Um mundo diferente

1 Uma cidade falsamente utópica


O homem corria limitado pela armadura que revestia seu corpo. Era demasiadamente pesada, possuía um sistema de gravidade em que a tornava mais leve, mas mesmo com isso, atrapalhava. Não era uma armadura como as de um cavaleiro, era uma armadura tecnológica. Suas cores verde e prateado opaco não reluziam, aquilo definitivamente não era de um metal barato, ou até mesmo nem metal seria. Contornos suaves e sem adornos, exceto por um brasão no peitoral, uma águia preta feita com arte minimalista.

Raios de plasma atingiam as paredes do corredor úmido e escuro de maneira tão errônea que pareciam ser desviados. E era, a armadura tecnológica do homem conseguia criar e ampliar um campo gravitacional como forma de defesa contra disparos.

O inimigo, que corria há alguns metros de distância, não era desprovido de tecnologia avançada, contudo era limitado ao que o QG Central lhe permitia usar. Havia um controle racionado, pois a terceira guerra mundial deixou marcas que duram até hoje, cem anos após a guerra.

O inimigo, cansado de gastar energia de sua armadura, atira uma bola de plasma, não para acertar o homem, nem perto, apenas para passar por ele, bem acima do ombro. Esse tiro gastou uma quantidade incomum de energia, cinquenta por cento. A armadura inteligente do homem, calculando não haver perigo, não criou nenhum campo gravitacional, calculou ser desnecessário, mas em alguns milésimos depois, fora do campo de alcance da defesa, terminou outro cálculo.

A bola de plasma continha energia concentrada para colidir e criar uma explosão com grande impacto. O campo de força se ativou e tanto o homem quanto o inimigo pararam de repente, agachando-se para manter o equilíbrio. Fumaça e raios fluorescentes vieram em abundância com um estrondo ensurdecedor.

A luz do luar penetrou pela destruída parede do corredor. Vergalhões e vigas de metal à mostra. Cabos que percorrem todo o prédio para um mapeamento 3D, substituindo câmeras de vigilância, ficaram estraçalhados, pendendo no teto. Havia também canos hidráulicos cuja água vazava com tanta pressão que a princípio parecia até fumaça. O chão logo ficou tão cheio d’água que a água caia pela parede destruída. Se não fosse pela armadura, teriam sido mortos eletrocutados. Mas logo toda a energia daquele corredor fora desativada e a registro da água, fechado. Um prédio que pode ser controlado em seus mínimos detalhes diretamente por um computador central em outra parte da cidade, senão em outra.

A arma acoplada ao braço do inimigo, abriu e ficou suspensa ao ar por cabos conectores à armadura. Cabos para transferir energia e para um contato direto à inteligência artificial. A arma soltava uma rala fumaça pela grande boca, maior do que um punho, e emanava um cheiro de queimado. Ele a puxou e deixou-a no chão.

Em sua mão direita, a luva da armadura possuía pequenas entradas e um forte LED de laser logo no centro. Mirou no homem e pronunciou com uma voz rouca e cansada:

– Desligue o campo e deite-se! Você está preso. – e repetiu três vezes mais, imperativamente.

O homem continuava agachado, imóvel.

– Não há saída! Entregue-se.

Dizia coisas do tipo, mas nada que dissesse surtia efeito, nem positivo nem negativo.

– Vocês irão perder essa guerra. – bradou o homem, enquanto se levantava ainda com o campo de força ativo.

– Além de ladrão é louco. – replicou o inimigo. – Não existe guerra alguma. Seu motim não irá durar. –

– Não existe guerra? Então me diga o que está acontecendo nas fronteiras da capital, além dos muros de contenção. –

– Muros de contenção? Somente há mu... – ia dizer muros de proteção, mas fora interrompido pelo QG dizendo para bater em retirada por razão de baixo nível de energia.

O inimigo correu pelo corredor e adentrou em uma porta antes camuflada oticamente para parecer com a parede. Um equipamento de luz que camufla objetos ou lugares foi algo recém aprimorado.

– Jay, a que distância está a prancha? – perguntou o homem à armadura.

– Ela o aguarda, senhor. – uma voz pouco robotizada e feminina respondeu. Poucos segundos depois, sem ser consultada, a armadura alerta:

– Detectando ação por controle remoto nas proximidades. Eles estão a ativar as armas. Pule. – o homem se alertou e pediu redistribuição de energia para o campo de força. Correu sem igual enquanto às suas costas, paralelepípedos de metal deslizavam para o lado, revelando pequenos lança chamas. De um lado lançando gás e de outro, fogo.

Saltou pelo arrombo na parede e sentiu um calor insuportável, sairia queimado se tivesse pulado pouco depois. O campo de força não foi capaz de intervir o calor. Surgiu por baixo uma grande prancha de metal com cortes cruzados formando uma lixa em sua superfície. Embaixo da prancha havia dois grandes orifícios que serviam para fazê-la flutuar. Pelos orifícios saíram faíscas quando o homem saltou sobre ela, quase desestabilizou.

