Após muito tempo sentado sozinho, um daqueles filhotes, acordou, se levantou e veio me olhar pela jaula. Levantei-me, cheguei até ele, fiz sinal com as mãos, sobre as folhas de minha tanguinha improvisada. Entendendo o que eu queria, ele saiu devagar, voltando logo depois, com quatro folhas e uma tira de galho de árvore. Deu-me duas folhas e aproveitou, para junto comigo, fazer outra tanguinha para si, já que todos tinham perdido as suas, muito antes de dormir.

Pouco depois, todos estavam de pé e eu continuava naquela jaula, trancado. Os filhotes me esqueceram, saindo para, talvez brincar lá fora e os adultos, às vezes passavam por mim, dando uma rápida olhada.

Durante muitas horas, permaneci sozinho, com o coraçãozinho batendo muito forte e triste.

— Preciso sair daqui! — Dizia sozinho. — Senhor Tony! Senhor Rud! Quando virão me socorrer?

Sozinho, comecei a chorar, mesmo sabendo, que aquilo de nada adiantaria.

Uma fêmea adulta se aproximou, se abaixou diante de minha prisão e como se jamais tivesse visto algo parecido comigo, ficou me observando dos pés à cabeça. Fez sinal para que me aproximasse. Resisti um pouco; mas depois, sabendo que ela nada de mal me faria e talvez até me ajudasse, resolvi atendê-la. Ela ganiu alguma coisa que eu não sabia o que era e acariciou meus cabelos castanhos. Fiquei olhando-a, com minha carinha de implorar piedade… de choro mesmo…

— Me deixe ir embora, por favor! — Pedi calmamen-te.

Ela não podia entender minhas palavras, mas enten-deu perfeitamente o que eu queria dizer. Não só ela; todos eles sabiam; inclusive os filhotes. Eu sim, não conseguia saber, o que eles queriam de mim. Eu era apenas um frágil menino da Terra. Que utilidade poderia ter para eles? Se eu conseguisse pelo menos, uma maneira de me comunicar com eles… Gostaria de saber, o porquê dos filhotes terem desaparecidos; não só de mim, mas também das proximida-des. Com certeza eles teriam ido para longe, pois quando estavam por ali, a algazarra que faziam se ouvia a quase um quilômetro. E tantas outras coisas.

Mas como já tinha notado antes, eu era um menino de sorte. Aqueles seres estranhos pareciam ser de boa índole; caso contrário, como sou para eles um etê, poderiam querer me cortar em pedaços, para me estudar: ver como eram meus órgãos internos, a cor de meu sangue e tudo o mais dentro de mim. Oh doido sô!

Aquela fêmea, talvez imaginando meus sentimentos, levantou-se, abriu a porta da jaula, entrou em seu interior e sentou-se a meu lado, forçando minha cabeça sobre seu peito, acariciando todo meu corpo sentido, talvez, me imaginando como um de seus filhotes.

Muito tempo se passou e aquela fêmea, continuou comigo, conversando suavemente, em sua linguagem estranha (Ah, se pelo menos meu aparelhinho não tivesse se danificado na água!). Ela me fazia companhia e acariciava meus cabelos, braços e peito, com um jeitinho tão especial, que me fazia lembrar de mamãe. Parecia até que ela sabia que meu coraçãozinho, estava há muito tempo, sentindo falta de um verdadeiro carinho de mãe.

©©©

Só bem mais tarde, quando a estrela mais forte voltou a brilhar, é que os filhotes retornaram. Foi quando a chefe, resolveu abrir a porta da jaula e me deixar sair. Livre, acompanhei quatro filhotes, até outro barracão, onde, com um grande número de outros filhotes e adultos, fomos comer alguns frutos, desconhecidos da Terra. Eram como marolos, figos e caquis; mas todos com sabor bem diferente, porém agradável.

O que mais me chamava à atenção, era a educação e a disciplina de todos, inclusive dos filhotes, mesmo os menores. Todos se sentavam no chão e recebiam alguns frutos; comiam os que quisessem e os demais eram devolvidos, para serem usados novamente.

Para mim, o mais saboroso ou gostoso, era o que se parecia com abacate, inclusive no formato, na cor e no sabor.

Após aquele lanche, acompanhado por uns dez filhotes machos, saímos juntos em direção à floresta, por novos caminhos, ainda ignorados por mim.

