"...E em cada dia da sua vida você vai chorar
Lágrimas sofridas que não vão somar
Um décimo do que eu sofri
O quanto eu sofri..."

Passaram-se algum tempo desde que fora diagnosticada a gestação. O acompanhamento médico era intenso, o tempo todo tinham exames, consultas, novos remédios e mais exames, tudo isso na esperança de que eu ficasse bem. Entre idas e vindas do hospital eu ficava cada vez mais fraca, estava cada vez mais difícil aquela gestação.
Por dentro eu tinha esperanças de sobreviver, mas no fundo eu sabia que aquela gravidez era tão importante pra mim porque se eu morresse, minha mãe e Thomas ainda teriam um pedacinho meu ao lado deles, mas em nenhum momento coloquei esse pensamento em voz alta.
Com quase seis meses de gestação, meus exames estavam começando a apresentar sinais de piora, mas eu havia decidido levar a gravidez sem forçar o parto até o ultimo momento possível.
Porém em uma noite, que Thomas havia dormido comigo pois eu estava fraca, comecei a me sentir muito mal, dores no corpo, de cabeça, tontura e logo depois um desmaio longo.
Quando acordei, Thomas estava sentado aos meus pés na cama, com tubos enfiados em minhas narinas, ele chorava baixinho segurando a mão de minha mãe que também chorava, acho que naquele dia eles pensaram que o bebê seria o que restaria de mim também.
Assim que acordaram e vieram até mim, ouvi uma batida na porta, era Nathy e Jess junto com Jonny e Victor, não fazia ideia de quanto tempo estava apagada, quando olhei para o relógio vi que era 18h do dia seguinte, havia apagado por mais de doze horas, talvez por isso o desespero deles.
Quando recebi alta fui indicada a não voltar para o ambiente escolar, a gravidez já era um fardo pesado, juntando com a doença e os medicamentos, era difícil me manter firme e estudiosa. Eles traziam todos os dias as matérias para eu e Jonny costumava ficar comigo até dormir quando não dormia comigo.
Mais uma noite se passara e eu passei mal, dessa vez sem ninguém para me acudir. Caí perto da porta quando ia chamar minha mãe e apaguei, o ultimo pensamento que tive é que era tarde demais, ia morrer sozinha e sem nem conhecer meu bebê.
Dessa vez acordei dias depois, muito tonta e com a boca seca, minha mãe disse que eu não poderia tomar nada ainda, antes iriam fazer uma nova bateria de exames, os médicos estavam preocupados.
Quando terminei os exames, minha mãe e Thomas foram pra fora do quarto falar com os médicos, talvez aquele foi o pior momento de tudo. Minha mãe abraçou Thomas e começou a chorar desesperada, ao que Thomas também começou a chorar e gesticular muito, naquele momento eu sabia que minhas chances foram reduzidas a quase nada. Passei a mão pela barriga e esperei a noticia que caiu como uma bomba em meu colo.
— Estão suspeitando que você teve metástase... — Disse minha mãe
— Você sabe o que significa não é..? Você sabe que significa que não poderá mais seguir com a gravidez... É hora de nosso bebê nascer e você se tratar como deve... — Thomas falou entre lagrimas e suspiros.
Acenei positivamente com a cabeça, sabia que dali em diante eu precisava de força para passar por tudo aquilo, e precisava colocar pra fora meus sentimentos de todo esse tempo.
Por esse motivo pedi para minha mãe pegar meu notebook, onde estou escrevendo essas palavras, e para Thomas preparar meu quarto para receber nós três.

Enquanto eles faziam tudo o que pedi, fui me preparando para o parto. Me deram minha ultima refeição rica em nutrientes para alimentar o bebê, deram os últimos remédios e alguns extras e eu só consegui pensar em como gostaria de estar em casa ajudando a arrumar as coisas de meu bebê.

Não tardou muito Thomas e minha mãe voltaram com a minha mala, era maior do que eu pensava, talvez a minha estadia aqui fosse ser bastante longa. A mala do bebê era o suficiente para um bebê que vai para UTI neonatal, e a mochila de Thomas, que iria ficar com nós dois ali.

Eles não conseguem dormir assim como eu, algumas vezes um deles vai para a rua e começa a chorar, sei disso porque vejo seus olhos e rosto vermelho quando voltam, eles estão despedaçados por mim.

Não consigo relaxar nenhum minuto, mesmo sabendo que em algumas horas irei ver o rostinho de meu precioso filho. Acho que apesar do medo os dois também estão ansiosos.

As vezes Thomas vem, beija minha barriga, me da um beijo, tenta ver o que estou escrevendo e quando não o deixo ele volta a massagear meu pé nos pés da cama.

Ah, o enfermeiro trouxe flores para mim, de meus amigos. Eles não estão autorizados a me visitar antes da cirurgia, o médico disse que me quer bem relaxada, mas isso não ajuda muito.

E é chegado a hora, finalmente vieram me chamar.

Confesso que estou com medo de morrer, por isso: Mamãe, Thomas, bebê, eu amo vocês e não me arrependo das escolhas que fiz. Me perdoem por fazer vocês chorar.