Pessoal, resolvi postar o primeiro capítulo antes da data. Aviso que os outros serão menores que esse, ok? Esse capítulo foi feito para vocês entenderem o quanto Michelle sofreu. Desfrutem e comentem! Também segue a imagem com o casting! + Pergunta: Alguém conhece pessoas que já passaram por isso? Quando comecei a pesquisar sobre o tema, vi o quanto é comum esse tipo de situação. Triste, não é?

— Seus lindos cabelos loiros, seu corpo magro e estonteante, seus lábios grossos e perfeitos, seus olhos verdes cor de garrafa... Tudo em você é a expressão da beleza nesse mundo. – essa frase pronta, recheada de trechos extraídos da internet, saiu da boca de um homem que eu amei a ponto de deixar de lado algo essencial: o meu amor próprio. Se ele decorou ou não, a mim não me importava. Eu continuei suspirando até que ele finalizasse com um longo beijo.
A minha história se inicia em um dia um pouco estranho... Numa sexta-feira, 13, e foi quando a minha quase pacata vida se transformou totalmente. Era primavera e o clima gostoso daquele dia me encheu de entusiasmo ao avistar o rapaz mais lindo que já existira, pelo menos para mim. Apesar de aquela data ser um mau agouro para muitos, eu sempre olhei de forma otimista para qualquer lenda que fosse macabra e, aquela sexta não se sobrepujaria à linda estação cheia de passarinhos e flores.
— Eu amo a primavera! – falei comigo mesma.
Estava apressada para chegar logo à casa da minha amiga Larissa, afinal iríamos acampar em um lugar bucólico de Minas Gerais onde todos diziam ter um lindo pôr do sol. Apesar de toda a pressa, eu ainda consegui parar para olhar com mais detalhes aquele jovem moreno com seu sorriso de lado parado no semáforo fechado. Acompanhado de um grupo de engravatados, ele conversava com uma postura profissional esperando o sinal abrir. Com um suco de maracujá na mão e um mapa recém-comprado na outra, eu observava o fluxo dos carros e, obviamente, o homem com o sorriso mais brilhante que o sol. Sim, era clichê eu pensar naquele desconhecido como uma propaganda de pasta de dente, mas era exatamente este o caminho que meus devaneios me levavam: raio de sol sobre a pele morena clara, sorriso branco e terno impecável.
Quando o sinal parou, a multidão do outro lado invadiu a pista com uma rapidez que me fez sair do torpor e caminhar contra eles. O pequeno grupo que estava com o rapaz passou por mim, mas um homem do outro lado, apressado, chocou-se comigo derrubando-me no chão. Eu caí no meio da pista ficando encharcada com o suco ainda gelado que havia acabado de comprar na lanchonete próxima à grande avenida.
— Olha por onde anda, garota! – o homem esbravejou saindo irritado.
— Você nem vai me ajudar a levantar, seu ogro? – gritei.
— Ei, cara! Deixa de ser idiota! – olhei para cima querendo saber se era o acaso mesmo que faria aquele jovem vir em meu socorro. – Você está bem?
— Vou ficar legal. – respondi. Sua mão me alcançou fazendo-me levantar rapidamente com a força empregada por ele. – Vamos sair daqui antes que a gente morra esmagado. – falei agradecida.
— É uma boa ideia. – ele me olhou com carinho enquanto agachava-se para pegar o mapa. – Ainda bem que está dentro deste plástico.
Os homens e mulheres o aguardavam do outro lado pacientemente.
— Não quero te atrapalhar. Obrigada por me ajudar.
— Você deve estar doce. – comentou rindo de mim. – Meu escritório é neste prédio. Se quiser se limpar, fique à vontade.
— Ah! Eu... Eu não quero... – característica minha era gaguejar quando me interessava por alguém.
— Atrapalhar?
— Exatamente. – era mais fácil responder com apenas uma palavra. Assim não passaria por mais vexame.
— Não vai atrapalhar. – ele colocou a cabeça de lado olhando para a minha roupa meio amarela por causa do líquido.
— Tem certeza? – apontei com meus olhos para o grupo de pessoas.
— Terei uma breve reunião com eles, mas garanto que isso não será um empecilho para o nosso café.
— Café? – perguntei surpresa.
— Sim. Quero provar que eles não nos irão atrapalhar. Você poderá comparecer ao meu escritório para logo mais sairmos e tomarmos um café no shopping aqui perto.
— Uau. Você é rápido. – ri não acreditando que um cara como aquele estava me dando bola.
— E aí? Você aceita? – ele falava perto de mim sem aumentar o tom de voz. Dava para ver que era seguro de si.
— Nem sei o seu nome! – desviei-me.
— Muito prazer, sou Rafael. Rafael Garcia. E você?
— Michelle.
— Então, Michelle. Meu escritório fica na sala 1404. Será muito bem-vinda. – ele me olhou seriamente e senti meu coração acelerar. Não custaria nada tomar um café e depois chegar a casa para contar o babado à Larissa. Tinha certeza que minha amiga não se importaria se eu me atrasasse um pouco.
— Estarei lá. Só vou ali comprar uma roupa “seca”. – brinquei.
— Estarei ansioso. – pegando-me desprevenida, me deu um beijo no rosto e saiu rumo à entrada do prédio comercial sem olhar para trás.
Fiquei parada como uma pateta olhando para ele e a multidão que o acompanhava até sumirem no hall.
— Isso foi... Gostoso! Não tem como não amar uma sexta-feira 13.
(...)
— Um mapa? Tá falando sério?
— Você confia demais nestas tecnologias, Larissa. Eu não. E se ficarmos sem sinal GPS?
— É satelital, amiga! Só se tiver uma chuva de meteoros!