Dez minutos de caminhada, por uma trilha pouco usada, passando por árvores frutíferas, chegamos a um rio, que até poderia ser o mesmo, onde eu havia estado antes de ser capturado; porém, em outro ponto.

Ali não havia cachoeira, mas a água represada era em maior quantidade e igualmente limpa. Havia uma grande árvore, tombada sobre a água represada, onde aqueles seres usavam como trampolim, apesar de ter uma altura razoável, talvez uns três metros.

Assim que chegamos, alguns filhotes, rapidamente subiram naquela árvore e lá do alto, saltavam na água. Outros saltavam do barranco. Saltavam de pé, de pirueta, de mergulhão… como sempre, na maior algazarra e gritaria, que como já disse, com certeza era ouvida lá de onde vínhamos.

Aproveitando o calor que fazia, me despi também, tirando inclusive meu aparelho tradutor do pescoço, que já estava danificado, mas que ainda poderia ter conserto quando chegássemos a Suster. E então, como não tinha coragem de pular da árvore, onde no mínimo, quebraria o pescoço, entrei pela parte plana, a qual mais se parecia com uma bela praia.

Os filhotes, ao contrário de mim, eram muito ágeis: Ágeis no salto, ágeis na água, ágeis em nado, ágeis em tudo. Mergulhavam naquelas águas, só voltando à tona, em pelo menos quatro minutos depois. Se não fosse a transparência daquelas águas límpidas, eu diria que eles haviam morrido afogados. Até pareciam com anfíbios e que conseguiam respirar debaixo d’água.

A diversão e a algazarra eram gerais, por todo aquele bando de seres diferentes e até mesmo por mim, é claro. Às vezes, assim me esquecia que era prisioneiro.

Durante toda aquela diversão, eles nem se preocupa-vam em me vigiar e, foi por isso, que de repente, resolvi bolar outro plano de fuga. Sairia de mansinho da água e quando eles dessem por minha falta, já estaria de volta à nave.

Foi quando, de repente, lá do galho mais alto, daquela árvore tombada sobre a cachoeira, saltou o mais velho dos filhotes e lá na água, surgia à tona, o mais jovem deles, que teria se fosse um menino da Terra, seus seis a sete anos de idade.

Acidentalmente, o jovem que saltou, pela força da gravidade, caiu forte sobre o menorzinho dentro d’água, batendo com muita força, seus pés sobre o rosto do pequeno. Aquele pequenino, afundou, retornou à tona e sem sentidos, tornou a afundar. Eu, que estava quase ao seu lado, mergulhei, apanhei-o e puxei-o para cima, segurando-o pelo braço e gritando, ao chegar à margem:

— Me ajudem aqui!

Mesmo sem entender minhas palavras, um dos filhotes que se encontrava na água, agarrou o amigo com facilidade e o entregou para o outro que estava fora da água, que o colocou deitado sobre o solo.

Todos saíram da água, inclusive eu e vendo o pequenino inerte, aproveitando cenas vistas em filmes, com as duas mãos, procurei fazer-lhe massagem cardíaca por alguns segundos, sendo observado pelos demais filhotes. Percebendo que aquilo, de nada estava adiantando, procurei fazer-lhe respiração artificial, soprando com toda a pequena força de meu pulmão infantil, para dentro de sua boca e fazendo gestos, para que um dos filhotes me ajudasse na massagem cardíaca; o que, apesar de não entender nada do que estava fazendo, ou para que servia aquilo, um deles me ajudou prontamente.

Demorou pelo menos uns três minutos, que mais pareceram três séculos, para que o pequeno desse algum sinal de vida, balançando a cabeça e abrindo os grandes olhos, num ganido choroso…

Percebendo o sucesso, suspirei aliviado e sorri contente. Os demais filhotes, ignorantes a este tipo de cuidado, continuaram em silêncio, talvez não acreditando, que o amigo pudesse ter voltado à vida.

Talvez e provavelmente, o pequeno nem mesmo tivesse sofrido uma parada cardíaca ou respiratória, teria sofrido apenas um forte desmaio devido a pancada na fronte. Mas meus simples dez anos de idade, não permitia diferenciar isto.

Tornei a vestir minha singela tanguinha, enquanto o pequeno se levantava lentamente e ninguém mais retornou aquela água, que agora tinha uma aparência triste e assustadora.

— Você está bem? — Perguntei ao pequenino.

É claro que ele nada me respondeu.

