Um sopro de neve
1 Você quer brincar na neve?
Notas iniciais
Você quer brincar na neve?
Tudo começou com um simples sopro.
Um sopro frio, gelado, eletrizante.
Jack sentiu-se mais leve.
Seu corpo flutuava por conta própria num céu estrelado.
Esbarrou numa menininha igualmente fria, gelada, eletrizante.
Seu riso ecoava por todo o universo, congelando 1 raio de extensão à partir de sua boca; a respiração da menina também era igualmente leve, embora gelo fosse sólido.
Elsa e Jack flutuavam lado a lado, ao redor das espiras e flocos de neve e vapor. Ela estendeu as palmas das mãos para ele, e ambos giraram no ar, ali, conectados pelo magnetismo de suas mãos frias. De algum modo, suavam ao trocar o gelo que se esvaía de seus corpos.
Então, de repente, uma corrente de ar os fez rodar e rodar e rodar.
Quatro crianças passaram por eles voando e tirando-lhes a atenção que tinham um do outro. Vestiam camisolas compridas, e o menor deles agarrava um ursinho de pelúcia como se aquilo fosse salvar a sua vida.
— Piratas! Índios! Sereias! Adagas! Terra do Nunca, aqui lá vou eeeeeu!
— Algodão-doce, sorvete, e nunca mais tomar banhoooo!
Os dois irmãos rodopiavam, felizes, abrindo os braços bem abertos e desviando de uma nuvem ou outra. Lá no fundo, os mais velhos riam da animação deles, mas também compartilhavam a mesma felicidade.
Wendy abriu os olhos, revelando a surpresa e encanto que tivera ao ver dois guardiões do gelo. Estendeu seus dedinhos, lentamente, mas Peter puxou-a de volta.
— Anda, Wendy, assim a gente vai demorar muito de chegar! Olha onde seus irmãos já estão!
— Você viu aquilo, Peter?
— Ah, é só a minha amiga Sininho. Dê olá para ela, Wendy!
Peter acenou e a fadinha voou entre eles, aos sorrisos, e logo todos tomaram o caminho da Terra do Nunca, deslizando pelas nuvens e mergulhando na ilha dos sonhos.
Jack deu um longo suspiro de frustração e começou a cair. Cair e cair um pouco mais. Peter não o vira. Logo ele, seu ídolo, seu herói, sua inspiração. Elsa correu para ajudá-lo, e, parecendo seguir seus instintos, berrou o mais alto que pode:
— A menina o viu! Ela o viu, Jack!
— Sério?! — seus olhinhos brilharam e ele elevou-se novamente.
— Ela sorriu pra você, Jack!
— Quero descobrir o nome dela. Vamos?
A menininha sorriu e agarrou a mão gelada de Jack Frost. Com seu cajado, deu impulso e levou-os para a mesma direção da comitiva que passara por eles.
O sol da Terra do Nunca chegava a arder os olhos, e Jack sentiu um suor excessivo, um desconforto naquela região. Elsa nem tanto, ela sempre olhara qualquer novidade com alegria. Olaf iria amar! Pensou, com seus botões. Olaf era seu amiguinho boneco de neve. Ele sempre quisera ver o verão, já mencionara aquilo infinitas vezes!
— Não seria melhor que tudo estivesse mais frio? — Jack torceu o nariz, enquanto os levava de volta ao chão. Deslizou com seu cajado, e Elsa teve que agarrar bem firme a camisa do guardião antes que caísse na areia.
— Você não está pensando em..?
O guardião sorriu de ponta a ponta e soprou uma baforada. Cristais de gelo rodopiaram e dançaram pelo ar e caíram, aos poucos, até que toda a areia virasse um manto branco. A princesinha pulou animada. Assim que chegara ao chão, rolou na neve fofa e macia, adorando fazer anjinho de neve.
