Um futuro incerto, mas repleto de amor
110 Capítulo 110
Notas iniciais
–- Princesa?
–- Ben! – falou Anita com um sorriso largo ao ver o namorado – O que você está fazendo aqui?
–- Como assim, se esqueceu do que a gente combinou? – ele perguntou a abraçando e puxando para um beijo
–- Não, mas achei que você poderia ter se esquecido
–- Você achou ou gostaria que eu tivesse esquecido?
–- Não consigo te enganar né? Ai eu estou morta de cansada, a gente vem procurando apartamento há quinze dias direto, antes e depois do trabalho, nos finais de semana e até agora nada. Será que não podemos abortar a procura por hoje?
–- Está jogando a toalha? Quer desistir de ir morar comigo, é isso mesmo? – perguntou o rapaz mexendo numa mecha do cabelo dela
–- Claro que não! Pronto, passou todo cansaço. Vamos! – ela se animou
–- Estou brincando Anita, vou te levar para casa, recomeçamos a procura amanhã ou outro dia
–- Desculpe o desânimo momentâneo, é que hoje eu visitei três obras e foi meio estressante, cobrar prazo de obreiro é pesado. Por isso tinha meio que me desestimulado de continuar visitando apartamentos agora de noite. Só que eu estava me esquecendo que mais cedo eu visitei o apartamento dos outros, mas agora é o nosso e eu quero ir sim
–- Não precisa mesmo, você está com uma carinha cansada -- ele fez um carinho no rosto dela
–- Faço questao, foi por isso que você veio me buscar
–- Vamos fazer assim, visitaremos só os dois que estão no caminho do casarão, pode ser?
–- Você vai achar que veio aqui por besteira – ela disse o abraçando
–- E quando é que buscar a minha namorada no trabalho e aproveitar a volta para casa para namorá-la pode ser considerado perda de tempo hein, me diz?-- ele perguntou fazendo um chamego nela
–- Então eu prometo te dar muitos beijinhos para compensar
–-Vou cobrar -- ele piscou a abraçando
–- Vou começar agora -- falou Anita beijando o namorado com vontade
–- Procurar lugar para morar é chato mesmo, mas vamos ser recompensados depois quando estiver tudo pronto e a nossa cara – ele falou carinhoso
–- Tenho certeza disso príncipe!
Eles fizeram como o combinado e seguiram rumo ao Grajau, saltaram do onibus para visitar o primeiro apartamento, mas o corretor tinha se esquecido de deixar as chaves na portaria. No segundo endereço, Anita conseguiu demover o namorado de subir para ver o local. Ela não se esqueceu da promessa e eles aproveitaram o trânsito provocado pelo jogo no Maracanã para namorar muito
–- É Princesa, hoje realmente não era dia para vermos apartamento – ele disse caminhando de mãos dadas com Anita quando desceram do ônibus
–- Ai amor, não foi culpa nossa, no primeiro deu aquele desencontro e no segundo ...
–- Fala qual era o problema do segundo? Eu não vi nenhum ... até porque ... Nós também não chegamos a ver nada – ele provocou a cutucando pela cintura
–- Você viu o estilo do prédio, a portaria tinha ar condicionado, o circuito interno parecia um Big Brother de tão vigiado que é o edifício, tem playground, salão de festas, mini academia, piscina, sauna ... –ela enumerou
–- Nossa! Quanta coisa ruim ... -- ele continuava provocando e sorrindo
–- Para! Não é ruim, mas essas mordomias têm um preço
–- Mas o aluguel estava compatível com o valor que estamos dispostos a pagar, ainda não entendi você ter declinado dele
–- Aluguel não é tudo amor, e também desconfio deste preço, o apartamento deve estar com algum problema. Mesmo se não estiver ... não é só isso, temos que computar o valor do condomínio e do IPTU. Tudo junto tem que caber no nosso orçamento. Para morar lá só com a ajudinha da Cicera!
–- Minha mãe não! Você tem razão, não tinha pensado nisso
–- Pra isso você tem uma arquiteta em casa, meu trabalho não é esse, mas acabo convivendo com estas questões – ela sorriu para ele e lhe deu um selinho
–- E aí doidinhos, que caras são essas? – perguntou Luciana ao cruzar com o casal no portão do casarão
–- Ai tia, resultado de uma busca incessante e fracassada até agora por moradia
–- Estão falando do cafofo novo de vocês?
