Era mais um dia nublado, de verão, mas nublado. Acordar cedo estava sendo um grande sacrifício, mesmo assim, era o primeiro dia de faculdade, mas não me animava ver aquelas pessoas com sorrisos e contando de suas férias maravilhosas, e do amor de verão que tinham encontrado aquilo me entediava. Eu já não acreditava em amor, ainda mais de verão, aqueles garotos que se sentiam homens, mas só se sentiam, surfistas, loiros parafinados e de pele morena do sol, com corpo sarado, todo molhado após sair do mar, aquilo não me interessava nenhum pouco, eram como manequins, belos por fora, ocos por dentro.

Estava deitada ainda em minha cama, até minha mãe resolver me chamar, apesar de não ter nenhuma vontade de levantar. Ficava tentando pensar nas coisas boas em ir para a faculdade, fora o fato de finalmente estudar para o que eu vou fazer da vida, infelizmente, só encontrei uma, minhas amigas, o resto, era resto, porém nem mesmo minhas amigas me faziam ter vontade de ir para a faculdade, passar oito horas em uma sala tanto de estudos quanto biblioteca, com professores que falam grego, alemão, italiano, tudo menos português.

Respirei fundo e abri os olhos após minha mãe me chamar pela terceira vez, há qual respondi com um grito carinhoso.

– Já estou quase pronta!

Ainda não havia nem mesmo me descoberto. Após mais alguns segundos de meditação para criar coragem, sai da cama e fui para meu banheiro tomar banho. Sentia aquela água me molhando como se fosse uma cachoeira em um dia bem quente, uma sensação relaxante. Enfrentar a ideia de ficar trancada depois de tanto tempo de liberdade era terrível.

Após aquilo peguei qualquer short e qualquer blusa dentro do guarda roupas, e a vesti. Quando me olhei no espelho, tive a impressão de não ser mais o eu de 19 anos, e sim, o eu com 14 anos. Lembranças, apagadas e distorcidas daquele que foi o pior ano da minha vida, ate aquele momento, algumas pequenas diferenças em altura, corpo, que agora estava mais formado, mais adulto, e os cabelos, que agora estavam pretos, para destacar assim os olhos verdes. A roupa era o mais significativo daquele ano, a blusa me remetia muito a algo que custei a esquecer, apenas um nome soava na minha mente, Yan.

Não me recordava do rosto dele, de nada, apenas o nome. Dava-me calafrios pensar nesse nome, e saber que foi alguém cruel comigo e isso com 14 anos. Uma vez li em um texto uma frase que me chamou muito a atenção, “o tempo apaga tudo, lembranças, nomes, rostos”, e isso é verdade, de tempo ao tempo e todas as maiores feridas serão curadas. Tirei rapidamente aquela blusa branca com pingos de tinta pretos e vermelhos, e coloquei uma blusa preta básica. Não desejava chamar atenção, nem ter lembranças que me custaram muito tempo para apagar, e também, tinha medo daquela blusa trazer mau agouro para os anos que teria, foi para o lixo, onde era o seu lugar.

Sentei-me então na cama e peguei meus coturnos pretos para colocar, aquilo poderia chamar um pouco de atenção, mas conhecia tanta gente daquela faculdade, não faria mau. Fiquei algum tempo tentando buscar algum vestígio de memoria, ao menos o rosto daquele garoto, mas nada me vinha à mente, terminei então de arrumar meus cabelos, não era necessário pentear de mais, o corte dele já era desfiado e bagunçado, solto e liso, secando ao vento, ficava como queria. Rapidamente desci as escadas notando que estava quase atrasada, peguei rapidamente então minha bolsa que estava jogada no sofá, e fui ate a cozinha, minha mãe me olhou seria.

– Bom dia Ammy!

Dei um sorriso calmo para minha mãe e peguei uma maçã em cima da mesa, ela era professora de inglês em um colégio próximo de casa, e havia me ensinado a falar inglês desde pequena, fato que meu pai não gostava muito, ele era representante de uma empresa de cosméticos multinacional, vendia muito, mas só por ser realmente bonito.

– Até logo mãe. Alias, você também não está atrasada? – Sorri para ela após dizer isso e sai rapidamente de casa, sabia que ela ia ter alguma boa resposta para aquilo, e não estava com muita vontade de ouvir.

Fui caminhando pela rua ouvindo Aerosmith no fone de ouvido, o caminho de minha casa até a faculdade, não dava nem quinze minutos a pé se fosse devagar, então resolvi ir rápido para chegar lá cedo e poder ficar quieta em meu canto, de preferencia sentada.

Ruas sempre planas, aquilo era entediante, não tinha como pensar que poderia ter alguma surpresa pois dava para ver a rua de ponta a ponta.

Ia comendo a maçã pelo caminho, não conseguia nem mesmo sentir seu gosto, estava mais divertido andar ao som de Crying, aquela musica era tão parecida comigo, a anos atrás, essa era uma musica que me fazia chorar, e agora é uma musica que me faz ser forte outra vez. Poderia ficar horas e horas deitada ouvindo apenas essa musica, ela me fazia bem.

