Um lugar ao sol
1 O Sol
Notas iniciais
Depois de belos sete anos morando em uma cidade grande e movimentada os pais de Kevin decidem voltar para a cidadezinha praiana onde ele nasceu há exatamente dezessete anos atrás. Sair da bagunça da cidade para um "paraíso escondido", como dizia seu pai, parecia legal para todo mundo, para os amigos e professores, para sua amiga de Boston, para a moça que vendia doces na esquina e até para o porteiro do prédio, menos para ele. Amava a confusão colorida de carros, o cinema, os fliperamas e todas construções empilhadas uma em cima da outra. Ele podia ir para qualquer lugar sem reconhecer ninguém na rua, sentia a liberdade e a insignificância de sua existência no meio das multidões de pessoas. Ele já tinha morado na praia, e não era tudo isso que todos pensam. No antigo bairro dele tinha menos pessoas do que no atual prédio onde mora e na escola inteira menos pessoas do que em seu círculo de amizade atual.
E tem sua aparência também, parecia um albino de tão branco, o único contraste no rosto eram os olhos escuros. E o pior não sabia se equilibrar em uma prancha, que raios de garoto mora na praia e não sabe surfar, o que ele iria fazer lá? Tomar sol na areia junto com as garotas? Com certeza isso não iria impressionar muitas delas. Pelo menos resolveria o problema da cor da pele...
Foi deixado pela diretora na frente de uma porta de metal preta fechada com um simples "Boa sorte" e uma cara mau humorada. Para os infernos com o boa sorte dela, abriu a pequena porta do único terceiro ano da escola e entrou na sala.
O professor parou sua explicação e virou-se da lousa para encara-lo com o resto dos trinta alunos. Procurou por um rosto conhecido se quer, sem sucesso. Havia uma garota loira com enormes peitos e outra com um sorriso de lado em um rosto angelical o encarando, mas nenhum que ele se lembrava.
– Você deve ser o Kevin? — Pergunto o homem careca segurando uma régua com a qual apontava para a lousa antes.
– É, sou.
– Você está atrasado, pode escolher um lugar e ir se sentar.
Mas ele não pode escolher um lugar, pois só havia uma carteira vazia no fundo da sala. Caminhou calmamente até o fundo e desabou na cadeira.
– Oi, lembra de mim?
Ele levantou o olhar para a menina ao seu lado, ela tinha belos olhos verdes e cabelos castanhos que caiam sobre os seios.
– Acho que não. — A olhou confuso.
– Pétala da quarta série — Ela disse com um sorriso divertido mostrando seus dentes brancos.
– Uau, acho que você mudou um pouquinho em. — Ele disse sorrindo também se lembrando das bochechas fartas e o cabelo tingido de rosa nas pontas. — Algo no cabelo talvez...
– Ok. Parou, não vamos lembrar da minha fase rebelde. — Disse ela rindo.
Silêncio Pétala — Murmurou o professor enquanto explicava algo lá da frente. Ela apenas rolou os olhos e se virou para a frente.
No intervalo se sentou com alguns dos novos colegas de sala no chão do pátio. Todos pareciam tão a vontade ali, que ele nem teve coragem de se sentir um intruso. Os raios de sol queimavam a sua pele mas a sensação era gostosa, e todos outros pareciam concordar. Como plantas que crescem retorcidas em direção ao sol, todos aproveitavam os raios. Algumas garotas deitavam de barriga para cima como se estivessem na praia, com seus mini shorts do uniforme e chinelo nos pés.
Na roda estavam Pedro, Tibor, Olivia, Rebeca, Pétala e Felipe todos simpáticos e gente boa, já tinham o convidado até para ir na praia na sexta. Os garotos conversavam algo sobre surfe que Kevin não entendia nada, as garotas sobre a roupa de alguma festa enquanto Pétala comia sua maçã dando um palpite de vez em quando.
– Você surfa cara? — Perguntou Tibor, o garoto com a pele morena de sol quase da cor dos cabelos.
– Não, só tentei uma vez e acabei todo esfolado na areia.
– O Pedro tem uma prancha a mais, você pode tentar sexta. — Disse ele rindo.
– De boa, pode usar a minha. Sou um ótimo professor também, você vai sair da praia profissional! — Disse Pedro gargalhando.
– Credo Pedro! — Disse Olivia dando um tapa de leve em seu braço enquanto ria. — Ele foi ensinar o Rodrigo a surfar final de semana passada e o coitado do menino acabou quebrando o nariz com uma pranchada no rosto! Ficou horrível! Fique bem longe do Pedro, sério!
– Ele ficou com a cara toda inchada, sangrando. — Disse Rebeca olhando para os outro que estavam se matando de rir lembrando da cena. — Não riam seus idiotas!
O sinal tocou e lentamente todos votaram para a sala.
Pétala se dispôs a passar todo conteúdo perdido, das duas semanas que Kevin havia chegado atrasado no ano letivo, e ás três em ponto a campainha tocou. Ela estava usando um shorts jeans curto que deixava suas coxas fartas mais amostra do que no do uniforme e uma camiseta cinza. No caminho para o quarto no andar de cima ela passava analisando todos porta retratos e quadros pendurados nas paredes. — Faz tempo que se mudaram? — Ela perguntou.
– Umas três semanas acho.
– Tudo está tão arrumado, parece que moram aqui faz tempo. Não como aquelas casas novas sem identidade que nem parecem um lar.
– É a nossa casa antiga na verdade, de quando morávamos aqui. Trouxemos só alguns móveis novos.
– Adoro entrar na casa das pessoas pela primeira vez, ver as fotos penduradas... — Disse ela rindo.
E ele não conseguia parar de olhar para o seu sorriso, era tão puro e sereno. Ela transparecia serenidade e calmaria. Ele não lembrava desse sorriso da época que estudaram juntos. Na verdade, pelo que se lembrava eles nem se falavam direito, ele se preocupava mais em falar sobre vídeo games e jogos com os outros garotos.
– O pessoal da sala é bem legal né? — Perguntou ela enquanto girava na cadeira da escrivaninha.
– Acho que sim, mesmo eu não tendo muito em comum com eles. — Respondeu Kevin sem tirar os olhos do caderno aonde copiava as coisas jogado na cama.
– Por favor. Vocês garotos são todos iguais. Daqui a pouco você já vai estar surfando como um peixe e falando igual maconheiro. — Disse ela rindo ainda girando.
– Menos o Felipe né? — Disse eu rindo agora.
– QUE? — Disse ela parando de girar.
– Vocês namoram ou algo do tipo?
– Quase chegamos a namorar. Nós ficamos por um tempo. Mas aí desencanamos, não queríamos perder a amizade por besteira. — Disse ela pensativa. — Jesus, ta tão na cara assim?
– Acho que não. Se não for costume dele te secar tanto como hoje no intervalo. — Ele disse provocante rindo.
– Cala a boca gordo. — Disse ela indo até a cama e jogando um travesseiro na cara dele.
– Gordo?
– O que, pensou que eu não ia lembrar seu apelido? Só porque você chegou agora com esse corpo sarado estilo skatista badboy? Mas relaxa, seu segredo ta a salvo comigo.- Disse dando uma piscadinha.
Ele rolou os olhos o que fez ela rir mais ainda.
– Acho que você está corando Kevin.
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