— Viu? Isso é provável!
— Não, Misha. Não é provável ou pelo menos pouco provável! Só existe nessa sua cabecinha! – ela riu pegando o mapa da minha mão e olhando com um interesse que eu sabia que não passava de encenação. – Não sei nem olhar esse negócio direito.
— É bem simples. – disse sentando-me em seu sofá do seu apartamento na Barra da Tijuca, que agora eu dividira com ela. – Eu nunca me acostumei a viajar de carro para cima e para baixo com meus amigos da faculdade. Mas, o mesmo tempo que era aterrorizante deixar a minha vida nas mãos de outra pessoa, era também maravilhoso, Larissa! Meu colega Francisco normalmente era o que dirigia a maioria dos trajetos. Ele parava o carro para olhar os mapas quando precisava. Minha outra amiga Claudia era sua copilota auxiliando-o sempre. Quando ele se cansava, era ela quem dirigia e eu ficava só vendo as paisagens.
Suspirei ao recordar suas brigas bobas e como eles se amavam, pois cinco minutos depois de discutirem no carro, cantavam qualquer canção que passava no rádio. Era o casal mais fofo que já vira.
— Deveria ser mesmo, mas eu prefiro me atualizar e caminhar junto com este mundo moderno. Vamos de GPS. Tá decidido. Seus amigos eram de outra época, minha querida, é uma pena que eles não estão aqui para me apoiarem nesta causa. Tenho certeza que se você ligar para eles me darão a razão. – disse pegando seu copo cheio de vitamina.
Larissa havia se esquecido, mas eles estavam mortos. Um acidente – um caminhão que perdera o controle destruindo todo o carro – levando-lhes a juventude. Ela me olhou com um pesar ao se recordar de quem eu estava falando. Comentar sobre a morte deles já não me doía tanto. Quando alguém me perguntava sobre eles, eu já conseguia responder sem chorar ou engasgar com as palavras na minha boca. Foi triste vê-los partir tão cedo.
Meu outro amigo, João, esteve comigo todo o tempo quando a tragédia aconteceu. De família rica, nos conhecemos também na faculdade e nunca mais nos separamos e, foi por esta amizade que consegui seguir até o fim dos meus estudos. Éramos um quarteto que se transformou em uma dupla. Cheguei a alugar um apartamento estratégico juntamente com ele em uma localização perfeita próxima ao grande centro comercial da metrópole, mas ao notar o seu interesse maior por mim, recorri a Larissa e acabei me mudando com um falso pretexto de socorrer uma amiga em depressão, o que era uma grande mentira, porém não queria dar falsas esperanças a um amigo.
— Eu quero saber tu-do sobre o cara que você conheceu hoje. – ela se sentou na minha frente, desligou a televisão e ajeitou os seus óculos de leitura. – Como é que é? Quando vou conhecer o bofe? Tem facebook? Skype? Twitter? Instagram? Alguma coisa ele deve ter!
Cada vez que Larissa ficava apreensiva, eu alimentava a sua ansiedade com mais suspense. Depois de alguns minutos enrolando para contar a história, contei como fora o fim da tarde ao lado de Rafael e contei nos mínimos detalhes para deixá-la empolgada. Ela ria e jogava o seu cabelo longo e rosa para trás cada vez que eu contava como fiquei molhada.
— MOLHADA? – Larissa segurou os cabelos para cima em um ato exagerado.
— Molhada de suco de maracujá, sua louca! – ri. Larissa sendo Larissa.
— Eu deveria ter ido com você! – falou em meio às gargalhadas.
— E estragar? Não, obrigada!
— Eu não estragaria nada! Pelo contrário. Iria ser aquela a te derrubar antes mesmo do homem grosso, tudo para que você pudesse ser ajudada por este cavalheiro e sair dessa vida de solteira.
— Ahh! Eu te adoro, sabia? – abracei a minha amiga e confidente. – Mas, agora vou dormir porque amanhã sairemos bem cedo. Boa noite, doidinha!
— Boa noite, Barbie.
(...)
Dois anos depois.
Para aqueles que não me conheciam bem, parecia ser esnobação aceitar que me chamassem de Barbie, mas foi o apelido carinhoso que recebi desde pequena quando passava de orfanato em orfanato. Com os meus traços europeus delineados em cada parte de mim – cabelos loiros e olhos verdes – eu chamava a atenção. Uma das características marcantes também era a cor da minha face quando ficava nervosa. O sangue me subia à cabeça quando presenciava injustiça ou qualquer tipo de humilhação, deixando à mostra o quanto eu estava irritada e, por causa disso ninguém tinha coragem de sequer pronunciar novas palavras com medo de a bomba explodir.
— Jamais abaixe a cabeça quando você tiver razão. Se você agiu de forma correta, não deixe que outro te atinja. – uma das funcionárias disse uma vez quando ainda era criança.
No primeiro momento, achei aquela conversa chata, afinal eu queria brincar de casinha com a minha boneca, mas jamais tirei aquilo da cabeça. Se eu tivesse a sua personalidade completa, eu não estaria naquele momento chorando calada em meu travesseiro, esperando Rafael voltar de mais uma noitada.
Hoje, relembrei aquela primavera quando o vi e desejei ter viajado no tempo para desfazer tudo. Não queria ter esbarrado naquele homem, não queria passar por aquela avenida. Eu poderia ter usado outro atalho, tomado um refrigerante em outro lugar, fazer um carinho no cachorro de rua que havia visto minutos antes perto do prédio onde ficava o escritório do meu atual noivo.
— O número que você ligou no momento não está recebendo ligações.
Era a décima vez que ligara para ele aquela noite.
