Um novo Norte e Sul
4 Capítulo 4
No dia seguinte, Margaret foi receber os pais que chegavam de viagem. Ficou tão feliz em vê-los que até se esqueceu do episódio do dia anterior.
Ela os abraçou e ficou muito feliz por estar com eles de novo.Seu pai tinha uma aparência muito boa como sempre, mas a sua mãe estava ainda pior. Ela esperava entrar em contato com doutor Donald o mais rápido possível.– Como foi à viagem?–Foi boa, mas eu passei o tempo todo preocupado com a sua mãe. – Eu aluguei uma casa ótima! Bem grande e eu espero que gostem.– Nós gostaremos. Ah meu Deus eu não acredito!– O que houve papai?– Só pode ser ele!Margaret seguiu o olhar do pai e viu Mr. Thornton do outro lado da estação. Mr. Hale andou rapidamente em direção a ele antes que Margaret pudesse impedir.– John é você?Mr. Thornton ficou surpreso ao ver aquele homem falar com ele.– Não está me reconhecendo é claro, você era muito menino quando lhe vi pela última vez.– Desculpe Senhor.Margaret se aproximou do pai com a mãe e viu a cara de surpresa de Mr. Thornton.– Seu pai foi meu amigo há muito tempo. A expressão dele logo mudou ao ouvir sobre seu pai. Queria muito saber o que aquele senhor tinha a dizer.– Por que não vamos tomar um café logo ali. Podemos conversar mais a vontade.Ele fez o convite por dois motivos. Primeiro ele queria saber mais sobre o pai e segundo queria conhecer Margaret melhor e tentar se desculpar.John viu a cara de desagrado dela, mas sabia que ela faria qualquer coisa para agradar os pais. – Eu conheci seu pai quando você era menino, uns quatro anos talvez, eu estava em Londres quando o meu melhor amigo o apresentou. Ele é um cara especial! Margaret você sabia que foi ele que me emprestou o dinheiro para que eu pudesse comprar a nossa casa em Helstone? Nunca me esquecerei disso.– Não sabia... – Maragert respondeu sem jeito.– Espero que ele esteja bem John?– Ele faleceu.– Faleceu?– Sim, quando eu era adolescente.– Eu sinto muito.Margaret viu a expressão de tristeza no rosto de Mr. Thornton e de repente sentiu uma estranha vontade de abraça-lo.– Por que não vai nos visitar na nossa casa John? Margaret, minha filha, pode lhe dar o endereço.Margaret olhou para o pai com desagrado, mas deu endereço mesmo assim.– Acho que miss Hale não quer a minha presença.– Por que Margaret?– Por que esse senhor me tratou muito mal! – Desculpe-me Miss Hale. Eu realmente fui muito bruto com você. A senhorita teve a infelicidade de me encontrar em um dia ruim.– A sua obrigação é tratar a todos bem seja em dias bons ou ruins.– Margaret! – reprendeu Mr. Hale– Ela tem razão Mr. Hale, eu fui mesmo mal educado.– Aceito as suas desculpas se você aceitar ter uma reunião comigo e com os meus colegas.–Eu vou aceitar ouvi-la, mas não espere muita coisa.– Discutiremos isso lá. As 10 amanhã está bom para você.–Sim está.– Até lá então. Receba-nos.Quando chegaram a casa, Margaret teve que escutar o quanto Mr. Thornton era agradável e blá blá blá. Ela já não aguentava mais então resolveu subir e telefonar para Bessy. Fazia tempo que as duas não conversavam. Ela sentia muito a sua falta.– Quem é vivo sempre aparece! – Bessy falou do outro lado da linha. – Pensei que não lembrasse mais de mim.– Desculpe Bessy! Estive tão ocupada nesses últimos dias que nem tive tempo para telefonar para você.– Então como é Milton? Seus pais já chegaram?– Milton é uma cidade sombria e estranha! Está sendo duro me acostumar, para os meus pais também, eu acho...– Conheceu o tão famoso Mr. Thornton?– Conheci e ele é um brutamonte.Bessy riu do outro lado da linha.– Mas é bonito?– Bessy!– O que?– Ok! Ele é bonito! Na verdade, ele é muito bonito. Você acredita que ele me paquerou uma noite dessas? Só que eu não sabia quem ele era e quase cai na dele. Mas depois de conhecê-lo... Jamais!– Mas nos negócios como ele é?– Ele é tudo o que Mr. Bell falou. Organizado, Corajoso... E está me dando um trabalhão.– Boa sorte então! Para os dois Thornton, o dos negócios e o do amor!– Você não presta Bessy!– Eu nunca disse que prestava!Margaret riu. Ela sentia muito mais aliviada depois de conversar com a amiga. Ela precisava contar isso há alguém. Ela pensou em Mr. Thornton, na expressão que ele fez ao ouvir algo sobre o pai. Será que ele teve algum trauma com a morte do pai. É por isso que ele é assim?Sabia que teria que ter paciência com ele amanhã. Ela tinha que conseguir essa parceria por ela e por ele, mas tudo tinha que ser feito com calma....Na manhã seguinte, Margaret acordou ansiosa com a reunião que teria logo mais. O engraçado é que ela sempre fora muito confiante e agora tremia como uma iniciante. Mr. Thornton estava se tornando o seu caso difícil.As 10 eles chegaram a Marlborough Mills e dessa vez foram recebidos pelo dono. Margaret sabia que ele estava se esforçando para ser gentil. Sabia também que ele ouviria a proposta, mas recusaria. Ela não iria desistir.
