Um pedaço de mim
1 Capítulo 1
Amanda Duarte não era o tipo de garota que se olhava duas vezes. Com sua bermuda rosa, blusa preta na qual se lia "Beacon Hills Lacrosse" (sim, da série de TV com os lobisomens), meia de cano curto que deixava para fora do tênis uma cabeça de porco e tênis Nike preto e cinza, ela era o tipo de pessoa que passava despercebida. Seu cabelo estava preso por um coque feito as pressas, com exceção de duas mexas descolorida que emolduravam seu rosto. Não usava maquiagem, apenas um batom sabor Coca-Cola Cherry que comprará em uma viagem para Portugal há uns seis anos. Uma bolsa de couro preto já desbotado pendia no seu lado, e caminhava com um leve sorriso no rosto, dando "bom dia" a todos que por ela passavam. Não sentia medo de estranhos e não desconfiava das pessoas, gostava de ver o melhor em cada um.
Gostava de chá de menta morno, HQs, filmes de ação, cães, bolo de laranja e vídeo games e RPG. Havia se mudado de Santa Maria para Porto Alegre para cursar pedagogia na UFRGS e sentia falta do seu labrador. Não tinha grandes ambições, só queria ajudar quem precisava e fazer uma diferença no mundo. Morava com os tios em uma casa modesta de dois andares. Mascava chiclete sabor morango, cujo odor se misturava com o do seu batom deixando um cheiro enjoativamente doce.
Amanda Duarte era tão pura que chegava a ser irritante.
* * *
Há uma semana atrás, Ivete Schmidt fazia o mesmo caminho que Amanda percorria. Ivete vinha de uma família com dinheiro, cursava o ensino médio num dos colégios mais caros da cidade, andava com uma saia lápis, que mal chegava nas coxas, listrada de azul e branco, blusa azul escura decotada e sandálias brancas com salto dourado. Sua bolsa de couro preta era novíssima e o metal das alças ainda brilhava. Usava anéis e brincos de ouro. Seu perfume registrado era Miss Dior (o tradicional, não as outras versões) e brincos de várias cores adornavam seus três furos na orelha. Passava rímel preto e sombra rosa clara, o batom vermelho destacava-se no seu rosto. O cabelo era preso em um rabo de cabalo apertado e impecável.
Desenhava sempre que podia, via séries como Gossip Girl, escutava Taylor Swift e tinha um gato de estimação chamado Glitter. Tomava chá vermelho gelado com quatro rodelas de limão e mascava chiclete de menta. Nunca havia morado no interior, sonhava em se mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro e odiava ciências humanas. Queria ser advogada, assim como seu pai. Fingia ser burra, pois assim ninguém se sentia intimidado por ela e então baixavam sua guarda. Gostava de flertar e olhar caras bonitos, mas ainda assim, nunca tinha namorado e beijará apenas uma pessoa durante toda sua vida.
Ivete Schmidt era a típica filhinha de papai.
* * *
No inverno, Lúcia Fadil também caminhava essa mesma rota. Lúcia era o tipo de pessoa da qual se desviava quando a encontrava na rua. Com maquiagem pesada, incluindo delineador preto, batom roxo escuro e sombra cinza; jaqueta, calça e botas de couro; cabelo castanho escuro volumoso que rodeava seu rosto e grandes brincos de prata, ela era um tanto intimidadora. Era jovem, mas forte e podia te derrubar com apenas um soco. Andava de cabeça erguida e encarava qualquer um que ousasse olha-la. Ainda cursava o segundo ano do ensino médio, não tinha amigos na escola, e não se importava. O silencio era seu maior desejo. Com as constantes brigas entre seus pais, era difícil ter um momento de paz em sua casa, por isso, saia para caminhar. Se tivesse amigos, o barulho a seguiria aonde ela fosse.
Dava passos pesados e cantarolava a letra de Hit Me Like A Man (da banda americana The Pretty Reckless, cujo o show havia ido assistir em São Paulo ano passado). Tomava café tão preto quanto seu coração e comia pizza de calabresa. Havia feito da rua sua segunda casa, e andava sem medo por homens bêbedos e pervertidos que gritava gracinhas para ela. Nunca foi de fazer esportes, mas ultimamente tinha ido na academia. Descobrirá ser um bom meio de gastar sua raiva. Também gostava de desenhar, mas suas pinturas eram um tanto perturbadoras, retratando paisagens escuras, árvores mortas, caveiras e sangue. Via American Horror Story e gostava de ler Stephan King e Edgar Allen Poe. Não sorria fácil, queria ser tatuadora e odiava a maior parte das pessoas.
Lúcia Fadil não se importava com o que achavam dela.
* * *
As três meninas tinham mais em comum do que o fato de andarem o mesmo caminho. De fato, eram a mesma pessoa.
