Uma Amizade Além da Vida
1 Um ato heroico
— Ouviu algo? Acho que escutei uma voz vinda de alguma direção.
— Está tudo normal amor, talvez seja só um pensamento ruim que tenha passado por sua cabeça — Ele me deu um forte abraço e voltamos a ver as estrelas, estava uma linda noite de verão para observá-las. Começamos a namorar a pouco tempo, mas quando estou perto dele, é como se o conhecesse por uma vida toda, sinto-me protegida, uma sensação diferente de todas as outras que já tive, e sem dúvida, a melhor.
— Amor, entrarei para pegar um sorvete para nós, prometo não demorar — Ele se levantou e num piscar de olhos ali estava ele novamente ao lado deitado com duas taças de sorvete, fiz uma careta ao ver que havia mais sorvete para ele do que para mim. Com um sorriso no canto da boca, consegui roubar duas colheradas de sorvete para meu pote. Ele realmente sabe como me conquistar, quando vi ao seu lado, três barras de chocolate Moça, meu chocolate preferido, estavam aguardando para serem devorados. Costumávamos ficar em frente à minha casa deitados na grama e observando as estrelas e conversando, gostávamos dos sons noturnos, volta e meia avistávamos uma coruja sobrevoando as casas pelo decorrer da rua, temos o hábito de ficar acordado até tarde da noite, quando não há mais ninguém na rua, moramos em uma pacata cidade, quase não se há notícias de assaltantes. Uma brisa passa pela árvore e me dá um calafrio, tive uma má impressão novamente, a grama ao meu lado balança.
— Novamente aquela mesma sensação, uma voz distante — digo a ele.
— Amor, quer entrar? Talvez você se sinta melhor, mas torno a repetir, está tudo como antes, você anda comendo muito chocolate, sabia? — Ele me fez uma careta que me arrancou um sorriso de canto, deu-me um beijo e me joguei em seus braços. Ficamos um pouco mais abraçados e decidimos entrar, ele foi na frente para preparar a televisão, iremos assistir Supernatural, apesar de termos visto todas as temporadas, ambos concordam que esta série merece ser vista de novo. Quase caí de costas ao fechar a porta, vi um reflexo de meu amigo Theo no portão fazendo um gesto de silencio com a mão sobre a boca, logo em seguida, deu um tchau e desapareceu, notei também que tudo a minha volta parecia ter tremido por um instante e logo em seguida voltado ao normal. Fechei a porta mais que depressa e corri para os braços do John. Quase não conseguia parar de pensar naquela cena, expliquei a ele o que aconteceu e me acalmei mais em seus braços.
— Bia, você está gelada e pálida, foi apenas coisa dessa sua imaginação fértil, imagina só, isso nunca foi real — Não fiquei totalmente contente com aquela resposta, mas procurei ficar mais calma, mas que aquilo era estranho, isso é — Amor, quer que eu durma com você hoje? Assim se sentirá mais confortável com essas coisas bobas que vem pensando.
— Isto seria ótimo, vou arrumar a cama e já volto — Em um instante organizei e ele já veio para deitarmos, coloquei meu pijama e fomos dormir. Comecei a ouvir uma voz distante que foi aumentando o tom e tudo a minha volta foi mudando de forma. Era minha mãe, com uma voz de emoção chamava meu nome.
— Bia? Ei meu amor, acorda, vai ficar tudo bem — tentando esboçar uma voz doce na tentativa de esconder sua voz de choro.
— Onde... onde que eu estou? — Minhas pálpebras ainda pesam, mas com um pouco de esforço consegui abri-las, teria preferido mantê-las fechadas a ver aquilo, deparo me com a pior cena de minha vida: estou estirada em uma maca de hospital com fios saindo de meu peito e indo até uma máquina grande ao lado de minha cama.
— Ei filha, que bom que você acordou, ficamos preocupados com você — Ela diz com uma voz trêmula e frágil, como se algo de muito ruim tivesse acontecido comigo. Reparo que ao redor da cama está meu pai e minha irmã, ambos emocionados por terem me visto acordada, por fim, com a minha voz fraca e baixa consegui falar:
— E-eu... eu sonhei que estava deitada, vendo as estrelas com o John e tomávamos sorvete, eu sentia alguns calafrios... o-o que aconteceu comigo? Como vim parar aqui? Cadê o John? Mãe?
— Calma meu amor, você ainda está muito fraca — ela estava se contendo para não chorar, de novo, mas prosseguiu — Enquanto vocês dois observavam as estrelas, dois ladrões armados fizeram você de refém para roubar a casa, nesse momento o John tentou impedi-los, mas um deles atirou e seu namorado não resistiu, o Theo que passava caminhando pela rua, mais que depressa vendo a situação conseguiu derrubar os dois ladrões e tentar levar você para longe, mas foi tarde, os ladrões atiraram e acertaram-no de raspão em seu pulmão, e você, bem, lhe acertaram em uma região do coração, sua única chance de sobreviver era um coração novo. Trouxeram vocês dois para o hospital, no caminho seu amigo ainda conseguiu falar alguma coisa para os paramédicos que chegaram logo em seguida em casa, junto com os policias. — Eu não sabia como reagir aquela cena, a não ser chorar e abraçar a minha família que ali se reunia.
— Quero ver o Theo, como ele está agora? Ele está bem? — Minha mãe trocou olhares com meu pai e minha irmã, e voltou para mim, derramando-se em lágrimas disse uma única frase que me deixou desmoronada por completa:
— Sabe filha, ele disse aos paramédicos que queria fazer uma última coisa para compensar a bagunça que cometeu ao ir tentar ajudá-la naquela noite — Ela abaixou a cabeça em meu peito tentando conter parte de suas lágrimas. Entendi o que ela quis me dizer. Não pude conter as lágrimas.
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