Um novo mundo
1 Um novo mundo, não necessariamente melhor
Dia 7 após o surto
Já faz uma semana que vimos os anúncios no jornais. O pânico tomou conta das cidades, Pessoas que deviam morrer não morriam, um surto de algum tipo de doença, vírus, coisa sobrenatural, sei lá, ninguém sabe a causa, mas descobrimos o efeito. Os mortos não morriam mais e atacavam os vivos.
Em menos de 2 horas quando surgiram os casos em todo o mundo, era só o que se falava na tv e internet, todos os lugares foram afetados, e ao mesmo tempo, o que descartou um ataque terrorista. As cidades com população que possuíam mais armas foram tomadas mais rápidos, entenda, não é aquela história que nem nos filmes, que eles vem atrás do seu cérebro ou que você só irá virar um deles quando for mordido. Sim, a mordida mata; rápido, varia um pouco de pessoa pra pessoa, mas nunca vi ninguém sobreviver mais que um dia e sim, eles querem te comer, não no bom sentido, no péssimo sentido.
Todos iremos virar um deles, fato. Todos que morrem, independente do motivo, causa ou razão, voltam como um desses mortos-vivos, zumbis ou seja lá o que você queira chamar. Por isso as cidades com mais gente armada caiu mais rápido, quando o caos começou, saques aconteceram, pessoas ficaram assustadas, some esse ambiente mais os mortos atacando tudo e todos e muita gente armada. A cada um vivo em que você atira, você aumenta o exército de mortos que levantam e vem atras de você.
No começo os nerds adoraram, choviam posts nas redes sociais e de compartilhamento que eles estavam empolgados e animados com aquilo, isso até você perceber que você não sabe nada de sobrevivência, nada de autodefesa, nada de armas de fogo, não tem amigos próximos a você, não sabe nada de nada basicamente que não envolva tecnologia, não aguenta correr 200 metros sem parar pra descansar arfando como um porco pronto pro abate, aí amigo, você vê que esse tal apocalipse zumbi que tanto você fala não é tão maneiro assim.
As forças armadas interviram, várias cidades foram colocadas em quarentena, mas como disse antes, isso aconteceu em TODO o lugar ao mesmo tempo, pessoas que morriam em hospitais atacavam minutos depois, mortos no necrotério se levantaram, velórios tinham o número de mortos aumentados (cara esse sim seria um velório de matar!). Até haver uma zona de quarentena, um local específico e seguro, muitos militares e gente de bem morreu.
No terceiro dia não tínhamos mais luz ou comunicação. A maravilha de toda nossa tecnologia e eletricidade é que ela não é autônoma, precisa de pessoas lá, nem que sejam pra apertar um maldito botão, isso somado a um infinito número de acidentes derrubando postes de energia... bem acho que você ja pode ter uma ideia, e funcionário nenhum, por mais dedicado que seja vai preferir ficar na hidroelétrica ou na central distribuidora fazendo o seu trabalho e tendo a chance de ser comido.
Saco queria tanto um banho quente.
No quinto dia ainda havia uma guerra, em qualquer lugar que se escondia podia ouvir gente lutando, pequenas milicias, o exército, polícia, mas veja bem, um zumbi, no meio de uma multidão, consegue morder uns 8 ou 9 antes de ser morto, sabemos que tiros e traumas severos na cabeça assim como decapitação funcionam e fazem o morto vivo “morrer” de vez, mas ja te adianto, se você não for uma pedra de gelo, muito boa de mira, é realmente difícil acertar um tiro na cabeça, além do mais em movimento. E na hora que eles aparecem ninguém quer ficar parado mirando. Somando isso ao fato que barulho atraem mais zumbis, essa estratégia de “vamos todos nos juntar em um lugar só e resistir” não deu muito certo.
No sexto dia estava muito mais calmo. Eu estava no alto do pão de açúcar, escondida, droga tenho que admitir, a vista era linda, levei 2 horas presas no cabo até chegar a pedra maior, procurei um canto onde os bondinhos estavam, me protegi e fechei o melhor que pude e aguardei. Engraçado, eu nunca tinha vindo no bondinho antes, triste que seja nessa situação, a vista era realmente linda. Mesmo aproveitando a vista, a barriga roncava e estava com pouca comida, tinha que descer.
Usei novamente as travas de alpinismo que tinha "levado" de uma loja, amarrei prendendo as cordas na cintura e nas coxas, era desconfortável, mas era bem mais seguro que me pendurar no braço. Levei 1 hora e 30 minutos para descer. Chegando perto da praia encontrei um grupo, uma família fugindo juntos, estavam sem carro (pelo menos isso eles aprenderam, carros tendem a não ter muita pista limpa quando você para no meio da rua após ser atacado por uma horda de mortos), mas estavam com dificuldades em arrumar lugar seguro para dormir.
Me juntei a eles, parecem ser gente boa, são 4, o casal e dois meninos, os garotos não parecem ter mais que 13 ou 14 anos, e estão levando isso bem melhor que os pais. Bem pra isso eu devo admitir que essa “onda fashion zumbi” serviu de alguma coisa. O cara se chama Tiago e a esposa dele Vanessa, os garotos Davi e Daniel, é eu sei, pais e essas manias de colocar nomes com a mesma letra em irmãos.
Tiago é empreiteiro, mas na verdade eu acho que ele disse isso com vergonha de dizer que era pedreiro ou mestre de obras, Vanessa, recepcionista. Típico casal comum assustado com o fim do mundo como conhecemos e blá blá blá, no fim foram salvos pelos filhos, que não sei como, convenceram eles a pegarem o que podiam e fugir de casa, enquanto todas as noticias diziam para ficarmos perfeitamente calmos que tudo iria se resolver. Ponto pras crianças.
Não gosto de ficar com grupos a chance de dar merda é grande, e sinceramente, ja perdi todo mundo que eu me importava mesmo, chorei do primeiro dia ao quarto, e depois percebi que se continuasse assim, mais cedo ou mais tarde ia me juntar a eles. Que seja mais tarde.
Na noite do sexto dia eu estava revirando umas coisas na minha mochila e achei uma foto minha. Incrível como 6 dias no inferno mudam você. Meu cabelo longo e loiro agora parece uma esponja de aço que vive presa em um rabo de cavalo, meus olhos castanhos sempre com sobrancelhas feitas e rímel bem colocado agora é cercado por olheiras fundas de noites mal dormidas, minha boca não vê um batom a séculos, mas se existe algum lado bom no apocalipse zumbi é que eu emagreci 9 quilos em 6 dias. E se isso não é motivo para comemorar eu não sei mais o que é. Quem diria que a estudante de direito de uma faculdade particular, com a vida ferrada e cheia de dívida seria uma das últimas pessoas da terra. Digo isso por que se o resto do mundo estiver como o Rio de Janeiro, garanto que estamos mal.
O sétimo dia começa hoje, e se a bíblia ta correta, nesse dia Deus descansou, cara, se isso aconteceu com ele vigiando eu nem imagino o que pode rolar com ele descansando...
Fale com o autor