Notas iniciais
Este é bem curtinho. Sobrará tempo para um comentário.

Passado algumas horas, acordei e vi o livro escolar, caído ao lado da cama. Percebi que havia adormecido e então, curioso, para saber o que estava acontecendo na cabine da nave, levantei-me apressado e corri ao encontro dela.

Tony e Rud estavam sentados nas poltronas de controle, visivelmente cansados e em silêncio.

— Senhor Rud: — Chamei-o. — Conseguiu consertar a nave?

— Não! — Negou ele. — O defeito continua.

— Vocês não vão mais procurar?

— Só depois que estivermos descansados!

— Os homens do senhor Frene, não vão mais ajudar?

— Sabe Regis: — Interferiu o senhor Tony. — Nós perdemos o contato com Malderran! Perdemos o contato com nosso planeta!

Fiquei em silêncio.

— Sabe o que isso significa? — Perguntou-me o senhor Rud.

— Estamos... perdidos! — Disse lentamente.

— Exatamente! — Confirmou ele. — Você não se preocupa! Não é?

— Me preocupo sim, senhor Rud!

— Você disse que não se importava! Que tanto fazia Suster, ou outro planeta do Universo!

— Mas eu me preocupo por vocês dois! Vocês sentem falta de suas casas, assim como eu!

— Você está falando sério? — Perguntou-me Tony.

— Claro que sim, senhor Tony! O senhor também está com saudades de sua casa!

— Você é um grande garoto! — Insinuou Tony, com leve embaraço na voz.

Levantou-se e desceu do único degrau da poltrona. Colocou-me em seu lugar.

— Por que o senhor está chorando?

— Não estou!

Deu-me um beijo na face

— Hei! — Reclamei, limpando imediatamente a face. — Sou homem!

— Sei que é! E dos dignos! Fique aqui com Rud, que eu preciso descansar um pouco.

Seguiu para o dormitório, me deixando sentado na principal poltrona do comando, onde, olhando o relógio do painel, disse a Rud:

— Como pode: O relógio da nave está aumentando à distância de Suster; ao invés de diminuir!

— Claro! Estamos indo ao sentido contrário!

— Quer dizer... Que estamos voltando pra Terra?

— Também não!

— E pra onde estamos indo?

— Não sei!

— Quem sabe, estamos indo ao planeta de Mira! — Me animei. — O planeta dos gigantes!

— Acho impossível, Regis!

— Por quê?

— O planeta, o qual você foi da outra vez, está escondido no Universo. Você jamais voltará lá! Mesmo que queira!

— Deus é bom, senhor Rud! Acredite nele! Tudo vai se resolver.

— Como pode ter tanta certeza?

— Da outra vez que vim à Suster, todos os dias, pedia a Deus, pra fazer o senhor Frene me devolver à Terra, até que um dia ele resolveu me levar de volta.

Ele se levantou e me abraçou dizendo:

— Muito bem Regis: reze muito à seu Deus, pra ajudar a gente desta vez! Pois a coisa não está nada boa!

— Ele vai nos ajudar! Pode acreditar!

— Me diz uma coisa: No fundo de seu coração, você acredita mesmo em um Deus transcendental, que criou o céu, as estrelas, os planetas e tudo o que existe?

— Deus trans...cre...sental! — Fiz micagem.

— Transcendental! É aquilo que existia antes de tudo! Antes do universo ser criado!

— Claro que acredito! Quem criou o universo?

— Quem criou o tal Deus?

— Deus é Uni... Uni...

— Unigênito você quer dizer! — Ajudou-me ele. —Deve ter aprendido no catecismo! Aquele que nunca teve início e jamais terá fim!

— Como sabe que aprendi no catecismo?

— Lógico! — Riu ele.

Calou-se por alguns segundos, depois continuou:

— Não seria mais viável, acreditar que o universo foi realmente criado, por volta de treze bilhões e meio de anos terráqueos, obra e um famoso big-bang?

— O que existia antes?

— Nada! Só escuridão!

— De onde veio o big-band?

— Big-bang! — Corrigiu-me ele. — Grande explosão! Antes do universo ser formado, só existia uma grande e única matéria. Na verdade duas: pra cada matéria, existe uma antimatéria igual, porém com energia oposta. Quando estas duas se chocam o que pode acontecer?

Dei de ombros como a dizer “sei lá”!

— Na energia elétrica de sua casa, existe um polo positivo e um negativo; se você encostar um no outro, o que vai acontecer?

— Bloom! — Fiz gesto de explosão. — Já aconteceu com meu irmão Carlos em minha casa. Ele colocou dois pregos em uma tomada e com a faca, empurrou os dois pregos juntos...

— Não foi o que o senhor Frene me mostrou!

— Ãh!? — Estranhei.

— Eu vi um menininho, idêntico a você, jogar um arame torto nos dois polos, na entrada de energia elétrica de sua casa.

— Éh! — Concordei. — Menino burro!

— A mesma coisa aconteceu com o famoso big-bang! A matéria se chocou com a antimatéria, provocando essa grande explosão e pra encurtar a estória, a criação do esplendoroso mundo em que vivemos.