Paula Bressan Duarte odiava cachorros, não tinha gatos e não tomava café. Era vegetariana, nunca morara em outro lugar que seu apartamento de classe média em Porto Alegre e cursava o primeiro ano do ensino médio. Odiava a maior parte das pessoas, queria ser advogada e amava quadrinhos. Tinha medo de filmes de terror, não se maquiava (usava apenas perfume), e não confiava em ninguém. Seu guarda roupa não era grande, mas tinha espaço para vários estilos de roupas. Gostava de deixar seu cabelo solto e partido ao lado. Se sentia mais confortável em saltos do quem em tênis, pois se considerava baixinha.
Metade do que dizia era mentiras. Havia criado Amanda, Lúcia e Ivete para se proteger do mundo exterior. Amanda a deixa passar despercebida, Lúcia garantia que ninguém a incomodasse e Ivete conseguia o que queria. Uma garota para cada ocasião. Paula só fingia sê-las quando não havia conhecidos na volta e nunca usava dois dias seguidos a mesma garota. Temia que encontrasse alguém que conhecia em sua vida real enquanto fingia ser outra pessoa. As vezes sem se dar conta, passava traços de uma para outra, como Amanda usar anéis de ouro ou Lúcia dar "bom dia" à estranhos. As vezes incorporava uma delas quando não queria, era como se tivessem vida própria e tentassem escapar do controle de Paula.
* * *
Não eram apenas essas as personalidades que ocupavam a mente de Paula. Havia muitas. Maior parte era descartável, usava uma vez e pronto. Muitas eram apenas a própria Paula com algumas mudanças. Como o dia que conversará com o motorista do Uber sobre teorias de conspiração (cujas quais não acreditava), apenas porque o motorista havia dito devia tomar cuidado com os vírus espiões que a CIA colocava em todos os celulares. Não causavam problemas. Elas existiam justamente para evitar conflitos. Amanda, Ivete e Lúcia só começaram a tomar forma em abril do ano passado, antes disso, só fazia pequenas mentiras.
Paula tinha conseguido uma vaga num curso de física na faculdade voltado para estudante do ensino médio. De sua escola apenas ela e a Larissa Castro tinham entrado. Toda sexta iam juntas de Uber. Se odiavam. Uma sexta, Larissa não apareceu. Por coincidência, neste dia Paula tinha esquecido seu celular em casa, e teve que correr para conseguir alguém que tivesse o numero da outra. Assim que ligou, descobriu que ela se encontrava na universidade. Tinha ido sozinha.
Suas amigas já tinham ido embora, e a única conhecida que sobrava era Iolanda, que Paula também destetava. Tinham amigas em comum, e por falta de opção pediu para esta chamar um Uber para ela. Iolanda aceitou, mas o carro só chegaria em 10 minutos. O caminho durava 15. E Paula tinha que estar lá em meia hora, e ainda tinha que almoçar. Nesse momento um taxi parou, e apesar ainda ter um passageiro para levar, aceitou deixa-la na universidade depois. A mulher tinha ido deixar o menino na escola, e então voltaria para casa. Conversou com a mulher e com o taxista, agradecendo por tê-la ajudado. O taxista mencionou ter um cachorro, então Paula comenta sobre Totty seu labrador que está doente (na verdade, Totty era o cachorro de Giovana, sua colega). A empregada fala sobre problemas financeiros, e Paula comenta sobre ser bolsista no colégio (esse era seu amigo Felipe). Fala sobre pagar o taxi para o curso com o dinheiro que faz passeando com cachorros no parque nos fins de semana.
E assim Amanda começa a ter forma. Detalhes foram ajeitados. A mudança de cidade havia sido adicionada no parque, quando achou estar sendo perseguido por alguém e parou para conversar com um rapaz que andava com seu beagle.
Lúcia nasceu de um rascunho que havia usado há muito tempo. Também continha traços da melhor amiga de Paula, Viviana. Sua versão completa ainda não tinha sido testada. Ivete nascerá na Sephora. Cansada de ser ignorada pelas vendedoras, Paula fingiu ter recebido uma ligação e com uma voz afetada, comenta sobre ter que usar blusas da coleção passada porque seus pais não queriam ir à New York nessas férias. Logo a atendente pergunta se pode ajuda-la, e agora como Ivete, ela responde queres testar o novo perfume da Nina Ricci. Triste história, tinha comprado o Luna um dia antes de lançarem o Luna Blossom e agora não conseguia se livrar do sentimento que devia ter esperado para comprar a versão mais recente. A atendente diz sobre não ter chegado, mas que pode mandar um e-mail quando estiver em estoque, pois perfume nunca é demais. Ivete deixa um e-mail falso e sai da loja. Quando chega ao banheiro do shopping, já é Paula novamente.
Sempre evoluindo, Paula raramente é ela mesma quando está sozinha. Nem em casa ela se permite esse luxo. Pratica sotaques e conta histórias para o espelho e tenta faze-las soarem convincentes. Paula é tão boa em ser outras pessoas que não sabe come ser ela mesma.
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