Depois de alguns encontros desde o nosso primeiro café, Rafael e eu nos tornamos inseparáveis. No início, ele era adorável. Sempre me seduzia no momento certo, me mandava flores quando estava em viagem pela empresa na qual era sócio majoritário – uma editora de sucesso no ramo de livros para adultos.
Talvez, o que me chamara à atenção foi o fato dele acabar pertencendo quase à mesma atividade que a minha. Eu era funcionária em uma empresa que promovia grandes eventos no ramo do cinema e livros e, com meu curso e pós-graduação na área de administração, acabei em uma posição privilegiada após esses anos trabalhando. Quando uma nova festa de grande magnitude voltada para as diversas áreas desde entretenimento à caridade aparecia, eu era a gerente que coordenava a atividade antes, durante e posteriormente ao evento. Todo problema que aparecia, lá estava Michelle para cuidar e erradicar imediatamente qualquer inconveniente. Mas, só pude conquistar os meus estudos pela minha perseverança.
— Uma mulher não é um sexo frágil, minha querida. Só precisa saber usar a força em um momento conturbado e, eu tenho certeza que você deixaria qualquer homem que se metesse contigo no chão. – uma das voluntárias uma vez me falara quando participei de um pequeno treinamento de karatê promovido pelo orfanato.
Eu tinha apenas 10 anos e tudo que era novo me assustava a ponto de querer ter um ataque de pânico.
— Eu estou com medo. – falei baixinho com as mãos suadas.
— Não tenha medo de nada. Você é uma menina muito forte. Não é? – ela me incetivara.
— Sim. Eu sou. – falei para mostrar ao anjinho, que acreditava escutar tudo que eu dizia, que eu podia ser como a mulher maravilha, aquela que eu havia lido no gibi.
— Então entre e mostre como você é boa em tudo que faz, princesa. – passou a mão na minha cabeça e me empurrou levemente para que eu desse o passo seguinte. Caminhei para dentro do grande salão onde se encontravam diversas crianças com uma roupa branca, quimono. Olhei para trás e sorri confiantemente. Eu estava pronta para enfrentar os meus medos.

— O número que você ligou no momento não está recebendo ligações.
— Que MERDA! – gritei.
Não entendia como eu não tinha força para terminar o relacionamento. Sua mudança começou logo quando conheci a sua família. Ele era um homem muito rico e influente. Nunca havia imaginado que alguém pudesse ganhar dinheiro vendendo e publicando livros, mas vendo os seus pais esnobes, percebi que o futuro dele já era garantido por uma herança gorda. Eu estava entusiasmada naquela noite quando ocorreu o jantar tão especial no qual ele resolveu me apresentar aos seus genitores.
— Estamos comemorando um ano de namoro. – comentou tomando um pouco do vinho.
A mesa era enorme e estava cheia de taças, copos e talheres que eu nem sabia como usar. Além disso, um grande banquete preenchia todo aquele móvel de madeira fina. Daria para tirar a África da miséria.
Sua mãe mal falara comigo desde nossa chegada à casa e eu me senti constrangida com a frieza de seu pai, sempre ao celular falando sobre negócios.
— E então, Michelle. – sua mãe, uma idosa de cabelos pintados de loiro, começou a conversar. Por mais que ela tentasse esconder a idade com cirurgias e tinturas, suas palavras refletiam a alma de alguém nascido na Idade Média. – Não pense que sou uma pessoa preconceituosa. Sou apenas precavida em relação ao meu filho e a herança da família. Eu acho muito estranho, vocês terem se conhecido de repente como em um passe de mágica e eu não gosto muito de situações que eu não possa controlar ou ao menos entender.
— Eu não entendo aonde você deseja chegar, senhora. – falei começando a me coçar. Sempre que ficava nervosa, meu corpo pinicava totalmente. Era a maneira de manter meu autocontrole. Sem isso, acho que teria avançado na velha com a faca feita de prata fina.
— Não precisa entender. – falou levantando o nariz. – Meu filho é um bom rapaz e um bom partido, como já deve ter notado.
— Mamãe, pare com isso. – ele sorriu. – Fui eu quem a encontrei.
— Você? – aquela notícia a deixou perplexa.
— Sim. Fique tranquila. Misha é uma mulher extraordinária. – ele segurou a minha mão. – Por isso, ficaremos noivos.
— O quê? – pulei da cadeira sem acreditar em suas palavras. Olhei para sua mãe que estava da mesma forma que eu: atônita.
— Amor, esta noite é muito especial para mim. – seus olhos brilhavam. – Eu sei que você é a escolhida e é com você que quero passar o resto da minha vida.
Rafael se declarou da maneira mais apaixonada contrariando a sua mãe, que por delicadeza não quis se pronunciar naquele momento. Inclusive seu pai havia deixado o celular de lado para escutar a notícia, mas para a minha surpresa, ele continuou com o mesmo rosto sem vida como de antes.
Eu, por um momento, senti uma vontade de fugir daquele lugar, mas olhar para ele me fez notar que eu o amava muito e aceitei o pedido sem pestanejar. O que eu poderia fazer? Negar e ser expulsa pela velha coroca?
Se eu tinha algum medo sobre a minha decisão, ele se foi, pois os meses que sucederam a este evento foram maravilhosos. Mudamo-nos para uma mansão em um condomínio fechado para viver o nosso lindo conto de amor. A data do casamento seria apenas para o ano seguinte, assim dava tempo de terminar a minha pós-graduação o quê Rafael aceitou relutantemente. Feliz, chamei a minha futura madrinha, Larissa, para me ajudar na decoração da nova casa.
— Você é uma mulher de sorte! Estou muito feliz! Essa nova fase da sua vida merece um festa de arromba para estrear a mansão! – disse animadamente enquanto limpávamos a casa.
