O hotel era o mais luxuoso possível, onde, a porta toda em acrílico esverdeado, se abriu automáticamente e nós, acompanhado por um anfitrião, pisando em tapete azul, com quase um palmo de espessura, seguimos até o final do corredor, onde colocamos um pequeno cartão magnético em um aparelho fixo na parede, fazendo com que a porta se abrisse e nós entramos. Era uma suíte muito bonita, com banheiro idêntico ao da residência do senhor Frene; porém, no lugar de idiotas braços mecânicos, havia diversos jatos de água, ideal para um tipo hidromassagem no chuveiro, que mais tarde, ao experimentá-lo, percebi o quanto era ideal para relaxamento muscular, depois de muitas horas de atividades em planeta exageradamente quente; uma sala com tevê, vídeo cassete, telefone, poltronas estofadas com lã. O quarto com duas camas, onde o colchão também era em lã, geladeira e piso forrado em azul.

Algum tempo mais tarde, recebemos no hotel, nossas compras. O senhor Frene, colocou o micro cartão de memória na filmadora e começou a gravar.

Entusiasmado com a brincadeira, me levantei da poltrona onde assistia tevê e abracei Luecy, dizendo:

— Grave uma lembrança de meu amigo de lata!

— Não gosto de merchandise! — Negou ele.

— Mercham... no quê? — Especulei fazendo careta.

— Analfabeto! — Caçoou o robô.

— Cala a boca! — Gritei.

— Chega! — Ordenou o senhor Frene que gravava tudo.

— Só vamos fazer uma reportagem com você Luecy! — Aleguei. — Pode?

— Não gosto de baboseiras!

— Deixe de ser chato! Você não é meu amigo?

— Regis! — Chamou o senhor Frene. — Vamos à piscina?

— Onde?

— Tire a roupa, que lhe mostro.

— Não trouxe nenhuma sunga pra banho! — Neguei.

— Vá peladão, com o pipi à mostra grátis! — Caçoou Luecy.

— Vá você seu enlatado!

— Não tenho pipi!

— Vá de cueca, Regis. — Sugeriu o senhor Frene. — Ela é justinha e não vai sair!

Despi-me, ficando apenas de cueca. O senhor Frene me imitou, vestindo uma bermuda tipo brim. Então com a câmera na mão, saímos pelos fundos do hotel e chegamos à bonita piscina de água esverdeada e transparente.

— Parece aquecida!

— Pra que? Numa temperatura de quase quarenta graus!

— Cuidado garoto Regis! — Advertiu Luecy. — A piscina é funda!

— Obrigado pelo conselho! Mas eu sei nadar muito bem!

O senhor Frene ligou a câmera e eu, sem me preocupar com ela e sim, com a delícia de uma piscina, saltei em suas águas quentes. Realmente, ela era funda e tinha inclusive, trampolins.

Outros hóspedes estavam desfrutando daquela delícia e dentro d’água vinham conversar comigo. Minha cuéquinha, apesar de justa, às vezes devido meus saltos, escorria até quase os joelhos. Eu, porém, talvez voltando a inocência de quando era apenas um menininho de sítio, que nadava nu nos rios, a puxava novamente para cima, sem me importar muito. Isso significava que minha timidez, vinha do fato de atitudes sarcásticas de alguns e não do fato de estar ou não, vestido.

— Senhor Frene! — Chamei-o. — Chega com esta câmera! Venha nadar um pouco!

Ele passou a câmera à Luecy, que continuou gravando. Subiu no trampolim mais alto, saltando de pirueta.

— Não faça isso, senhor Frene! — Pedi.

— Por que, Regis? Não há perigo!

— Tem sim! No planeta Mark Três, um filhote saltou de cima da árvore e caiu em cima de outro pequeno, que quase morreu!

— Descuido, Regis! Eu tenho cuidado!

Então saí da água e corri a subir naquele trampolim.

— Desça daí garoto! — Ordenou-me ele. — Você não sabe saltar!

— Claro que sei!

E antes que ele tentasse me proibir, saltei lá de cima e de pé, caí indo bater os pés no fundo da piscina e voltando imediatamente à margem d´água. O senhor Frene, em um segundo, já estava junto comigo, me segurando.

— Por que você fez isso, Regis? E se você se machuca?

— Não machuca nada! Lá na Terra eu saltava também!

— Pulava da beira da piscina! Nunca de um trampolim!

