Um visitante além mar

1 Capítulo 1 Um visitante além mar


O nobre no navio

Era na velha Nilbert, as casas de camponeses no momento ocupadas por comércios tomava toda a atenção da cidade, para Lilien, porém essas paisagens só causavam aversão, eram naqueles lugares também que as prostitutas tinham seu comércio de noite, era uma sensação mista de nojo e repulsa.

Conforme andava os vendedores de longa data lhe reconheciam e davam cumprimentos e acenos, pelo menos alguns não perderam a indecência nessa vila pensou ela. Apertou o passo, Kos tinha um pedido urgente a ela, Kos eram uma daquelas pessoas que não haviam opções ou o atendia ou se diz um “não” e ele o convencia do contrário.

Chegando ao local de encontro: uma viela, sempre é uma viela não é? Pensou consigo. Uma sombra que estava esparramado ao chão era a única pessoa na vista.

-Mendigos agora Kos? Sua troça não tem limites não é?

O “mendigo” deu uma gargalhada, levantou e tirou aquela camuflagem que dava lugar a uma blusa de algodão simples o que lhe dava um ar de camponês.

-Os tempos são tão terríveis que um homem deve fazer o preciso para sobreviver, somos ambos provas disso não é Lilien?

-Suponho que sim , mas esse tempo já se foi a muito, hoje não sou nada além de uma velha.

-Ah mas eu me lembro claramente de sua beleza, vejo que ela ainda está com você...

-pare de me amolar homem , você sabe que isso não funciona comigo, vá direto ao assunto.

-Certo, tenho uma informação de que um novo residente irá vir para Nilbert, seu nome um mistério, suas origens também, só o que sei é que ele vai para o castelo, presente do rei, parece-me.

-Um nobre!!, Há quanto tempo não temos um nessa cidade? 2 séculos? De quem você tirou essa informação.

-Não importa, seu servicinho é investigar o cara, sei que suas habilidades de meretriz para julgar homens são perfeitas. Quero que você descubra tudo o que puder.

-E o paga...

-20 peças de prata, nada mais nada menos, sei que você conseguirá com facilidade, ele vai desembarcar nas docas amanhã de noite.

-20 peças de prata é um bom número... de começo, claro que se tiver algo mais você me dará um bônus...

-O esquema de sempre, você conhece o ramo, quanto mais melhor.

Lilien se escondeu nas sombras quando ouviu passos por perto, e antes que ela pudesse fazer isso, o “mendigo” já voltara a sua posição original. Logo que os passos passaram, ela saiu da viela e foi para a doca.

Na doca avistou o velho Humber, da qual já era conhecida desde os tempos remotos. O velho se encontrava tragando seu cachimbo enquanto a brisa oceânica lhe batia na face. Antes de qualquer cumprimento o antigo homem foi direto ao ponto e apontou para a doca n°3 , não era nada bobo aquele homem, desde de que viera morar ali já percebera que os rumores e informações lhe valiam mais que uma vida de marinheiro, e por isso já tinha passado por todo tipo de situação em troca delas.

-Não é muito cortês ir direto ao ponto quando dois amigos se encontram.

-Acho muito irônico uma cortesã dispensada falar de cortesia... hahaha.

Enquanto conversavam ela já reparara qual era o negócio daquela vez, dois meninos estavam atrás dos caixotes do navio, o velho era o elemento de distração naquela peça, assim que todos desviassem os olhares, os meninos já teriam furtado todo o vinho que conseguissem carregar e já estariam a metros da cena do crime quando todos parassem de olhar para o velho.

Depois do dito raciocínio o velho anunciou a todos:

-Venham, venham todos para ouvir as histórias do velho Humber, garanto não são histórias de crianças e apenas os mais ousados devem ouvi-las, então venham e venham, pois a cada palavra dita esse velho se aproxima da morte e garanto-lhes que não haverá um único escriba que as reconte com tamanha precisão.

Como que por força mágica, todos lhes emprestaram os ouvidos durante esse discurso, mas logo voltaram a suas corriqueiras vidinhas, menos é claro os transportadores que teriam de explicar como duas caixas de vinho nobre se extraviara, senão por suas mãos.

-Vejo que velhos hábitos sobrevivem até na idade avançada. Troçou Lilien

-Não é como se você fosse inocente é? Os tempos são tão terríveis que um homem deve fazer o preciso para sobreviver. Novamente aquela frase pensou Lilien, parecia que a cidade e até os informantes estavam engolfados naquele mundo sem perspectiva.

-Hei de vê-lo amanhã à noite tenho certeza, até lá tenha certeza de não se meter em casa de guardas.

-Está certa, mas não me confunda esses assuntos de nobreza não me concernem só virei porque a doca é a minha casa, se alguém passar por ela eu devo saber ao menos seu rosto.

