Uma Aposta Para Dois
1 Capítulo I - Lucas Luponni
Com a cabeça ainda girando, perdi o sono por volta das quatro horas da manhã e nada parecia funcionar para que eu voltasse a dormir. Mexi-me para um lado e depois para o outro na imensa cama de casal no meu quarto até que resolvi levantar, primeiro sentando-se na beirada e em seguida de pé diante da janela. Há essa hora, os empregados deveriam estar chegando, sendo assim ainda não tinha café.
Atravessei o corredor esfregando os olhos como uma criança que acorda no domingo para assistir desenhos no sofá. Desci as escadas com o corpo mole a ponto de cair, e ao chegar à sala lembrei que havia deixado meu notebook na mesinha de centro antes de ir dormir. Abri-o e forcei os olhos para tentar enxergar sobre o que pesquisara na noite passada, nada de importante, eu presumo. Antes que eu pudesse desligá-lo, um alerta surgiu avisando-me sobre um novo e-mail. Li atentamente sobre o que dizia, daí recordei o que me fizera largar computador na sala, juntamente com o copo de whisky Dalmore pela metade abandonado na mesa.
– Não quero saber a que horas foi dormir, tem que se levantar agora, daqui a meia hora estarei passando aí. – disse sussurrando pelos corredores.
– Você enlouqueceu de vez Lucas! Uma corrida às seis da manhã? Quem está por trás disso? – Bruno respondeu com a voz sonolenta.
– Müller. – fui breve.
– Ah cara, não me diz que é uma revanche por ontem. Sossega enquanto você está por cima.
– Eu não tenho nada com isso. Ganhei ontem e posso ganha-lo hoje de novo. Só me arrume um analgésico.
Ele respirou fundo no outro lado da linha.
– Se você insiste...
Peguei minha mochila e a joguei no ombro enquanto descia correndo. Desarmei o alarme da garagem e uma série de luzes acendeu diante de sessenta metros quadrados de garagem. Ali estavam estacionados carros de diferentes valores acima de cem mil reais. Mas nenhum deles era meu. Apesar da coleção de carros novos do meu pai, minha paixão sempre foi os antigos, mais especificamente meu Ford Maverick V8 na cor preta deixado pelo meu avô nos anos oitenta após falecer. O que me levou cerca de três anos corridos para reformá-lo até completar maior idade.
Cheguei à casa de Bruno em menos de vinte minutos e tudo estava apagado. Passei a mão pelo banco de trás, onde havia jogado minha mochila, para pegar o celular, até que ouvi alguém batendo na janela ao meu lado.
– Porra! Que susto... – disse abaixando o vidro.
– Cara, quer mesmo ir? – sussurrou.
– Eu estou aqui não é?
– Você está com uma cara péssima. Ontem nós bebemos demais, corremos, fugimos da polícia... Sem contar que você quase caiu na porrada com o Rodrigo Müller, nós passamos mesmo dos limites. Não podemos continuar assim, se não, eles nos pegam. Temos que dar um tempo.
– Eu sei, você tem razão. Mas ontem ele correu com um Ford Mustang 1969.
– E daí?
– E daí que eu não vou conseguir dormir pensando que um carro daquele está sendo destruído pelo babaca do Müller.
– E o que você vai fazer? Roubar dele? – Bruno fez careta – Nós não corremos pelos carros, se lembra? Somente pelo dinheiro.
– Não quer vir, beleza. Eu não vou ficar perdendo meu tempo aqui tentando te convencer. Estou sem paciência hoje. – disse girando a chave na ignição.
– Espera. – ele deu a volta e entrou no carro.
Parei o carro no lugar de costume enquanto esperava pelo meu adversário. O pessoal já estava posicionado ao redor da gente. Era incrível como mesmo às seis horas da manhã o nosso público nunca falta. Olhei para o Bruno que parecia apreensivo olhando as pessoas com aparência bêbada, alguns até com a mesma roupa de ontem.
No momento em que Rodrigo chegou, saímos do carro para a negociação.
– Quem diria! Ele está vivo. – Müller disse sarcástico.
– Não é tão fácil assim ferrar comigo. – sorri.