— É a mesma coisa!

Podia até ser, mas no planeta Mark III, eu tivera medo de saltar junto com os filhotes da beira do barranco. Saímos da água; então corri a apanhar a câmera das mãos de Luecy.

— Dê-me a máquina Luecy! — Pedi.

— Está com ciúmes?

— Que ciúmes! Só quero gravar você!

Desligou a câmera e me entregou; então comecei a gravá-lo. Ele percebendo, começou a fazer gracinha.

— Salte na piscina, Luecy! — Pedi.

— Robô detesta água!

— Ela enferruja suas patas! Não é?

— Queima meus circuitos eletrônicos!

Passamos algumas horas naquela bela piscina; então entramos para a suíte e fomos tomar banho. Eu, sendo crian-ça, com os jatos de hidromassagem ligado, tomava banho com a porta aberta e claro, o box transparente fechado. Quando percebi, Luecy com a filmadora ligada, me gravava no banho dizendo:

— Garoto Regis: Faça uma pose bonita!

Vendo aquilo, camuflei meus genitais com as mãos, gritando:

— Seu enlatado, pode apagar isso!

— Impossível!

— Desligue logo!

— Você é fotogênico!

— Desligue logo, seu robô idiota!

— Não vou desligar!

Abri o box, jogando-lhe um monte de água, então ele desligou e se retirou.

Logo depois, acabei de tomar banho, me enrolei na toalha e segui para o quarto. Enquanto me enxugava, o senhor Frene seguiu para o banho. Vesti uma cueca seca, um short branco e penteei os cabelos.

— Surpresa! — Gritou Luecy, aparecendo no corredor com a filmadora ligada.

— Não vai me dizer que…

— Está tudo registrado para a posteridade.

— Pode apagar tudo!

— É impossível!

Fui até a entrada do banheiro e reclamei com o senhor Frene

— Senhor Frene, o Luecy me gravou sem roupa e ele vai ter que apagar!

— Vou encaminhar para a televisão! Será exibido em rede mundial!

— Vai uma ova! Pode me entregar aqui!

Ele ejetou o cartão de memória e me entregou a câmera dizendo:

— Você jamais terá pose deste documentário!

— Você é meu robô, Luecy e eu ordeno que me devolva este cartão!

— Negativo!

— Senhor Frene, mande que ele me entregue este cartão! — Fiquei bravo.

— Calma, Regis! Depois a gente pega!

Luecy seguiu para a sala, injetou o cartão no leitor de vídeo, ligou a tevê e o vídeo, reproduzindo todo o conteúdo gravado, porém, adiantando para as imagens gravadas no banheiro. Avancei contra o vídeo, para sacar o cartão, mas ele esperto, me segurou com força pelos braços, me prendendo na poltrona.

— Me solta seu robô hipócrita! Está me machucando!

— Não estou lhe machucando! — Negou ele.

Realmente não estava.

— Senhor Frene: — Pedi. — desligue este vídeo!

— Deixe rodar, Regis! Quanto mais você insistir, mais Luecy te incomodará.

— Quem é que está pelado? É o senhor?

— Até parece que eu quero ver você pelado! Nem Luecy quer! Ele só faz isso, porque você fica bravo!

— Fico mesmo! Eu não gosto! — Aleguei chorando. — Mande este robô enferrujado me soltar!

— Enferrujada está ficando sua cara molhada! — Caçoou o robô.

O senhor Frene desligou o vídeo e pediu:

— Deixe o garoto em paz, Luecy!

— Estraga prazer! — Insinuou ele, me soltando.

Por mais alguns minutos, continuei na poltrona, com cara de lágrimas. Luecy ejetou o cartão do vídeo e me entregou dizendo:

— Façamos as pazes!

— Não senhor! — Neguei entre choro e riso, tomando-lhe o cartão de memória.

— Prometo jamais filmá-lo com a torneirinha à mostra grátis!

— Não quero mais ser seu amigo! Vou pedir ao senhor Frene, pra transformá-lo numa galinha!

— Co-co-ré-co! — Caçoou ele.

— Por que vocês dois só vivem brigando? — Pergun-tou o senhor Frene. — Minha idéia era que vocês fossem amigos!

— Não quero ser amigo desta peste enlatada!

— Gosto de você, garoto Regis!

— Obrigado! Não me interessa sua amizade!

— Então me devolva o cartão!

