Um jeito de ser bom de novo
9 Capítulo 6
NO DIA SEGUINTE EU, SORAYA E SOHRAB estávamos dentro do carro. Enquanto eu dirigia, pedia a Soraya que me guiasse com os nomes das ruas. Tínhamos comprado um GPS, mas esse resolveu pifar bem no dia da viagem. Ela pegou o guia de ruas e sentou-se no banco do passageiro para poder me guiar durante todo o trajeto. Fiquei imensamente grato a ela por isso, já que minha noção das estradas americanas não era lá tão boa. Sohrab foi no banco de trás o caminho inteiro. Ele estava vestindo roupas novas e o suéter de Jamila jan. Ele estava muito nervosos, e eu podia notar isso olhando pelo retrovisor. Ele ficava estalando os dedos das mãos, piscando em um ritmo acelerado, batendo os pés um no outro e puxando fios soltos em sua blusa. Ele não chegou a perceber que eu e Soraya mechemos em sua mala, mas ele mesmo abriu e tirou algo dali de dentro: a foto. Agora ele levava nas mãos e ficava quase o tempo todo observando a imagem.
No meio do caminho tivemos que fazer uma parada num posto de gasolina para reabastecer. Aquele cheiro de combustível e as manchas de graxa me fizeram lembrar de meu pai. Sorri ironicamente. Enquanto as pessoas em Cabul lembravam-se dele como um grande homem, que foi contra tudo e todos e superando os rótulos que lhe davam, de insensato e imprudente, obteve sucesso a vida e uma linda esposa. Ele também ganhou um filho, que custou a vida de sua amada, mas que ele amava do mesmo jeito. Isso é o que as pessoas viam. O que eu via eram duas versões de baba. A primeira era um homem bom, que apesar de nunca me tratar com carinho de verdade e nunca usar o sufixo jan, me amava e me protegia. Essa era a versão que me acolhera e me levara seguro até os Estados Unidos. Era a versão que fora até a casa do general para pedir para mim a mão de sua filha, e que viveu comigo e minha mulher até seus últimos minutos. Essa é a versão que enterrei naquele cemitério.
O frentista perguntou quanto dinheiro eu pretendia gastar com aquele abastecimento. Pedi que ele completasse o tanque e calculei que isso me custaria cinquenta dólares. Ele encheu o quanto que eu pedi, mas estranhei ao ver que a bomba parou antes de completar os cinquenta. Quando fui pagar, vi que ele havia enchido bem menos do que eu pedira e fui ver o que estava acontecendo. Acabei por constatar que ele não me cobrara o preço do cartaz, e sim o da bomba, que era um dólar mais caro. Um ladrão. Alguém que me roubou. E isso me fez pensar na outra versão de baba, aquela que era desconhecida para mim até minha conversa com Rahim Khan. Aquela versão que era totalmente oposta ao que meu pai me ensinara. A versão que traiu seu amigo, tomando-lhe a esposa e concebendo com ela um menino. Aquela era a versão que escondera durante toda a vida de um rapaz qual era sua verdadeira origem. Aquela que mentira para mim durante toda a minha vida e assim, roubou o meu direito de saber a verdade.
Aquela versão colocou para fora e sua própria casa, vinte nove anos antes, seu próprio filho. Esse era o baba que eu não conhecia até aquela viagem a Cabul, na qual resgatei seu neto. Isso me deixou desconfortável. A ideia de que Hassan, seu filho ilegítimo pudera conceber a ele um neto, enquanto eu, o filho visto com bons olhos pela sociedade, não tivera a capacidade de ter um único filho. Depois me senti mal por esse pensamento e me senti mal principalmente por ser injusto com Soraya. Não era culpa dela a sua infertilidade. Na verdade nós nem sabíamos o motivo pelo qual ela não podia ter filhos. Fiquei grato naquele momento por ter Sohrab ali conosco. Soraya estava certa quando disse que ele era o filho que nós nunca tivemos. Mas o que me custou ter esse filho? A morte de meu próprio irmão? Uma viajem arriscada a uma cidade onde existia um psicopata tentado me matar? Fiquei imaginando que se tudo tivesse sido diferente, Sohrab poderia estar com seus pais agora.
Entrei novamente no carro. Perguntei se eles dois queriam ir ao banheiro ou comer alguma coisa. Soraya disse que precisava ir ao banheiro e eu disse que poderíamos esperar dentro do carro. Ela agradeceu e foi. Voltei a pensar. Na verdade Sohrab não estaria com seus pais, pois se Hassan tivesse permanecido naquela casa, ele nunca teria encontrado Farzana e consequentemente nunca teria Sohrab. Conclui que por mais terríveis que tivessem sido as consequências das minha atitudes, no final elas me trouxeram um filho adotivo, que mais que isso, tinha parte do meu sangue. Além disso, elas me trouxeram a chance de consertar não só meus erros como também os de meu pai. Soraya voltou com dois sanduíches e comendo um terceiro. Ela entrou no carro e espichando o braço para trás, entregou um para Sohrab e um para mim. Disse que colocasse o meu no porta luvas pois comeria mais tarde. Ela disse que tudo bem e prosseguimos com a viagem.