Eu não queria ostentar empregados nem nada do tipo. Sempre me virei sozinha e preferi ficar assim, mas sabia que mais adiante necessitaria de, pelo menos, uma diarista para dar conta.
— Eu adoro o quarto lá de cima. Ele será o meu refúgio. Colocarei uma escrivaninha para meus estudos e muitos armários para meus livros! – comentei sonhadoramente.
— Qual quarto, amiga? Lá em cima tem um monte! Contei quatro só de um lado. – ri ao escutar.
— É um exagero, não é? – perguntei olhando para a grande sala. Ainda precisava me ambientar no novo lugar.
— Ei! Que cara é essa? Não está feliz? – Larissa caminhou até o sofá e se sentou ao meu lado para conversarmos melhor. O ambiente extremamente espaçoso incomodava a nós duas.
— Não é infelicidade... É só medo de me precipitar. Tudo foi tão rápido com o Rafael que eu não sei se estou fazendo a coisa certa. – ela continuou me observando por alguns segundos.
— Ele é o seu primeiro amor de verdade, não é?
— Eu adoro o Rafael. Adoro tudo que ele faz por mim. Gosto de tê-lo ao meu lado. Sempre tem uma palavra de afeto que me faz sentir bonita e segura com ele.
— Quanta paixão! – ela gargalhou. – Então você está fazendo a coisa certa sim. E não se preocupe com a cobrinha da sua sogra. Fui ao quintal e já encontrei um lugar especial para ela, a casa do cachorro. – ri de seu comentário ácido, afinal a minha sogra realmente era um cabelo inflamado na minha vida.
— Ela vai me deixar em paz, pode ficar tranquila. Rafael passa o dia todo fora e ela não quer me ver nem pintada de ouro depois que derramei sem querer – fiz aspas com os dedos no ar – vinho tinto em seu vestido na última festa da família.
— Quem te conhece acha que você é uma flor.
— Eu sou uma flor, mas tenho os meus espinhos. – comentei casualmente. – Basta não encher o meu saco.
— Eu sei. Por isso gosto de você! Mas chega de conversa e vamos acabar essa arrumação aqui. Preciso sair com um boy magia daqui a pouco.
— Desde quando? – perguntei sem acreditar. – Como ele é? – Larissa nunca comentava nada de seus casos e escutar pela primeira vez o entusiasmo em sua voz, me deixou curiosa a ponto de não deixá-la sair de perto até me contar.
— Paraaa! Eu não vou te contar. – pulou do sofá depois que insisti por alguns minutos. Apreensiva olhou no relógio. – Amiga, estou atrasada. Se eu não for agora, não sei se chegarei cedo à casa para tomar um banho e me arrumar.
Sentindo-me derrotada por não conseguir nenhuma informação, desejei-lhe muita felicidade e muito beijo na boca. Quando me deparei com a grande sala vazia e solitária, relembrei o apartamento que comparti com minha irmã megera. Queria que tudo fosse diferente. Às vezes eu pensava se a minha decisão não fora apenas por sentir a solidão de não ter uma família e isso me deu um aperto no peito, mas logo passou quando escutei o meu celular emitir alerta de SMS.
Amor, vou chegar atrasado. Reunião até tarde. Te amo. Quer que eu leve o jantar?
Eu aguardei a sua chegada, mas acabei dormindo sobre o sofá assistindo a um filme sobre amor e perdão. Rafael havia se atrasado mais que o esperado. Eu não liguei tanto para isso, afinal tinha responsabilidades e eu o respeitava por isso. Entretanto, jamais imaginei que esse dia fosse se repetir na semana seguinte e depois... Frequentemente.
Larissa atolada de trabalho também não podia dispor de seu tempo para me visitar e eu da mesma forma, com a minha rotina puxada na empresa, não conseguia encontrar na agenda uma data que fosse ideal para nós duas batermos um bom papo. E foi aí que a solidão começara a tomar conta do meu dia a dia e me vi aprofundando-me em filmes e sorvetes todas as noites.
Rafael não parecia ser o mesmo e eu não sabia dizer se era histeria minha ou se realmente havia uma mudança sútil em nosso relacionamento. Tudo parecia muito frio, muito... Artificial. Cada abraço era forçado, cada beijo de boa noite seguido de “estou cansado, amor. Agora não.” me consumia aos poucos e por mais que tentasse não transparecer na empresa o meu descontentamento, era impossível.
— Michelle, está acontecendo alguma coisa? – minha diretora indagou na sala de café. – Você parece um pouco cansada.
— Eu estou bem. – menti.
— Você sabe que eu sou muito observadora e te escolhi porque é a melhor funcionária que tem aqui para o cargo de gerente, mas vejo que algo te incomoda e eu gostaria de te ajudar de alguma maneira. Seu jeito risonho desapareceu! – falou surpresa. – Você continua realizando todas as tarefas e instruções que eu passo eficientemente, mas considere-me como amiga e não como chefe.
— Obrigada. – sorri com sua sinceridade. – São problemas pessoais, porém logo passarão.
— Espero que sim. Quero a Michelle renovada logo. Fim de ano está chegando, filmes sendo lançados, festas e eventos de caridade surgirão logo e você precisa estar 100%.
— Não se preocupe. Eu não vou desapontá-la. – falei com segurança.
— Eu sei. Só quero que saiba que qualquer coisa que esteja te afligindo, você deve enfrentá-la para que o tormento vá embora. – despediu-se com um tchau e um sorriso de cumplicidade.
Eu tomei as suas palavras como um remédio feito para curar a minha dor. Estava decidida a conversar com Rafael sobre os nossos problemas, principalmente pelo fato dele se tornar totalmente frio e um pouco agressivo. Ao retornar à mansão, o procurei.
