Um trem
1 Um trem
Um trem
Em um vasto silêncio
A neve cai
E em seus flocos derretidos
O mundo vai
Através da fumaça
Que subia pelo céu
Eu vi a venda da cachaça
Como que por um véu
Ao longe, passei pela hospedaria
Senti o cheiro da especiaria
Ouvi o som da maquinaria
Do trem parado em meio à névoa
Na cabeça, a aurora
Coroa das neves, que no sul cintila
Na mão, a mochila
Iria pular dentro sem demora
Quando vi o andarilho;
Transparente, em meio ao ar
Me fitava devagar
– O que quer? Não ouve o som do trilho?
– Senhorita, para onde está indo?
– Não ouve o som dos trilhos?
O trem já está partindo!
Pois pulei dentro sem demora;
– O que quer me olhando tanto? Por que não vai embora?
– Às vezes, senhorita, o cartoleiro precisa de sua dama.
– E como saberei se sou a mulher que você ama?
Sentamos em lados opostos
Apenas nós, sozinhos
Imperceptíveis aos olhares curiosos
Dos vagões vizinhos
O homem com a cartola
Fitou-me, como se quisesse roubar
todo o meu dinheiro
E o roubo era uma arte
Como as ondas do mar
E com toda a ardilosidade
De quem sabe roubar
tão bem quanto sabe amar
As moedas tilintavam
Dentro da cartola dele
Os olhos dele me fitavam
Ele achava bom pra ele
O som de rodas quebrou o encanto
Daquele silêncio inocente
E o fogo daquela chama
Já não era mais ardente
Belamente, o som do salto
Estacou, ascendente
Quebrando o devaneio secreto
De pensamentos indecentes
– O que deseja nessa hora?
– Por favor, café, senhora
O vapor subia
Em espirais e movimentos psicodélicos
Apenas eu, o cartoleiro
E seus ocasionais olhares maquiavélicos
Esfreguei o café
Na borra da minha mão
Como se fosse sangue
Escorrendo pelo chão
E de repente, como num passe de mágica
O que fora o cartoleiro havia desaparecido
Ido para lugar nenhum, nenhum ninguém havia sido
Mas havia me feito sorrir...
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