De repente, quando seu amiguinho não estava olhando, pegou um bocado de neve e esculpiu uma bola enorme! Gigantesca! Girou o bracinho algumas vezes e arremessou na cabeça de Jack Frost. Este, riu um riso gostoso, fazendo-a sentir-se infinitamente feliz.
— Você quer brincar na neve?
— Bom... — fingiu pensar, apenas para dar suspense.
— Por favoooooor — a princesinha de Arendelle pulou em seu lugar, e suas sobrancelhas se juntaram em súplica — Por favor, Jack, por mim!
Mas, ao invés de uma reposta verbal, recebera outra bola de neve em seu rosto. Jack e Elsa gargalharam e correram um atrás do outro para que pudessem continuar a brincar.
Enquanto isso, lá do outro lado, um menino perdido pulava e berrava sobre a neve repentina e estranha que aparecera ali. Rolava pela superfície macia, achando tudo aquilo um máximo, até que resolvera ir atrás de seus amigos e contar-lhes a novidade:
— Está nevando! Está nevando na Terra do Nunca!
— Mas é claro que está! — Wendy apareceu, igualmente animada — Foi aquele ali, olha — apontou para o menino dos cabelos brancos que passara perto deles, correndo das bolas de Elsa — Conhece ele, Peter? É um menino perdido também?
— Desculpe-me, Wendy. Mas não vejo ninguém.
— Como não?! — deu um falsete, irritada já. Achava que aquilo era alguma brincadeira dele e dos outros — Aquele menino fez nevar, Peter, eu tenho certeza, eu vi!
— Essas coisas não existem, Wendy — John, seu irmão mais velho, zombou.
— Ah, não, até ontem sereias não existiam, e olha só onde elas estão —apontou para as sereias, que assistiam a tudo maravilhadas; lá distante, no mar.
— Quero só ver quando o Gancho souber disso! — Peter falou, animado, pensando em suas possibilidades — Espero que ele morra congelado, feito picolé.
— Por que tanto ódio dele, Peter?
— Por quê? — ele gargalhou, inclinando, levemente, a cabeça para trás — O Capitão Gancho é um crápula, Wendy. Ele é malvado. Não se aproxime dele não. Ei, olha só! Aquela ali não é a princesa de Arendelle?
— Quem?
Mas Peter Pan saiu voando atrás da velha amiga que bateu palminhas ao vê-lo se aproximar. Apresentou-a à seus amigos, fazendo uma longa reverência, ao qual foi repetida por todos.
— Esta é a princesa Elsa, de Arendelle. Um reino amigo da Terra do Nunca. Não fica muito longe daqui. E cadê a sua irmã, a Anna?
— Oh... — Elsa balançou seu vestidinho, tristemente — Eles não me deixam brincar mais com ela. Muito menos vir para cá. Eles têm medo de que eu a congele.
— Mas que triste...
Peter aterrizou, tamanha era a tristeza que ele passou a sentir. Pensamentos tristes levam qualquer um ao chão, mesmo que esteja completamente cheio de pó mágico. Todos pareceram compreender a situação, muito embora não soubessem de nada.
— Elsa! — Peter falou, mudando totalmente de emoção — Essa aqui é minha melhor amiga, Wendy. Ela sempre me conta histórias. A minha favorita é aquela sobre Cinderela. Conhece a Cinderela?
Elsa fez que não e limpou a garganta.
— Cinderela não mora em Arendelle. Pelo menos é o que me falaram.
— Então ela também existe?! — Miguel sorriu de orelha a orelha, e apertou ainda mais seu ursinho de pelúcia.
— Mas é claro que existe! — Elsa falou, com uma ruga na testa, ofendida — Sabem quantos morrem ou ficam invisíveis por que a gente não acredita?
— Sério?
— Sim, tipo a Sininho. Não é, Sininho? — Peter brincou com sua amiguinha fada enquanto ela balançava a cabeça. Estava meio irritada por ter perdido o posto de "melhor amiga" — Não gostaria de saber o que aconteceria se vocês não acreditassem nela.