— Devolvo uma ova! O cartão é meu!

— Empreste-me o cartão pra gente assistir, Regis. — Pediu o senhor Frene.

Quando fui recusar, ele completou:

— O começo!

Entreguei-lhe o cartão. Ele colocou no leitor do vídeo e passamos a assistir do início. Pouco tempo depois, estava dormindo na poltrona, enquanto que eles continuaram assistindo, com certeza até o final.

Senti estar sendo carregado e percebi que Luecy me levava para a cama.

— Estou levando meu nenenzão para dormir! — O Alegou.

— Pode me soltar! — Ordenei preguiçoso. — Eu sei ir sozinho!

— Ingrato!

Não me soltou. Levou-me até uma das camas, me colocando com cuidado, onde, continuei dormindo.

©©©

Cansado da viagem, das compras e da piscina, dormi por quase dez horas terráqueas e ao acordar, percebi que o senhor Frene continuava dormindo. Olhei para meu novo relógio no pulso e vi que eram dezessete horas e dez minutos, ali em Orington. Apertei a tecla dois e vi que em Malderran eram vinte e quatro horas e trinta minutos[1]; apertei a tecla quatro e vi que na Terra, era então quatro de Abril de um mil novecentos e oitenta e dois; domingo, treze horas. Meus onze anos de idade já estavam completos há mais de um mês. Apertei a tecla nove e vi que em Suster, estávamos no dia cinquenta e cinco do ano sessenta e três. Na realidade era o ano cinco mil, duzentos e sessenta e três, da nova era. Apertei a tecla zero e vi que ali, agora, estávamos com trinta graus centígrados e cinquenta e dois por cento de umidade relativa do ar. A Estrela Kristall, surgira no Céu, a pouco mais de uma hora. Apertei a tecla X e a seguir a tecla um: a primeira letra do mostrador começou a piscar; apertei novamente a tecla X; a primeira letra começou a avançar lentamente, em ordem alfabética portuguesa, uma a cada segundo. Chegando a letra R, apertei um e a letra R parou de piscar, vindo a piscar a segunda letra; deixei avançar até a letra E, então mudei para a terceira letra e assim sucessivamente, até formar o nome REGIS FA (Fernando Araújo).

Levantei-me, seguindo até o banheiro, onde escovei os dentes e lavei o rosto; voltei até o quarto, tirei aquele shortinho, vesti uma calça comprida e uma camisa nas cores amarelo e azul, calcei uma botinha amarela e saí da suíte, indo até a portaria, onde perguntei a uma recepcionista:

— Estou com fome. Onde acho o que comer?

— Siga até o final do corredor e entre à direita. Lá é o refeitório.

Segui pelo corredor, entrei no refeitório e sentei-me diante de uma mesa feita em metal e acrílico. Pouco depois, uma jovem muito simpática, depois de me paparicar, me serviu com diversas e deliciosas guloseimas, doces e salgadas.

Às dezenove horas e quarenta minutos, tomamos um carro de praça e com as compras, seguimos ao campo de pouso, colocamos tudo em nossa nave e em poucos minutos, estávamos retornando à Malderran.

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Pousamos em Malderran, no grande campo de pouso, diante da grã-fina residência, há uma hora e quinze minutos, do dia cinquenta e seis.

O senhor Frene pediu auxilio pelo rádio e em poucos minutos apareceu um pequeno carro sem portas, dirigido também eletronicamente. Descarregamos à nave, carregamos o carro, levando tudo à grande residência.

Os aparelhos adquiridos em Orington, não foram levados a meu quarto e sim, a outro, defronte. Minha cama de solteiro, fôra substituída por uma grande, linda e confortável cama de casal; um armário com todas minhas roupas susterianas e terráqueas; uma estante, onde foi colocados a tevê e o vídeo; uma grande e magnífica cortina negra, muito escura na janela; duas poltronas brancas para visita; duas molduras grandes na parede, sendo uma delas, de quando eu tinha uns quatro anos na Terra e outra, bem recente, ali mesmo em Malderran; mais um pequeno aparelho de condicionador de ar.

— A partir de hoje, este será seu novo aposento. — Afirmou o senhor Frene.

— Por quê?

— Aqui há cortina escura, para quando você sentir saudade de escuridão. — Fechou a cortina, deixando o quarto, um verdadeiro breu. — E ar condicionado, devido o calor.

