, foi em direção à mochila de Lamp, e entrou dentro dela atravessando pelo tecido.

— Eu aproveitarei para melhor canalizar a minha energia com a da natureza. Caso precisem de mim, abram a mochila e digam meu nome, e eu falarei com vocês. – a voz dele era ouvida por telepatia.

— Certo! – o garoto disse, e involuntariamente acenou com a cabeça para o nada.

Eles então retomaram a caminhada e chegaram a Creminin. O local estava repleto de trabalhadores, mesmo agora que já começava a anoitecer. Alguns desses eram inclusive os próprios moradores da cidade. Havia vários caminhões carregados de escombros, e pelo visto já tinham retirado praticamente todos os destroços. Naquele ritmo, boa parte da cidade estaria reconstruída em poucas semanas.

— Nossa! Quando nós saímos, isso aqui ainda estava virado de cabeça para baixo. – Lamp disse surpreso.

Malie olhou para um lado e outro da rua em que estavam:

— A estação é por ali, não é ? – ela apontou o lado direito.

— Sim. – o menino respondeu.

Não demorou muito para que chegassem ao seu destino, pois ele estava a apenas dois quarteirões dali. O lugar era modesto na aparência, porém cumpria sua função com aptidão. Os trens não eram os mais modernos, entretanto ainda eram capazes de atingir uma velocidade satisfatória. Além disso, havia muitas linhas de trilho, que se distribuíam levando aos mais diversos lugares, o que sinalizava que havia um bom movimento por ali. Quando chegaram, Malie notou a presença de alguns telefones públicos na parede.

— Veja, Lamp, veja! – ela apontou – Você pode ligar para a sua mãe daqui.

Os aparelhos estavam funcionando normalmente, pois o gerador de energia tinha sido consertado. Eles possibilitavam não só ouvir a voz da pessoa, mas também vê-la, caso quisesse.

— Ah, claro! o garoto disse, enquanto abria um bolso lateral para pegar um papel com o número.

Lamp digitou os algarismos no painel e fez a ligação. Malie se encostou na parede para não aparecer no vídeo. Logo a mãe atendeu o seu celular.

— Oi? – ela disse sem perceber quem era.

— Oi, mãe, tudo bem? – Lamp falou naturalmente, enquanto Zet acenou com a mão.

— Lamp?! – exclamou ao notar que se tratava do filho. – Como você está?! Kitz me disse que se machucou, quando um Pokémon o derrubou na invasão, mas que nada tinha acontecido a você e o Kein. Contou também que você e o Zet ficaram na casa de um amigo para ajudá-lo.

— Eles já chegaram? – Lamp perguntou e percebeu o quanto Kitz o ajudara dizendo aquilo. Se a mãe soubesse o que tinha acontecido, com certeza os faria voltar.

— Sim. Vieram à tarde e nos contaram sobre Creminin.

O garoto notou que a sua mãe estava na cozinha, pois atrás dela havia o fogão com algumas panelas, provavelmente preparava o jantar.

— Filho – a mulher assumiu um semblante sério que ao mesmo tempo demonstrava preocupação. –, não acha que é perigoso vocês andarem por aí sozinhos?

Lamp pensou, olhou para Malie que estava ao lado, e a puxou de repente pelo braço. Ela quase tropeçou e apareceu desengonçada.

— Não estamos sozinhos. – o menino falou – Mãe, está é a Malie. Ela conheceu o meu pai.

— Conheceu o Lagus? – a mãe perguntou com uma expressão de estranheza.

— Ah… Sim, Sim! Eu o conheci, mas na criança eu era apenas uma época. – a aventureira disse desajeitada, e Lamp pôs a mão no rosto ao perceber que ela trocara as palavras.

A senhora fitou os olhos de Malie, e assumiu uma expressão serena que refletia os sentimentos que só as mães são capazes de conceber.

— Por favor, Malie, cuide desses dois.

