A noite estava fluindo naturalmente até duas jovens chegarem até o ator.

— Nick. NICK. – chamaram-no. Ambas estavam elegantes e bem produzidas, então pensei que fossem apenas convidadas interessadas em tirar uma foto e pegar um autógrafo. Ele tentava conversar com as duas jovens que pareciam elétricas. A dança com Jennifer havia terminado, mas ele não chegou a se sentar à mesa, pois as duas mulheres se aproximaram como rapidez.

Nesse momento, deixei de observá-los e atendi ao meu celular que insistia em tocar. Era um número desconhecido.

— Alô? – ninguém respondeu. – Alô?

— Michelle? – todo o sangue foi drenado das minhas veias ao escutar depois de anos aquela voz. Não consegui responder. Não consegui engolir a minha saliva. Não consegui sequer respirar. – Michelle, eu sei que você está me escutando. E-eu demorei a te ligar porque não sabia como você reagiria.

— O que você quer, Rafael? – perguntei temerosa, mas sem demonstrar por minha voz.

— Queria escutar a sua voz. Eu sinto muito, Misha. Eu sinto tanto. – sua voz embargou do outro lado. – Não quero te assustar.

— Como você conseguiu o meu telefone? Quem te deu?

— Por favor, me perdoe. Vamos conversar. Eu estou no Rio e sei que você também. Não queria te atrapalhar na première, mas eu não pude evitar. Estamos tão perto e eu não sei como me aproximar.

Ele sabia onde eu estava e meu corpo começou a tremer. Andei para um lugar mais calmo do salão, sem muito ruído e comecei a procurá-lo acreditando que a qualquer momento Rafael apareceria e me levaria para algum lugar mais escuro.

— Não temos nada para conversar. Acabou tudo.

— Eu sei que está ferida e eu tenho culpa. Estou arrependido. Por favor, apenas me escute. – eu comecei a ficar nervosa e de repente toda a cor havia sumido. Nick estava dando atenção às convidadas que ainda insistiam em conversar com ele. Jennifer bebericava alguma bebida na mesa juntamente com o elenco. Senhor Harry dançava com uma senhora muito elegante. Todos sorriam, exceto eu.

— Eu vou desligar. Nunca mais ligue para mim. – não pensei duas vezes em terminar aquela conversa. Voltei para o salão sorrindo como se nada tivesse acontecido. Dei atenção aos convidados e, depois, aproximei-me de Nick para entender o que estava acontecendo.

— E eu adorei o seu filme. Quando você beija a Jenny! Ahh, foi lindo! Eu te amo tanto, tanto, tanto. – dizia uma quase chorando. Seu inglês era intermediário, mas dava para entender.

— Boa noite, senhoritas. – cumprimentei-as. – Gostariam de alguma bebida? Posso mandar um garçom colocá-las em sua mesa.

— Não precisa. – uma forçou um sorriso.

— Só precisam me dizer o número de suas mesas. – insisti.

— Nós não queremos beber. – a outra jovem falou com mais vigor. – Queremos apenas estar um pouco com ele.

— Senhor Cooper, está tudo bem? – perguntei. – Sua amiga, a senhorita Wilde está te esperando na mesa. – menti.

— Ele já está indo. – a menina me enfrentou. – Cai fora!. – ela estava um pouco alterada e aquilo me chamou a atenção. Não seria motivo de drogas, mas sim de fã louco. Elas com certeza não faziam parte da lista e de alguma maneira conseguiram se infiltrar na festa. Isso estava na cara.

— Hei. Não sejam indelicadas com a senhorita. – Nick fechou a cara. Apesar de suas palavras bonitas, ele já não estava mais tão solícito. – Eu vou me retirar. Já dei autógrafos e tirei fotos. Tenham uma boa noite.

— Nick. – uma segurou o seu braço. – Em que hotel você está? Podemos ir lá, se quiser. – falou sedutoramente.

— Não, obrigado. Estou no Brasil a negócios.

— Segurança, por favor, dirijam-se ao salão onde estou. Fãs conseguiram burlar o sistema e entraram com vestidos de gala. Cambio. – falei no rádio. Rapidamente quatro homens apareceram.

— Queiram acompanhar essas damas. Elas já estão indo embora. – pedi.

— Por favor, deixe-nos ficar. – uma pediu chorando. – Nick, por favor.

Ele, sem olhar para trás, andou para fora da área rumo à mesa.

— NICK! POR FAVOR! EU TE AMO! NICK! – a gritaria no grande salão parou a banda e todos olharam assustados. Os quatro homens tiveram que arrastar as duas para fora em meio a pontapés e xingamentos.

