Um passo de cada vez
1 Capítulo 1 - Frustração
— Sabe, garotas como você não deveriam andar sozinhas tão tarde da noite. — soou uma voz cortante em meio à escuridão.
Lucy estacou abruptamente, suas pernas travaram e não poderia dizer como ainda continuava a respirar. Podia sentir o batimento do seu coração acelerar e o estômago desfazer-se em algum tipo de líquido viscoso.
— Se tentar correr ou gritar vou atirar, entendeu? —alguém se aproximou abrindo caminho entre as árvores.
Ela assentiu que sim com um movimento da cabeça. Abalada, virou-se lentamente a tempo de ver um homem de cabelos desgrenhados e vestes surradas e remendadas surgir entre as sombras com uma elevação por baixo da camisa.
— Não tenho dinheiro — disse ela, sua voz não maior que um sussurro agudo e quase inaudível —, me deixe ir, por favor.
O homem a examinou como se estudasse uma obra de arte, qual depois de horas de observação tudo que se pode analisar são borrões indistintos de tinta nada graciosos.
— Não tem dinheiro, não é? — retorquiu ele, lacônico. —Bem, você vai pagar de outra forma, então — um sorriso malicioso contorceu seus lábios revelando uma fileira de dentes tortos e alguns amarelados que ela tencionou ser de ouro.
— Não... — suas pernas bambearam e patinaram pela rua escura quando ela tentou correr na direção contrária do homem. Um segundo depois uma dor lancinante trespassou seu corpo começando por sua cabeça, mãos entrelaçaram seu cabelo e puxaram com força para trás fazendo-a cair violentamente contra o chão. Tentou gritar, mas o fôlego foi expulso dos seus pulmões devido à queda.
— Eu disse que você vai pagar vagabunda! Você me deve agora. — disse ele, arrastando-a para as árvores, para a escuridão. — Pensou que seria tão fácil assim, hein, vadiazinha?
Sua voz mudou, tinha um tom de excitação como de a adrenalina fluísse de uma vez; parecia se divertir com o que estava fazendo. Lucy não tentou responder, tudo o que queria era acordar de um pesadelo que ela sabia não ser imaginado. O homem retirou a outra mão debaixo da camisa, não havia arma nenhuma, ele mentira e ela tão idiota havia acreditado. Sentiu os pés roçarem em terra e grama, tinham saído da rua e agora adentravam ao campo. Não tem como escapar, pensou ela, a prefeitura da cidade nunca se importou com o campo onde estavam. As copas das árvores eram grandes e nunca foram cortadas formando uma alameda escura por toda a rua e os dois únicos postes de luz eram no início e final da rua que estavam queimados havia séculos.
— Aqui está bom — concluiu ele.
Um farol amarelo iluminou o campo, aparentemente um carro estava passando pela rua.
Ela fez menção de gritar, ele notara, um soco violento atingiu-a do lado direito do rosto forçando a se manter quieta.
— Se gritar eu te corto. — ameaçou o homem retirando do bolso uma faca e deixando-a a poucos centímetros acima da barriga dela.
A luz não se demorou mais, podiam ouvir o barulho do carro se afastando até o final da rua e virar a esquina. Sua única oportunidade de se salvar tinha passado e ela não conseguira embarcar a bordo. Agora era apenas o homem e ela, e ela não estava em posição de argumentar.
— Melhor assim — disse ele, acariciando com vontade os quadris largos de Lucy. — Que delícia, hein. — Ele montou em cima dela, abaixando com força sua calça jeans. Seus dedos sujos abriram o zíper da própria calça com um sorriso selvagem.
— Não, por favor. — ela suplicou.
Ele a penetrou sentia como se algo nojento e repulsivo estivesse dentro dela. Sentiu dor, uma dor suportável, mas ainda assim dor. Ele grunhia e seu choro abafado era penoso. As lágrimas vieram sem aviso, escorreram pelo seu rosto, mas ela tentou reprimi-las.
Ele gozou dentro dela, e saiu de cima dela.
— Apertadinha ainda, você. — disse ele com um sorriso de zombaria. Puxou as calças e fugiu para a rua gargalhando baixo.
Lucy ficou ali, inerte e sem expressão. Tinha acabado de ser estuprada, não sabia se agora alguma doença estaria se alojando dentro dela ou pior um filho. Ela se levantou tremendo, ergueu as calças e procurou a bolsa que estava jogada em um canto. Apanhou-a e tomou o caminho de casa assustada. Lucy era uma garota bonita, tinha cabelos cacheados e castanhos que lhe caíam até um pouco abaixo dos ombros. Olhos de cor amendoada e um rosto longo. Já tivera algumas relações com garotos, no entanto, nada que ela ainda considera-se uma transa. Mas aquilo, aquilo não fora uma transa, foi um abuso de um estúpido qualquer.
Saiu do campo ainda soluçando, chegando ao final da maldita rua que ela decidira atravessar para cortar caminho. Havia dois adolescentes parados ali, fumando e rindo de um vídeo no celular de um deles. Ela apertou o passo passando por eles tão rápido quanto o salto de seis centímetros permitia. Tinha vergonha, vergonha de que alguém a julgasse por aquilo. Fez um trajeto sinuoso até sua casa, com aquela umidade ainda morna no seu interior.
Por que comigo?— pensou ela. Avançando atordoada pela rua enquanto pensamentos macabros invadiam sua mente aos turbilhões.
Ela abriu a porta de casa com violência, viu o pai de relance sentado na poltrona em frente à tv com os olhos fixos em um jornal. Ele ergueu os olhos por cima do jornal a tempo de vê-la subindo as escadas três degraus de cada vez.
Surgiu uma mulher com bobes no cabelo enxugando as mãos em um avental quadriculado.
— O que foi isso? — interrogou ela ao marido.
— A puberdade, querida. — respondeu ele, voltando a ler a manchete do dia no jornal matinal.
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