Já fazia um ano desde que tudo acontecera. Parte de mim tentou reprimir tudo daqueles dias, não havia nenhum motivo para acreditar que qualquer coisa houvesse resistido a destruição e menos motivos ainda para acreditar em qualquer coisa que saísse da boca de Setrákus Ra. Eu mesmo não teria sobrevivido se não fosse por Seis.

Entretanto, quando encontrei Marina próxima aquela ilha, tudo mudou. Se Cinco havia sobrevivido aquilo, mais alguém poderia.

Nos dias seguintes eu tentei colocar minha cabeça no lugar. Não era possível. Ela estava morta, eu a toquei, eu tentei curá-la, eu sofri sua partida. Mas agora eu não tinha tanta certeza.

Havia algo que nunca contei a ninguém, não que eu tivesse tido a oportunidade já que parti assim que pude, mas quando estávamos sós, eu e Setrákus Ra, enquanto eu o curava na tentativa de eliminar aquela gosma preta e ela me matava em troca, ele me falou sobre ela.

— Ela ainda está viva, você sabe? – disse Setrákus entredentes por causa da dor. – Aquela humana que você tanto ama está viva por minha causa. Pare agora que eu te levarei até ela.

Eu já estava fraco e não conseguia nem mesmo responder. De qualquer forma, a menção ao amor da minha vida, cuja ausência estava me destruindo, foi o que eu precisava no momento. Eu precisava lembrar que ele era o culpado. Se ela estava morta, e com ela uma parte de mim, era por causa do que ele tinha feito, de toda destruição que ele tinha causado. Muitos se culparam por isso, Seis, BK e até mesmo Ella, mas a culpa era dele e de ninguém mais.

A raiva por tudo que ele havia me causado foi o que me deu força para continuar a curá-lo. Eu me sentia quebrado e era tudo culpa dele. Seria honrado falar que estava fazendo isso por Lorien, me vingando por toda minha espécie, mas a verdade é que naquele último momento eu estava fazendo por ela. Setrákus Ra não havia só me tirado meu planeta, minha família e meu Cêpan, ele me tirou a única chance que eu via em ter um futuro.

Nos últimos dias eu tinha me sentido furioso, mas vazio. Eu só queria terminar com tudo aquilo e se eu fosse junto não me importava mais. Não havia nenhum motivo para viver depois dessa guerra que foi toda minha vida. Sei que parece exagerado, como qualquer outro amor adolescente, mas acho que Henri sempre esteve certo sobre isso, o amor lorieno, para alguns de nós, é pra sempre. Ali naquele momento, eu me sentia em paz.

E foi por tudo isso que não o escutei. Setrákus Ra saberia o quanto aquilo me afetaria e em outros momentos poderia ter me parado, mas não mais. Eu sabia que ele estava blefando para se salvar e não poderia deixar que ele saísse livre depois de tudo. Eu tinha aceitado meu destino e ele teria que aceitar o dele.

Depois de passar o último ano me recuperando e tentando encontrar um sentido em ainda estar aqui na Terra, resolvi que não havia motivo em pensar nas últimas palavras de um mentiroso e as escondi na minha mente. Acho que nem mesmo Ella deve ter sido capaz de ver isso em alguma de suas espiadas telepáticas. Agora, entretanto, era tudo que eu conseguia pensar.

A verdade é que nós também vimos Cinco morrer, ser sugado para dentro de toda aquela gosma negra, e uma semana atrás eu o vi. Vivo. Eu sei que ela estava morta quando eu a encontrei, que não havia como curá-la, mas também sei que nós nunca a vimos ser enterrada. Mark James a levou naquela mesma noite para Paradise, ou pelo menos era o que pensávamos. Alguns dias depois ele estava junto com os morgadorianos que atacaram Patience Creek.

Aparentemente, Setrákus Ra tinha aparecido em seus sonhos e prometido ressuscitá-la. Nunca soube se Mark realmente recusou essa proposta ou se ele a levou até Setrákus Ra. Se ele tiver levado, teria como ser verdade? Ella voltou a vida após entrar em contato com Legado, como ela chama a entidade lórica do Santuário, por que não poderia acontecer de novo?

Agora tudo que eu consigo pensar é que preciso saber a verdade. Eu preciso saber se Sarah Hart está viva.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.