Notas iniciais
Boa leitura! ♥

—Ignis isto não tem graça, eu preciso voltar ao pavilhão agora!

De fato não tinha a menor graça, sua superior havia ordenado que aplicasse as lições de furtividade para os recrutas da arquearia, às vezes acontecia de Yukina sumir e deixar alguma tarefa, como era o caso. No entanto assim que Áurah começou as explicações para os novos soldados, Ignis irrompeu no pavilhão puxando a amiga pelo braço enquanto andava a passos rápidos para o mais longe possível. Não dizia uma única palavra enquanto demonstrava fisicamente a tensão sobre seus ombros, volta e meia virando-se e pedindo rispidamente por silêncio. Ignis é uma pessoa complicada de se entender, mas nada muito complexo quando se merece sua confiança, nada era feito sem motivo, principalmente se tratando de alguém que foi obrigada pelo mundo a crescer antes do tempo. Áurah sabia bem disso, mas nada mudava o fato que tinha recebido uma tarefa e precisava cumpri-la, desvencilhou-se da mão da mais alta e se retirava enquanto massageava o pulso.

—Se não vai me dizer o que é podemos nos falar outra hora, eu preciso voltar aos meus afazeres.

—Espera!

Estagnou por um segundo e olhou a maior de cima a baixo notando algumas coisas, a primeira delas eram as olheiras profundas em seus olhos. Depois os cabelos, normalmente perfumados com incenso e penteados com esmero estavam desgrenhados demais e entulhados num rabo de cavalo de qualquer jeito que pendia para o lado esquerdo. Sua franja estava sem sentido e cobria uma metade do seu rosto ampliando o jeito decrépito que a cigana se encontrava. Sua pele queimada de sol estava pálida e o cheiro de canela havia sumido. No lugar das estampas, das cores vibrantes e dos tecidos de diferentes tonalidades estava apenas o preto. No lugar dos chinelos ou pés descalços, botas pesadas ocultavam seus pés e uma longa capa de pele negra ocultava a silhueta delgada e forte, o capuz cobrindo parte de seu rosto e o olhar de ligeiro pânico mostrava que algo definitivamente estava errado. Ignis estava se escondendo, Ignis nunca se escondia.

O semblante de impaciência deu lugar ao de preocupação, a pose autoritária deu lugar a uma caminhada rápida até a figura encapuzada e pálida que estendia a mão pedindo que ela não fosse embora. Áurah fez menção de tocar-lhe o rosto, mas a de negro desviou de sua mão abaixando a cabeça. Puxou a borda do capuz três vezes, um sinal entre as duas que significava “as paredes tem ouvidos e o teto olhos”.

—Eu não tenho muito tempo e precisamos conversar rápido. Pode me seguir, por favor?-Sua voz saiu quase inaudível, mas alta o suficiente para quem precisava ouvir-la.

[...]

—Estamos seguras aqui dentro, sinto muito pelo escuro, mas não me sinto bem o suficiente para acender uma vela pra você poder enxergar. Estamos na despensa do refeitório, aqui podemos conversar, a gritaria dos soldados abafa tudo.

—Ignis, o que está acontecendo?

—Uma das minhas labaredas me traiu, e agora tem algumas pessoas atrás da minha cabeça. Isso não é problema que eu não possa resolver então fique tranquila, só estou, meio esgotada.

—O que você vai fazer?

—Vou ficar fora por uns tempos, eu preciso que você entregue um bilhete meu para Atlas e avise aos capitães. Áurah, eu sinto muito, mas não poderei estar na cidade a tempo para o seu aniversário, me desculpe.

O interessante de um abraço no escuro é que você não vê, apenas sente o calor e ouve os batimentos da pessoa perto dos seus. Áurah no meio de seu tropeço afundou o rosto nos cabelos sujos da amiga ignorando tudo aquilo que a fazia não ser ela mesma, estava preocupada e a criança que estava dentro de si estava triste. Ignis depois de grande começou a acumular brinquedos numa tentativa de recuperar algo perdido que nunca tivera, muitas vezes ela e Zoe passavam a tarde brincando e desenhando juntas. Saudade machuca e todas no recinto sabiam muito bem sobre isso.

—Só volta inteira tá? Toma cuidado.

—Eu vou compensar vocês, eu prometo.

