Um lindo dia
1 Capítulo único
Notas iniciais
O dia estava lindo. Nada como os raios de sol nos pelos da loba negra para alegrá-la um pouco. Apesar de preferir a noite ao dia, aquele calor agradável lhe deixava contente. Nisha observava seus seis pequenos filhotes brincando entre si e sorria. Por vezes era carregada para a brincadeira, junto de seu companheiro, Thunder, um lobo branco como as próprias nuvens do céu, mas os filhotes preferiam brincar com eles mesmos na maior parte do tempo.
Thunder resolveu, então, sair para patrulhar um pouco do território, em uma região que não iam há tempos. Normalmente era Nisha quem fazia essa tarefa, solitariamente, e gostava daquilo, mas seu companheiro parecia tão animado para patrulhar que a fêmea cedeu. Além disso, também ansiava em poder passar um pouco mais de tempo com os filhotes — seu corpo parecia clamar por um simples dia de preguiça e quietude. Não precisariam caçar também, visto que haviam derrubado uma grande presa no dia anterior, e a alcateia estava bem alimentada.
Assim, Thunder saiu alegremente, e Nisha pôde ficar descansando com a ninhada. Vigiava-os atentamente, e prestava atenção em cada um de seus pequenos detalhes. Ainda eram tão novos, mas tão cheios de personalidade. Como seriam quando crescessem? O pensamento trazia risos para a loba.
Então, notou algo estranho. Um vulto amarelado. Um coiote, aproximando-se rápido demais. Mandou os filhotes entrarem na toca, e os mesmos se prontificaram. Mas o coiote corria vorazmente, e mostrou não estar sozinho — um segundo surgiu, assustando a loba negra e um de seus filhotes, Dusk, que, em puro pânico, não entrou na toca e continuou correndo. Nisha entrou em desespero. Abocanhava a nuca de um dos pequenos canídeos para evitar que espiasse a entrada da toca e os pequenos filhotes que ainda entravam, enquanto tentava localizar o segundo coiote e Dusk.
Até que percebeu onde ambos estavam.
Dusk estava sendo perseguido.
Ele corria com tudo o que tinha, na maior velocidade que suas pernas tão curtas podiam lhe proporcionar, assim como seu fôlego tão juvenil. O coiote já podia quase sentir seus pelos em sua boca, e Nisha tentava alcançá-los. Tudo foi tão rápido. Meros segundos.
Dusk estava morto no chão.
Ódio consumiu a fêmea, e seus rosnados pareceram assustar de vez a dupla maldita, cada um correndo em uma direção. Coiotes não matavam para comer, e sim para diminuir a futura competição. Eles vieram, mataram um de sua prole, e agora estavam satisfeitos. Contudo, ela não estava.
Pôs os olhos sob o coiote mais próximo e começou a persegui-lo. Queria que sentisse a mesma sensação que seu filhote teve que sentir nos últimos segundos de vida. Queria que aquela criatura sofresse. Quando o alcançou, deu-lhe uma mordida profunda na nuca. O coiote ganiu, desesperado, mas Nisha não soltou. E não soltaria nem que o mundo estivesse acabando.
O canídeo se contorcia e tentava mordiscar seu focinho para se desvencilhar e prosseguir com sua fuga covarde, contudo Nisha o mordeu novamente, agora mais perto da garganta. Mas a mordida não foi tão forte. Não. Queria matá-lo lentamente. Sem ar. Aos poucos. Queria que aquele patético animal aguentasse todo o tormento que ela pudesse provocar.
Por fim, a vida começou a esvanecer de seu corpo, e o coiote parou de se debater. A loba chacoalhou seu corpo mole, irritada de ter morrido tão depressa, e o jogou longe.
Aquilo não trouxe Dusk de volta.
Nada traria. E ela sabia disso mais do que ninguém.
Também não estava mais feliz, tampouco se sentia vingada. Pelo contrário, sentia-se mais derrotada do que nunca, perdendo para um coiote miserável.
Na quietude sem sentido de seus pensamentos barulhentos, chorou. Com Thunder distante e os filhotes na toca, apenas a floresta a ouviu. E a floresta nada poderia responder para reconfortá-la. Assim eram as coisas. Assim era a vida. A cada ciclo, diversos filhotes morriam para diversos predadores.
O pensamento também não deixava Nisha reconfortada. Ela só queria ter sido uma boa mãe para Dusk. Com o peso do mundo em suas costas, retornou para a toca em silêncio. Fracassada, perdida e transtornada. Os filhotes saíram da toca acanhados, e tristemente se reuniram ao redor do corpo sem vida do irmão, que a mãe trouxera para perto da toca. Nisha lhes ensinou a triste lição de uivarem para prestar seu luto, e com o sol brilhando em seus pelos, eles fizeram. E fariam de novo, quando Thunder chegasse.
Parecia tão errado o céu estar tão azul naquele momento. A loba queria que a natureza chorasse junto dela. Que sentisse seu luto. Não queria sentir aquele calor agradável ou ouvir a melodia de diversos pássaros enquanto seu coração ardia.
Mas o dia estava lindo.
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