Devagar, retornamos ao pátio e novamente, meu plano de fuga se tornara em vão.

Durante todo o caminho de volta, o silêncio era geral. Todos estavam muito tristes com o ocorrido e ao mesmo tempo, encantados com meu método de socorro. O problema será no futuro, no caso de alguma morte real, alguém pensar que poderá ressuscitar o infeliz, com o método aplicado ali, crendo ser um tipo de milagre.

De volta ao pátio, todos se mantiveram em silêncio, talvez na intenção de ocultar o ocorrido. Mas, assim como na Terra, lá também, os adultos não são nada bobos e descon-fiam de tudo; então, percebendo que algo não estava certo, resolveram interrogá-los, vindo rapidamente descobrir o ocorrido.

Todos os filhotes envolvidos foram colocados de castigo, dentro da mesma jaula em que eu estivera prisioneiro. O menorzinho ferido e eu fomos levados a outro barracão, onde, duas fêmeas examinaram o ferido, deixando-o em seguida de repouso, em uma cama muito baixa.

Aquelas fêmeas devia ser um tipo de médicas deles e então, mandou que buscassem o filhote, que me auxiliou nos primeiros socorros, levou-nos a outra saleta, onde, o interrogou, ficando sabendo como se dera o salvamento. Com isso, uma das fêmeas, se aproximou e acariciou meus cabelos, murmurando algo, que deveria ser um tipo de agradecimento.

Novamente, fazendo gestos com as mãos, pedi muito triste:

— Deixe que eu vá embora!

Ela me entendeu perfeitamente e com a cabeça negou meu pedido, dando a entender, que não caberia a ela, dar minha liberdade.

Buscou uma vasilha de bambu, com um tipo de suco avermelhado, me entregando e então, tomei devagar. Tinha sabor de amora sem açúcar e não estava gelado, mas serviu para matar minha sede.

©©©

Quando voltou a escurecer, os filhotes foram liberta-dos, esvaziando a jaula, dando lugar a seu novo prisioneiro: eu. Deitei-me sobre as peles de animais e fiquei durante muito tempo, imaginando um plano de fuga. Até que, exausto, adormeci.

©©©

Novamente, acordei primeiro do que todos. Minha tanguinha havia desaparecido durante o sono e então, novamente nu, me protegi com a pele de animal, permanecendo sentado, ali no canto da jaula.

Devo ter ficado pelo menos uma hora, ali sentado sozinho, até que uma dos filhotes fêmea acordou e veio junto à jaula. Fiz-lhe sinal, para que buscasse duas folhas de árvore para mim. Ela correu até a árvore de folhas largas, voltando a seguir, com as folhas nas mãos, me entregando e então, fiz nova tanguinha. Naquele planeta, todos andavam muito bem à vontade, estando nus, mas eu, recém-chegado, apesar de muito criança, sentia tímido de estar assim, pois o costume da Terra, era diferente. As roupas pareciam fazer parte da gente. Sem elas, parecia que faltava um pedaço em mim.

Quando fiz minha primeira tanguinha de folhas, os filhotes seguiram meu exemplo, fazendo também. Mas parece não terem gostado, porque, pouco depois, já estavam quase todos nus, novamente.

Algum tempo depois, todos os filhotes se levantaram e desapareceram como no, digamos, dia anterior, me deixando sozinho, trancado naquela jaula, por longas horas, que mais parecia uma eternidade, sem ter nadinha para se fazer. Às vezes um dos adultos se aproximava e ficava me admirando, me fazendo mesmo parecer, um macaquinho enjaulado.

Só quando a estrela mais forte voltou a brilhar, é que eles retornaram apavorados, ganindo muito ardido, contando alguma coisa para a chefe e os demais adultos, que começaram a me olhar muito, com cara de certo pavor e de jeito apreensivo, como se eu tivesse feito a coisa mais terrível daquele mundo.

Alguma coisa, certamente não estava bem e eu não sabia o que era. Todos persistiam me olhando muito, me deixando muito assustado. Apavorado mesmo! Será que o filhote, que havíamos salvado na água, teria morrido? Não vira mais ele, desde então. Gostaria de perguntar. Mas como? Se eles não me entendiam.

Os ganidos desesperados deles continuavam e eu sabia que deveria ser muito grave, pois, geralmente eles eram bastante calmos. Só podia ser: O filhote havia falecido e agora, eles me acusariam. Sabe-se lá o que iriam querer fazer comigo.