No escuro sua voz pareceu se alegrar, embora o sono estivesse estampado nela.

—E vocês nem imaginam como.

No dia seguinte Áurah se dirigiu até a “Olho de Dragão”, uma taverna nem um pouco modesta e bem cuidada que tinha preços e bebida para todo tipo de pessoa que adentrasse o local. Parou em frente a entrada do lugar encarando a placa por alguns segundos, na madeira escura um olho amarelo fora habilmente pintado sobre um fundo vermelho e o nome estava escrito em letras de metal acima do símbolo. Era praticamente o brasão do lugar, famoso e conhecido por qualquer tipo de pessoa, qualquer tipo mesmo. Ali dentro a amiga atendia pelo nome de Zaira e era apenas uma garçonete hábil em apartar brigas de bêbados, mas para quem trouxesse o ouro e a senha corretos, a coisa mudava de figura. “É o que normalmente acontece quando se é uma traficante de informações” Pensou enquanto adentrava no lugar, independente do horário sempre estava cheio, mas naquele dia um bardo famoso se apresentava. Era o dia onde os clientes paravam de prestar atenção em seus copos e focavam nas palavras daquele que cantava uma história, a garota de cabelos negros demorou-se um pouco no salão para ouvir a história. Um bonito conto sobre uma dríade de cabelos da cor de chamas e olhos da cor de orvalho. O bardo notou sua presença em meio à plateia e lhe deu uma piscadela, Zoe achou divertido, Áurah nem tanto. Resolveu fazer logo o que tinha que fazer e ir embora, a morena foi até o balcão chamando por uma garçonete chamada Lila. Uma menininha sardenta e magrinha que parecia que iria cair com um simples golpe de vento, seus cabelos acobreados e vermelhos se agitavam enquanto ela corria de lá pra cá atrás do balcão de mogno bem encerado. Estava com uma garrafa de bebida na mão enquanto se desculpava repetidamente com um cliente que aparentemente não havia pedido nada, Áurah a conhecia de vista. Tudo o que sabia a respeito da menina era que Ignis a treinava e a instruía naquele ofício, além de tratar os conhecidos de uma forma irritantemente formal. E ela não era exceção à regra.

—Senhorita Áurah! Como está?

—Bem obrigada, as coisas parecem meio corridas hoje.

—Corridas? Está tudo um caos!-Disse enquanto colocava pela sétima vez o odre de vinho em seu lugar e procurava em meio às prateleiras uma garrafa de hidromel enquanto um dos clientes lhe gritava e ela o respondia com esforço para ser ouvida.

—Atlas está aqui hoje?

—Eu não vi papai o dia todo.

Um dos garçons que saía da cozinha falou enquanto passava que ele estava no escritório. Áurah agradeceu e pediu licença ao sair, mas Lila não ouviu. Enquanto subia as escadas em direção ao escritório da taverna tentava se lembrar da aparência do patrão de Ignis, eles já foram apresentados uma vez em um jantar. Até onde se lembrava Atlas era um homem bem humorado que apesar da idade era mais um menino grande demais, obviamente como qualquer adulto era centrado quando se tratava de alguns assuntos e era um especialista quando se tratava de finanças. Até onde se lembrava, Lila era seu maior tesouro e não havia nada em sua mente a respeito de sua esposa, se é que ele tinha alguma. Apesar de nunca admitir para a amiga Áurah sabia que Ignis tinha um grande carinho pelo patrão, a prova disso era que sempre que viajava arranjava uma forma de avisar e justificar sua ausência, além de sempre parecer guardar toda a paciência para instruir sua filha.

A porta do escritório se encontrava entreaberta e era possível ouvir sons de uma batida de metal leve e repetitiva, bateu na porta assim mesmo e uma voz alegre a convidou para entrar. O chão do escritório estava sujo de tinta, raspas de madeira e pedaços da mesma, o dono do estabelecimento estava sentado em uma confortável poltrona e parecia estar montando um trenzinho de brinquedo. Olhando ao redor Áurah pôde ver vários brinquedos nas prateleiras, todos provavelmente feitos pelo adulto grande e rechonchudo que se divertia pintando a cabine do maquinista com um pincelzinho fino. Zoe ficou morrendo de vontade de brincar com cada um daqueles brinquedos, Áurah prometeu que fariam isso em outra ocasião. Atlas era um homem relativamente grande, tinha um rosto ligeiramente redondo, seus cabelos curtos e revoltos eram castanhos com fios brancos assim como sua barba bem aparada e passavam uma impressão de jovialidade. Seus óculos estavam na ponta do nariz e suas mangas arregaçadas, tinha tinta seca nas mãos e provavelmente farpas nos dedos. Em cima da mesa havia um porta retrato, o conteúdo deste pouco importou à mulher que observava aquela cena da soleira da porta.