Com um breve aceno ela se despediu dele e atravessou novamente a cidade sua parte velha para chegar ao conforto de sua casa, ou o mais perto do conforto que um pequeno comerciante pode oferecer. O azarado era um jovem quando resolveu plantar sua semente nela e a ter fecundado, nada mais nada menos, apenas um casamento de moral. O resultado dessa aventura já estava nos seus 10 anos e já cumpria sua parte de ajudante com seu pai.

A casa então se encontrava deserta naquela manhã de sábado, logo ela estaria com vinte moedas de prata a mais e por isso só lhe deviam agradecer. A dúvida então passou por sua cabeça, se seu homem descobrisse e a expulsasse não teria mais nada mesmo, nem a beleza de outrora, nem a casa e nem o filho, tirou esse pensamento da cabeça, já não era a primeira vez que fazia e aquela e que mal faria uma análise do novo nobre da cidade, talvez até algo que ajudasse os comércios familiares, convenceu-se dessa idéia e foi para a cama, onde todas as suas preocupações desapareceram...

...

Quando acordara, o dia já estava no crepúsculo e a janta devia estar em andamento, apressou-se e fez alguns peixes fritos com algumas pitadas de pão. Como que se seguisse o cheiro o homem e seu filho chegaram. Depois de uma rápida ceia, os dois resolveram se deitar e descansar para o dia de amanhã, dia de missa e de santo. Foi-se para sua área habitual de leitura, sim sabia ler, um capricho que um de seus visitantes regulares a ensinara, e lhe dera uma cópia do livro de Vohenhein para se lembrar dele. O livro, um tédio, falava sobre a junção da alquimia e a igreja cristã.

Enquanto lia, percebia que seus cabelos antes castanhos já rumavam para o branco da idade avançada, foi se olhar no espelho e viu que os olhos já estavam cheios de rugas e sua cara não transparecia mais simpatia ou felicidade, mas sim sabedoria.

Parou a sua leitura naquele momento e resolveu ir dormir também, seus sonhos eram um redemoinho de memórias, com a maior parte de arrependimentos, sonhou com a primeira vez que trabalhara, fora uma tecelã em casa, aos 14 sua mãe morreu de cólera e ela se juntou ao cabaré, todas as noites mal dormidas com homens ora brutos ora delicados. Acordou suando frio, “Só memórias” pensou consigo só memórias.

Levantou-se e foi fazer seu trabalho doméstico, o sol já aparecia alto no céu “ótimo dia para lavar roupas”. Terminado esse serviço foi varrer a casa, cozinhar alimentar os porcos, as galinhas colher seus ovos e foi assim até que quando percebeu que seu corpo já não acompanhava aquele ritmo, as juntas doíam de lado ao outro, recolheu-se e foi descansar.

...

-Lilien!!!!

Acordou num espanto com o grito gutural do marido e foi lhe prestar a devida atenção, chegando a origem do grito encontrou o homem sentado a mesa como se esperasse que ela fosse feita sozinho, claro que não sozinha apenas devia estar feita por ela.

-Desculpa, acabei adormecendo no meio da tarde.

-deixe de desculpas que a procissão hoje foi longa e estou com fome.

A procissão é claro, era sempre a procissão que o deixava cansado, o corpo que fora esbelto agora já estava gordo e não podia com o ritmo da marcha, quando chegava já estava cansado, mas com sono. Com o tempo ela foi aprendendo a agradecer a igreja por tantas procissões, era um dos únicos dias em que ele não a possuía.

Esquentou a comida no forno e esperou:

-Onde está Alan?

Alan era a única coisa que realmente importava para ela naquela vidinha de doméstica, fora em todos aqueles anos o único ser vivo a alegra-la.

-Estava tendo com uma rapariga, Elen o nome dela eu acho, estavam conversando tão alegremente que resolvi dar um descanso ao garoto.

O homem então pegou a comida já esquentada, deu algumas rápidas colheradas e foi-se para o quarto. Algum tempo depois Alan chegou.

-Onde estava mocinho? O sol já passou do crepúsculo a horas.

-Estava tendo com Elen, a filha do pescador no final da cidade, garota tímida aquela.

Com essas palavras rapidamente entrou em seu quarto e atirou-se a cama, com sonoros roncos.

Enfim estou livre pensou, se dirigiu as docas para cumprir seu papel, esperava que nada tivesse acontecido ainda.

Enquanto caminhava percebia que uma multidão ainda estava na praça, na maioria velhos que esperavam a bênção do padre, que se atrasava só para despertar o tilintar das moedas de quem se achava impaciente. Caminhou mais apressadamente.

