Uma Aposta Para Dois
8 Capítulo VIII - Bárbara Fernandez
Acho que sou a pior pessoa para inventar mentiras. É como uma bola de neve, sempre acabo me enrolando e quando vou ver, está enorme e eu não consigo desfazê-la. Por isso evito ao máximo esse tipo de coisa...
Enquanto pensava, pude perceber Lucas me olhando pelo espelho do carro, achei estranho, mas decidi ignorar, até que ele resolveu perguntar o que estava acontecendo.
– O que foi? Está preocupada? Eu juro que vai ficar tudo bem, nós não vamos pôr fogo em você... Prometo. – ele tentou descontrair.
– Assim espero. – sorri. – Mas não, só estou pensando...
– É o Guilherme não é?
– Mais ou menos. Eu menti, disse que estaria na casa da minha avó, mas ele foi até a Carol, e como ela não sabia da desculpa, inventou outra. Mais cedo ou mais tarde ele irá ligar e eu não sei o que dizer.
– Diga a verdade oras. – disse Lucas arqueando a sobrancelha.
– Ah claro! E dizer que cá estou eu, viajando com você, para um lugar que eu desconheço? – disse irônica.
– Você não está só comigo, seu irmão também está aqui.
– Mas mesmo assim, você não sabe o que ele pensa sobre você...
– Eu faço ideia. Que tal fazermos um seguinte...
Depois de varias tentativas para me convencer a mentir novamente, aceitei que naquele momento, essa era a melhor alternativa.
– Alô? – eu disse.
– Oi Bárbara, onde você está?
– É uma longa história amor, mas para encurtar, eu posso dizer que meu irmão arrumou confusão no aeroporto enquanto ia para casa do meu pai, um homem bateu nele, parece que o Bruno estava mexendo com a namorada do cara, e acabou que os dois foram parar numa delegacia de Madrid. Ele não quer que meu pai saiba, muito menos minha mãe, então pediu para que me ligassem. Conforme você já deve imaginar, eu estou a caminho da Espanha, vou embarcar em vinte minutos.
– Inacreditável! Seu irmão apronta cada uma... Você deveria ter me avisado, é perigoso você ir assim sozinha.
– Fica tranquilo amor, eu já fui sozinha pra lá. Eu tenho que desligar agora, assim que chegar eu te ligo. Mas haja o que houver, não conte nada a ninguém, por favor!
– Tudo bem, não se esqueça de me ligar e toma cuidado.
– Pode deixar, beijos. – disse desligando.
– Uau, mandou bem... Em pensar que você disse que sabia menir, tenho que falar, me convenceu. – disse Lucas.
– Valeu, eu acho.
– Não se sinta mal irmã, pensa nessa viajem como um escape, pra você esquecer dos problemas e relaxar um pouco. – disse Bruno.
– Tem razão. Falando nisso, pra onde estamos indo?
– Sei lá, eu só estou seguindo o fluxo.
– Fala sério, encosta o carro! – disse Lucas.
– Por quê?
– Eu achei que você soubesse pra onde estávamos indo.
– Não! O propósito não era esse?
– Mais ou menos né cara, não é pra enfiar a gente em qualquer buraco.
Bruno parou em um posto de gasolina que havia logo a diante e aproveitamos para abastecer o carro enquanto Lucas tomava o lugar na direção.
Ao pegar novamente a estrada, desta vez com Lucas no volante, pensei que o melhor a fazer seria curtir o momento, afinal, estava mesmo precisando esfriar a cabeça.
– Ei, Fernandez, me ajuda aqui com as malas. – Lucas me chamou pelo sobrenome, como de costume.
– Acho que esse trabalho seria do meu irmão, certo?
– É, mas ele foi lá dentro ver se tem quartos disponíveis para a gente.
Respirei fundo, enquanto o via parado na minha frente.
– Pega as suas pelo menos! – ele reclamou.
– Vamos esperar para ver se terá vaga.
– Tá.
Ele se sentou no capô do carro e sorriu seguido de um longo suspiro.
– O que foi? – disse me aproximando.
– Nós precisamos conversar, você sabe disso não é? – ele disse.
– Eu sei.
– Mas não importa o quanto vamos discutir se sempre termina do mesmo jeito.
– Qual jeito?
Então seu corpo se curvou a minha frente, seus olhos miravam minha boca, e...
– Bárbara! Acorda! – disse Lucas.
– Hã? Chegamos? – eu disse sonolenta.
– Sim! Já te gritei umas dez vezes. – sorriu.