—Boa tarde minha jovem! Em que posso ajudar?

—Boa tarde, meu nome é Áurah, eu sou amiga da Zaira.

Atlas se levantou limpando as mãos em uma flanela e estendeu a mão para cumprimentar a mais nova e acabou por trazê-la de volta, pois esta estava suja. Se desculpou pela grosseria e lhe ofereceu uma dose de conhaque.

—Eu agradeço o gesto, mas se não se importa estou com um pouco de pressa. Vim apenas trazer um recado.

—É de Zaira? Como ela está?

—Bem, imagino que tudo esteja esclarecido aqui. -Disse lhe estendendo o envelope pardo.- É dela.

Ele limpou as mãos na flanela outra vez e ajeitou os óculos enquanto lia a carta, à medida que lia sua expressão séria se suavizava dando lugar a um pequeno sorriso. Guardou a carta em uma gaveta e fez algumas anotações em um pequeno caderno.

—Eu estava esperando por isso, não é a primeira vez que Zaira some assim.

—Zaira sabe se cuidar...

—Imagino que sim, obrigada pela visita senhorita.

Áurah respondeu com um aceno de cabeça e saiu do cômodo enquanto seu ocupante voltava para sua poltrona.

—Uma criança grande com certeza...

Enquanto saía viu que o bardo a seguia com o olhar, não pôde deixar de revirar os olhos enquanto ia embora. Zoe ria em seu interior.

—Eu tenho a mãe mais linda do mundo!

[...]

Semanas se passaram, semanas que Áurah passou comprando coisas e convidando pessoas. Em breve ela comemoraria seu aniversário, não só o seu, mas o de Zoe também. E a pequenina adorava festas. Seria o dia onde ela comeria o quanto quisesse, beberia o quanto quisesse e dançaria até seus pés doerem. Seria um dia feliz e livre de preocupações, um dia que ela gostaria de passar com seus amigos, todos eles. Mas Ignis ainda não havia voltado.

[...]

A festa de aniversário da djinn foi magnífica, começou ao fim da tarde e só acabou com o anoitecer do dia seguinte. A grande maioria de seus amigos poderia ter tido treinamento militar, mas aquela comemoração esgotou qualquer soldado bem treinado. Todos dançaram, cantaram, jogaram e lutaram apostando uns contra os outros por pura diversão. Uma festa típica do exército haeroniano com mais comida do que qualquer um pudesse comer e bebida suficiente para nadar nela, e quem disse que não o fizeram? Foi uma comemoração épica que rendeu várias histórias e anedotas por semanas, finalmente foi compreendido o termo “ressaca sem fim”. Desde o aniversário de Áurah, se passou um mês e Ignis voltou para Ibahats, se abraçaram, conversaram bastante e beberam até cair. A amiga contou que depois de subornar e ameaçar algumas pessoas o seu antigo problema agora não passa de uma lembrança, e só precisou simular um assassinato para que tudo desse certo.

A lua estava alta no céu quando as amigas decidiram ir dormir, Áurah foi para a cama, Ignis estava desmaiada em meio a uma pilha de almofadas no chão. Ressonava levemente com um sorriso no rosto e pelo jeito não acordaria tão cedo, de manhã as meninas tomavam café e conversavam animadamente sobre coisas das mais triviais. Quando acabaram a refeição foram até a casa de Ignis, Áurah não entendia o porquê, mas não questionou. O vestido turquesa e o lenço roxo na cabeça da mais alta demonstravam que tudo estava como deveria estar.

—Eu te disse que iria te compensar de alguma forma não é?

A cigana conduziu a djinn até seu quarto com um sorriso nos lábios rubros mostrando o item delicado sobre a cama.

—Sempre trago algo nas minhas viagens, dessa vez é pra você.