— Assim como você não acredita no menino do gelo? — Wendy alfinetou, deixando Peter Pan com raiva.
— Mas eu já disse que não vi nada! — largou a fadinha e saiu, batendo os pés.
— Peter! Volte aqui!
Wendy correu até ele e foi o tempo de Jack achar Elsa outra vez e parar, ofegante, para descansar. Apoiou-se em seu cajado e pareceu alheio àquela situação.
— Que foi?
— É o Peter. Wendy o viu, eu falei! Ela quer provar para ele que você existe.
— Com quem você tá falando? — Miguel perguntou, calmamente.
— É o meu amigo, Jack Frost. Jack, vem aqui.
Quando ele estendeu a mão fria, Miguel apertou-a e, lentamente, viu a figura aparecer diante de seus olhos.
— John, John, olha que maneiro! Venha ver o Jack Frost.
— Eu já disse que não existe essa coisa de... Oh!
Ele cumprimentou-o também e retirou o que havia acabado de dizer.
— Nossa, que legal! Posso ver?
— Claro!
Jack estendeu seu cajado e John começou a brincar com ele, jogando gelo e mais gelo pelos ares. O guardião riu e a princesinha também. Então, ele fez a pergunta que tivera assim que os vira juntos:
— Vocês são o quê? Irmãos... Namorados..?
Ambas as criaturas de gelo enrubesceram, se é que aquilo era possível. Os meninos riram disso, deixando-os ainda mais sem graça. Distanciaram-se um pouquinho, o que fez a primeira opção ser posta fora de cogitação.
— Já entendi! — John piscou e Miguel continuou a rir.
— Ei, eu tive uma ideia, Jack! — Elsa exclamou de repente, esquecendo-se do embaraço — Por que não joga uma bola de neve no Peter? Aposto que ele vai acreditar em você agora.
— Boa ideia! — os outros falaram.
Não muito longe, Peter estava encolhido no rochedo, realmente chateado. Wendy estava lhe perturbando. Por que não entendia que ele queria ficar sozinho? Ela não podia dizer que ele não acreditava numa coisa que nem podia ver! Justo ele, que acreditava em tudo! Não era justo. Não gostava de ser chamado de uma coisa que não era, até por que eles estavam na Terra do Nunca. Será que não havia sido Elsa, a causadora de toda a neve, afinal? Não... Ela só causava gelo.
— Peter, pode me escutar?
— Eu já escutei.
— Por favor... — Wendy insistiu, chateada.
— Tudo bem.
— Eu não quis dizer aquilo. Eu gosto muito de você, Peter. Me dá uma chance?
— Tudo bem, você venceu.
Wendy sorriu, feliz, e ele voltou ao chão. A menina perdida depositou um beijo em sua bochecha e saiu, aos pulos, de volta ao cobertor de neve mais adiante. Peter pôs a mão em seu rosto e ficou bravo e alegre por ela ter feito aquilo. Seguiu-a, mas sem saber o que estava sentindo.
Assim que alcançou seus amigos, uma bola de neve tocou-lhe a nuca. Virou-se, instantaneamente, e nada viu. Outra bola. E mais outra. Resolveu entrar na brincadeira e, de repente, viu quem estava brincando com ele. Jack sorriu ao perceber que seu herói estava correndo exatamente em sua direção. Ele o vira!
— Quem é você, nobre soldado de neve?
— Meu nome Jack Frost, senhor. Seu maior fã. A princesa Elsa fala muito de você!
— Sério?! — um sorriso desenhou-se em seu rosto, sentindo-se importante — Ei, então você era..?
— Sim, Peter, você o viu! — Wendy gritou, empolgada — Eu disse que ele existia!
— Você estava certa.
— Eu sempre estou certa.
— Ela sempre está certa — os irmãos Darling riram, confirmando.
Peter riu e abraçou-a com carinho.