— Por que tudo isso?

— Você é acostumado a dormir no escuro, Regis! Aqui é muito claro; por isso uma cortina bem escura! Aqui também faz muito calor!

— Tudo bem! Acho que gosto desse quarto!

— Acha, ou tem certeza?

— Acho! O outro também tem ar fresco!

— Como assim? Não gostou da noite artificial?

— Claro que gostei! Nunca gostei de dormir com claridade!

Ele me mostrou que na porta de saída, existia uma tranca.

— Quando você preferir ter privacidade poderá deixar a porta trancada! O outro quarto não tinha isto!

— Pra que?

— Têm horas em que a gente, mesmo sendo criança, prefere ficar sozinho!

Apanhei a filmadora e guardei-a no armário, junto com as roupas.

— Obrigado senhor Frene, pelos presentes! — Agradeci. — Na Terra, acho que jamais teria tudo isso!

Ele sorriu dizendo:

— Depois peço a alguém, pra vir instalar a tevê e o vídeo.

Apanhou minha bolsa escolar que estava sobre a mesa e perguntou:

— Posso ver seus cadernos?

Acenei que sim. Ele sentou-se numa poltrona e começou a folhear meus livros e cadernos escolares. Eu, cansado e com calor, tirei a botinha e a roupa, vesti apenas um short e me deitei.

— Muito bem cuidado seus cadernos! — Insinuou o senhor Frene.

— Por que o senhor sabe ler minhas letras e os demais susterianos não?

— Porque eu estudei com você desde o pré-primário! Comecei fazendo bolinhas e rabisquinhos!

Imaginando o senhor Frene numa cadeira escolar, com um montão de crianças de seis anos, achei graça e ri:

— Qual o problema, Regis? — Perguntou-me ele.

— Nenhum! O senhor também sabe falar comigo, mesmo que eu não usar este aparelho. — Tirei o aparelhinho tradutor de meu pescoço, deixando-o sobre a cama.

— Como sabe? — Questionou-me ele em um Portu-guês um pouco atrapalhado.

— Outro dia o senhor chamou minha atenção em meu idioma! Eu estava sem o aparelhinho.

Sentei-me na cama, chamando-o:

— Por que o senhor não senta do meu lado, pra que eu também possa ver os cadernos?

Ele atendeu meu pedido sem contestar.

Entre as folhas de meu caderno de linguagem, ele encontrou uma redação e leu:

Acabando de ler, ele me abraçou dizendo:

— Você é um garoto muito inteligente!

— Escreva meu nome em seu idioma!

Ele escreveu. Quer dizer, desenhou:

Click para ver o desenho

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Devagar o tempo foi passando e em Suster eu continuava a mesma rotina de sempre. Meu relógio de pulso acusava então, trinta e um de Maio de mil novecentos e oitenta e três; terça-feira; já havia completado doze anos na Terra; dezoito anos em Suster. O acordo firmado com o senhor Frene, estava sendo muito difícil de ser cumprido, pois meu coraçãozinho de criança doía muito de saudades. Já fazia quase dois anos que havia deixado a Terra. Em Suster, minha principal diversão era a filmadora, pelo menos no início, depois foi ficando cada vez mais sem graça. Ainda brigava muito com Luecy, mas era uma briga meio que de brincadeira ou gozação. Quer dizer: eu brigava, mas ele nunca me levava a sério. As imagens impróprias, a meu ponto de ver, que ele gravara de mim, em um hotel de Orington, nunca tivera coragem de apagar, então guardava comigo, escondido de todos.

Outra e talvez a diversão a qual mais me dedicasse, depois de abandonar a filmadora, era a bonita piscina, onde passava várias horas diárias, geralmente sozinho, fingindo inclusive, estar acompanhado por outras crianças, meninos e meninas, como Erick, Beth, Regina, Paulinho...

Encontrava-me então, naquele bonito jardim da residência; um carro chegou de repente, parando diante de mim; dele saltou o senhor Frene, que a me ver tão triste, se aproximou perguntando:

— O que houve Regis? Você está muito triste!

— Estou muito magoado mesmo, senhor Frene! Faz quase dois anos que saí da Terra; meus coleguinhas de escola estão todos na sexta série e eu continuo um burro, parado na terceira série.

— Não se diz burro, Regis! Você é muito inteligente e quis dizer, analfabeto!