— Pode deixar! – a outra acenou a cabeça seriamente.

— Ei, mãe, nós vamos indo. Acho que é melhor a senhora dar uma olhada ali atrás, para que a comida não queime. – Lamp disse.

— É verdade! O arroz! – ela se virou. – Tchau, querido. Tomem cuidado!

— Tchau. – ele então desligou.

— Sua mãe é muito gente boa. – Malie disse.

— Sim, ela é.

Em seguida, eles passaram a caminhar na estação. Um trem acabava de partir, enquanto havia outro parado. Eles viram em um dos lados uma cabine com um homem nela. Provavelmente era onde se vendiam as passagens. Seguiram até lá.

— Olá, boa… – o atendente pensou – noite? Já está escuro, então acho que posso dizer. Em que posso ajudá-los?

Malie e Lamp o acharam simpático. O menino perguntou:

— Boa noite. Nós gostaríamos de duas passagens para Scranz. – ele pediu duas, pois Zet podia ir de graça. Apenas Pokémon com tamanho acima de uma criança eram cobrados. O menino sabia disso, pois já andara em transporte coletivo antes.

— Poxa! – o homem disse. – Não há mais nenhuma para lá ou algum lugar próximo. O movimento está grande por aqui, os bilhetes têm se esgotado rápido.

— Sério?! – Todos se mostraram desanimadamente surpresos.

— Infelizmente. Aquele ali é o último que irá a Scranz hoje. – ele apontou o trem estacionado. – É a viagem das sete.

Eles agradeceram ao atendente, e caminharam de volta cabisbaixos.

— Pensei que viajaríamos ainda hoje. – Malie disse.

— E onde ficaremos? – Lamp perguntou.

— Hmm… É verdade. O centro Pokémon está lotado, servindo de abrigo temporário. Bem… eu ainda tenho umas coisas na mochila. Podemos dormir em algum lugar por aí.

A noite chegara e a lua resolvera não aparecer. A acanhada iluminação da rua provinha dos poucos postes que sobraram, agora formando uma sequência irregular. Os três exploradores permaneciam na entrada da estação, imaginando o que fariam. Foi então que ouviram um grito soar do fim da avenida.

— Ladrão!!!

Eles se viraram e perceberam que alguém vinha correndo daquela direção. Conforme se aproximava, era melhor perceptível: notaram que um homem e um Pokémon vinham na frente, e logo atrás deles surgia o que gritava.

— Parece que ele roubou algo. – Malie disse. – Já sei!! Lamp e Zet, ajudem aquele homem e continuem os seguindo. O departamento de polícia é logo ali, eu irei até lá. – ela falou e disparou pela calçada.

Em seguida, os outros passaram em frente à estação. Lamp pôde vê-los melhor e notou que o Pokémon que acompanhava o primeiro era um Weavile. Ele e Zet então se juntaram à perseguição, e chegaram junto daquele que ia atrás, o qual aparentava já estar bem cansado. Vendo os dois, disse:

— Por favor!! Ajudem!! – ele ofegava. – Quando eu coloquei a minha mochila na mesa, aquele Pokémon apareceu de repente e a pegou.

— Certo, senhor! Agora deixe o resto com a gente! – o garoto falou, sem perder de vista os assaltantes.

Os dois então aceleraram o ritmo. O homem praguejou ao perceber que agora era seguido por novas pessoas. Eles já estavam na cola dos gatunos, quando Lamp disse:

— Mire no Weavile, Zet!

O Riolu acenou com a cabeça e enquanto corria começou a conjurar uma esfera de energia azulada entre as mãos. Em seguida, lançou-a no Pokémon que ia ao lado do homem. Ele percebeu, entretanto, e, logo antes de ser atingido, deu um pulo desviando do ataque, porém parando de correr. Ao ver isso, o homem interrompeu a sua fuga, percebendo que, se quisesse continuar, teria que se livrar daqueles dois.

— Não se metam onde não são chamados! Querem briga?! – ele disse com raiva.