Em cima dos lençóis perolados estava um belíssimo vestido, era de alça e longo. Era de um azul safira profundo da cor do céu, sua saia era rodada e a bainha estava decorada com pinturas de penas de pavão. Não era decotado demais embora mostrasse boa parte do colo, ao lado do vestido estava um lindo xale de tecido transparente bordado com pequeninas estrelas de prata. Além disso, um conjunto de joias de prata decorada com ametistas, safiras e esmeraldas faziam saltar os olhos. Havia braceletes, pulseiras, anéis e um colar de granada, no centro do pingente maior estava pintada a imagem de um pavão. Aos pés da cama delicadas sandálias de amarrar, eram da cor do vestido e enfeitadas com estrelinhas prateadas. Áurah não conteve a expressão de surpresa, embora estranhasse toda aquela costura e pedraria, não parecia o tipo de presente que Ignis lhe daria, principalmente por estar misturado com um pedido de desculpas. Seus presentes costumam ser mais, profundos.

—É muito bonito, eu não posso aceitar.

—Você pode e vai! Ande, se vista logo!- Disse a empurrando para perto da cama. -Eu vou trocar de roupa também, você tem trinta minutos.

—Vamos a alguma festa?

Ignis se limitou a um sorriso e fechou a porta.

[...]

—Não sei pra que esse suspense todo, e você até chamou um cocheiro.

Estavam em uma carruagem há uns bons quarenta minutos, desde que entrou Áurah bombardeou a amiga com perguntas, olhares e ameaças. O alvo destas apoiou o queixo sobre uma das mãos e ouvia a tudo atentamente com um sorriso peralta, porém doce. Estava com algo na mente, mas o que seria?

—Desculpa por todo o transtorno, mas espero que valha a pena.

Desceram fora dos limites da cidade, uma fazenda ligeiramente pequena, porém bem arrumada e decorada. Com uma estradinha asfaltada de pedras polidas que iam da entrada até a pitoresca casa, a djinn não estava entendendo nada embora tenha seguido a amiga até aquele local. Na frente da casa Ignis tirou um caderno da bolsa de couro e folheou até chegar em um desenho colorido, nele estava uma roupa de criança em tons de roxo e turquesa. Era esvoaçante, simples e bem bonito, mostrou o desenho à Áurah.

—O que Zoe acha desta roupa?

—Se tirar esta parte e colocar algo de amarrar fica bonito.

Ignis desenhou por cima do desenho fazendo as alterações que Zoe lhe indicara, após isso guardou o caderno e tocou a sineta da porta. Segundos depois uma moça a abriu, seus cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo e ela parecia atarefada com algo, suas roupas estavam amarrotadas e seu avental sujo com nuances das cores do arco-íris.

—Pois não?

—Viemos ver Dalila.

—Sabem como funciona?

Ignis assentiu entregando quatro peças de ouro para a mulher que guardou o dinheiro e entrou novamente com pressa, chamou por alguém e uma senhorinha veio à porta. Áurah estava achando aquilo tudo muito estrando, principalmente ela entregar tanto ouro assim, com aquela quantidade era possível comprar comida para seis meses e ainda sobraria dinheiro.

—Tia Dalila!- Disse dando um caloroso abraço na figura corcunda.

—Como está Zaira? Entre minha querida, está é a moça de quem você me falou? É muito bonita.

—Obrigada senhora. – Respondeu enquanto era puxada para um abraço, notou que aquela velhinha cheirava a flores.

“Como uma fada” Pensou Zoe.

Ignis entrou na casinha bem mobilhada acompanhada da amiga, ela conversava com Dalila animadamente como se esta fosse de fato uma tia muito querida.

“Mas não é tia de Ignis de verdade” Pensou “Ela não tem mais nenhum parente vivo”

—Zaira. –Disse se aproximando da cigana. – Pode me explicar por que estamos aqui?

—Dalila vai pintar um retrato seu, ela é a melhor pintora que eu conheço. -Disse com um sorriso de orelha a orelha.

Áurah ainda achava tudo aquilo estranho, tudo isso para um simples retrato? Não estava fazendo pouco caso do presente, estava muito feliz por isso na verdade, mas é que parecia que algo estava faltando ali. Parecia que tinha algo mal explicado. Mas não disse nada, conhecendo a amiga como conhecia, sabia que mais cedo ou mais tarde tudo seria esclarecido. As duas conduziram a djinn até a varanda onde ela se sentou em um banco suspenso, pediram que ela juntasse as pernas e apoiasse as mãos em cima do colo.