– Mr. Thornton eu quero parabeniza-lo pelos resultados favoráveis que tem obtido com a sua indústria.– Obrigado Miss Hale.– E embora você acredite que queremos prejudica-los, nós oferecemos a você uma ajuda de custo se caso aceite a nossa parceria. Você nos forneceria a sua mercadoria e nós retribuímos com um custo ainda maior do que vale no mercado. E você ficaria livre para fazer o que quiser. Quem sabe, comprar novas máquinas, investir em mão de obra. – Miss Hale, eu conheço como essas parcerias funcionam e eu sei que isso não dá certo. Há muitos industriais aqui em Milton que foram à falência. Eu não quero isso para mim.– Nós temos compromisso com os nossos parceiros. Diferente de outros por ai. Não é por acaso que a Bell’s S.A. foi considerada uma das melhores empresas do país. –Desculpe, mas eu não quero correr riscos.– Pense que essa parceria pode ser importante para uma indústria iniciante como a sua.– Não preciso de parcerias. Como você viu, eu venho fazendo um bom trabalho sozinho.– Isto pode estar sendo suficiente agora, mas depois vai precisar de ajuda. Ben mostre os números das nossas outras parcerias. Mr. Thornton recebeu-as e analisou. A sua expressão não mudara em nada. Ele ainda continuava decidido.– Mr. Thornton não responda nada agora. Você me acusou de não saber de nada sobre os seus negócios... Eu queria poder acompanha-lo para entender como funciona a fábrica e ai eu poderia também lhe mostrar como funciona a nossa parceria.Ele a olhou com um olhar indeciso. Queria passar mais tempo com ela, mas também não queria lhe dar esperanças.–Tudo bem.– Ótimo! Terminamos por hoje!Eles se levantaram e se dirigiram até a porta. Margaret se lembrou do pedido do pai e voltou- se para Mr. Thornton.– Mr. Thornton meu pai pediu para que fosse jantar conosco na nossa casa hoje. Ele gostou muito de você e queria revê-lo.–Eu estarei lá.– Obrigada. Ela sorriu e saiu. Ele sentiu uma imensa vontade de ir atrás dela e pedir para que ficasse mais um pouco, mas os seus pés ficaram presos no chão. Iria ter que se contentar a vê-la somente à noite.Mais tarde, recebeu uma ligação inesperada. Era um cara que se chamava Michael e disse que havia visto hoje na reunião. Ele afirmou a John que não confiasse em Margaret por que ela não era confiável. Já havia sido responsável por várias falências, que o único interesse dela nele era apenas para conseguir a sua promoção.John achou esquisito está ouvindo isso de um cara que trabalhava com Margaret. Tentou não pensar nisso agora, queria apenas pensar no jantar mais tarde.Ele resolveu sair mais cedo da fábrica que pudesse ter tempo para se arrumar. Ao chegar a casa foi logo recebido pela mãe.– O que o traz para casa tão cedo? Pensei que fosse jantar com aquele tal de Mr. Hale.– E vou mesmo, mamãe. Só vim trocar de roupa.Subiu e escolheu a sua melhor roupa, fez a barba e perfumou-se. Não queria admitir que fazia tudo isso por conta de Margaret. Mas algo dentro dele queria que ela o olhasse e o admirasse. Sabia, também, que Margaret não era nada fácil. Seria um desafio que ele gostaria de enfrentar.– Está tão bonito John! – elogiou a mãe. — Por que tem que se vestir tão bem para jantar com um velho.– Mr. Hale é um cavalheiro, e sua esposa e a filha são damas respeitáveis.– Esposa e filha! O que elas fazem? Também ensinam? Você nunca as mencionou antes.– Não, mamãe, porque nunca vi Mrs. Hale. E só vi Miss Hale por causa dos negócios.– Tome cuidado para não ser agarrado por essa moça, John.