— Ah sim, não precisa se preocupar. Pelo que eu sei, ele também foi detido pelos soldados estrangeiros, mas sabe-se lá como, ele conseguiu se livrar da prisão e foi para outro país, aparentemente o lugar onde os pais dele estão morando. Só que... Pelo que sei ele ainda tem alguns homens seus aqui, que ainda procuram por nós. Mas não se preocupe a chance de se encontrar com eles são quase zero. Sabe Amir agha, mesmo que você não queira ir para lá, estou enviando tudo para sua casa ai em San Francisco. E se você resolver vir, por favor, me faça uma visita. Só mais uma coisa: como está o garoto? Como ele ficou depois que os deixei?

— Ele... Ele passou por muitas coisas difíceis como você bem sabe Farid e... Ele quis por fim a tudo isso. — Farid fez uma expressão de espanto e murmurou algo como “por Alla”— Ele passou alguns dias na UTI de um hospital e depois que esteve melhor consegui trazê-lo para cá. — ele disse estar aliviado por ele estar melhor e mandou lembranças para Soraya e me pediu para vê-lo caso eu fosse — Claro Farid mande lembranças à sua família. — e dizendo isso desliguei o telefone. Me joguei na cama e liguei para o celular de Soraya. Pedi para que ela viesse para casa imediatamente e ela ficou muito nervosa, perguntando se acontecera alguma coisa comigo ou com Sohrab. Percebi que eu estava sendo um pouco exagerado e disse que não era nada, que ela podia ficar tranquila e vir para casa assim que pudesse. Ela disse que estava tudo bem e que daqui a pouco estaria em casa. Desliguei o telefone e respirei fundo. Não era fácil digerir tudo o que me tinha sido contado.

A ideia de voltar para aquela casa era ao mesmo tempo perturbadora e tentadora. Como eu queria ir para lá, e me lembrar de todas as coisas boas que vivi ali, mas como seria torturante entrar no casebre onde Ali e Hassan, e mais tarde Farzana, Sanaubar e Sohrab viveram.

Soraya chegou alguns minutos depois e estava assustada. Ela entrou no quarto nervosa e perguntou o que tinha acontecido. Eu disse que era melhor termos essa conversa mais tarde, quando Sohrab já estivesse dormindo de preferência. Ela concordou e descemos para fazer a janta. Sohrab continuava assistindo televisão e graças aos céus aquele programa infeliz de animais falantes havia acabado. Ele estava assistindo, estranhamente, ao jornal da noite. Perguntei se podia entrar ao seu lado e ele foi mais para a direita do sofá, deixando o lado esquerdo para mim. Soraya foi para a cozinha fazer a janta, e depois de uns dez minutos assistindo a tv, Sohrab pegou o controle e colocou o som em mute. Ele olhou para mim e depois para as próprias mãos e timidamente perguntou:

— Quem era no telefone? — eu fiquei surpreso, não esperava esse tipo de intromissão vindo dele. Mesmo assim, procurei as palavras certas e disse:

— Lembra daquele homem que nos ajudou lá em Cabul? Aquele que dirigiu o carro para nós e que levou você para a casa dele, com a mulher e os filhos enquanto eu estive no hospital? — ele acenou a cabeça afirmativamente — Ele se chama Farid e era com ele que eu falava no telefone. — Sohrab levantou as sobrancelhas e fez “ah”, mas não perguntou sobre o que eu estava falando. Conclui que realmente era melhor falar primeiro com Soraya e só comenta isso com ele depois.

Nós jantamos e pedi à Sohrab que ele fosse para seu quarto. Ele claramente achou estranho, mas não contestou meu pedido. Fui para meu banheiro e tomei um bom banho. Lembrei do hotel e do que aconteceu ali com ele. Será que essa viagem faria bem à ele? Ou será que o deixaria mais deprimido e ele poderia repetir aquela loucura? Quando fui para o quarto Soraya estava sentada na cama fingindo que estava lendo, pois ela não demonstrava nenhum sinal de estar concentrada em sua leitura. Sorri para ela com o intuito de acalmá-la e me sentei na cama. Fiquei sentado debaixo das cobertas do lado dela. Abracei seus braços e ela pôs a cabeça em meu ombro. Perguntou se estava tudo bem e eu não disse nada. Em vez de responder sua pergunta, fiz uma eu mesmo:

— O que acha de irmos para Cabul? — ela levantou a cabeça, se desvencilhou de meus braços e me olhou intrigada.

— Como?! Cabul Amir? Mas você não foi para lá há três ou quatro anos? Por que quer voltar lá?

— Calma Soraya eu só... Eu recebi um telefonema hoje à tarde e era uma pessoa que me ajudou quando eu estive lá. Ele se chama Farid. É o homem que me levou até Cabul. Ele disse que os talibs deixaram a cidade e que meu tio Rahim Khan enviou para ele as escrituras da minha antiga casa. Nós concluímos que agora já é seguro voltar para lá. Afinal, aquela é minha casa, e agora, posso pelo menos visita-la.

— Amir... Isso é ótimo! Seria incrível conhecer o lugar onde você passou a sua infância. Mas... — ela segurou minhas mãos e me olhou nos olhos com um ar de preocupação — Você está pronto para voltar lá? Você consegue ir lá? — e na verdade eu não estava, mas sabia por quem seria feita aquela viagem:

— Na verdade não. Eu... Ao mesmo tempo em que eu quero ir até lá, ver todos os cômodos, e recordar de tudo que vivi ali, todos os momentos bons que passei naquela casa; ao mesmo tempo é tudo muito aterrorizante. Eu quero ir até lá ao mesmo tempo em que quero pôr a casa abaixo! — apertei as suas mãos e olhei em seus olhos — Mas se eu realmente for até lá, não será por mim. Será por Sohrab. Creio que faria bem ver o lugar em que nasceu de novo. Sabe, acho que ele iria gostar de visitar o casebre em que nasceu e todos os lugares em que brincou com os pais e a avó.

Soraya sorriu e eu sorri para ela. No momento seguinte ouvimos um barulho e voltamos nossos olhares para a porta do quarto. A maçaneta girou lentamente e a porta se abriu ainda mais demoradamente. Surgiu ali um rostinho com olhos avermelhados. Era Sohrab. Obviamente ele estava ouvindo a nossa conversa. Ele chorava. Sim, ele estava chorando e ao mesmo tempo... Sorrindo! Ele chorava silenciosamente, deixando apenas que as lágrimas rolassem por seu rosto, e tinha os lábios em curva, formando um sorriso sincero, como se ele estivesse totalmente grato pelo que acabara de ouvir. Ele veio andando de vagar em direção a nossa cama, como se não tivesse certeza de que tinha permissão para isso. Eu e Soraya colocamos as pernas para lados oposto, de modo que ele pudesse sentar na cama de frente para nós. Ele se sentou como pensamos e ficou alternando os olhares entre mim e Soraya.

— Vocês... — ele começou com a voz trêmula — Nós... nós vamos... Vamos para Cabul?!