Quando vi, já estava dentro da faculdade, fui andando direto para o banco no pátio interno, com uma sombra maravilhosa e fresquinha. Minhas amigas já estavam sentadas lá, pareciam ter lido meus pensamentos, apesar de que sempre procurávamos o local mais fresquinho de todos os locais que frequentávamos.

Assim que me aproximei sorri e tirei meus fones de ouvido, abri os braços e abracei ambas muito forte. Jesse estava cada dia mais linda, aqueles cabelos loiros cacheados caindo até a cintura estavam sempre muito bem iluminados e lindos. E Bulma, continuava parecida com a Bulma, não importa quantos anos passe e a cor que ela vier a pintar o cabelo, sempre vai ser a Bulma.

Elas me olharam embasbacadas, como se esperassem que o fato de eu ir nas férias para a casa do meu pai, e me alimentar apenas de fast-food era pra eu estar no mínimo com dez quilos a mais.

– E então, qual a novidade boa do ano? Nas ultimas três semanas só recebi um e-mail da Jesse, mas de você Bulma, não recebi nada. – Falei olhando seria pra elas, mas com um sorrisinho no canto dos lábios.

– Fiquei sem internet, fui acampar e voltamos ontem... Conheci um menino lá no camping em que fiquei com minha família, ele era bem bonitinho... Mas não trocamos e-mail nem telefone, ele vem morar pra cá no próximo semestre, com um amigo dele que esta vindo de Nova Orleans, eles estão se transferindo pra cá... – Bulma era realmente linda e simpática, como a personagem do DragonBall, e era muito parecida com ela, até o cabelo, mas era envergonhada, só de falar essas coisas já ficou toda vermelha como a blusa que usava.

– Olha Ammy, ele é de Nova Orleans, alguém que vai entender quando você começar a reclamar e a xingar em inglês. – Disse Jesse rindo, ela adorava falar essas coisas, ela também entendia bem o que eu falava, mas adorava que as outras pessoas não entendessem.

– Eu não disse que vou encontrar com ele, bem, talvez a gente se esbarre por ai, mas só isso... E pode ser que nem vamos conhecer esse amigo dele.

– Não sei vocês meninas, mas esse ano eu to pra festa, e tudo que tiver pra fazer eu vou fazer. – Todos os anos Jesse estava pra festa e aproveitava tudo que tinha pra fazer, mas nunca vi essa promessa também se concretizar.

Ficamos conversando mais um pouco, contei sobre minha viagem para Salvador pra ficar com meu pai, e sobre sua nova namorada, Valeria, não gostei dela, era dona de uma rede de salão de beleza e usava maquiagem muito carregada, também não sabia nem lavar louça, e logo após isso o sinal tocou. Entramos na nossa sala de aula, era grande, com cadeiras bem espaçadas, era muito agradável e arejado.

Nos sentamos no fundo da sala, bem próximo a janela para sentir o vento fresco que vinha da rua. Por incrível que pareça, até que havia um grupo grande de alunos na sala, sempre achei que na faculdade de Artes eram poucos que faziam. Tivemos todos que nos apresentar, o que era entediante de mais.

O coordenador do curso nos pediu para fazer um grupo de quatro a seis pessoas para nos conhecermos melhor, e um grupo dos alunos, se juntou conosco. Eram quatro meninos, Jhon, Ale, Chris e Michel, eles moravam sozinhos aqui em São Paulo, mas eram de Curitiba, queriam prestar vestibular para Biologia, mas acabaram resolvendo fazer artes primeiro, não entendi o por que disso, mas tudo bem. Ficamos todos juntos conversando até depois do intervalo, eles realmente eram muito bonitos e simpáticos, eram divertidos.

No fim da aula Ale disse que alguns amigos deles das fases superiores iriam fazer uma festa no fim de semana, então queriam que nós três fossemos, Jesse aceitou logo de primeira, e pegou o endereço. Saímos da faculdade e fomos para minha casa jogar videogame e matar a saudade. Enquanto eu estava na cozinha fazendo pipoca, elas estavam instalando o videogame na sala. Parei ao lado da porta e olhei para Jesse.

– Por que você disse que iriamos a festa Jesse? – Indaguei

– Por que nós vamos, eles são tão simpáticos, e não podemos perder nenhuma festa esse ano, é nosso primeiro ano de faculdade, vamos aproveitar!

– Mas nem temos a resposta de nossos pais – Bulma sempre foi mais preocupada com isso, seus pais eram muito controladores, e só agora, depois que seu irmão mais novo nasceu é que estão mais liberais com ela

– Eles vão deixar, confiam na gente e nós confiamos em nós três.

Voltei para a cozinha pra pegar nossa pipoca. Me sentei no sofá e logo peguei meu joystick. Queria jogar alguma coisa bem violenta, mas o mais violento que minha mãe deixava ter era GTA.

