Um jeito de ser bom de novo
24 Capítulo 20
NO DIA SEGUINTE ÀQUELE encontro com os talibs estávamos todos na sala de jantar, sentados confortavelmente nas cadeiras da grande mesa onde antes recebíamos centenas de pessoas, tomando nosso café da manhã. Soraya contava ao mesmo tempo animada e nervosa sobre o que acontecera à Uzuri e Cheydan, que a ouviam como quem escuta uma criança falar sobre algo que aconteceu na escola. Soraya nunca vira talibs antes, enquanto as outras duas mulheres provavelmente passaram suas vidas sob a mira das armas, vivendo em submissão à espera de um único erro que lhes custaria a vida. Enquanto minha mulher vivia nos Estados Unidos e relatava como quem conta uma história sua nova experiência. Alguém me dissera uma vez alguma coisa à respeito do verdadeiro Afeganistão, aquele no qual sempre fui um turista, aquele que agora conhecia e que infelizmente Soraya estava conhecendo.
Sohrab não chorara no dia anterior. Voltou para casa da forma mais incomoda possível: em mais completo e absoluto silêncio, o mesmo que encheu nossa casa durante longos três anos, o mesmo com o qual convivera até chegarmos ali; se fazia presente outra vez. Ele não falou nada conosco, não jantou e foi direto para seu quarto. Na manhã seguinte entrou na sala de jantar ainda quieto. Não pude deixar de notar em seus olhos vermelhos e inchados, uma indicação de que colocara sua angústia para fora durante a noite, enquanto todos dormiam.
— Sohrab jan — disse eu — estava pensando em sair com Soraya mais uma vez hoje, o que acha? Quer vir junto ou prefere ficar aqui com Cheydan e Uzuri? — ele negou levemente com a cabeça, o que entendi como um sinal de que não queria sair.
— Sabe que vou com você não é mesmo? Não importa aonde vá agha, vou estar com vocês — disse Farid de forma resoluta, incontestável. Sabia que ele nos seguiria por onde quer que fosse a partir daquele momento, durante a semana que nos restava.
— Aonde vamos Amir? — perguntou Soraya demonstrando um pouco de receio em sua voz, o que não era do feitio da mulher segura que sempre fora — Algum lugar seguro de preferência...
— Como se ainda houvessem lugares seguros em Cabul agha — disse Cheydan com ironia em sua voz — Nossa casa era segura. Segura para nós, para nossas crianças. E mesmo assim... — seu olhar era vago, sua voz pausada e carregada e todos entenderam que ela falava da explosão, aquela na qual as duas meninas mais novas morreram.
— Bom — disse eu mudando de assunto e salvando a pele de Soraya, que parecia profundamente arrependida pelo que falara. — Vamos embora dentro de uma semana. Conversei brevemente com Farid ontem e, devido às circunstâncias, vamos encerrar a visita mais cedo — baixei a cabeça ao terminar a frase, não queria olhá-los nos olhos.
Mas acabei erguendo o olhar para Sohrab que me fitava friamente, como se eu o houvesse apunhalado pelas costas. Eu sabia o quanto aquilo seria difícil para ele: seria a segunda vez que teria de abandonar sua casa, o lugar onde nasceu; seria a segunda vez em que deixaria para trás seus pais, Sasa e a vida que ele tinha. O mundo que conhecia. Eu me sentia horrível por ter de fazer isso, mas estava pensando primeiramente e acima de tudo na segurança de meu sobrinho. Se algo o acontecesse eu jamais me perdoaria. E aquilo seria difícil para mim também. Era minha casa, meu lar. Mesmo que tenha passado mais d vinte anos nos Estados Unidos era ali que eu me sentia em casa, eu sempre estaria ligado ao meu país. Sohrab saiu da sala e voltou para o andar de cima sem mal tocar em seu café da manhã. Levantei da mesa e pedi à Soraya e Farid que se aprontassem para sairmos.
