Uma Aposta Para Dois
3 Capítulo III - Bárbara Fernandez
O som do despertador era ensurdecedor, mesmo assim era quase impossível levantar. Eu tinha apenas alguns segundos até que meu irmão ligasse o som no último volume e acordasse toda a vizinhança. A fim de não levar susto, fui logo levantando a procura de uma roupa para ir à escola, peguei uma calça skinning e uma blusa bem colorida, para começar bem o dia, para finalizar, peguei uma jaqueta e uma sapatilha nude. Fui logo tomar banho e como sempre me empolguei a cantar.
Distraída, fui saindo do banheiro apenas de toalha, quando fui surpreendida por Lucas sentado em minha cama.
– AI MEU DEUS, LUCAS! – gritei deixando parte da toalha cair.
– Nossa, eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia voltar a acontecer. – disse Lucas abrindo um sorriso lateral — Mas tenho que admitir, foi melhor do que eu pensei. Alias você está em ótima forma.
Virei rapidamente, enrolando-me na toalha.
– O que você quer Luponni?
– Eu queria saber se podia usar o banheiro, porque o seu irmão está usando o social.
– E você não sabe bater na porta? Alias você não tem casa não? Vive na casa dos outros. – eu disse enquanto entrava no banheiro pra me trocar.
– Tenho e não tenho.
– Tem ou não garoto? Não tem como uma pessoa ter e não ter algo.
– Tem sim!
– Ah é? Como?
– É que eu briguei com o meu pai, longa história...
– Mas o que houve? – sentei na cama ao lado dele.
– É que eu cheguei em casa meio chateado do jogo, meu time perdeu e o seu irmão... Você sabe como ele é, a gente jogou um contra o outro. – ele mentiu.
– Bem, isso nunca deu boa coisa, não sei por que ainda insistem nisso.
– Pois é, eu cheguei em casa e meu pai começou a me perturbar por causa de umas paradas aí.
– Que paradas?
– Você está bem curiosa hoje hein! – ele disse rindo – Vai terminar de se arrumar vai... Eu vou tomar meu banho. Ainda posso usar o banheiro?
– Claro. Vai lá.
Enquanto Lucas entrou no banheiro, fui me vestir e depois peguei minha bolsa para sair. Quando virei pra me despedir, vi que ele deixou uma pequena brecha da porta aberta. Eu não consegui evitar, tive que me aproximar para tentar ver algo. À medida que fui chegando perto, pude vê-lo tirando a blusa lentamente, parecia que estavam lhe filmando. Sem que eu percebesse, fui inclinando a cabeça para a direita e consequentemente abrindo a boca. O corpo dele era fantástico, nem muito forte, nem muito magro, ele era “no ponto”, perfeitamente definido, com lindos olhos verdes, cabelo castanho e uma pintinha no canto da boca. Meu coração acelerou, até que meu irmão entrou no quarto para acabar com o meu sonho.
– O que você está fazendo?
– Quem? Eu? Nada. Por quê? – eu respondi nervosa, atropelando cada palavra.
– Você deveria estar saindo de casa. O Guilherme está lá embaixo te esperando.
– Ok, estou indo. – disse saindo do quarto. – A propósito, manda o Luponni fechar a porta.
Bruno riu balançando a cabeça.
Guilherme era meu atual namorado, ele era o oposto de Lucas, na aparência e no jeito. Era Loiro de olhos castanhos, alto e forte. Ainda estava no colegial, assim como eu. Ele tinha 18 anos, enquanto Lucas tinha 21, porém Guilherme era mais inteligente e mais maduro.
Como de costume, peguei carona com meu namorado, mas não consegui dar muita atenção devido o acontecimento dessa manhã, nada ia conseguir tirar aquela cena da minha cabeça hoje.
Chegando ao colégio, entrei logo na sala e sentei na última carteira, procurei prestar atenção na aula de álgebra, mas foi quase impossível. Então abaixei a cabeça e logo peguei no sono.
Depois de alguns minutos acordei assustada com o barulho do celular, quando levantei a cabeça, todos da sala estavam me olhando.
– Senhorita? – disse o professor com cara de irritado.
– Pois não?
– Queira retirar-se, por favor.
– Ok. – respondi de deboche, já não estava mesmo querendo assistir a aula.
Peguei minhas coisas e sai da sala sem olhar para trás. Caminhei até a cantina e ao chegar lá, pedi um suco de abacaxi e me sentei.
– Que saco, aqui nem da para dormir e está sol! – eu disse enquanto procurava meus óculos de sol dentro da bolsa.
Na tentativa de achar os óculos, encontrei meu celular, foi aí que me lembrei do motivo de ter saído da sala. O celular tinha feito um barulho, na verdade, foi um alerta de mensagem. Quando toquei na tela para ler a tal mensagem, rapidamente chegou outra, que dizia: “Pelo visto não está, quando puder, me liga.”.