– Bom saber que tenho um adversário a altura.
– Idem.
– Chega de papo mocinhas. – disse Igor, um dos organizadores – De quanto será a aposta hoje?
– Que tal você me devolver a grana de ontem Luponni?
– Que besteira! A de ontem já foi. Vamos apostar os carros. – arqueei a sobrancelha.
Todos se calaram e viraram para ver a reação de Rodrigo, que me olhava desconfiado.
– Tem certeza? Porque depois que eu ganhar de você, não poderá mais correr sem carro.
– Não se preocupe comigo, meu pai tem muito dinheiro.
– Todo mundo está cansado de saber que você prefere vender sua alma a pedir dinheiro para o seu pai. – ele riu.
– Olha, o papo está ótimo, mas eu tenho aula daqui a quarenta minutos e quero chegar a tempo de todo mundo me ver aparecer com um carro novo.
– Tudo bem, se você insiste.
Entramos no carro e o Bruno ainda estava na mesma posição, mas agora pensativo.
– O que foi cara? – dei os ombros.
– Não sei. Você não está achando estranho?
– O que exatamente?
– O Müller está muito confiante para quem está apostando o carro e além do mais, ele que armou tudo isso. Não acha que tenha algo a seu favor?
Mas que merda! Isso faz sentido. Ontem ele apareceu com um carro novo. Ele sabia que chamaria minha atenção com o Mustang, apostou uma grana qualquer, o que pra ele não é nada, me deixou ganhar, “bebemorar” a noite inteira, para agora me ganhar na maior aposta que eu poderia fazer.
– Preparar! Um, dois... – Igor iniciou a contagem.
Merda! Merda!
Esfreguei os olhos e no momento em que virei, pude o ver rindo com o braço pra fora do carro.
– Três! – gritou Igor.
Com os olhos arregalados saí em disparada com o carro.
– Qual é o melhor caminho às seis da manhã? – gritei.
– Se tiver sorte, a rodoviária abre exatamente às seis e meia apenas para os três primeiros ônibus, você tem que passar antes do primeiro, se não, vai ter que voltar e não vai dar tempo.
– A rodoviária tem saída aqui do lado, seria perfeito! Que horas são?
– Seis e vinte e oito.
– O que? Não vai dar! – gritei batendo no volante.
– Vai sim, tem um beco a sua frente pela direita, o que pegamos ontem...
– Tudo bem! – eu disse o interrompendo
– Não! Não pegue ele! – gritou.
– O que? Por quê?
Havia um carro de polícia estacionado no final do beco e um dos policiais que estava fora do carro, nos viu se aproximar.
– Mas que merda! Eu esqueci que aqui tem um colégio. Você me induziu a entrar nesse beco!
– Não induzi nada! Você nem ao menos esperou que eu terminasse de falar.
– Vou dar marcha à ré.
– Não recua Lucas! Vai ser pior.
Sentados na delegacia, eu com a cabeça encostada na parede e Bruno gesticulando e gritando algo sobre direitos. A culpa tinha sido inteiramente minha e do meu egoísmo que acabara ferrando também com meu amigo. Em pensar que ele me avisou tantas vezes antes de chegar lá...
Tenho certeza que meu pai vai encher a porra do meu saco. Mas eu não estou nem aí, não devo nada a ele mesmo. Só estou naquela casa ainda, pela minha mãe. O problema agora é livrar o Bruno.
– Lucas! Meu filho, o que houve? – minha mãe veio correndo em minha direção.
– Nada de importante. Eu estava atrasado pra aula e resolvi pegar um atalho e os caras acharam que eu estava disputando uma corrida. Dá pra acreditar?
– Isso é impossível, meu filho tem aula hoje. E além do mais, eram seis e meia da manhã, quem corre a essa hora em uma segunda feira?
– Tudo bem senhora. Mas seu filho já tem passagem por aqui com o amigo dele justamente por excesso de velocidade, mais precisamente 120km/hr em via permitida até 60km/hr disputando uma corrida clandestina.
– Isso foi há quase um ano. Ele não foi pego mais, não é?
– Não senhora.
– Então soltem os, por favor.
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