— Que seja! Burro ou analfabeto é a mesma coisa! Por favor: Me deixe voltar pra casa!

Ele me abraçou, caminhou comigo até o banco da entrada da residência, onde sentamos e ele me cobrou, como sempre fazia:

— Lembra-se de nosso acordo?

Acenei que sim:

Então! Você foi o preço da vida de seu irmão. Você nos pertence; tem que ficar conosco!

— Não posso mais ficar aqui! — Aleguei quase chorando. — Se ficar, vou acabar morrendo!

— Não! Não vai! Aqui você será sempre imortal!

— De que me adianta isso, se eu nunca sou feliz!

— Nós estamos tentando fazê-lo feliz, garoto!

— Então faça senhor Frene! Faça como da outra vez! Dê-me aquela grande prova de amor, me devolvendo pra Terra!

— Não posso! Arrependi muito tê-lo deixado partir da outra vez.

— Por favor! — Pedi com lágrimas.

— Aqui é seu lugar e aqui você vai ficar!

— Mesmo que eu seja sempre infeliz?

— Nós fizemos um acordo, Regis! Seu irmão se salvou por isso! Lembra?

— Nunca me esqueço! Mas meu coração fica doendo muito! Por favor! Pelo amor que o senhor diz ter por mim!

— Garoto, não judie assim de mim!

— Estou sofrendo muito senhor Frene! Não estou brincando!

— A gente te ama tanto, garoto! Não faça assim conosco!

— Não sou eu! É meu coração!

— Seu coração é apenas um órgão de carne, como qualquer outro órgão em seu corpo.

— Por que o senhor finge não compreender as coisas senhor Frene? O senhor sabe do que estou falando!

— Não sei nada! — Retrucou ele. — Coração é carne!

— Acho que é minha alma… que dói! Mas o coração de carne, também dói junto!

— Vamos fazer aquela cirurgia, Regis? É pro seu bem!

— Não! Não quero!

— Você ficará feliz aqui! Vai se sentir um garoto de Suster e será eterno!

— Por favor, não!

— Nós não podemos levá-lo de volta! Foi um acordo firmado conosco e depois, devolver você à Terra, não depende só de mim. Você pertence a todos nós.

— Eu não pertenço a ninguém! Ninguém manda em mim! Nem meus pais, quanto mais vocês!

— Regis, fizemos um acordo: Você fica aqui, em troca da saúde de Paulinho.

— Foi uma chantagem!

— Pode ser! Preciso dela! Mas eu não joguei seu maninho na frente do carro! Alterei o destino dele, salvando-lhe a vida. Agora ele é seu substituto por lá! Você nos pertence!

— Isso nunca foi amor!

— Este é o jeito de conseguirmos seu amor!

— Amor ou amizade, não se compra, senhor Frene! Um verdadeiro amigo meu da Terra, que me ama de verdade, me ensinou isso!

— Tudo bem! — Insinuou ele sério. — Faço outro acordo com você. Alterei seu destino na Terra, então te devolvo hoje mesmo...

Suspirei aliviado. Mas ele ainda não tinha terminado.

— ...Ao mesmo tempo, alterei o destino de Paulinho na Terra. Ele não deveria estar mais lá! Trago ele pra cá! Ele se parece muito contigo e já está com quase a mesma idade que você tinha quando veio.

Senti como uma punhalada no peito.

O senhor Frene pensou um pouco e em tom irônico, emendou:

— Topa?

— Paulinho tem apenas sete anos de idade!

— Aceito ele em troca de você! Topa?

Permaneci calado por mais alguns segundos, depois triste neguei:

— Não! Eu fico! Embora o senhor saiba que serei eternamente infeliz e sendo assim, saiba também, que nunca poderei retribuir o amor, que o senhor diz ter por mim.

— Precisamos de você, menino! Já lhe disse mil vezes isso!

— Não vejo por que! Não tenho nada de especial! Sou apenas um menino... triste!

— Vamos ao parque de diversões, aliviarmos a cabeça?

— Não quero!

Levantei-me e corri para o campo de pouso, me escondendo atrás de um galpão, onde fiquei chorando. É: eu era chorão! Ou não? Estava era sofrendo de saudades e quem me considerar chorão, que experimente ficar por dois anos, longe dos pais e amigos, sem dar ou ter notícias. É triste só de imaginar.

[1] Lá existe um fuso-horário de mais sete horas e vinte minutos.