Esta última, a nossa viagem a Cabul, também nunca aconteceria. Então pude ver que apesar de todos os meus erros a vida me dera não só uma chance de me redimir, como também de pagar pelo que fiz, e de desfrutar da paz que agora sentia. Pois sim, eu paguei por aquilo, e paguei caro. Sabia que naquele dia em que fui resgatar Sohrab, eu pagaria pelo que fizera vinte e seis anos antes. Eu tinha plena consciência de que minhas chances de sair dali com vida eram zero, pois Assef estava com seu infalível soco inglês, e eu continuava o covarde de sempre. Sim eu teria morrido ali, naquela hora, naquela sala, se não fosse por uma criança que interferiu na hora certa e me livrou da morte. Essa criança era Sohrab. Naquele momento fiquei ainda mais grato por tê-lo ali, e também por sua existência. Ele fizera com que aquele ser insano pagasse pelo que fez a Hassan, e uma geração mais tarde fizera com ele mesmo. Além de tudo, ele me ajudou a sair dali. Tive a mais plena convicção de que se não fosse por ele eu não estaria fazendo aquela viajem.
Fui até o balcão para entregar nossas passagens e preencher os formulários necessários. A mulher que atendia pelo nome de Marlene, perguntou se aquele menino era realmente meu filho. Ríspida, mas não desnecessariamente disse que sim e ela apenas consentiu calada. Percebendo minha estupidez, Soraya me corrigiu, acrescentando que ele era nosso filho adotivo e me dirigindo um olhar de reprovação. Depois de uns vinte minutos até terminar tudo, fomos para a outra fila, onde esperaríamos pela hora de embarque. Ao meu lado esquerdo se sentou Soraya e ao meu lado direito se sentou Sohrab. Ela encostou a cabeça em meu ombro e fechou os olhos. “Está dando tudo certo” ela disse, “Vamos esperar que continue assim.” Concordei apertando levemente suas mãos. Sohrab afundou na cadeira ao lado e ficou olhando fixamente para a foto. Ele seguia os contornos do rosto do pai com o dedo indicador. Olhou para mim e sorriu, aquele sorriso de Hassan que eu conhecia tão bem. Depois começou a devorar seu salgadinho.
Fechei meus olhos, me acomodei na cadeira e tentei tirar um cochilo. De certa forma consegui, pois creio que fiquei apagado por uns trinta minutos, e a fila de passageiros à espera só fazia crescer. Olhei para os dois lados e vi que minha mulher, minas malas e meu sobrinho não estavam lá. Uma sensação estranha me ocorreu. Comecei a procura-los e encontrei os dois, junto com o carrinho de malas, com os rostos colados num vidro gigante, assistindo a decolagem dos aviões. Peguei Soraya pelo braço e a puxei para mim. A sensação de perder algo ou alguém era ruim como eu bem sabia, e me dei conta de como eu temia perde-la. Ela riu, colocou uma das mãos perto da boca, como se não quisesse que mais ninguém ouvisse, e com o dedão indicando Sohrab disse:
— Ele quis dar uma volta, mas pediu para não te acordar. Disse que você merecia descansar. Então resolvi trazê-lo para ver os aviões subindo e pousando. Você tinha que ver a cara dele quando via um avião se aproximar da pista! — de fato, ele estava com os olhos vidrados nos aviões, como se eles fossem aqueles mísseis que seguem suas vítimas. Ele se virou e me perguntou quanto tempo faltava para o nosso voo. Olhei no relógio e me surpreendi ao constatar que faltavam apenas vinte minutos.
Ficamos o resto do tempo parados ali, os três, vendo quando os aviões decolavam e voltavam. Um deles ficou dando voltas sobre o aeroporto até pousar. Então a mecânica voz feminina anunciou pelo alto falante que o voo 975 partiria em cinco minutos. Ela convocou todos os passageiros a se dirigirem até o local de embarque. Sohrab me olhou ansioso. Sorri para ele e estendi minha mão para que ele a pegasse. Ele demorou uns cinco segundos aé segurá-la e então fomos até onde nos foi destinados, levando junto nossas malas. Assim que chegamos à área de embarque, um homem veio buscar nossas malas. Continuamos andando até a entrada do avião. Quando fizemos uma curva pelos corredores, Sohrab trombou de frente com um homem alto e vestido com um uniforme autêntico. Ele deveria ser o piloto do avião. Ele se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos até ficar na altura de Sohrab e sorriu. Este deu dois passos para trás e agarrou minha mão. O piloto se desculpou:
— Perdão pelo incidente meu jovem. Creio que vocês irão embarcar em meu avião, então se precisar de alguma coisa é só chamar pelo piloto Michael, ok?
Ele sorriu se levantou e olhou para mim. Apertou um dos meus ombros sorriu para Soraya e se dirigiu na direção oposta a nós. Recomecei a andar, mas Sohrab estancou. Eu puxava sua mão, mas ele não saia do lugar. Me virei de frente para ele e segurei em seus ombros. Ele se retraiu e eu olhei amavelmente em seus olhos:
— Ei o que foi? — ele apontou para o avião — Está com medo de voar? — ele fez que sim — Calme, vai ficar tudo bem, vamos estar com você. — eu o abracei
Ele deu um sorriso amarelado e segurando novamente em minha mão ele foi conosco até a entrada do avião. Entregamos as passagens a um funcionário e nos dirigimos aos nossos assentos, dentro do avião. Soraya teve o cuidado de escolher uma companhia aérea cujos aviões possuíam três poltronas em cada fileira. Sendo assim, Soraya sentou na poltrona da esquerda, junto a janela, Sohrab se sentou no meio e eu me sentei na outra ponta, que ficava junto ao corredor. Uma simpática comissária de bordo passou por nós com um carrinho de comidas e Sohrab aceitou um suco de uva. Depois disso o avião decolou. Apertei a mão de Sohrab e ele retribuiu o aperto. O avião fez tranquilamente suas duas primeiras oras de voo. Eu li algumas revistas e jantei. Na hora estipulada, apagaram as luzes e, me reclinando na poltrona, peguei no sono.
Fale com o autor