– Ah, eu peguei no sono...
– É, eu percebi. – ele disse ao estender sua mão na intenção de ajudar-me a levantar.
– Obrigada.
Enquanto eu observava o que havia ao redor, ele caminhou até a mala do carro, para pegas as bolsas. Olhei para um lado e vi uma pequena casinha, com muro baixo e com um portão de grade descascado, onde Lucas estacionou. Bem na frente, havia uma praia, com ondas baixas e quiosques na areia. O clima era muito agradável, pessoas andando de bicicleta, conversando à beira-mar, mesmo já sendo um pouco tarde para isso. Aliás, eu não fazia ideia da hora, só sabia que estava anoitecendo...
– Era um sonho?
– Hã? Do que você está falando? – respondi assustada.
– No carro, você demorou a acordar, só podia estar sonhando.
– Estava mais para pesadelo!
– Claro. Pode me ajudar com essas bolsas?
– Sim. Mas... Onde está o Bruno?
– Ele encontrou uma velha amiga aqui na praia, se é que me entende... Então eles foram dar uma volta.
– E ele me deixou aqui sozinha... – sussurrei.
– Me faz um favor?
– Depende...
– Pega minha carteira dentro do porta luvas?
– Está bem.
Quando virei, vi Lucas pulando o pequeno muro da tal casinha.
– Lucas, o que está fazendo?! – gritei.
– Só estou entrando.
– Está invadindo essa casa? Você enlouqueceu?
– O que?! Essa casa é... Ah, deixa pra lá, eu não estou invadindo nada, para de fazer escândalo!
– Ah não? Então porque pulou o muro?
– Porque, que eu me lembre, a chave reserva do portão fica embaixo do tapete, então eu pulei para poder abrir pra você.
– E de quem é essa casa?
– Entra e lá eu te explico.
Mesmo assustada, resolvi entrar, pois apesar de tudo, eu confiava nele.
Ao pisar dentro da casa, pude perceber uma grande quantidade de poeira nos móveis, logo deduzi que ninguém frequentava aquela residência há muito tempo.
– Não se assuste com a sujeira ou os móveis antigos.
– Tudo bem, eu não estou assustada com isso.
– Já sei, — ele rolou os olhos — eu devo-lhe uma explicação, certo?
– Mas é claro, ou você acha que eu vou passar o resto do dia aqui sem ao menos saber de quem é essa casa?
Ele olhou para baixo, respirou fundo e começou a tentar arrumar as coisas. Abriu a cortina, seguido da janela, tirou rapidamente a capa do sofá e passou a mão na cabeça de costas para mim. Caminhei até próximo a ele, tirei sua mão da cabeça e disse:
– O que aconteceu que te deixou assim, me fala, por favor!
– Quer saber, me desculpa, era pra gente se divertir, e não lembrar de coisas tristes, mas como eu sei que você não vai me deixar em paz até que eu conte, vou começar a falar... Essa casa era da minha avó Fátima, eu gostava muito daqui quando era moleque, gostava de brincar na praia, soltar pipa no quintal e até mesmo pescar com minha avó. Ela sim me amava de verdade, sem medir defeitos ou coisas do tipo, sempre que eu ligava dizendo que viria, ela preparava bolos, doces, comprava biscoitos, pegava fitas de filmes com o filho da vizinha, e outras coisas... Presumo que já saiba o final disso, não é?
– Sim... Não precisa mais falar sobre isso, me desculpa.
– Está tudo bem, você tinha o direito de saber.
– E que tal a gente pegar uma vassoura para começar a limpar isso ao invés de ficar aqui parados?
– Boa ideia, eu vou ver se ainda tem alguma por aqui.
Começamos a limpar tudo, móvel por móvel, cômodo por cômodo. Não demoramos muito, afinal a casa não era grande. Logo bateu aquela fome insuportável.
Decidimos ligar para o Bruno trazer algo, mas o telefone dele estava desligado ou sem sinal.
– E agora, o que sugere? – eu disse.
– Tem um ótimo restaurante aqui perto, acho que vai gostar.
– Acho melhor irmos a um mercado comprar algumas coisas, tipo arroz, feijão, pão... Nós ficaremos até segunda aqui, não é?
– Sim.
– Então é melhor comprarmos algo que dure, o que você acha?
– Por mim tudo bem. Mas será que tem algum mercado aberto? Já está um pouco tarde.
– Acho que sim, hoje é sábado, e nem está tão tarde assim, são oito e quinze, se tomarmos um banho bem rápido, conseguimos fazer tudo. – eu disse olhando para o relógio.