Os meninos atalharam-no:
— Peter e Wendy, sentados numa árvore, se b-e-i...
Mas, antes que terminassem, ele largou-a, furioso. Não gostava de ver que virava adulto. Ele não queria ter sentimentos. Deitou na neve gelada e ficou olhando as estrelas.
— Qual o problema? — a princesinha deitou-se ao seu lado.
— Nenhum.
— Peter...
— Eu não quero gostar da Wendy.
— E por quê?
— Porque eu gosto de morar aqui. Não quero voltar para casa, virar um homem de escritório, ter filhos, responsabilidades e acabar com a diversão.
— Vocês podem morar aqui, oras — falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— E não é que você tem razão?
— As meninas sempre tem razão, Peter — ela falou, arteira, com um sorriso infantil e esperto.
— E você e o menino do gelo?
— Eu sou uma princesa, Peter, eles vão inventar um príncipe pra mim — respondeu, tristonha.
— Não se você mudar para cá — brincou, da mesma maneira.
Observaram o guardião montar um boneco de neve com os outros e logo levantaram para ajudar. Esqueceram, imediatamente, que estavam tendo uma conversa séria, e tudo o que importava naquele momento era montar o boneco de neve.
Então, de repente, a Terra do Nunca pareceu tremer. Uma estrela cadente caiu do céu para o chão, e com uma luz, apareceu um homem. Não bem um homem. Parecia mais uma espécie de elfo celestial. O elfo foi em direção a Peter Pan e tocou-lhe o meio dos olhos. Tudo a sua volta se iluminou e ele sentiu-se estranho. Logo em seguida, tudo voltou ao normal.
— O que foi isso? — perguntou, assustado.
— Você virou um guardião!
— Um o quê?!
— Um guardião, Peter, assim como o Jack! — Elsa pulou, animada.
Sininho soltou seu pó mágico e todos flutuaram até o céu, onde havia um navio à espera, vazio. Peter achou aquilo um máximo e o elfo sorriu, docemente, ao vê-los lá.
— Peter Pan! — falou, com doçura — Declaro você, oficialmente, um guardião. Por ter assumido e aceitado seus sentimentos... Por ter ajudado tantas crianças, além de voltar a acreditar no inacreditável... O senhor deve ser perfeitamente capaz de assumir essa responsabilidade. Não será preciso voltar à sua casa e vestir-se como um homem de escritório. Pode continuar morando aqui, mas com uma missão: fazer as crianças de todo o mundo acreditar em suas histórias, e nelas mesmas também. A senhorita Wendy Darling pode ajudá-lo a contar as histórias, se desejar.
Pan sorriu e Wendy assentiu alegremente.
— Ela poderá escolher onde ficar — o homem celestial completou, com uma voz suave — Mas poderá, também, ajudá-lo independente de sua escolha...
— Eu vou ficar!
O rosto de Peter Pan se iluminou.
O guardião da Terra do Nunca estendeu a mão para Wendy, que aceitou-a sem hesitar. Logo, os dois rodopiavam, subindo, e subindo, e subindo.
Sininho ficou parada no céu, emburrada, mas outros se encarregaram de fazê-los continuar voando para o infinito: Jack e Elsa sopraram, juntos, e os quatro começaram a subir mais ainda. Pan aproximou-se deles, dando impulso para mergulhar nos ares:
— Como guardião da Terra do Nunca, eu declaro oficialmente que princesas e guardiões podem se casar!
Elsa sorriu, completamente rubra, e Jack a olhava profundamente, meio desconsertado. Mas ela o abraçou bem forte, fazendo-o se esquecer de ficar envergonhado.
Agora, Pan e Wendy teriam uma nova história de princesas para contar, além de Cinderela.
Tudo começara e terminara com um sopro, embora não se saiba se algum dia aquilo pudesse realmente terminar. E eles apostavam que não.
Bastaria apenas... Acreditar.
Eu acredito.
E você?
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