A mensagem era do celular do meu irmão, antes de ligar, fui ver a mensagem anterior, que dizia: “E aí, está de bobeira?”.
– Que tonto. Vou ligar logo para ver o que ele quer...
O telefone mal chamou e logo atenderam.
– Fala aí.
– Lucas?
– Sim.
– Posso saber o que você esta fazendo com o celular do meu irmão?
– Eu pedi emprestado. Você sabe, ele tem dois e eu estou sem dinheiro, consequentemente nada de celular.
– Você é um encostado mesmo hein garoto.
– Legal, já sei.
– Então, o que você quer?
– Nada, é que eu estou sem nada pra fazer aqui na sua casa.
– Ótimo, você sabia que eu estou perdendo aula por sua causa?
– Duvido. Aposto que você já estava dormindo bem antes de eu ligar.
– Mentira. Não estava nada. Mas, era só isso? Tenho mais o que fazer.
– Não! Não desliga, por favor.
– Tudo bem, fala logo.
– Quer sair comigo mais tarde? A gente pode ir ao cinema, ou então ir à praia, não sei.
– Ah é? Com que grana? Você não tem nada.
– Eu tenho um dinheiro guardado.
– Não sei, vou ver.
– Ah, qual é? Seu irmão vai sair e eu vou ficar atoa aqui.
– Está bem.
– Eu te pego na escola.
– De ônibus? – eu gargalhei
– Isso ai, me desmoraliza mesmo.
– Desculpa, — eu disse ainda rindo – não deu para resistir.
– Não abro mão do meu carro por nada, ele veio comigo.
– Eu devia imaginar... Mas em relação a vir me buscar, acho melhor não, o Guilherme disse que era para eu esperá-lo que ele me levaria.
– Tudo bem.
Enquanto falava no telefone com Lucas, pude perceber que Guilherme estava vindo em minha direção.
– Esse cara não...
– Lucas, — eu o interrompi – tenho que ir, nos encontramos em casa ok?
– Tá.
Desliguei rapidamente o telefone enquanto Gui sentava ao meu lado.
– Oi meu amor, — ele disse enquanto me dava um beijo — estava falando com quem?
– Era só o meu irmão.
– Hum... O que você está fazendo aqui fora?
– Bebendo um suco. Quer um pouco?
– Quero. – ele disse enquanto puxava o copo para perto de si – Então é verdade o que me falaram?
– Depende, — me assustei – o que te falaram?
– Que você foi expulsa de sala.
– Ah sim, — eu suspirei – é verdade.
– É, já me contaram.
– E você, o que está fazendo aqui fora?
– Acabei o teste, provavelmente tirei uma boa nota.
– Novidade. – eu disse enquanto o beijava.
– Antes que eu esqueça, já temos planos pra hoje à noite.
– Ah é? Temos? Então porque eu não estou sabendo?
– Mas vai saber agora. Tem uma festinha dos ex-alunos com o último ano aqui do colégio, mas não são todos que estão sabendo.
– Legal. Mas não vai dar pra eu ir.
– Por quê?
– Porque eu tenho que estudar para o teste de álgebra. Eu acabei perdendo a revisão hoje.
– Você está falando sério?
– Estou.
– Poxa, a gente podia dar uma fugida depois da festa, não vai ter ninguém lá em casa. – ele disse enquanto beijava meu pescoço.
– Ai Guilherme, eu não sei, vou ver. Na hora da saída eu te digo o que vou fazer.
Levantei rápido para que não desse tempo dele falar nada. Peguei minha bolsa e fui para a sala, já estava quase na hora do almoço e eu teria que vê-lo de novo, então eu tinha que arrumar logo um jeito de sumir.
Mandei um SMS para Carol pedindo que me encontrasse no bosque. Depois de alguns minutos, lá estávamos nós sentadas na grama, onde nenhum aluno deveria ter acesso.
– Então? O que eu faço? – eu disse com a mão na cabeça.
– Bom, a proposta do Guilherme é tentadora, principalmente o final.
– Eu sei, e tem tanto tempo que nós não ficamos sozinhos...
– Pois é, mas por outro lado, eu acho que já está na hora né?
– Na hora de que?
– De você se acertar com o Lucas.
– Pois é, mas às vezes eu acho que vai ser perda de tempo.
– Por quê?
– Porque ele é um idiota e o Guilherme é um namorado e tanto, e ai, quem vale mais apena? – falei com um tom de ironia.
– Cara, o Lucas não é um idiota, você acha isso porque ele vive na sua casa com seu irmão, e garotos quando estão juntos, agem assim.
– Você acha?
– Sim, eu no seu lugar, pararia de ser racional pelo menos por um instante. Aja com o coração também.
– Eu amo o Guilherme, nós estamos juntos há dois anos.
– Então saberá o que fazer.
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