Cheydan fechou o portão branco de ferro quando o carro saiu da alameda machada de óleo da nossa casa. Sentei no banco de trás com Soraya e deixei que recostasse a cabeça em meu peito. “Por que isso? Para onde vamos?”. Mexendo em seu cabelo disse que queria que ela visse algumas coisas. Aquilo seria doloroso, mas na noite anterior pensara e repensara sobre o que fazer. Só não podia deixar que ela continuasse vivendo a ilusão de que estávamos no mesmo lugar de nossa infância. Precisava fazer com que ela conhecesse d verdade o lugar onde estávamos apesar dos riscos; e para tanto a levei para dar uma volta pelas ruas dos bairros mais afastados de Wazir Akbar Khan. Pedi à Farid que fizesse parte do caminho que fizemos da última vez, mas evitando lugares como aquele onde havia um cadáver enforcado, ou onde empreguinara-se o terrível cheiro de diesel. Algumas coisas não precisam ser vistas, quão menos ditas. Farid foi seguindo pela rua das visitas, e expliquei à Soraya porque recebeu aquele nome. Fomos nos afastando de nosso bairro e começaram a surgir os resquícios da destruição: prédios derrubados, placas perfuradas, pessoas vagando pelas ruas; e fiquei me perguntando por onde andaria aquele homem com quem aprendera sobre minha mãe.
— É terrível — disse ela em tom baixo de voz. As ruas cinzentas se fundiam ao céu igualmente acinzentado. Crianças corriam uma atrás das outras, ou então atrás do carro quando passávamos por elas. — Não há homens, não há pais, percebeu? — sim, era verdade, havia mulheres e crianças por todos os lados, mas homens era uma raridade.
No decorrer do caminho ia dizendo a ela tudo o que havia ali, tudo o que fizera parte da minha infância. Farid continuou seguindo em frente, até que nos aproximamos de uma área que eu sabia que conhecia, mas não lembrava bem por que. Então chegamos a um prédio baixo, parecido com um depósito e Farid freou bruscamente o veículo. “Perdão agha.” Ele disse, e então entendi. Era o orfanato. Aquele no qual brigáramos com Zaman quando procurávamos por Sohrab. Desci do carro e pedi que Soraya também descesse. Ela não entendeu o motivo pelo qual queria ir até ali, e na verdade nem eu mesmo sabia ao certo. Algo me dizia que devíamos estar ali naquele momento, que deveríamos entrar ali. Farid pediu desculpas centenas de vezes, mas entendia perfeitamente os seus motivos para não querer ir conosco. Primeiro porque alguém tinha que cuidar do caro. Segundo que provavelmente Zaman não o deixaria entrar. Batemos à porta e ouvimos o ruído de passinhos andando de um lado para o outro dentro do prédio. Passaram-se cinco minutos até que ouvimos o barulho das trancas sendo abertas, trancas novas por sinal, e um homem baixinho de óculos redondos veio nos receber. Num primeiro momento não deu sinal nenhum d me reconhecer, mas depois de passar bons minutos nos observando sem dizer nada emitiu um ruído de surpresa e baixou a cabeça.
— Salaam alaykum. Creio que já o conheço agha... — abriu a porta, porém não deu espaço para entrarmos.
— Salaam, Zaman. Sim. Estive aqui há cerca de três anos, procurando por meu sobrinho. Será que nós podemos entrar? — deu dois passos para trás e fez sinal de passagem com as mãos. Soraya foi à frente andando pelos corredores e imediatamente percebi que aquele lugar estava diferente: as paredes receberam uma mão de tinta nova, havia camas nos quartos, desenhos nas paredes e as crianças estavam mais, vivas. Seus rostos tinham cor, não aquele azulado de quem passou frio durante todo um inverno, mas rosados, dando sinal de que recebiam uma boa alimentação. Meu estômago se revirou com a ideia de onde viria aquele dinheiro. — As coisas mudaram por aqui, não? — perguntei em tom baixo.
— Sim, há um casal aqui de Cabul, que ficou um tempo fora, mas depois eles voltaram, e agora me ajudam a cuidar daqui, fazendo pequenas reformas e dando aulas. Po de ser que encontrem com eles por ai... — Zaman falava baixo, pesado, e me ocorreu que talvez ele esperasse por uma má notícia.
— Acho que vou esperar por você aqui Amir. Não faço questão de ouvir essa conversa. — disse Soraya num tom de voz mais irritado do que pretendia. Ela olhava para o pátio onde algumas meninas brincavam. — Pode ir — e foi para onde estávamos algumas menininhas, penteando os cabelos uma das outras.
— Certo — disse Zaman, e entramos na sala que servia de diretoria. Ele se sentou na cadeira dobrável do outro lado da mesa e pegou um de seus lápis, que ficou girando entre os dedos durante nossa conversa. Sentei na cadeira à sua frente, e recusei um cigarro que ele ofereceu — E então agha? Que notícia me traz? Espero que sejam boas...
Fale com o autor