Um pouco mais sombria 2.0

1 Um pouco mais sombria 2.0


Sou um jaguar, perambulando pela noite com os anseios guardados numa vitrola. Subo nas árvores, vejo todos: as luzes, os gritos, porém ninguém me vê, e é isso que me assusta, a cidade nunca dorme, e provavelmente sobre o efeito dalgum psicoativo.

Imagino o que eles pensam, e a dor que carregam no coração. Não posso adormecer antes de terminar isto, parece infindável. Afinal, os residentes noturnos estão de olhos fechados, ou em devaneios inconscientes, ou com línguas sedentas de bocas e sereno.

Se deslizo, consigo olhar para o chão, para proteger o meu rabo, avisto cães, correm pelas ruas, pergunto-me como os botecos, boates e becos não os enxergam, “eles vêm ao encontro de vocês!”, exclamo e logo lembro que sou um jaguar, que só sente fome e age por instinto.

Eu queria me permitir ser nocauteado, porém a cidade parece tão bela daqui de cima, soa tão cruel, e tão fugaz, permanente como uma bolinha de gude na mão de uma criança amnésica.

Meu desejo pela fuga aumenta, minhas pernas ganham vida, e sou apenas um animal, com fome, desejos e uma vontade imbatível de voar. Dizem que só anjos, com uma garrafa de uísque brilhante, podem alçar voo... Os pássaros podem ser tigres que ganharam asas, demonstram suas fragilidades e põem-se inofensivos, como o louva-deus que espera o ataque para matar o gafanhoto.

As pessoas tendem a chorar, e quando olho para o céu, pergunto-me o tamanho do ser humano e de seus sentimentos tão complexos como as estrelas. Qual seria o motivo de tantas lágrimas? Há os becos, bebidas de marca, mulheres de renome e homens utilizáveis, e a vida não é somente isso?

Elas andam em retas, carregando nas costas tremendos sonhos e pesos, pequeninas e inofensivas, chamam isso de liberdade, soa muito mais real um voo, do que um debate numa gaiola fechada.

Queria ser navegador, varar os prédios velejando, observar românticos e poetisas.

São 4:04 da manhã, há um homem na esquina, bebe um líquido escuro e traga um mísero palito. Seus olhos estão amarelados e não são naturais feito os meus. A noite é um pouco mais sombria bem antes do amanhecer.

Ohh, são ossos de verdade, agitam-se esperando que as máculas saiam com o suor. Espera, aquilo é um filho, numa bicicleta, no meio da noite? Meu Deus, é uma arma. Santa árvore.

Se no início dos tempos perguntassem a nós, irracionais, qual o nosso maior desejo, o que responderíamos? Quando fecha os olhos e pensa no mundo, o que vê?

Onde está o Sol, senão aqui dentro de mim?

Estou triste, e não sei o motivo. Na meia distância de dois quarteirões toca uma melodia baixa, lenta, de uma caixinha de música, fúnebre. Papai morreu.

A cidade nunca dorme.

FIM

16/05/15

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