Um momento e uma história para uma vida zerada.
1 Um bar qualquer.
Como uma noite como outra qualquer, eu estava no bar, bebendo, calado na minha, com vidas inteiras ao meu redor e eu com nem um quarto de história.
Moça do cabelo tingido de breu, porém suas raízes ruivas como Elizabeth II, olheiras profundas como se não dormisse a dias e um sorriso indecifrável nos lábios
mal sabia eu que esse sorriso se tornaria meu maior mistério
Olhou em minha direção. Sorriu novamente como se dissesse que o próximo a sofrer com seu jogo seria eu.
sentou-se ao meu lado, pediu duas bebidas (ainda sem me dirigir palavra alguma) e me empurrou um copo de uma bebida que até então eu não apreciava muito
Levei o copo aos lábios ao mesmo momento que ela. O gosto era miserável. Tão miserável que coincidia com minha vida.
e ela sabia disso
Apreciamos mudos por certo tempo a miséria da existência, até que ela se levantou, pegou um guarda-chuva que eu tinha quase certeza não pertencer a ela e com um gesto de cabeça, me convidou a jogar seu jogo.
joguei
Parti atrás da garota de estranha beleza e profundo mistério.
o mais profundo
O céu estava limpo e eu não entendia a necessidade do guarda-chuva roubado.
Conduziu-me ah uma localização deserta e sem menor aviso seus lábios tocaram os meus e sua linguá pedia espaço
erápidocomo começou, acabou.
Meio embriagado, tentei entender. E até hoje, em mais meu profundo e eterno estado de embriagues, não entendo.
Sorriu um sorriso nervoso como se dissesse “nem começou”
Pegou minha mão e sem porque ou por onde, correu. Correu por ruas desertas e movimentadas, entre carros e bicicletas. Apenas parou quando ambos arfantes não aguentávamos o cansaço
só então notei que não sabia o timbre de sua voz
Abri a boca para falar e ela colocou seu dedo em meu lábio com um súplico de silêncio
calei-me.
Fomos a uma rua do subúrbio. Vazia e curiosa, apenas admiramos as moradias e ramificações da arte de rua.E ela. Eu a admirava mais do que tudo.
subitamentelevantou-se, me puxou e mepôs de pé.
segurou minha mão e sem o menor aviso deu um giro como uma dança de salão, novamente girou e caiu em meu braços.
e ali estava ela. apoiada em meus braços, em meio ao subúrbio. Uma garota que eu conheci 3 horas atrás mas já fudera com minha sanidade.
abaixei-me lentamente e lhe dei um beijo calmo e sossegado. Tranquilizador.
e ela sussurrou em meu ouvido
"até mais ver, seu moço"
armou o guarda-chuva e foi se afastando enquanto pingos começavam a cair do céu e eu gritava implorando por seu nome, endereço ou qualquer contato.
eu posso jurar que ouvi algo como
"não grite, moço… aprecie o chão a sua volta. As respostas estão em observações"
e observei-a indo embora e a chuvaaumentando.
E ela se fora. Sem me deixar nada..?
joguei-me aos pés do chão e ali estava um papel escrito
"notara-me diferenciada,
por minha momentânea estada em sua existência
mas, moço.
Eis que eu sou o vendo
Eis que sou o mar
Eu venho e vou sem mais delongas
E ninguém sabe me prever.
Um dia eis de me encontrar
e virá a entender-me
(talvez)”
a chuva engrossou. E de um momento para outro eu tinha toda a história de um mundo. Porém já não havia vida em mim.
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