Flexionou os joelhos e estendeu os braços à altura dos ombros, equilibrando-se. Não era necessário algum equipamento para segurar os pés à prancha, uma vez que sua superfície desmontou e remontou, acoplando-se à bota da armadura.

Se não fosse pela época dos protestos pacificadores contra o regime totalitário imposto pelo governo, centenas de lugares daquela cidade – onde se via mais metal do que concreto – revelariam armas e disparariam contra o homem, mas isso apenas faria eclodir uma rebelião.

– Dez horas e cinquenta e nove minutos e quarenta e nove segundos. – pausadamente a armadura informou. Iniciando uma contagem regressiva de dez segundos. O homem foi a toda velocidade em direção aos muros de contenção, a quatrocentos quilômetros por hora. A contagem regressiva terminou.

Um som não muito estranho ecoou seguido por um apagão. Todas as luzes se apagaram, exceto alguns prédios grandiosos, que possuíam geradores próprios. Passar pelos muros de contenção para adentrar a cidade é uma coisa, já sair... uma tarefa quase impossível.

– Carlos, você tem dois minutos para sair dessa cidade! – uma voz de um homem falou pelo rádio da armadura, não era muito nítida, havia interferência, mas ele entendeu.

– Só preciso de um minuto, estou quase saindo. – respondeu.

– Ótimo, desligando. –

A cidade é de uma grandeza assustadora, toda contornada por uma muralha na qual os cidadãos pensam se tratar de algo para proteção. A verdade é que contém o que está fora e mantém o que está dentro. Não existem carros, apenas trens que de até às 20:00 transportam pessoas, porém depois de tal hora chegam ao seu ponto final e param de circular. Robôs tomam as ruas prendendo e levando para as prisões quem quer que esteja na rua sem identificação autorizada. Na televisão – privilégio de não muitos – e nos telões que há nas vidraças de inúmeros prédios largos o suficiente existem fortes investimentos em propagandas manipuladoras. Há um governador, mas ele é figurativo e ele próprio não sabe da guerra lá fora.

Por sorte Carlos não estava tão longe dos muros, o prédio em que estava era perto. Levou quase dois minutos para ultrapassar os limites da cidade. Continuou a toda velocidade enquanto que às suas costas uma claridade enorme se formava, a luz voltou. Mas logo várias e várias luzes foram se apagando, pois a partir de 23:00 não se pode ter lâmpadas acesas em casas não autorizadas. Exceção hoje por razão do apagão.

Em poucos minutos chegou à uma base dentro de um bosque, longe do violento campo aberto que rodeia a muralha. Poucos quilômetros de campo aberto separa o bosque da muralha.

Desacoplou-se da prancha e segurando-a subiu em um camuflado com terra pedestal redondo cuja tampa – única parte visível – desceu como um elevador para o subsolo. Em poucos metros de profundidade o elevador parou não havia proteção contra queda, era apenas uma barra de metal que elevava e descia a tampa.

Carlos desceu e adentrou o corredor de um branco tão perfeito que dava náuseas tentar distinguir o que era curva. Virou à direita, nada havia à esquerda apenas armadilhas e também nem à frente. Uma porta também do mesmo branco, mas resistente bloqueava a sua entrada. Retirou seu capacete e um raio laser verde fez o teste de retina.

– Identidade confirmada. Carlos Ricarte. – uma voz eletrônica emanou de algum lugar, não era possível ver qualquer autofalante nos corredores. Pelo meio a porta se abriu e um corredor metálico se revelou, inúmeras portas à direita e à esquerda. Não entrou em nenhuma delas, apenas seguiu até a última, no meio do corredor, uma porta redonda Novamente um raio laser fez o teste de retina.

– Acesso aceito. Programador Carlos Ricarte. – novamente a mesma voz eletrônica emanou.

Antes da porta rolar para o lado, diversos ruídos de trancas se abrindo ecoaram. Uma sala oval com uma mesa de vidro redonda no centro. Nas paredes da sala havia monitores de recursos, monitores de estatísticas, tela das câmeras de vigilância e vários outros. Logo abaixo várias cadeiras com vários teclados, alguns feitos especialmente para converter em tempo real para código binário, outros eram normais com poucas modificações. Haviam alguns botões desconhecidos e outros protegidos a chave. A porta redonda se fechou atrás dele.

Ao redor da mesa haviam três pessoas com roupas finas. Todos receberam a Carlos com bastante alegria. Um homem negro e forte perguntou por todos:

– E então... resultados? – Jorge tinha uma voz firme, mas um sorriso esperançoso.