Ao avistar o velho Humber, suas suspeitas foram refutadas, nenhum navio estava ainda na doca.

-Nenhuma notícia?

-Nada, o homem parece bem reservado para chegar à plena noite. Espero que pelo menos seu navio não tenha afundado, seria terrível se mais um nobre morresse nessas terras, só ia acentuar os rumores.

O velho fantasma de Nilbert, ou assim o chamavam, aparecia todas as noites e matava os nobres que residissem na castelo, por causa de uma vingança boba, ninguém sabia quantos prejuízos esse rumor já havia causado para a cidade.

Passada mais um par de horas, finalmente um navio se mostrava em direção a doca, de longe era possível perceber que as velas estavam retraídas e o casco com pedaços de madeira interna a mostra.

-Pelo jeito não foi uma viagem fácil.

Conforme o navio se aproximava, percebia-se que não era um navio nobre comum, em lugar de um brasão indicando a família o lado do barca mostrava escudos, a moda viking, os marujos, não pareciam ser escravos mas sim homens trabalhadores brancos. E então o navio abordou a doca n°3.

Os primeiros a saírem foram os agregados do navio foram os agregados da nobreza, escribas, servos e outras pessoas que trabalhariam dentro do castelo, em seguida saíram os marujos, coisa estranha pensou ela, geralmente o nobre era o mais apressado a sair do navio, que era um lugar ao qual nobres não se encaixavam.

Depois de certa demora, 3 cavaleiros negros, ou assim aparentavam na calada da noite, saíram trotando em cavalos do navio escoltando um palanque segurado por 4 escravos, um em cada ponta todos negros como de costume. O nobre que provavelmente estava lá dentro ao invés de seguir direto para o castelo ordenou em uma língua estrangeira a direção do morro do Vés.

Despediu-se do velho e acompanhou a marcha, que atraia alguns olhares de pessoas, a maioria bêbados jogados nas calçadas quando a taverna fechou-se.

Chegando ao pé do morro, os cavaleiros abandonaram a escolta, visto que não havia perseguições alheias, Lilien se orgulhava de seu dom de se esconder nas sombras. Da marcha então só restou os escravos que depois de certo esforço chegaram ao topo do morro, Lilien ficou atrás de alguns arbustos observando a cena macabra que seguiria.

O nobre saindo do palanque e mostrando algumas de suas feições, olhos claros e pele branca, ordenou que um dos escravos de aproxima-se dele, o escravo relutante se aproximou e num movimento rápido o nobre o segurou pelas suas vestimentas e mostrou seus dentes, que revelavam um canino avantajado em relação aos outros dentes e os cravou no pescoço do negro, em alguns segundos, nos quais os outros negros meio que de espanto ficaram estuporados e observavam a cena que prosseguia deixando um cadáver no chão, em seguida ele avançou para o próximo servo e lhe fez o mesmo ritual. Deixado o medo de lado um dos escravos correu na direção de Lilien que já havia recuado e estava atrás de uma árvore, ao perceber o perigo de seu esconderijo ela segurou a respiração e torceu para que o nobre se virasse para o outro escravo.

De certa forma suas preces foram atendidas, o nobre se virou contra aquele escravo que corria em linha reta na direção de sua árvore que estava e só se ouviu um estrondo de choque contra a árvore, o negro morreu prensado e seu sangue sugado ali mesmo atrás da árvore, o nobre então fez igual aos magos de Elos e pressentiu algo diferente, ela. Por sorte o escravo remanescente pisou em um galho enquanto tentava recuar silenciosamente e atraiu a atenção daquela criatura, que avançou contra ele, Lilien tomou aquela chance e desceu o morro com seu peito a mil, mesmo assim ela percebia que a presença que a sentira estava agora atrás dela, as marcas da idade então mostraram-se e ela foi submetida a um mal súbito, parou para respirar e retomar o fôlego quando ouviu a monstruosidade.

-“Hashamalum belirium Mestrarando Gui!!!”

Por um impulso ela começou a caminhar em direção a origem da voz, sua mente atingida pelo mal súbito mostrou pouca resistência ao impulso, parecia algo natural ao seu corpo, e caminhou até avistar o aborto da humanidade que se revelava agora com o dom da beleza, ela foi tomada cada vez mais forte do desejo de aproximação, porém as memórias de pânico e medo recentes foram mais fortes e ela começou a recuar, a monstruosidade então tomou a oportunidade e avançou na velha, cravando seus dentes em seu pescoço, as ultimas imagens foram do “nobre” que de perto mostrou-se mais bonito do que qualquer homem que jamais encontrara.

Fim.

Notas finais
Minha primeira experiência em escrever, estava pensando em ser algum prólogo de alguma história mas decidi abandonar a ideia. Aceito quaisquer críticas
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!