– Não sou tão fácil de ser agarrado, mamãe. – Ele pensou que gostaria muito de ser agarrado por ela, mas a sua mãe não sabia que o caso era complicado. — Acho que a senhora bem sabe. Mas não devo permitir que fale de Miss Hale desse modo. É ofensivo para mim, sabe disso. Até agora nunca tive conhecimento de que alguma jovem dama tenha tentado me agarrar, nem acredito que alguma delas já tenha se dado a esse trabalho inútil.Mrs. Thornton não queria ceder ao filho nesse ponto.– Bem, peço-lhe apenas que tenha cuidado. Talvez as moças de Milton tenham espírito e bons sentimentos suficientes para não sair caçando maridos. Mas essa Miss Hale vem dos estados aristocráticos do sul, onde, pelo que ouvi dizer, maridos ricos são prêmios cobiçados.Mr. Thornton contraiu o semblante, e deu um passo para dentro da sala.– Mãe – disse, com um sorrisinho desdenhoso – vai me fazer confessar. Na única vez em que estive com Miss Hale, ela me tratou com uma civilidade arrogante,que tinha um forte sabor de desprezo. Manteve-se afastada de mim como se fosse uma rainha, e eu fosse seu humilde e sórdido vassalo. Fique tranquila, mãe.– Não! Não estou tranquila nem contente. Que direito tem ela, a filha de um professorzinho, de virar o nariz para você? Eu não colocaria a minha melhor ropua para visitar nenhum deles, se fosse você! Que gente atrevida!Quando estava deixando a sala, Mr. Thornton disse:– Mr. Hale é bom e gentil, um homem culto. Ele não é atrevido. Quanto a Mrs. Hale, lhe direi como ela é hoje à noite, se quiser ouvir.Fechou a porta e saiu.– Desprezar o meu filho! Tratá-lo como um vassalo! Francamente! Queria saber onde ela iria encontrar um homem igual a ele! Desde menino é o coração mais nobre e decidido que já vi. Não importa se sou sua mãe, posso ver como ele é sem ser cega. Sei como Fanny é, e sei como ele é. Desprezá-lo! Eu a odeio!Enquanto isso, Margaret se desdobrava para organizar o jantar a tempo. Queria que tudo ficasse apresentável para receber Mr. Thornton. Queria que ele visse o quanto ela era organizada e responsável podia associar isso aos negócios.Ela percebeu que sua mãe havia parado sua atividade para observá-la. Resolveu ignorá-la por alguns instantes, pois sabia o que ela estava pensando.– Devia ter contratado uma pessoa para fazer isso por você– Como se eu não pudesse fazer isso mamãe.–Pensei que tivesse esquecido os trabalhos domésticos quando foi morar em Londres.– Eu ainda sou a mesma mamãe e além do mais não há trabalho nenhum.Ela voltou a arrumar a mesa enquanto olhava a mãe de rabo de olho. Ela sabia que a mãe queria lhe perguntar alguma coisa, mas não sabia como.– Margaret? Você está afim de Mr. Thornton?–Mãe! Você não!– Mas qual o problema?– Não sei se algum dia chegaria a gostar dele ou a considerá-lo agradável. Ele não é um homem que agrade às mulheres. Mas Mr. Thornton vem aqui como seu amigo, como alguém que o considera...– Ele me pareceu um homem agradável...– Pode ser. Não conheço o suficiente para afirmar, mas como diz o ditado: a primeira impressão é a que fica. Ela foi até a mãe beijou-a e subiu para se arrumar. Pensando em como as pessoas viam a relação dela com Mr. Thornton. Ela não gostava dele! Isso não é óbvio? Várias vezes Margaret desejou que Mr. Thornton estivesse bem longe, mas tinha que lembrar-se do afeto do pai por Mr. Thornton, para dominar a irritação do cansaço que a deixava esgotada, e lhe dava uma daquelas horríveis dores de cabeça que vinha sentindo ultimamente.Mais tarde, o jantar transcorria bem. Mr. Hale estava animado em poder conversar com Mr. Thornton e ele parecia gostar do assunto, pois estava sempre sorrindo. Até a sua mãe resolveu entrar no assunto. Ela resolveu apenas observar.Mr. Thornton estava bastante contente por ter conhecido Mr. Hale. Ele era um homem bom e tinha muitas coisas inteligentes para