– Ok, vou terminar algumas coisas aqui, pode ir subindo se quiser.
– É melhor você tomar primeiro, porque eu ainda preciso pegar uma roupa.
– Se prefere assim... Vamos subir então.
No momento em que subíamos, Lucas comentou sobre a questão dos quartos, havia apenas dois, um de casal e outro de solteiro. Eu disse que poderia dormir com o meu irmão no quarto de casal sem problemas, mas ele insistiu que eu ficasse lá sozinha, pois o Bruno poderia chegar tarde ou até mesmo embriagado.
Depois que tudo se acertou, aproveitei o momento em que ele tomava seu banho para falar com Guilherme.
– Ah, lembrou que tem namorado?! – ele disse irritado.
– Me desculpa, eu fiquei muito atolada aqui, só tive tempo agora.
– Mesmo?
– Hã? Você está bêbado?
– É, talvez eu esteja. Mas não se preocupe, eu não pegaria um voo sem te avisar.
– Mas eu te avisei! Quer parar de ser infantil?!
– Legal, agora eu sou o infantil. Suas histórias nunca batem! Você faz o que quer e eu saio como vilão? Eu não quero saber de nada, viva a sua vida como desejar!
– O que? Para com isso, nós conversamos assim que eu chegar.
– Tem certeza? Porque eu acho que você vai inventar uma desculpa pra fugir de mim assim que me ver.
– Que papo é esse de fugir? Olha, vai dormir, e amanhã eu te ligo tudo bem?
– Não! Chega de desculpas Bárbara, eu sei que quer terminar comigo.
– Isso não é verdade, chega de drama!
– Se me amasse mesmo, me trataria de outra forma. Mas tudo bem, porque eu não vou me importar se você terminar comigo agora, eu conheço uma pessoa que gosta de mim de verdade e que não me faz de otário.
Respirei fundo e mesmo sabendo que tudo era dito da boca pra fora, admiti:
– Me desculpa por isso, você está livre pra sair com essa pessoa enquanto eu estiver aqui, encare isso como “um tempo”, se você achar mesmo que ela vale a pena, está tudo bem pra mim, você ficará livre para ama-la.
– Não, — ele respirou fundo – não era isso que eu queria dizer.
– Era sim, boa noite pra você. – eu disse desligando.
Eu deveria estar muito mal por isso, certo? Mas sinceramente, estávamos mesmo precisando dar um tempo pra pensar. Não era mais como antes, tudo tinha mudado. Porém eu não poderia ser hipócrita e dizer que essa conversa não mexeu comigo.
– Lucas, você está demorando muito, vou tomar banho na suíte, ok? – eu disse gritando.
– Pera ai, mas que suíte?
Abri rapidamente uma porta que tinha no quarto em seguida escutei um grito.
– Caramba! – gritou Lucas enquanto estava caído no chão.
– Ai meu Deus, eu não sabia, me desculpa! – eu disse entrando no banheiro.
– Não tem uma suíte aqui, você não acha que se tivesse eu não teria lhe avisado?
– Não sei, me desculpa, de repente você poderia ter esquecido. – eu disse estendendo a mão para que ele pudesse se levantar.
– Sorte que eu já estava vestido. – ele riu.
– Sai logo, vai...
Depois que chegamos do mercado, procurei Bruno, mas ele ainda não estava em casa, tentei não me preocupar muito, pois ele já conhecia o Local.
Lucas preparava a comida enquanto conversávamos sobre a época em que ele frequentava a casa se sua avó. Demos muitas risadas enquanto jantávamos no sofá. Depois ele me ajudou com a louça e fomos dormir.
– Então é isso, acho que tem tudo que precisa aí, qualquer coisa, pode me chamar, eu estarei no quarto ao lado. – disse Lucas encostado na porta.
– Está certo, não se preocupe. Obrigada por tudo.
– Não esquenta. Ah, não se preocupe com o Bruno, ele me mandou uma mensagem e disse que já está chegando.
– Valeu, amanhã eu converso com ele.
– Boa noite Fernandez. – Ele sorriu levemente.
– Boa noite pra você também Luponni. – Passei minha mão em seu ombro e beijei sua bochecha.
Por mais que estivesse completamente sonolenta, não conseguia pegar no sono, era estranho tê-lo no quarto ao lado depois de hoje. Algo em mim tinha mudado, Lucas estava agindo de modo diferente e eu claramente gostava disso.
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