Como uma noite como outra qualquer, eu estava no bar, bebendo, calado na minha, com vidas inteiras ao meu redor e eu com nem um quarto de história.
Moça do cabelo tingido de breu, porém suas raízes ruivas como Elizabeth II, olheiras profundas como se não dormisse a dias e um sorriso indecifrável nos lábios

mal sabia eu que esse sorriso se tornaria meu maior mistério

Olhou em minha direção. Sorriu novamente como se dissesse que o próximo a sofrer com seu jogo seria eu.

sentou-se ao meu lado, pediu duas bebidas (ainda sem me dirigir palavra alguma) e me empurrou um copo de uma bebida que até então eu não apreciava muito

Levei o copo aos lábios ao mesmo momento que ela. O gosto era miserável. Tão miserável que coincidia com minha vida.

e ela sabia disso

Apreciamos mudos por certo tempo a miséria da existência, até que ela se levantou, pegou um guarda-chuva que eu tinha quase certeza não pertencer a ela e com um gesto de cabeça, me convidou a jogar seu jogo.

joguei

Parti atrás da garota de estranha beleza e profundo mistério.

o mais profundo

O céu estava limpo e eu não entendia a necessidade do guarda-chuva roubado.
Conduziu-me ah uma localização deserta e sem menor aviso seus lábios tocaram os meus e sua linguá pedia espaço

erápidocomo começou, acabou.

Meio embriagado, tentei entender. E até hoje, em mais meu profundo e eterno estado de embriagues, não entendo.

Sorriu um sorriso nervoso como se dissesse “nem começou”

Pegou minha mão e sem porque ou por onde, correu. Correu por ruas desertas e movimentadas, entre carros e bicicletas. Apenas parou quando ambos arfantes não aguentávamos o cansaço

só então notei que não sabia o timbre de sua voz

Abri a boca para falar e ela colocou seu dedo em meu lábio com um súplico de silêncio

calei-me.

Fomos a uma rua do subúrbio. Vazia e curiosa, apenas admiramos as moradias e ramificações da arte de rua.E ela. Eu a admirava mais do que tudo.

subitamentelevantou-se, me puxou e mepôs de pé.

segurou minha mão e sem o menor aviso deu um giro como uma dança de salão, novamente girou e caiu em meu braços.

e ali estava ela. apoiada em meus braços, em meio ao subúrbio. Uma garota que eu conheci 3 horas atrás mas já fudera com minha sanidade.

abaixei-me lentamente e lhe dei um beijo calmo e sossegado. Tranquilizador.

e ela sussurrou em meu ouvido

"até mais ver, seu moço"

armou o guarda-chuva e foi se afastando enquanto pingos começavam a cair do céu e eu gritava implorando por seu nome, endereço ou qualquer contato.

eu posso jurar que ouvi algo como

"não grite, moço… aprecie o chão a sua volta. As respostas estão em observações"

e observei-a indo embora e a chuvaaumentando.

E ela se fora. Sem me deixar nada..?

joguei-me aos pés do chão e ali estava um papel escrito

"notara-me diferenciada,
por minha momentânea estada em sua existência
mas, moço.
Eis que eu sou o vendo
Eis que sou o mar
Eu venho e vou sem mais delongas
E ninguém sabe me prever.
Um dia eis de me encontrar
e virá a entender-me
(talvez)”

a chuva engrossou. E de um momento para outro eu tinha toda a história de um mundo. Porém já não havia vida em mim.

Notas finais
espero que gostem, foi feito em um momento qualquer em lugar algum. Está na minha agenda, no meu tumblr, e no meu mundo. Esta foi uma tarde qualquer no meu universo alternativo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!