falar. Porém, ele não se limitou apenas a conversar. De vez em quando olhava para Margaret.Ela estava parada junto à mesa de chá, em um vestido de musselina claro com muitos detalhes em rosa. Parecia não prestar atenção à conversa, ocupada apenas com as xícaras de chá, entre as quais se moviam suas lindas mãos de marfim, com bela e silenciosa delicadeza. No braço fino usava um bracelete, que, em todo momento, caía-lhe sobre o pulso. Mr. Thornton a observava colocar de volta no lugar o irritante adorno com muito mais atenção do que ouvia a conversa do seu pai. Parecia fascinado de vê-la puxá-lo para cima com impaciência, prendê-lo na carne macia, até que o via cair de novo. Quase exclamou “Caiu outra vez!” Faltava pouco para que o chá ficasse pronto depois da sua chegada, e quase lamentou ter sido logo obrigado a parar de observar Margaret para comer e beber. Queria puxar assunto com ela, mas não sabia o que dizer.– Você parece orgulhoso por estar aqui. – afirmou Mr. Hale.– Não é orgulho da minha parte – respondeu Mr. Thornton – é só uma coisa evidente. Não vou negar que me sinto orgulhoso de pertencer a uma cidade – ou talvez deva dizer uma região – cujas necessidades propiciaram tal grandeza de concepção. Preferia ser um trabalhador – fracassado e arruinado – sofrendo aqui, do que levar uma vida próspera e tediosa nos esgotados meandros do que chamam de sociedade aristocrática lá no sul, com seus dias maçantes plenos de tranquilidade e despreocupação. Um homem pode ficar entupido de mel, e incapaz de erguer-se e voar.
– O senhor se engana – disse Margaret. — – O senhor não sabe nada do sul. Se há menos aventura e menos progresso – suponho que não devo dizer menos excitação – provocados pelo espírito de jogatina do comércio, que parecer forçar a criação dessas maravilhosas invenções, também há menos sofrimento. Vejo homens aqui andando de um lado para outro nas ruas, que parecem derrotados por alguma perturbadora tristeza ou preocupação, e que não são apenas sofredores, mas inimigos. Lá no sul temos os nossos pobres, mas não há nos seus rostos essa terrível expressão de doloroso senso de injustiça que eu vejo aqui. O senhor não conhece o sul, Mr. Thornton – ela concluiu, caindo em um silêncio determinado e zangada consigo mesma por ter falado tanto.– E posso dizer que a senhorita não conhece o norte? – ele perguntou, com uma inexprimível gentileza no tom, mostrando o quanto ela o ferira. Margaret persistiu em seu teimoso silêncio, com saudade dos adoráveis fantasmas que deixara lá longe, no Hampshire. Seu anseio era tão apaixonado, que percebeu que sua voz sairia instável e trêmula, se falasse.– Eu gostaria de convidá-lo para visitar a nossa querida Helstone e saber como é o sul. – falou Mr. Hale querendo acabar com a discução.– Eu seria grato em conhecê-la.E o assunto mudou. Agora eles falavam sobre negócios. Margaret prestou atenção, queria muito compreender a forma como Mr. Thornton conduzia os seus negócios. Ele falava da greve que poderia a vir estourar nos próximos dias.– Há necessidade de chamá-la de uma batalha entre as duas classes? – perguntou Mr. Hale. – Eu sei, pelo modo com que usa essa expressão, que ela lhe dá a verdadeira ideia do estado de coisas.– É verdade. E acredito que seja tão necessária quanto a sabedoria prudente e a boa conduta que se opõem a ela, e que combatem a ignorância e a imprevidência. É uma das grandes belezas do nosso sistema: que um trabalhador possa elevar-se ao poder e à posição de patrão pelos seus próprios esforços e atitudes; que, de fato, qualquer um que paute o seu comportamento pela decência e a sobriedade de conduta e que cumpra as suas obrigações, pode entrar no nosso meio. Não precisa sempre ser como patrão, mas como supervisor, caixa, guarda-livros, escriturário, ou alguém do lado da autoridade e da ordem.