— Eu não sei o que você espera de mim, Misha! Que droga! – gritou levantando os braços para o alto após eu haver tocado sobre as reuniões e suas saídas esporádicas tarde da noite.
— Eu só queria entender se fiz algo de errado. Só isso. A sua mudança de comportamento me assusta. – quando falei isso, o seu olhar se transformou em uma bola preta como se um demônio tivesse se apossado de seu corpo. Ele caminhou lentamente na minha direção com o punho fechado. Eu dei um passo atrás sem acreditar que talvez aquele homem que eu estava disposta a me casar, passaria dos limites. Eu fiquei receosa e comecei a gaguejar de medo. – E-eu só queria co-conversar.
— Eu vou estabelecer algumas regras nesta casa. – falou baixinho segurando levemente os meus braços. Ele não apertara, mas aquele gesto não parecia nada carinhoso. – Você está terminando a sua pós. Eu sempre te apoiei e nunca me intrometi na sua vida. Você tem um bom emprego e eu aprecio isso também, mas eu tenho uma empresa nas mãos para ser administrada e não quero que você me questione sobre isso. Nunca mais. – o pavor havia tomado conta de mim, pois ele parecia um psicopata estudando a sua vítima. Assenti com a cabeça com medo de falar e acabar irritando aquele ser totalmente estranho diante de mim.
Mais tarde, ao me deitar ao seu lado na cama, não consegui dormir.
Os dias que sucederam tornaram-se sem cor e cada noite que Rafael passava comigo eu só sentia mais ojeriza. Certo dia, estávamos na parte de trás da casa, onde havia uma enorme churrasqueira para eventos. Rafael parecia indiferente àquele momento de casal. Quando nos apaixonamos e passamos a morar com a pessoa é normal sentir o desejo de estar junto, mas eu sentia que cada vez mais, o meu noivo se irritava por pequenas coisas. Neste domingo, ele cuidara do churrasco e eu do arroz no fogão. Percebi quando ele deixou a carne sobre a grande mesa de madeira para olhar o celular. Tudo foi muito suspeito. A linguagem de seu corpo dizia claramente que alguém havia enviado uma mensagem que eu não poderia ler.
— Você está me traindo? – falei mais alto que o normal dirigindo-me até onde ele se encontrava com o celular.
— Você está doida? – riu, deixando o celular bloqueado acima da mesa. – Vou continuar preparando o churrasco, Misha.
— Não me chame de doida, Rafael! Eu sei que você está me escondendo algo, seu mentiroso! Por que você está fazendo isso comigo? – comecei a chorar. – Eu não suporto mais esse joguinho que você faz. – em um repente, Rafael jogou a carne no chão.
— EU NÃO AGUENTO MAIS! Você está um saco, porra!
— SOU EU QUE NÃO AGUENTO MAIS! – era o fim. Não queria mais continuar vivendo aquela mentira. – Eu vou embora DAQUI!
— Ahh! Se você pensa que vai dessa maneira... – quando vi, ele já estava me segurando pelo braço.
— Você está me machucando! – gritei.
— Escute com atenção. Você é minha! E eu não admito que pense isso de mim e não deixarei você ir embora. – sua mão direita esmagava a minha carne perto do ombro.
— Está doendo, pare! – pedi assustada. Ele olhou para a sua mão e me soltou.
— Eu vou sair agora. Essa conversa terminou.
— Preciso espairecer a minha mente. Também vou sair.
— Não, você não vai. – apontou para mim como se eu fosse um cachorro pronto para obedecer.
— Eu vou sim. – falei impondo-me, afinal quem ele pensava que era para me prender?
— Veremos. – Rafael puxou o meu cabelo balançando a minha cabeça de um lado para outro. Eu tentei gritar, mas ele apertou ainda mais me ameaçando.
— Cala a boca! – foi o que ele falou várias vezes até subirmos ao nosso quarto. Meu couro cabeludo ainda estava sensível pela maneira como ele agarrara. Foi imprevisível e totalmente covarde. – Você ficará aí até eu voltar, entendeu? – e fechando a porta com violência me trancou no closet.
(...)
Você nunca sabe quando a vida vai te surpreender. Normalmente, desejamos coisas boas e caminhos perfeitos nesta caminhada rumo a um futuro que jamais saberemos como virá. E eu, uma pessoa otimista, sempre acreditei no melhor das pessoas em todos os aspectos. Claro que decepções aconteceriam, mas alguns casos que via em novelas e filmes, eu acreditava que só poderiam acontecer com desconhecidos. Mas não...
O meu relacionamento com meu noivo se transformou em uma batalha de submissão e poder. Quando ele estava em casa, eu o satisfazia em tudo. Mesmo sendo dona do meu próprio nariz com possibilidade de deixá-lo, algo mexia dentro de mim – um medo apavorante que me impossibilitava de seguir adiante.
Contar o que eu senti cada vez que ele me tocava é muito difícil. Foram momentos de traição, violência. Quando ele voltava cheirando a bebida, eram os dias que Rafael me agredia verbalmente. Eu parei de contar a quantidade de xingamentos que ele fez todas as vezes que eu lhe perguntava onde havia estado. Mas o pior de tudo era quando ele me forçava a manter relações. Nessas noites, eu entrava no modo automático. Era mais fácil e mais rápido, porém ao finalizar, corria para o banho a fim de limpar aquela sujeira, pois me sentia imunda. O terror psicológico era uma tortura que se tornou constante. Uma vez, após brigarmos por causa de uma ligação suspeita, ele me presenteou dias depois com um lindo piquenique em uma região bucólica do Rio de Janeiro. Havia um lago muito bonito onde resolvemos colocar toda a comida. Rafael conversou sobre fazer as pazes e melhorar o relacionamento e o escutei como sempre fazia.
