Um jeito de ser bom de novo
3 Prelúdio parte 3
CINCO DIAS DEPOIS SORAYA ESTAVA NA cozinha, e o cheiro doce entrava nas nossas narinas e nos dava água na boca. Eu tinha acabado de voltar de uma loja de pipas afegã que encontrei umas quatro ruelas pra baixo de baazar onde costumávamos fazer compras. O vendedor tento a todo custo me convencer a levar a pipa maior, a mais colorida, um que tinha o desenho de um relâmpago, o que me fez lembrar de um lindo relógio de ponteiros, que agora deveria estar com os filhos de Waid. Recusei todas as ofertas e insisti para que ele pegasse apenas a pipa azul. Uma pipa azul... Tantas lembranças! Hassan Deve ter contado sobre a pipa, sobre o dia da vitória. Segurei a pipa e dessa vez isso era algo bom. Vinte e sete anos atrás, segurando uma pipa igual, senti como se meu corpo estivesse despedaçando, era um sinal da minha covardia. Mas agora, uma pipa idêntica, representava a esperança de um futuro feliz para um garotinho especial. Enquanto seguia a pé para casa, via crianças brincando nas ruas. Elas corriam uma atrás das outras, brincado de pega-pega, bicicleta e algumas só andavam por ai, conversando e rindo. Desejei ardentemente que Sohrab viesse a ser como aquelas crianças.
Em casa, Soraya estava terminando de montar a decoração do bolo. Em cima, ela colocou uma vela em forma de uma pipa vermelha. Com um creme ela escreveu o nome dele no bolo. Resolvemos que subiríamos até o quarto dele e faríamos a surpresa. Lembro da conversa que tivemos ontem. Eu tinha subido até seu quarto como sempre e perguntei:
— Eu estava pensado... Você vai querer uma festa? Daquelas com vários convidados, com bastante gente, música e comida? — como esperei, ele acenou com a cabeça negando — Então, quer uma festinha mais reservada, só com Soraya, Jamila jan e eu? — novamente ele negou, apesar de eu achar que ele aceitaria — Então... Que tal só nós três? Que tal comermos um bolo no parque e cantar parabéns? — ele só ficou olhando para as mãos, sem negar nem concordar — Podemos empinar pipas! — dessa vez ele ergueu a cabeça e me olhou. Posso jurar ter visto o esboço de um sorriso como quem diz “Finalmente você entendeu”. Seus olhos tinham a mesma expressão que naquele dia no parque. Ele parecia estar ansioso, louco de vontade para falar ou agradecer, mas alguma coisa o impedia. E ele voltou ao seu mundinho interior. Naquela tarde deixei seu quarto diferente de como entrei. Eu estava feliz. Aquele meio sorriso, de um lado só, sempre me deixava melhor.
Então chegou o dia do aniversário dele. Soraya segurava o bolo, e aquele cheiro tentador ficava por onde passávamos. Eu segurava a pipa. Nós fomos pelo corredor até o quarto dele. Quando coloquei a mão livre na maçaneta Soraya pediu para que eu esperasse.
— O que foi? Algum problema?
— Não, é que... E se ele não gostar? E se não adiantar? E se ele continuar agindo da mesma forma? Entenda eu não estou desistindo, acredito que as cosas podem melhorar. Sabe... ele é como o filho que eu nunca tive! Mas, fico pensando, e se ele não gostar do que estamos fazendo?
Ela estava de cabeça baixa e eu senti a tristeza em sua voz.
— Ah Soraya! Você sabe, ele só precisa de tempo! Vamos dar um tempo e... — fui interrompido pelo movimento da porta. Olhei para trás e vi que Sohrab estava de pé, com a mão na maçaneta, só ouvindo nossa conversa. Na hora a expressão de Soraya mudou, como se ela pudesse simular muito bem que estava alegre:
— Oi Sohrab! Como vai o aniversariante? — ele virou de costas para nós e voltou a se sentar na cama. Ele ficou olhando para mim, a pipa, Soraya e o bolo. Troquei olhares com Soraya e ela continuou: — Achou que nós íamos esquecer? De jeito nenhum! Hoje o dia é só seu Sohrab! Feliz aniversário! — nos sentamos na cama, cada um de um lado. Coloquei a pipa no chão e ela colocou o bolo sobre o colo dele. Cantamos parabéns, apesar de eu me sentir um pouco ridículo fazendo isso. Ele ficou nos olhando, mas pude perceber o interesse em seu olhar. Então, ele fez uma coisa que fez tudo valer a pena: ele falou.