— Até acredito no senhor! Mas quem foi o menino burro, que empurrou a matéria, de encontra a anti...matéria? — Gesticulei.

— Como assim?

— Deus trans...pe...mental! — Ri.

— Tá bom, Regis! — Riu ele. — Continue pedindo a seu Deus, pra guiar esta nave.

— É verdade que no cós...mos, existe lugares que mesmo a gente passando a milhões de quilômetros dele, será sugado?

— Quem te disse?

— O senhor Frene! Da outra vez em que fugi de lá! Acho que ele só queria me amedrontar!

— Não queria! Os cientistas da Terra os chamam de buracos negros. Existem bilhões deles no Universo. Alguns são hiper grandes que são capazes de devorar sistemas estelares inteiros, fazendo planetas se chocarem contra planetas, engolindo a atmosfera e até a luz.

— Acho que tudo isso é exagero, senhor Rud. Deixa pra lá, porque minha cabeça fica até tonta.

Calou-se por um instante, depois prosseguiu:

— Outra coisa: Quando vai concordar em deixar de me chamar de senhor Rud?

— Não consigo chamá-lo de papi! — Insinuei triste. — Desculpe.

— Tudo bem! Eu te entendo! Mas não precisa me chamar de senhor Rud! Basta Rud, então!

©©©

Dezenas de horas depois, conseguimos pousar nossa nave, em um planeta de uma cor bem escura, com enormes pedras e um solo, que parecia totalmente sem vida, animal ou vegetal. Nada de água, nada de terra… Portanto, um lugar muito triste.

Rapidamente, ansioso por liberdade, saí de minha poltrona, abri a porta da nave e me vendo livre, saí correndo por aquele espaço morto, por aproximadamente uns cem metros. Só então, cansado, percebi que algo não estava bem: Não conseguia respirar e me senti afogando, com os ouvidos tapados, como se estivesse no fundo do mar. Tentei voltar à nave, mas não conseguia. Tentei gritar por socorro e minha voz não saía.

Quando avistei o vulto de meus dois companheiros, vindo a meu encontro, usando máscaras, não mais resisti à vida e desmaiei, caindo ao encontro do solo morto.

Segundo me contou depois o senhor Rud, meu restabelecimento, deitado em minha cama, foi muito difícil, com massagens cardíacas e auxílio de um tubo de oxigênio, pelas narinas, por pelo menos, meia hora susteriana.

Quando recuperei os sentidos, estava apenas de short, deitado em meu leito, assistido pelos dois tripulantes. Meu corpo estava suado e experimentava uma febre de quarenta graus.

— O que aconteceu comigo? — Perguntei-lhes.

— Você desceu da nave em um lugar impróprio. — Respondeu-me Tony.

— Como assim?

— Espere que eu lhe mostro! — Disse-me o senhor Rud, saindo do quarto.

— Senhor Tony: eu ainda não estou bem!

— Eu sei! Você está com muita febre!

— Eu não vou morrer não! Vou?

— Claro que não! Você ficará bom, logo! Não se preocupe!

— O que aconteceu? Por que eu desmaiei?

— Acontece Regis, que neste planeta, não há oxigênio! Não há vida! Não há nada!

— Nem monstros?

— Nem insetos! É um lugar anecúmeno!

— Ane... Anecu... Anec o quê?

— Anecúmeno! Significa: Planeta sem vida de qualquer natureza! Planeta morto!

O senhor Rud retornou com um relógio estranho nas mãos, sentou-se a meu lado e me mostrando com o indicador, disse:

— Está vendo aqui, quanto de oxigênio, há neste planeta?

— Não está marcando nada! — Neguei.

— Por isso mesmo! Não há nada de oxigênio! Não há nitrogênio! Não há água! É um local totalmente morto!

— Eu me afoguei lá fora, como se estivesse dentro d´água!

— Em qualquer planeta que você pousar, você não pode descer da nave, sem antes consultar este registrador! E se fosse um planeta com radiação?

— O que aconteceria?

— Todos nós estaríamos mortos!

— Desculpe-me senhor Rud! Eu sou tão burro!

Tony se retirou dizendo:

— Vamos prosseguir viagem!

— A nave obedece?

— Pra prosseguir sim! — Afirmou senhor Rud. — Porem, não se sabe pra onde! Quem sabe logo o senhor Frene, encontre a gente!

— Ele está procurando?

— Claro! Ele já mandou uma nave de resgate! Como você está?

— Acho que ainda tenho febre!

Colocou a mão em meu rosto e disse:

— Fique aqui deitado, que logo você vai melhorar!

— Este planeta não tem radia...tiv...?

— Nada vive aqui! Nem mesmo a radiação!

Continuei deitado, enquanto ele se foi, para ajudar Tony, a pilotar a espaçonave.

— Lembre-se: Não é senhor Rud! — Brincou o homem.

Acho que se eu o chamasse de papi, ou pai, ele se tornaria o homem mais feliz do Universo...

...Mas eu não conseguia.