— Eu quero que dê certo e sei que estou fazendo tudo errado, Misha. Eu me deixei levar por más influências e te magoei. Quero que você saiba o quanto te amo. – disse segurando a minha mão.
Saímos para caminhar um pouco pela margem do lago. Eu não respondi nada a ele sobre continuar ou terminar, pois eu sabia que para ele só existia uma única opção. Na verdade, eu não o queria mais e seu discurso não havia alcançado o meu interior a ponto de me sentir segura novamente e Rafael notou o quanto eu estava distante.
— Este lago tem a sua beleza, não acha? – perguntou-me. Havíamos parado para contemplar as águas calmas. Olhei em volta e percebi o quanto estávamos longe do local onde havíamos feito o piquenique. Não tinha ninguém próximo a nós.
— Podemos voltar? Estou com um pouco de frio. – menti.
— Eu aqueço você. – abraçou-me por trás e meu corpo automaticamente se retesou. Ele, por outro lado, fingiu não sentir essa minha aflição. – Este lago é a dicotomia entre o claro e o escuro, entre o belo e o feio, entre a paz e o perigo.
— Não entendo o que você está falando. – tentei rir para dissipar a minha insegurança.
— Quero dizer que onde deixamos nossas coisas tem a sua beleza. A luz do sol parece radiar todas as cores da água e da flora. Lá é belíssimo e não tem como não sentir a paz. Porém, esta região, onde estamos agora, é deserta. Se você observar melhor, aqui é mais frio, mais escuro e muito feio... Seria o lugar ideal para desovar um corpo. Ninguém notaria. – o quê? Meu sangue gelou com a frieza de sua voz. Desvencilhei-me de seus braços imediatamente.
— Você tem razão. – falei olhando para ele. – Vamos voltar logo. Aqui está frio demais. – forcei um sorriso. Ele sorriu, mas foi um sorriso sombrio e eu não parei de pensar o que ele tanto quis insinuar. Era uma ameaça?
Talvez a culpa fosse minha. Tudo chegou ao estágio máximo porque sempre que ele fazia algo para me magoar desde palavras a gritos, eu o perdoava assim que ele colocava aquela carinha de “pidão”. Isso mexia muito comigo, mas quando era eu a pessoa a ter a crise de TPM, por exemplo, ele virava a cara ou me maltratava ainda mais. Com o tempo eu fui me afastando. Não fisicamente e sim dentro do coração. Ele deveria observar os sinais. Quando percebi que só aumentava o problema e meu desafeto, comecei a fazer o contrário. Ele tentou me distanciar dos meus amigos, então agi e não deixei que o isolamento me atingisse, mas era difícil manter contato mesmo assim.
Rafael zombava de mim na frente de conhecidos, não me incentivava em minhas conquistas e projetos sempre me colocando para baixo. Cheguei a pensar que era uma descapacitada para tomar simples decisões do dia a dia sem perguntar a ele. Foi então que comecei a analisar as discrepâncias entre o que eu era antes de conhecê-lo e em quem me tornei. Reavaliei o nosso relacionamento de uma forma séria e fria.
E este dia do piquenique ficou marcado na minha lembrança. Não foi uma conversa comum e, comecei a reavaliar uma forma de sair desse noivado sem me machucar. Uma vez, tentei contar a Larissa, mas não consegui. Senti-me muito humilhada por minha falta de coragem pelo longo tempo que fiquei com Rafael. Quando ia trabalhar, ele me ligava o tempo inteiro me controlando. Quando resolvi desligar o celular para me concentrar no projeto da empresa, ao retornar à casa, Rafael me empurrou com força sobre o sofá gritando como um louco.
O meu tormento só aumentou por minha falta de coragem. Ao ver notícias na televisão sobre Lei Maria da Penha, sobre mulheres que procuraram a polícia e nada conseguiram resolver, mulheres mortas por seus ex-maridos, tudo isso me assustava demais. E por ver a ineficácia do sistema, preferi me trancar neste mundo. Mas, tudo mudou quando vi uma funcionária da empresa chegar toda marcada. Eram manchas arroxeadas no rosto e braços. Era notório que se tratava de uma vítima de violência doméstica. Eu não era a única a sofrer e não soube dizer se era algo bom ou ruim. Rafael nunca havia me batido de fato a ponto de me deixar marcada, mas não deixava de ser violento e ameaçador em suas investidas.
— Você está bem? – perguntei a ela dentro do banheiro feminino logo quando a vi entrar. – E-eu lamento muito pelo que aconteceu contigo.
— Não se preocupe. Eu dei queixa na delegacia e ele não poderá mais se aproximar de mim. – sorriu como se fosse vitoriosa. – Ele também apanhou.
— Você bateu nele? – perguntei assustada. Seu porte era pequeno demais e me recordava de seu esposo por causa da festa de fim de ano. Era um brutamonte.
— Desta vez, eu não deixei por menos. Acertei a cabeça dele com o maldito cinzeiro de vidro. Eu me senti tão bem. – disse sonhadoramente. – Ele parou de me agredir na hora, Misha. E ainda teve a petulância de dizer que ia chamar a polícia, acredita? – percebi que suas mãos estavam trêmulas e segurei-as para acalmá-la.
— Você é corajosa! – disse tristemente. Estava tão atolada com toda a minha vida miserável que comecei a chorar copiosamente.
Ela compreendeu imediatamente o que eu estava passando e escutou atentamente o meu lamento. Falei sobre a personalidade controladora e possessiva de Rafael e o que ele já havia feito e falado comigo.
— Você está doente moralmente, Misha. Sua autoestima está no chão assim como a minha esteve. Agora, eu faço terapia, mas a minha terapia é diferente. Ela não é com psicólogo.