—Nada de estragar a surpresa. -cochichou em seu ouvido, Ignis estava falando com ela ou com Zoe?

O cavalete foi montado e uma grande tela retangular foi apoiada em cima dele, a simpática senhora vestiu seu avental de trabalho e começou a colocar seus pincéis em ordem.

—Vamos fazer pausas de quinze em quinze minutos para você descansar, enquanto isso minha querida, se mova o menos possível. Zaira meu bem, trouxe o que eu te pedi?

—Aqui. – Disse folheando seu caderno outra vez e mostrando uma página.

—Que gracinha, muito bem, vou começar, não fique na minha vista está bem?

Ignis assentiu e sumiu pelos corredores. Uma atmosfera estranha preencheu o ar da varanda e Áurah se sentiu desconfortável, mas resolveu ignorar isso, não tinha motivo para medo, só estava sendo pintada para um retrato, não estava?

[...]

—Áurah! Acorda!

Batidas repetitivas e firmes ecoavam de sua porta, o sol havia acabado de nascer e tinha uma cigana eufórica gritando em sua porta a plenos pulmões. Levantou-se de má vontade ajeitando os inúmeros cachinhos negros da melhor forma que podia, abriu a porta com a visão cerrada pelo sono e pelo mau humor de ser acordada em pleno fim de semana.

—O que é?

—Lembra que semana passada fomos em tia Dalila e ela pintou você?

—Acho difícil esquecer-Disse limpando os olhos- achei estranho que não pude nem ver o meu retrato.

—Então! Eu acabei de voltar de lá! Ele está pronto!

Dizendo isso entrou com o grande embrulho de tecido retangular, saltitava como uma criança e Zoe não deixou de achar graça nisso. Em respeito a amiga Áurah tentou parecer o mais interessada possível, tudo o que queria era voltar pra cama. Ignis deu a volta e ficou no meio da sala com o quadro na frente de si, segurava as amarras do tecido e tinha uma faca na outra mão para desfazer a proteção de tecido e exibir a obra de arte.

—Pronta?

A menor fez que sim com a cabeça, assim que ela cortou as amarras e o pano caiu suavemente sobre o chão a cigana viu a expressão da amiga mudar completamente. Tinha uma mistura de sensações em sua face; carinho, surpresa, nostalgia, dor, alegria. A djinn chegou mais perto do quadro boquiaberta e já sentia as lágrimas rolando, Dalila não havia pintado apenas sua imagem no quadro, do seu lado, em pé e sorrindo com margaridas nas mãos estava Zoe. Vestindo a roupa que Ignis havia desenhado e lhe mostrado aquele dia, delicadamente tocou o rosto de sua menina na pintura, nenhum detalhe escapara, desde os cachinhos castanhos aos olhos lilases e redondos. Estava tudo ali, até o menor dos detalhes que com o passar dos anos Áurah estava começando a esquecer.

“Gostou do presente mamãe?” Disse Zoe em sua cabeça;

—Como...? -Saiu um fio de voz tocado pela emoção.

—Dalila consegue enxergar através das pessoas, ela consegue enxergar as almas daqueles que já partiram e daqueles que ainda estão aqui. Eu não sabia se ela conseguiria ver Zoe, mas eu tinha que tentar. Por que vocês nunca haviam feito nada semelhante, eu queria te dar algo que fizesse lembrar que mesmo que você não consiga vê-la vocês ainda são uma família, eu queria te dar algo para se lembrar dela. Queria te dar um lugar para olhar que não fosse para dentro de si mesma.

Ignis recostou o quadro com muito cuidado em uma parede sentindo o rosto molhar, ela não chorava, mas naquela ocasião não tinha escapatória certa. Puxou a amiga para um abraço apertado com a felicidade batendo no peito. Uma confusão de cachos negros, uma confusão de emoções, uma confusão de alegria. Não pode evitar dar o comprimento atrasado com a voz trêmula.

—Feliz anivesário Áurah, feliz aniversário Zoe.

Notas finais
Espero que tenha gostado meu amor :3 MACONHA
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!