Com a boca meio trêmula, como se não tivesse certeza de que queria falar, ele ergueu um pouco a voz, mas a frase falhou. Parecia até que ele tinha desaprendido a falar. Ele tentou de novo. Abriu a boca, e com a cabeça meio abaixada disse:
— Obrigado Amir agha, obrigado Soraya agha.
Soraya quase começou a chorar. Ela estava tão feliz e abriu um enorme sorriso. Ela tocou nas mãos dele e ele recuou um pouco, mas depois deixou que ela as pegasse. Soraya não se aguentou, e as lágrimas corriam por seu rosto. Era a primeira vez em um ano que Soraya estava realmente feliz.
— Sohrab eu... Eu estou tão feliz! — ela dizia sorrindo — Sabe o que é isso Sohrab? Você sabe? É a primeira vez que eu ouço sua voz! — ela estava super contente. Segurou seus braços e olhando nos olhos dele disse: — Obrigada Sohrab! É seu aniversário, mas foi você quem me deu um presente hoje!
Ele parecia meio encabulado com o que ela disse, quase sem graça. Mesmo assim deixou que ela segurasse seus braços e fez algo que, novamente, só eu percebi: aquele meio sorriso. Só que dessa vez era maior. Dessa vez eram os dois lados de seus lábios que se encurvavam para cima. Ele sorria. Sorria e olhava em meus olhos. Lembrei da pipa e a peguei no chão:
— Veja Sohrab! Seu presente de aniversário! Não sei se seu pai já te contou a história sobre a nossa pipa azul... Quer ouvir? — ele fez que sim com a cabeça.
Então comecei a contar. Contei sobre o sonho que Hassan havia tido naquele dia e da sua súplica para que eu tentasse desvendar seu significado. Contei sobre como estávamos ansiosos por aquela competição e sobre a minha quase desistência, mas disse que seu pai me convenceu a ir. Contei sobre como a pipa azul estava derrubando as outras e estava quase quebrando o recorde que baba havia feito, derrubando quatorze pipas. Contei sobre o momento em que só estavam no céu a nossa pipa e aquela outra, e sobre como fechei os olhos e puxei a linha. Disse que no minuto seguinte todos estavam nos abraçando e dando parabéns. Disse que Hassan saiu correndo para pegar a pipa e antes me disse uma coisa, com a mão em concha junto à boca. Mas não tive coragem de dizer o que foi não conseguia pronunciar aquelas palavras. Sohrab me olhou e perguntou:
— E depois? Ele pegou a pipa?
Tinha me esquecido que a história terminava de uma forma meio trágica. Tive que mentir dizendo que sim, que ele havia pegado a pipa e levado para a minha casa. Soraya me olhou com um olhar meio repreensivo, pois sabia que eu estava mentindo, mas eu não poderia contar a verdade para ele. Assim ele jamais falaria comigo de novo. Terminei de um jeito feliz, contando uma versão na qual tudo acabou bem. Ele sorriu. Aquilo acabou comigo. Ele sorriu por uma mentira, pois se fosse a verdade era mais provável que ele chorasse. Eu sorri, um dos sorrisos mais forçados que já dei. Soraya também sorriu e quebrou o gelo:
— Muito bem, vá se arrumar Sohrab, vamos para o parque! Tome um banho e coloque a roupa que compramos para você.
Era uma roupa simples, que comprei havia dois meses numa das barracas na feira afegã em que tanto eu quanto Soraya já tínhamos trabalhado. Pensei que no seu aniversário ele gostaria de usar alguma coisa que o lembrasse de casa. Mas não queria que se lembrasse demais, pois sabia que a saudade poderia feri-lo. Feri-lo muito. Portanto, escolhi peças mais simples, parecidas com as roupas americanas, e ele vestiu de bom grado. Entramos no carro, com Soraya segurando o bolo e Sohrab no banco de trás levando a pipa ao seu lado. Eu dirigia e fui até o parque em que fomos daquela vez. Estacionei perto de uma barraca que vendia linhas e cerol. Não deixei que ele passasse o cerol na linha, e fiz isso eu mesmo. Prendi o fio na pipa e lhe entreguei tanto ela quanto o carretel. Soraya foi para debaixo de uma tenda e colocou o bolo em cima de uma mesinha. Então perguntou a Sohrab se ele queria comer o bolo primeiro ou empinar a pipa. Ele levantou o carretel dando a entender a opção que escolhera.
Pedi para que ele me seguisse até a parte mais alta do parque e fiz como Hassan fazia: molhei a ponta do dedo indicador e o levantei para ver a direção do vento. Ele segurou o carretel e eu a linha e começamos a empinar.
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