– O senhor então considera, se entendi direito, todos aqueles que não tiveram sucesso em elevar-se no mundo, qualquer que seja a causa, como seus inimigos – disse Margaret, em uma voz clara e fria.– Como seus próprios inimigos, com certeza – disse ele, rápido.Não ficou nem um pouco ofendido pela arrogante desaprovação implícita no modo de falar e no tom que Margaret usara. Mas, em seguida, sua honestidade franca o fez perceber que suas palavras foram uma pobre e esquiva resposta ao que ela dissera. E, mesmo que ela desdenhasse dele o quanto quisesse, tinha o dever para consigo mesmo de explicar o que havia dito, tanto quanto pudesse. Mas era muito difícil separar a interpretação dela daquilo que ele realmente quisera dizer. Talvez pudesse ilustrar melhor o significado das suas palavras contando-lhes algo sobre a sua própria vida. Não seria algo muito pessoal para contar a estranhos? Ainda assim, era o meio mais direto de explicar. Então, pondo de lado o resquício de timidez que lhe trouxera um momentâneo rubor ao rosto, disse:– Não falo isso só por ouvir dizer. Dezesseis anos atrás, meu pai morreu em circunstâncias miseráveis. Tenho uma mãe que poucos têm a bênção de possuir, uma mulher de poderosa força e firme resolução. Fomos para uma pequena cidade no campo, onde a vida era mais barata que em Milton, e lá consegui emprego em uma loja de tecidos – um lugar fundamental, diga-se, para obter um bom conhecimento da mercadoria. Semana após semana, nossa renda chegou a quinze xelins, com a qual devíamos manter três pessoas. Minha mãe administrou as coisas de modo que eu pudesse separar três xelins desses quinze, regularmente. Isso foi o começo, ensinou-me a renunciar. Agora que sou capaz de proporcionar à minha mãe o conforto que a sua idade, mais do que o seu desejo, exige, agradeço-lhe silenciosamente em cada oportunidade, pelo treinamento que me proporcionou. Agora, quando percebo que, no meu caso, não se tratou de sorte, nem de mérito, nem de talento – mas simplesmente dos hábitos de vida que me ensinaram a desprezar qualquer satisfação que não seja merecida, e nunca pensar duas vezes sobre isso – acredito que esse sofrimento, que Miss Hale diz estar impresso nos semblantes do povo de Milton, não é mais do que a punição natural pelos prazeres desfrutados sem merecimento, em algum período anterior das suas vidas. Não acho que as pessoas que amam a boa vida e os prazeres materiais mereçam o meu ódio. Eu apenas os desprezo pela sua pobreza de caráter.Depois dessa resposta, Margaret não ousou em dizer mais nada. Agora podia compreender melhor por que Mr. Thornton era assim. De repente, ela já sentia um pouco de compaixão por ele.Quando Mr. Thornton se levantou para ir embora, depois de apertar as mãos de Mr. e Mrs. Hale, adiantou-se para Margaret para se despedir dela da mesma maneira. No momento em que viu a mão meio estendida, que ele prontamente recolheu, ficou triste por não ter percebido a intenção. Mas Mr. Thornton não estava ciente da sua tristeza e, endireitando-se, saiu, murmurando enquanto deixava a casa:– Nunca vi uma moça mais orgulhosa e desagradável do que essa! Até a sua enorme beleza se apaga da memória da gente por causa dos seus modos insolentes.Quando foi dormir, Margaret não parava de pensar em Thornton, no que ele havia dito. Ele agora havia se tornado o seu objeto de estudo. Queria estar perto dele agora mais que nunca, mesmo ele tendo hábitos tão rudes.
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