Um homem e duas criaturas
1 Lobos desformes
Notas iniciais
O galopar do cavalo negro feria o solo da grande floresta em meio à severa nevasca, o chão que só se via neve, cobria-se com blocos de terra como um rastro.
O homem – montado em seu cavalo – mal podia enxergar o que vinha à sua frente, apenas conseguia manter-se na trilha. Uma mão segurava as rédeas e a outra o cabo de sua espada embainhada. De súbito, lobos deformes surgiram lateralmente, acompanhando à mesma velocidade.
Desproporcional era o alto e grave rosnar dos lobos. O cavalo – de jovial aparência – no ápice de sua vida, galopou tão rápido que nem a morte poderia lhe alcançar, contudo os lobos, persistentes, não pouparam energia ao dar um arranque feroz e fugaz.
Seus músculos das patas dianteiras eram, em partes, visíveis. Não possuíam olhos, pele apodrecida tapava as cavidades oculares.
Sem hesitar, ambos pularam em cima do cavalo, fincando suas garras nas coxas e a abocanhando. O cavalo cedeu rapidamente ao ataque e caiu, contudo o homem saltou, puxando sua espada tragada pelo tempo, porém indispensável e se recompôs rapidamente, apontando-a para os lobos.
A única coisa que podia lhe guiar a se defender era o som alarmante do rugido, mas eles o rodeavam. Não bastando, o som que parecia até involuntário, cessou. Uma vez que o barulho do vento que carrega a neve não lhe permite nem mesmo ouvir a si próprio, a visão e a audição tornam-se inúteis.
Percebeu então que era inútil lutar, ajoelhou-se e estendeu ao alto suas mãos e abaixou a cabeça. Um lobo à sua frente rosnou em um arranque para lhe atacar. O homem, em contrapartida, jogou-se – empunhando ao alto sua espada – de costas contra o chão coberto de neve. O lobo fora atravessado pela espada.
Ouviu o rosnar do outro lobo ao seu lado esquerdo e este com ferocidade, cravou suas presas no pescoço do homem, seus dentes o dilaceraram com facilidade e o sangue pintou a neve de vermelho, uma pintura que só a natureza pode proporcionar. O sangue – como uma grande chuva de meteoros – contemplou a vista dos observadores que se escondem nas trevas das trilhas de onde até mesmo os animais evitam.
Os lobos se desfizeram em fumaça tão vermelha quanto o sangue, tal qual o homem e o cavalo se desfizeram, contudo as marcas da batalha permaneceram.
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