— Devolva o que você roubou daquele senhor! – Lamp exclamou. Ele também parara de correr, e Zet estava à sua frente.

O ladrão sequer pestanejou e disse ao Pokémon:

— Weavile, garras de gelo. Busque os pontos fracos!

Então as garras do Weavile começaram a crescer e a se tornarem um gelo rígido e afiado. Em seguida, ele disparou em alta velocidade na direção de Zet. Lamp se surpreendeu com a rapidez, porém olhou para o companheiro, e percebeu que ele estava bastante centrado.

— Vamos lá, Zet! Deixe-o vir! Canalize sua energia. Um combate fechado é melhor para nós.

O Riolu ergueu suas orelhas e seus músculos se tensionaram, aumentando de volume. O Weavile atacou Zet com uma das garras, porém ele desviou, revidando com socos e chutes, dos quais o adversário também esquivou. O embate seguiu dessa forma, com ambos desferindo fortes ataques, neutralizados pelo oponente. Lamp então decidiu investir:

— Zet! Conflua sua energia para o punho!

Eles tinham treinado arduamente, e o soco focalizado de Zet poderia ser quase instantâneo, dependendo da quantidade de poder usado. O que o garoto não imaginava era que aquele Weavile seria capaz de explorar o pequeno intervalo que a habilidade ainda exigia, e que o homem perceberia essa brecha.

— Péssima ideia. – o larápio falou baixo. – Agora, Weavile, soque!! – gritou.

Então o gelo das garras do Pokémon se aglutinou, transformando-se em um punho de gelo. No momento em que Zet apenas recuou levemente o seu braço direito, para realizar o que Lamp tinha dito, deixou seu flanco à mostra, e o Weavile atingiu o seu tórax com um potente soco gélido. O impacto foi forte o suficiente para jogá-lo a vários metros de distância dali.

— Zet! – Lamp gritou, ao ver o parceiro no chão.

— É inútil que o Pokémon seja forte, se quem o guia não sabe o que faz. – o menino olhou para o homem ao ouvi-lo dizer isso. – Vamos rápido, Wev!

No entanto, o Weavile teve que novamente desviar de uma esfera de aura. Zet tinha se levantado, e olhava para Lamp com um leve sorriso.

— Desculpa, amigão! Eu me descuidei. – o garoto disse ao companheiro.

— Vamos acabar logo com isso! – o homem franziu a testa. – Corte da noite, Weavile!

O braço do Pokémon sombrio se transformou em uma lâmina escura banhada em energia das trevas. Ele novamente começou a correr em direção a Zet. O Riolu também aumentou a sua velocidade. Lamp percebeu que precisaria agir antes mesmo do Weavile atacar.

— Abaixe-se, Zet! – gritou.

O Pokémon então cortou na direção horizontal, porém, por poucos centímetros, não atingiu o Riolu. A força do seu golpe era perceptível, pois gerou uma onda escura que se propagou no ar.

— Sorte! – o homem vociferou. – Mas com um movimento desses não terá tempo de se recompor.

O Weavile preparava um novo ataque de cima para baixo, e a posição de Zet tornava impossível esquivar daquilo. Entretanto, Lamp pensara nisso. Ele sabia que era improvável o Riolu superar a velocidade do adversário, porém conhecia a grande força do amigo, e sabia que ela poderia produzir a aceleração de que precisavam. Quando Zet se abaixou, ele tensionou o corpo para baixo e apoiou um dos pés no chão. O impulso que ele adquirira era tão descomunal que o proporcionou um salto absurdamente rápido.

— Agora, Zet!! Hi Jump Kick!

O Riolu ergueu o joelho direito durante o pulo e atingiu em cheio o queixo do Weavile, que apenas agora começava a descer sua lâmina. Os movimentos dos dois contendores foram tão rápidos que apenas em câmera lenta seria possível acompanhar de forma clara. No entanto, o golpe de Zet jogou o adversário longe, e ele não se levantou.

