Notas iniciais
O começo é meio chatinho, mas vai melhorar XD

Era só uma manhã comum. Não sei por que as pessoas estavam tão felizes. O motivo era passar do século XX para o XXI? Simplesmente não conseguia entendê-las.

Quando dei por mim, descobri que havia três notícias: a) Era uma segunda-feira; b) Estava de férias da escola; c) Ainda tinha que trabalhar no restaurante do meu pai.

Levantei-me e percebi que havia um presente na penteadeira. Saí do quarto e fui perguntar para quem era aquele presente.

- É para você, querida – minha mãe respondeu, me olhando nos olhos. – Quando eu estava grávida de você, sua tia me deu esse presente e disse que eu só poderia entregá-lo para você em um momento especial. Nada melhor do que na virada do século, não é mesmo?

Concordei com a cabeça e corri de volta para o quarto, curiosa para abrir o presente. Era nada mais, nada menos que um óculos meio escuro. Fiquei desapontada, mas eu não podia reclamar de nada. Desci, me despedi da minha mãe e saí para o restaurante.

Enquanto caminhava, percebi algo diferente nas pessoas. O meu vizinho – que eu achava bonitinho – estava muito feio. Descabelado, com olheiras, gordo, dentes tortos... Tudo que você puder imaginar! Tirei o óculos e consegui enxergá-lo como ele era normalmente: magrinho, dentes certinhos, cabelo arrumado...

“Que estranho” pensei. “Será que isso acontece com todas as pessoas?”

Saí o dia inteiro fazendo isso com tudo e com todos. Fiquei mais assustada do que já estava e comecei a pensar que estava louca.

Já de noite, fui procurar mais pistas na caixa para descobrir qual seria a função daquele óculos. Encontrei uma carta da minha tia.

“Olá para você, meu sobrinho ou sobrinha. Provavelmente, não iremos nos encontrar, mas quero deixar esse presente para você. Muitas pessoas pensam que eu sou louca, mas quando você usar o óculos irá entender. O objetivo do óculos é ver as características reais das pessoas, aquelas que elas escondem. Faça bom proveito!”

Então, eu tinha uma verdadeira arma comigo. Poderia usá-la contra as pessoas? Não, não sou esse tipo de pessoa. Só porque as pessoas não conseguem se controlar nas mentiras que eu vou ser assim também? Estava feliz com minha nova ferramenta, mas não sabia se estava pronta. Decidi guardá-la em uma gaveta e esperar, embora fosse uma tarefa bem desgastante.

*****

Quando fiz 20 anos, conheci um cara chamado Igor. Ele era perfeito para mim e foi nessa época que eu decidi usar o óculos novamente. Sempre enxergava a mesma coisa nele, não via nada diferente. Meus pais também se davam muito bem com ele, achavam que era um garoto exemplar e que tinha um futuro. Depois de um tempo, as nossas famílias ficaram amigas e todas as noites nós saímos juntos para jantar. Em um desses jantares, Igor me pediu em namoro e eu estava tão encantada por ele que não consegui recusar.

Quando eu completei 26 anos, nós nos casamos. Todos nos criticaram, pois achavam que éramos muito jovens e imaturos. Não ligamos e continuamos a viver a nossa nova vida, sem preocupações e completamente equilibrada.

Certa noite, Igor chegou à casa bêbado e estava muito furioso. Ele saiu destruindo tudo o que encontrava e começou a bater em mim também. No começo, eram socos leves e que não doíam tanto, mas depois esses socos passaram a ser hematomas roxos e enormes. Todas as noites, qualquer coisa que eu fizesse era motivo de pancadaria e eu já estava farta daquilo tudo.

Estava planejando fugir quando minha irmã descobriu que estava grávida e foi quando tomei coragem e fui denunciar Igor. Ele pegou alguns anos de prisão e eu resolvi ajudar a minha irmã com o bebê. Infelizmente, ela morreu no parto e logo depois disso o pai entrou em depressão. A pessoa mais próxima da criança era eu, então passei a cuidar dela.

Por vontade do pai – falei com ele quando finalmente consegui visitá-lo na clínica – a menininha deveria se chamar Isaura. Cuidei de Isaura até ela completar 8 anos, foi quando o pai dela superou e voltou à vida normal.

Secretamente, ainda usava o óculos nas pessoas. Era uma ótima arma e assim poderia conhecer mais da pessoa sem sequer conversar com ela. Como aconteceu com Igor, com Isaura eu não enxergava nenhuma diferença. Deduzi que, com as pessoas que você ama, você não consegue diferenciar as características e acaba achando que tudo é igual.

Tudo estava indo bem, e eu consegui recomeçar a minha vida da forma que sempre quis. Até que um dia, Igor conseguiu sair da prisão e foi me procurar. Ele queria marcar um encontro comigo, mas só aceitei porque haveria policiais o vigiando. Tive receio de algo dar errado e embrulhei o óculos, destinado à Isaura.

Quando cheguei lá, Igor me falou de toda a sua estadia na prisão e disse que estava arrependido de tudo que fez para mim. Falei também de como tinha sido a minha vida sem ele, de como estava feliz e que esperava que aquela fosse a última vez que nos encontrássemos. No final de tudo, ele queria um último abraço, antes de viajar para longe de tudo e todos.

O maior erro da minha vida foi ter aceitado aquele abraço. Não havia percebido no começo, mas Igor viera armado. Quando ele passou os braços pelas minhas costas, ele atirou em mim duas vezes. Não deu nem tempo da ambulância chegar, já sentia que estava indo embora.

“Pelo menos” pensei comigo “fiz a coisa certa e futuramente Isaura conhecerá o poder daqueles óculos. Só espero que ela não sofra como eu sofri.”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!