Após alguns minutos de sossego, ninguém parecia se importar mais com o sucedido.

— Senhor Harry, não sei como isso aconteceu. – fui até ele com precaução.

— A culpa não foi sua. Eu já esperava que um astro como ele pudesse de alguma forma transformar esse evento em um sucesso.

— Bombástico. – brinquei tentando amenizar o ocorrido. Deixei Harry em sua mesa e fui até Nick. Ele estava na mesa do ponche servindo-se.

— E o que achou das fãs brasileiras? – perguntei servindo-me também. Eu não beberia, mas precisava de um motivo para estar ali com ele.

— Não sabia o que era pior. Continuar evitando o assédio das duas meninas ou voltar à mesa com a Jenny. Socorro!

— Você sempre me faz rir. Se a senhorita Wilde escutasse tudo isso, acho que não gostaria.

— Ela já se acostumou. E eu não ligo. – brindamos por costume e bebi um pouco do líquido por educação.

— Michelle? – minha taça quase caiu. Nick com um reflexo impressionante conseguiu segurá-la em minhas mãos. O líquido escorreu entre os meus dedos, mas não molhou a minha roupa. – Boa noite, senhor. – Rafael estava atrás de mim. Ele estava a centímetros de mim. Não. Não. Não.

— Boa noite! – Nick o cumprimentou. Seu olhar bailava entre nós dois tentando desvendar o mistério. Eu fiquei atônita olhando para o nada.

— Michelle, podemos conversar em privado? – Rafael perguntou como se estivéssemos juntos ainda.

— Estou trabalhando. – disse. Minhas células se agitaram como se lutassem contra um corpo estranho, como se ele fosse um câncer a ser extirpado.

— Será somente por um minuto. – meus olhos encontraram os de Nick. Ele era um estranho, mas sei que sentiu um pedido de socorro.

— Ela disse que está trabalhando, senhor. – a voz neutra de Nick fez a sua frase parecer normal, mas ele estava tentando me tirar daquela enrascada.

— Desculpe, astro do cinema, mas eu estou falando com ela. Não com você. – aquele jeito dominador apareceu e eu me irritei. Lentamente virei-me para Rafael e me coloquei ao lado de Nick.

— Eu não quero falar contigo. Portanto, me deixe em paz. Não sei como você entrou aqui. Aliás, essa festa está cheia de intrusos. Comunicarei amanhã à empresa que cuida da segurança sobre os penetras da festa. – falei com altivez.

— Eu só quero conversar um pouco, Misha. – rogando com os olhos, ele pediu dando um passo atrás. Aqueles olhos que um dia me compraram com tantas promessas agora eram frios para mim. Eu não caía mais naquele conto.

— Vá embora ou chamarei os seguranças.

— E-eu... – Rafael passou a mão no cabelo. Era um gesto que sempre fazia quando começava a ficar nervoso. – Tudo bem. Eu procurarei uma melhor oportunidade. Só quero que saiba que eu... Me perdoe. Por favor! – ele saiu deixando um espaço aberto em peito que nada tinha a ver com saudades e sim medo. Muito medo novamente.

— Ex? – Nick perguntou.

— É uma longa história... – foi a única coisa que disse. – Preciso ver como estão as coisas na cozinha... Obrigada por me ajudar.

— Tudo bem. Você se esqueceu de que sou um vampiro destemido e herói? – ele fez cara de mau.

— Só não quero ser a sua comida. – ah não. Fiquei vermelha por minha frase parecer tão erótica. – E-eu quero dizer...

— Michelle, por favor. – ele dobrou o corpo para frente rindo da minha cara. Alguns convidados que passavam ficaram curiosos e eu olhei aquele ponche, pronta para colocar a minha cabeça lá dentro. – Por isso que eu paguei o baile. Eu sabia que você seria a melhor companhia esta noite.

— Obrigada por pagar pelos meus serviços de palhaça. – ri. – É um bico que eu faço quando tenho que aguentar atores arrogantes. Parece que funciona entreter a plateia.

— Você é profissional no que faz. – ele continuou.

— Só não jogo o ponche em você porque perderia o meu emprego.

— Ahh! Você liga para isso? Quanto dinheiro você ganharia com as revistas dando entrevistas? “A mulher que jogou bebida no ator de Hollywood”. Acho que cobriria o seu salário por alguns meses.

— Não teria coragem de ganhar dinheiro a custas da desgraça alheia. – falei um pouco mais séria. Ele parou de rir e me analisou.