Aproximou-se ainda mais e falou baixinho:
— Conheci alguém. Ele é maravilhoso e eu vou embora daquele inferno. – seu sorriso era tão sincero que me fez tentar recordar qual havia sido a última vez que eu sorri daquela forma. – Tenho alguém que me protegerá e me amará como eu devo ser amada. Foi por causa deste amor que eu tive coragem suficiente para ver que estava dependente emocionalmente daquele verme. Eu era fraca, mas não mais. Se você tivesse visto a cara dele quando eu acertei o cinzeiro na cabeça daquela merda de homem. Ele se assustou e foi aí a primeira vez depois de anos que eu vi o quanto eu demorei a me posicionar. Não somos vítimas de nossa natureza. Sim, somos mulheres, mas não frágeis. Pelo contrário.
Recordei as palavras de meu tio.
— Ele me tirou o brilho, sabe? – continuei. – Essa violência silenciosa é horrível. Rafael é um exemplo de homem na sociedade. Ele não fuma, é educado, tem emprego estável e diante das pessoas me trata bem, mas ele não é assim.
— Caia fora enquanto você tem chance. Eu só peço uma coisa, faça boletim de ocorrência na delegacia e leve adiante. Não caia na história deles de que vão mudar, pois é mentira. Se levar adiante o boletim, haverá um inquérito e ele deverá responder. Garanto que a imagem dele de homem bom vai cair e a máscara também.
— Eu vou sair desse relacionamento. – prometi renovada pela breve conversa que tive com ela, pois me mostrara a fraqueza e a força. E se ela conseguira, eu também poderia.
Uma chuva torrencial havia caído naquela tarde na grande cidade, eu diria que seriam as minhas lágrimas derramadas no banheiro da empresa, mas não. Aquela água jorrando viera para limpar a minha alma e me fortalecer perante a minha decisão de mandar Rafael para o inferno.
Preparei o jantar a fim de começar uma longa conversa com Rafael. Não me atrevi a perder tempo cozinhando nada especialmente complicado. A comida era simples, mas gostosa. Quando ele chegou do trabalho, sentou-se à mesa esperando pela comida.
Seria mais fácil colocar veneno. Resolveria o meu problema.
Tudo parecia estar sob controle, mas não. Para ele, nada estaria perfeito.
O motivo que me fez acelerar o meu plano de mandar tudo para o ar, chutar o balde, fugir daquela realidade medíocre, foi a primeira agressão que sofri naquela noite.
O motivo que levou Rafael a ser violento foi um par de ovos que não havia fritado da forma que ele costumava comer: gema dura. Ao cortá-los, ele viu escorrer a gema pelo arroz e, sentindo um nó em meu estômago, me preparei para mais um discurso.
— Mas o que é isso, Misha? – perguntou-me serenamente. – Por que meus ovos estão assim? Isso me dá nojo, você sabe.
— Eu pensei que estavam perfeitos, amor. – disse com carinho correndo para retirar o seu prato da mesa. Ele havia chegado recentemente do seu trabalho e não associei mais o seu humor e o cansaço do cotidiano. Era o vínculo que eu arranjava para explicar o seu comportamento.
— Você sempre faz tudo errado. Não tem um dia que eu consiga chegar a casa e encontrar tudo em ordem. Ou é a roupa suja no roupeiro que não foi lavada, ou a louça que não foi secada. Eu não consigo encontrar a porra de um copo porque sempre estão sujos! – mentiroso.
— Rafael, eu vou fritar mais alguns ovos, não precisa se irritar. – disse cansada querendo acabar a discussão, quando, de repente, senti o prato quebrar na parede ao meu lado. Ele havia jogado próximo a mim! Os estilhaços voaram por toda a sala e tive sorte de não acertar em meu rosto.
Aquilo nunca havia ocorrido. Até aquele momento, eram só palavras e rebaixamentos, então não foi surpresa quando me vi correndo escada acima apavorada. Porém, ele me alcançou assim que terminei os últimos degraus.
— Você vai ficar quietinha, entendeu? – falou exaltado, empurrando-me com força contra a parede.
— Não fique nervoso. Eu só quis te deixar feliz. – precisava acalmá-lo.
— Sua vadia! Eu permito que você trabalhe. Eu permito que você termine o curso de bosta que você faz, mas adianta? Não! Você não faz nada certo!
— Desculpe-me! – balbuciei.
Filho da puta!
— Se você não fizer as coisas como devem ser feitas, se você não me obedecer, eu vou bater a sua cabeça nesta parede até ver o seu sangue escorrer. – sua voz era como uma mãe cantando uma canção de ninar após matar o seu bebê.
— Por favor. Por favor! E-eu não farei mais isso. – chorei enquanto tentava deixá-lo menos irritado comigo. Ele segurava meu cabelo com uma mão e, com o punho fechado da outra, apontava para a minha bochecha ensaiando um possível soco. Como eu já estava sendo machucada psicologicamente, não quis que sua fúria aumentasse a ponto de me ferir. Seu corpo me pressionava contra a parede e se Rafael quisesse me matar naquele momento bastaria apenas me dar um empurrão que eu rolaria escada abaixo.
— Você sabe que eu te amo, Misha, mas parece que você faz tudo para que eu te castigue. Eu posso te quebrar ao meio como se quebra o pescoço de uma galinha. – beijou-me os lábios após pronunciar essas palavras. Eu fiquei em choque e apesar de chorar baixinho isso não o convenceu a me deixar livre.
Ele continuou as suas ameaças sem cessar por mais alguns minutos e vendo a minha submissão, recuou.