Comecei a jogar enquanto conversávamos, queríamos saber tudo sobre o menino do camping, e realmente obrigamos Bulma a nos contar. Pelo modo como ela falava ele mexeu muito com ela, parecia ser um garoto realmente bonito, atlético. Ficamos metralhando nossa amiga com perguntas sobre o garoto e sobre os sentimentos dela. Era divertido falar dos sentimentos alheios, e não os meus, talvez, eu já não sentisse nada ou nada forte o suficiente para ser falado.

Ficamos a tarde toda jogando e conversando. A hora que minha mãe chegou já estava com tudo organizado e deitada no sofá da sala assistindo Star Trek. Ela foi tomar banho e fiquei ali, assistindo TV e na escuridão. Assim que ela chegou na sala com o sanduíche natural que eu havia deixado preparado pra ela. Logo que sorri ela já sabia que desejava algo. Me sentei e baixei um pouco o volume da TV.

– Sabe o que é mãe... – Sorri para ela novamente e ela só ergueu a sobrancelha. – Eu nunca fui de sair, porém agora eu estou na faculdade e sábado vai ter uma boa festa... E eu queria...

– Ok. Pode ir – Aquilo me deixou impressionada. Ela sem saber onde era a festa me deixou ir, então achei melhor não falar mais nada. Levantei e lhe dei um beijo na bochecha e fui para o quarto.

Peguei o notebook e fui direto para a cama, precisava abrir meu e-mail e contar para as minhas amigas. Coloquei meus fones e abri um chat com Jesse e Bulma.

CherryAmmy: Minha mãe já me deixou ir a festa, e a de vocês? Já conversaram? Acho que preciso de uma roupa para a festa afinal...

BoobieBulma: Estou convencendo eles, será que a sua mãe não ajudaria Ammy?

DJJesse: Meu pai disse que posso ir, desde que volte pra casa com todos os pedacinhos do meu corpo... Minha mãe pode conversar com a sua Bulma...

CherryAmmy: Eu peço pra ela conversar, seilá. Quer dormir aqui em casa dai?

BoobieBulma: Minha mãe acha a sua maluca Jesse, então melhor deixar com a mãe da Ammy.

DJJesse: Melhor dormir aqui em casa, meus pais são mais tranquilos que os de vocês né, e vai ser aqui pertinho... Podemos ir e voltar a pé.

CherryAmmy: Vocês que sabem... Minha mãe liga pra sua amanhã do colégio então, o importante é todas irmos e ficarmos juntas a noite toda... Entendeu Jesse?

DjJesse: Eu não vou deixar vocês de lado... Agora vou sair, vou dormir que amanhã acordamos cedo. Bu, quando que o cara do acampamento vem mesmo?

BoobieBulma: Vem em julho acho, uma coisa assim... Mas já disse que é capaz de eu nem encontrar ele... ='(

CherryAmmy: Bu tá apaixonada por ele rs. Boa noite Jesse...

DjJesse está desconectada.

BoobieBulma: Também vou dormir, e eu não estou apaixonada... Beijos Ammy, se cuida.

CherryAmmy: Boa noite Bu...



Esperava que aquela festa fosse um verdadeiro fiasco. Quando foi a ultima vez que estivemos em uma festa juntas? A formatura do ensino médio acredito eu. Nosso fim de semana era no máximo reuniões pequenas uma na casa da outra, nem mesmo roupa para festas eu tinha.

Quaisquer que fosse os motivos, aquela semana passou rápido, e nos deu tempo de conhecer ainda mais nossos amigos para a festa sábado, estava cada vez mais segura quanto aquela festa afinal os garotos pareciam realmente pessoas legais.

Na sexta então resolvemos ir a uma das lojas de roupas que costumávamos ir, porém não sabíamos que tipo de festa era aquela, então escolhemos coisas mais apropriadas a uma festa em casa, reunião de amigos talvez.

– Sabe Ammy, eu tava pensando em comprar um vestidinho bem leve e soltinho, desses pra todos os ambientes sabe... Os meninos foram maus em não nos falar que roupa deveríamos usar – Jesse não ficava quieta um minuto no caminho para a loja, parecia está muito animada para a festa e ao mesmo tempo nervosa.

– Acho que “usem o que quiser” foi uma boa dica Jesse... Assim pelo menos sabemos que não é nada grandioso.

– Eu vou de calça e camiseta, é sempre a melhor escolha... – Bulma sempre foi muito recatada e não gostava de chamar a atenção, mas por fim convencemos ela a trocar a calça por uma saia preta um pouco mais alta, ficou bonita com um camisa preta e ela podia usar com a sapatilha dela.

No fim acabou que eu e Jesse optamos por vertidos mais soltinhos e leves. Saímos já tarde da loja e então passamos em uma lanchonete para comer algo e conversar mais um pouco.

Era a primeira festa que iria na faculdade e era a primeira festa de verdade da minha vida, aquilo me fazia ficar com medo e ao mesmo tempo feliz, um sinal de que estava crescendo talvez? Amadurecendo? Ou esquecendo tudo de vez.

Ao chegar em casa fui direto escovar os dentes e deitar, liguei o ar condicionado no mais gelado possível e fiquei embaixo da coberta assistindo TV, seriados, animes, filmes até pegar no sono.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.