— Ética.

— Oi?

— Você tem ética. Interessante. Isso não se vê muito atualmente.

— São os meus valores... – comentei. – Realmente eu preciso ir. Obrigada novamente, Nick.

— Oh-oh. Até que enfim ela me chamou pelo nome e não por senhor. Estou me sentindo jovem novamente.

— Que eu saiba você tem mais de 450 anos.

— Sim. Um vampiro velho, mas cheio de energia. – ali estava novamente o seu jogo de sedução.

— Tenha uma boa noite, senhor Cooper. – provoquei.

— Sabia que isso duraria pouco. Tenha uma boa noite, senhorita. – ele pegou a minha mão e a beijou, sem tirar os olhos de mim, como se fosse parte de algum filme antigo e isso me fez imaginar mil e uma coisas em um lapso de meio segundo.

Retirei a minha mão e caminhei para longe dele a fim de evitar uma combustão instantânea. Esse cara me deixou louca. Meu Deus.

Se existia uma coisa que eu não era boa, era em abrir garrafas de champanhe. Não sei por que diabos fui parar na cozinha desesperada depois de verificar a mesa do diretor do filme com as taças vazias.

— Onde está a garrafa? Temos convidados esperando. – gritei para as pessoas dentro do enorme local com cheiro de salgadinhos e petiscos saborosos. Minha diretora resolveu mudar o Buffet e apostar na culinária brasileira de festas de aniversário. Pela cara das pessoas, estava dando certo. Avistei uma garrafa no balcão e rapidamente a peguei. Tentei abri-la, mas a tampa não saía.

— Aii só mais um pouco e...

— Não! – uma voz masculina carregada de sotaque tentou me avisar, mas era tarde demais. A rolha voou em direção ao meu nariz me golpeando com força. O líquido molhou parte do meu vestido além de causar um alvoroço na cozinha quando direcionei a boca da garrafa para longe de mim. O grito das garçonetes feriu o meu ouvido e quando percebi, eu não era a única a ficar molhada.

— Meu nariz. – a dor excruciante me deixou tonta e corri para a porta dos fundos com um guardanapo de pano que peguei no caminho. – Merda! O que farei com o meu vestido? – olhei para o céu sem acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. A noite estava linda e a grande lua iluminava a calçada desenhada do lado de fora.

A porta se abriu lentamente rangendo como se fosse um filme de terror.

— Você está bem? – um jovem rapaz me perguntou. Oh meu Deus! Nick Cooper novamente.

— E-eu estou bem. – respondi em inglês. – Aconteceu algum problema? Eu posso resolver.

— Hei. – ele sorriu. Devia parecer patética com o nariz vermelho. – Eu tentei te avisar sobre o champanhe.

— Foi você? Chegou atrasado. – falei levando a minha mão ao nariz.

— Prometo não te chamar de palhacinha.

— Era para ser uma piada, senhor Cooper?

— Era... Mas desta vez não arranquei um sorriso seu. Preciso praticar mais.

– Shhh! – pedi silêncio. – Você está escutando isso?

— O quê? Este som? Devem ser as minhas fãs.

— Elas estão... Merda! – gritei, correndo para dentro da festa sabendo que o alvoroço havia se formado. Talvez para ele não fosse nada, mas uma invasão de adolescente no cio não seria uma boa recordação. Estaria despedida no dia seguinte.

A confusão no salão me deixou atônita. Todos procuravam por Nick. Ele apareceu ao meu lado para ver o pandemônio. Eu, imediatamente, o empurrei para o escuro dentro de um armário na cozinha.

— Você fica aí se quiser continuar com todas as partes de seu corpo. Está uma loucura lá fora. Os seguranças estão tentando retirar os fãs. Se elas te pegarem vão arrancar pedaços de sua pele para levar de recordação. – Nick apenas assentiu ao ver que eu não estava brincando.

— Aqui não é diferente do meu país. Mas, como sairei daqui sem ser notado?

— Eu tenho uma ideia. Sou precavida. Espere que eu já volto.

— Eu não vou colocar isso. Não mesmo.

— Você vai!

— Eu não preciso fingir que sou mulher.

— Não é isso. Você colocará apenas uma roupa comum, bermuda e camisa de homem e usará essa peruca loira. O cabelo nem é tão comprido para você reclamar assim. Anda logo.

— Não acredito nisso. – resmungou. A pequena sala tinha espaço suficiente para Nick se trocar. Eu havia trancado a porta e apagado a luz. A luminosidade vinha do lado de fora. Ele retirou o paletó e quando ergueu a camisa, pude notar o abdômen definido. Virei os olhos para o outro lado, mas estava plantada a curiosidade em minha mente fértil. Será que todo o seu corpo era grande e totalmente definido?