— O quê?!! – O ladrão exclamou.

Zet foi até Lamp.

— Isso foi incrível, Zet!. – o garoto disse entusiasmado.

Então perceberam que o assaltante deixara o Weavile no chão e começava a fugir novamente. Contudo, ele notou que do fim da rua vinham diversos policiais, e logo compreendeu que estava cercado. Os oficiais o detiveram, e Malie apareceu junto ao delegado.

— Você se esconde muito bem, Dark. – a autoridade falou. – Já tínhamos perdido as esperanças de que você ainda estivesse em Creminim.

O ladrão fechou a cara e não pronunciou mais palavra alguma. Lamp e Zet haviam se juntado aos recém-chegados e o delegado continuou falando:

— Este é o último dos que fugiram com a destruição da prisão. Cumprimos nossa missão, pessoal. E a vocês – ele se voltou para os três aventureiros –, nosso muito obrigado. Foram muito corajosos agindo assim.

— Ah, que nada! – Malie disse. – Estamos aí para isso. – então ela se virou para os dois. – Vocês os derrotaram?

— Sim, porém foi uma batalha difícil. – o garoto respondeu, e Zet estava sentado, levemente inclinado com os braços para trás, descansando.

— Vejo que estou protegida. Meus guarda-costas são muito bons. – a mulher disse com um sorriso irônico.

— Ei! Como assim guarda-costas? – Lamp redarguiu.

Logo em seguida, o dono da mochila chegou acompanhado de alguém que parecia ser sua esposa. Ele se dirigiu ao delegado para recuperar o seu pertence. Ele se dirigiu ao delegado para recuperar o seu pertence.

— Dark não é do tipo que comete esses crimes. – o oficial disse ao homem. – Ele por acaso teria interesse em algo seu?

— Eu não sei. Na minha mochila só havia roupas e meus documentos juntos às passagens do trem. O dinheiro que levo está na minha carteira.

— Compreendo, ele provavelmente queria fugir da cidade de trem. Deve tê-lo visto comprando o bilhete e passou a segui-lo.

— E o Weavile junto dele? – Lamp indagou.

— É comparsa dele. Fugiu junto do Dark, já que estavam na mesma prisão, pois a lei exige que o Pokémon fique no mesmo lugar que seu treinador. Os laços entre os humanos e Pokémon são muito fortes, afinal, ainda que objetivem ações ruins. – o delegado disse e se juntou aos outros policiais para tratar de assuntos administrativos.

O casal parecia um pouco assustado devido a toda aquela situação, porém o homem foi em direção a Lamp e Zet quando os percebeu ali.

— Muito obrigado! – ele disse estendendo a mão para os dois. – Nós tínhamos acabado de renovar nossos documentos. Há algo que posso fazer por vocês?

— Vocês vão viajar esta noite? – Malie ouvira a conversa que ele teve com o delegado, e perguntou ao perceber que a mulher trazia uma mala.

— Na verdade nós desistimos de ir a Scranz, porque ainda precisamos resolver algumas coisas por aqui.

— Vão a Scranz?! – Lamp exclamou. – Nós também pretendíamos ir, mas as passagens se esgotaram.

O homem rapidamente abriu sua bolsa e retirou dela os tickets.

— Então, por favor, aceitem estas. É o mínimo que devo fazer para retribuir.

— Sério?! – o garoto disse surpreso, recebendo os objetos das mãos do senhor.

Eles então agradeceram e se despediram do casal, começando a caminhar pela rua sorridentes.

— No fim, vamos ainda hoje. – Malie disse rindo.

— Ei, mas espere! – Lamp parou de repente. – Que horas são?

— Bem… Faltam dez minutos para as sete. – a mulher respondeu olhando o relógio.

— Ah, não! – o menino esbugalhou os olhos. – O trem parte às sete horas.

Eles então correram a todo vapor de volta à estação.