— Meu amor, me perdoe por tudo isso. – era a sua vez de se sentir arrependido. Seu pesar parecia tão verdadeiro que em muitas outras vezes, o desculpei na hora. Entretanto não agora. Eu o havia matado em meu coração definitivamente.
— Está tudo bem. Eu faço tudo errado mesmo. – disse passando minha mão sobre o seu rosto dando-lhe um leve beijo de cumplicidade para, em seguida, abraçá-lo.
Naquele momento, tive a mesma atitude de sempre e ele aceitou os meus braços como se tudo estivesse resolvido entre nós. Mas, não estava. Dentro de mim, borbulhava a fúria contida e o medo de me rebelar contra todos esses meses de desrespeito e maus tratos. O que mais me doía era a minha covardia em não fugir. Em aceitar silenciosamente aquela situação que jamais pensara passar ao lado do homem que um dia pensei ser maravilhoso. Mas agora, ele havia me xingado, me humilhado e me agredido de uma forma diferente. Eu enfrentava um turbilhão de emoções.
— Vou descer e arrumar aquela bagunça. – falei para sair logo daquele contato nojento, mas ele segurou o meu braço.
— Diga que você me ama. – pediu.
— Ahh, pare com isso. Eu preciso fritar o seu ovo, não está com fome? – não falaria jamais.
— Misha, você me ama, não ama? – desta vez ele segurou a minha mão.
— Sim. – não.
— Então diga.
— Rafael, eu estou cansada. Eu tentei te deixar contente com o jantar, mas saiu tudo errado. Deixe-me terminar o que eu comecei e depois conversamos. – estava começando a me irritar.
— Eu não gosto deste tom.
— E eu não gosto do seu tom comigo. – falei descendo a escada correndo. – Vou limpar primeiro o chão da sala. Tem vidro para todo lado.
— Volte aqui, Michelle! – ele ordenou de cima da escada e eu fingi não escutá-lo. A minha raiva estava começando a tomar a minha sanidade e desrespeitá-lo poderia ser perigoso, então corri para a cozinha e peguei uma faca pequena escondendo no bolso do avental que cobria o meu corpo.
Sua figura apareceu na cozinha como um tornado.
— Que porra foi essa? – ele gritou. – Você acha que pode dar as costas assim? Você não está entendendo. Nunca mais faça isso ou...
— Ou o quê? – foi a minha vez de gritar. – Você vai me bater? Você vai me xingar? Ou você vai me matar, Rafael? – enfrentei colocando a minha mão no bolso sem que ele percebesse esse movimento.
— Cuidado como que você fala. – ele deu um passo.
— Se você encostar um dedo em mim novamente, eu juro que te denuncio. – ameacei com a voz calma. Seu rosto mudou de raiva para surpresa.
— Eu pedi desculpas.
— Isso não basta para mim. Você está neste momento me ameaçando novamente. Suas desculpas são iguais às suas palavras, não valem nada para mim. Eu vou embora desta casa hoje. Acabou tudo.
— Você não está falando sério, está? – sua arrogância foi embora dando lugar à... Tristeza? Só podia ser piada.
— Estou cansada de ser humilhada. Eu não preciso disso. Fique com a vagabunda que te liga todas as noites. Você não precisa de mim.
— Você não vai sair desta casa, Misha. – ele avançou na minha direção pegando-me desprevenida. Puxando os meus braços para trás, me empurrou por toda a casa até me levar ao closet. Novamente, ele me trancou lá. – Você vai descansar um pouco e amanhã conversaremos sobre isso.
— Seu DESGRAÇADO! EU TE ODEIO!
— Já que você não me deu outra alternativa, tenho que te deixar aí. Agora, eu vou sair para me encontrar com a vagabunda, sua vadia.
— Vadia é a sua MÃE! – chutei a porta com toda a força que eu tinha, mas sendo de madeira maciça seria impossível que ela se movera.
Minutos depois, coloquei a orelha na porta para tentar ouvir alguma coisa. Consegui identificar o som do carro sendo ligado para, depois, se dissipar cada vez que ele se movimentava para fora da propriedade.
Durante os meses que se seguiram desde a primeira vez que ele me trancara no closet, eu me precavi. Eu tinha celulares espalhados em cantos estratégicos da casa. Escondidos para que, em uma situação de emergência, eu pudesse utilizá-los. Além disso, todas as portas tinham chave extra que mandei fazer em um chaveiro meu de confiança e as escondi.
Liguei para a companhia de táxi e exigi que um estivesse em minha residência em um tempo limite de dez minutos no máximo. Peguei as malas do closet e enfiei todas as minhas roupas e sapatos de qualquer maneira desde que tivesse tempo para sair logo. Peguei a minha bolsa com documentos e abri a porta do closet lentamente. Caminhei e olhei pela janela para ter certeza que seu carro não estava mais na garagem.
Desci as escadas olhando tudo ao redor aliviada por estar desaparecendo daquela mansão vazia e sem vida. Estava por sair até a frente da casa, mas resolvi pegar uma faca maior por segurança. A aflição foi aumentando devido ao medo de avistar o carro de Rafael, mas isso não aconteceu. Olhei a marca no meu braço e senti uma pontada um pouco acima da nuca, eu não havia notado, mas ele golpeara a minha cabeça contra a parede. A empresa de táxi chegou e meu coração acelerou ainda mais com a adrenalina revelando a minha vontade de sair o mais rápido possível daquele condomínio.
— Boa noite, senhora. – o taxista cumprimentou após guardar as minhas três malas. – Aonde a senhora quer ir?
— Para a delegacia, por favor. – e assim a minha dor ficou para trás a cada quilômetro que o carro andava.

Comentem sobre o que acharam! Será que Michelle conseguirá fugir desse crápula?

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