— Pronto. Quando o olhei, Nick estava com a peruca. – eu gargalhei. – Típico surfista carioca.

— Com sapato social? É assim que eles se vestem aqui?

— Não, mas ninguém vai olhar para os seus pés. Você é chamativo por natureza.

— Eu só preciso trocar de roupa para parecer como você, senão notarão logo. A imprensa não está na parte de trás da casa noturna, mas a discrepância de roupas chamará a atenção. Só vire-se para que eu possa me vestir.

— E perder esse show?

— Senhor Cooper, estou quase mudando de ideia sobre deixar o seu corpo intacto. Quer que eu grite o seu nome aqui?

— Está bem. Eu me viro. – falou dando-se por vencido. Coloquei um vestido florido bastante feminino e casual que ia até o joelho. Havia levado um sapa tênis que combinava e dei graças a Deus por tirar aquele salto fino. Meus pés ao tocarem o chão frio pularam de alegria agradecidos.

— Pronto. Vamos sair dessa confusão. – deixei os comandos a todos os guardas e expliquei por rádio o que estava fazendo. Senhor Harry foi instruído e comunicado pela causa da minha saída. Eu coloquei uma peruca preta para disfarçar o meu loiro. Todo cuidado era pouco se tratando de um ator como Nick Cooper.

Saímos lentamente pela cozinha até a porta de trás. Os cozinheiros pararam tudo que estavam fazendo para ver a confusão já controlada no salão. Passamos pela porta e recebemos o ar fresco da noite.

— Ali está o táxi que eu chamei. – apontei. – Do outro lado da rua.

— Mas, as pessoas que estão perto da entrada da casa noturna terão visão.

— Eu sei, por isso a peruca e a roupa. Vamos andando calmamente como se fôssemos turistas e dará tudo certo. Segure a minha mão. – Nick prontamente obedeceu.

Nossos passos eram lentos como se estivéssemos passeando de fato. A distância que nos separava do táxi parecia tão maior e a confusão perto começou a me deixar em pânico. Um grupo de meninas gritaram “tem uma porta naquela rua”. Sem pensar muito me encostei ao muro e puxei Nick para um beijo. Ele tropeçou com o susto, mas entendeu a estratégia. Seu corpo imprensou o meu levemente. Não fora um beijo, apenas um toque de nossos lábios para que pensassem que éramos um casal namorando em uma rua escura. Apesar de não haver língua, eu senti sua calça um pouco mais esticada entre minhas pernas. A sensação de sentir o seu corpo junto ao meu foi deliciosa. Passei minhas mãos por seus cabelos e movimentei a minha cabeça para dar credibilidade àquela cena. Elas passaram sem dar muita importância.

— Esse foi o pior beijo que eu já dei em alguém. – ele disse quando o empurrei a contragosto.

— Digo a mesma coisa. – segurei a sua mão e andamos mais rápido até o táxi.

Ao adentrar-nos pedi para que o motorista me levasse até a Barra da Tijuca já que Nick não tinha ao menos um Hotel para ficar.

— Você não cuidou nem deste detalhe? – não podia acreditar.

— Eu resolvi cometer uma pequena loucura sem pensar em nada.

— Mas você não é uma pessoa comum, Nick.

— Eu sei... – ele olhava a paisagem da cidade pela janela. Sentamos atrás do carro para conversarmos baixo entre nós. Não queria que o taxista escutasse muito e roguei para que ele não soubesse inglês. A notícia do rádio me chamou a atenção.

O ator Nick Cooper causou tumulto na première do filme A maldição da lua. Sua chegada foi marcada com histeria entre fãs além de ocasionar uma pequena invasão em um evento beneficente em que participou. As autoridades estão procurando por ele que desapareceu logo quando a confusão se armou.

— Ligue agora para a sua assessora e passe o endereço do meu apartamento. Estamos indo para lá.

— O que houve? – ele perguntou um pouco assustado.

— A polícia está te procurando. – ele pegou o seu celular e conversou com alguém que estava alterada e gritava com ele.

— Fique calma. Eu estou em boas mãos. – ele sorriu para mim totalmente tranquilo. – Sim. Eu sei. Pode deixar, Kathe. Mando notícias assim que puder. Amanhã mesmo retornarei aos Estados Unidos.

— Pelo que vejo, serei a sua salva-vidas esta noite. – comentei quando Nick desligou o celular.