– Sim, minha armadura mapeou um bom perímetro. Acho que foi dessa forma que fomos descobertos. Demoraram nos descobrir, mas chegaram tarde demais. Irei transferir os dados. –

– Nossa! Finalmente. – disse Camila com uma voz doce e encantadora. Uma mulher alta de cabelos castanho. Possuidora de boa índole. – E então, o que exatamente tem para nós? –

– Bom... o prédio em que eu estava era de faixada. Usado para acesso subterrâneo. –

– Então não continha máquinas para acesso remoto? – perguntou Gabriel um loiro baixo de voz calma.

– Na verdade o prédio em si era controlado por acesso remoto. Em minha fuga, minha armadura detectou o controle. Foi assim que eu quase consegui um bom bronzeado, teria tentado rastrear o sinal, mas não deu tempo.

A transferência remota de dados terminou e um holograma azul se formou no centro da mesa de vidro, havia um projetor no teto da sala.

– Ai está o prédio e a sua base no subsolo. – comentou Carlos cuja armadura se abria nos pontos de locomoção e ele retirava parte por parte, deixando-a pelo chão. Naquele dia havia chamado uma pessoa para colocá-la no armazém, em seu armário.

Linhas azuis formavam uma estrutura quadriculada sem design gráfico, mas logo, pouco a pouco em que os dados eram interpretados, um design gráfico de cores especuladas surgiam de acordo com os dados hackeados que já continham e que Carlos conseguiu.

– Computador, criptografe os novos dados – ordenou, Carlos.

– Galera, há algo que tenho que informar... nossa suposição era correta. A informação é manipulada e até mesmo os soldados não sabem para o que arriscam suas vidas em confrontos conosco. Devemos poupar caso possível a vida deles. Pelo jeito em que não tentaram hackear minha armadura no tempo em que estive lá, está em falta os programadores.

– Sim, a maior parte dos programadores conseguiram fugir e outros foram exterminados de acordo com uma fonte que conseguiu sobreviver ao extermínio em massa. – comentou, Camila.

– Vamos organizar um novo ataque, derrubaremos a rede de energia novamente e então infiltraremos um de nós lá. – do nada, sem nem mesmo estar no assunto, disse Carlos.

– Do que você está falando, doido? – disse Gabriel.

Entre alguns sorrisos, Carlos – que estava viajando nas ideias em sua mente – respondeu:

– Ah, desculpe. Eu estava aqui pensando comigo. Se quase não há programadores, por que não infiltramos um de nós lá para hackear os televisores e espalhar a verdade? Um de nós poderia continuar aqui e dar cobertura, invadindo outros setores. Se tornássemos impossível o acesso remoto à rede de energia, teríamos tempo o suficiente para alertar a população e causar dúvida entre eles, senão é claro uma rebelião. Mas precisamos de um aqui disponível sem estar ocupado para auxiliar, hackeando o controle das armas e se possível sobrecarregando-as de energia, assim nos livrando do perigo.

– Ei, ei. Não acha que está fantasiando demais? Isso poderia demorar horas. O sistema deles não é tão fácil assim de ser invadido, conseguiríamos apenas por alguns minutos. Apesar de serem poucos os programadores que lá restaram, eles são bons! – Camila gostou da ideia, mas era arriscada demais.

– Veja bem – disse Gabriel. – Se eles realmente não sabem de nada, se são manipulados a serem cegos e não perceberem o que está acontecendo, um ataque desses poderia despertar uma ótima minoria. Eu não duvido que há aqueles que somente esperam o momento certo para causar um ataque manifestante nas ruas. Quem é que gosta de viver um regime totalitário?

– Bem visto, Gabriel. – comentou Carlos – Olhem, se há manifestações de paz é porque eles ainda não alcançaram plenamente o poder. O toque de recolher é muito rígido, eles ainda devem estar tentando conter minorias específicas. Vamos despertar dúvida neles. Logo após isso, devemos forçar o governo a reagir contra nossos ataques.

Jorge como um comandante apenas analisava a conversa. Mas por fim disse algo:

– Iremos ataca-los. Criaremos o roteiro do aviso e veremos quem se voluntaria a falar perante a câmera, devemos mostrar a cara, pois devemos passar a mensagem de que não nos escondemos e de que dizemos a verdade. Carlos você irá hackear os televisores. Camila você cuida da rede de energia. Gabriel você irá auxilia-la para bloquear as tentativas de recuperar o controle. Eu irei cuidar de auxiliar a Carlos, a armadura dele deverá enviar em tempo real dados da localização exata e também de qualquer aparelho dentro de um raio de 5 metros, mas isso não é desculpa para abaixar a guarda, uma vez que pode não ser possível que eu consiga a tempo. Portanto poupe energia para o campo de força. Não bloqueie ataques que sua armadura pode suportar normalmente. Estão dispensados, amanhã teremos uma reunião para maiores detalhes e estudo do mapeamento do perímetro que Carlos nos trouxe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.