–- Sim! – falou Ben
–- Isso porque vocês ainda não consultaram a pessoa certa meu, mas o dia da sorte pode ter chegado
–- E quem seria? – perguntou Anita
–- Trutinha, quem desenrolou um lugar pra tu da outra vez? – Luciana perguntou olhando para Ben
–- Você tem um apartamento pra gente tia? – perguntou Anita
–- Talvez! Tem um conhecido meu que vai voltar para Pernambuco, vou falar com ele e ver qual é do esquema, firmeza? – ela disse
–- Ai obrigada! Vou torcer – falou Anita
–- Obrigado mesmo! – agradeceu o rapaz
–- Tomara que a tia Lu nos salve novamente – disse Anita feliz abraçando o namorado
–- Ben, meu filho! Será que eu posso falar com você, aliás com vocês dois – pediu Hernandez do portão ao ver o casal
–- Claro Nacho! – concordou Ben feliz em ver o padrasto
Os três ficaram um tempo conversando na varanda do casarão, até que Vera chamou os filhos para jantar, convidou o hondurenho, mas ele tinha um compromisso com o advogado. O jantar transcorreu dentro da perfeita e típica harmonia do Casarão. Na manhã seguinte Anita despertou cheia de energia e acordou o namorado para irem olhar o apartamento que Luciana já tinha descolado o endereço e outros que ela mesmo tinha pesquisado nos classificados. E mais uma vez eles saíram cheios de planos e esperança
–- Calma Ben! – falou Anita da porta num tom propositalmente assustado
–- O que foi? Que susto! -- ele parou de imediato
–- Entra com cuidado para você não tropeçar e cair pela janela – disse ela as gargalhadas
–- Ai Anita virou piadista agora? Vai não é tão pequeno assim – ele não conseguiu segurar o riso depois de falar isso e olhar para dentro do imóvel
–- Só a tia Lu para arrumar um lugar desses, e mais loucos somos nós que ainda demos ouvidos – dizia Anita olhando em volta
–- Ela tentou ajudar – defendeu Ben – Olha, tem uma cama, e é quase tudo do que precisamos para começar nossa vida a dois -- ele disse a derrubando sobre o móvel e se deitando por cima
–- Eu estou piadista e você assanhado hein garoto – ela disse segurando a boca dele com as mãos e depositando um beijo caloroso
–- É macio, não quer testar melhor para ver se é resistente? – ele sugeriu
–-Depois ... agora vou dar uma olhada nas dependências antes que você diga que eu estou de má vontade e boicotando a nossa mudança
–- Tá bom, eu vou olhar a vista – disse Ben
–- Definitivamente este apartamento está precisando de uma reforma, tem muita coisa engatilhada e a parte hidráulica está detonada. Sinto muito em te dizer isso, mas a minha resposta será novamente não! Tenho que vetar esse lugar – ela disse e não obteve resposta
–- Ben! Ben? Ben! Voce está me ouvindo? – perguntou Anita se aproximando
–- Oi ... desculpa, você estava falando comigo?
–-Estava ..., mas você parece tão distraído. Ficou triste na verdade, do nada! O que houve? – ela perguntou caminhando até ele
–- Eu estava vendo aquele campinho de futebol ali na praça – ele respondeu ainda olhando pela janela
–- E o quê que tem? -- ela o abraçou por trás e avistou o tal campo
–- Recordações ... Olhar um campo de futebol pela janela de uma potencial casa nova me fez voar para longe
–- Lembranças boas? -- ela perguntou dando um beijo nas costas dele
–- Tinham tudo para ser, mas acho que não -- ele respondeu como se estivesse pensando alto
–- Quer falar sobre isso?
–- Nos Estados Unidos eu morava com a minha mãe e o Hernandez num bairro muito simples, onde também moravam muitos outros latinos e alguns americanos. Nossa casa era muito pequena e minha mãe odiava. Sempre tinham brigas homéricas entre eles por causa disso
–- É você me contou dessa época, está pensando que vou brigar muito com você se viermos morar aqui? – ela fez um carinho nele e tentou descontrair
–- Eu sei que não, você não tem dessas futilidades
–- Pequeno ou grande vai ser nosso canto e é isso que importa, não tem como achar ruim. Se tiver eu e você ... o que mais eu posso querer?
–- Nada ... -- ele disse aéreo
–- Continua ... -- pediu Anita
–- As coisas melhoraram um pouco numa época que a minha mãe arrumou um emprego legal e o Hernandez foi promovido, com isso nós pudemos nos mudar para um lugar melhor. Minha mãe ficou muito feliz quando viu a casa nova, lembro até hoje do sorriso dela, todos estavam contentes
–- História parecida com a nossa
–- É, só que a Dona Cícera já não amava mais o Hernandez, o casamento tinha se tornado comodidade -- ele deu um suspiro
–- Já eu te amo muito! -- disse Anita. Ben esboçou um leve sorriso e a olhou com muito carinho retribuindo a declaração pelo olhar, mas logo desviou a atenção novamente para a janela e o campo de futebol
–- Eram três quartos, um para o casal, outro pra Tita e um pra mim e pro ... – ele se calou com um nó na garganta
–- Ben, pra que sofrer com isso agora ...? – ela se preocupou vendo o rumo da conversa
–- É a minha história Anita ...
–- Desculpa -- ela disse
–- Tinha uma sala grande, com a cozinha integrada, um quintal espaçoso e a janela com vista para o campo ... A mudança e os primeiros meses foram muito bons ... Eu podia jurar que seríamos muito felizes lá – ele seguiu com as lembranças
Anita percebeu que não tinha muito o que dizer e preferiu deixar ele falar e desabafar. Enquanto ele lembrava do passado ela ia distribuindo carinho e sempre o olhando com ternura. Era uma forma dela demostrar que estava ali com ele e para ele.
–- Eu e o Antônio ficamos encantados com aquele campinho verde que tinha uma grama perfeita -- ele falou com os olhos marejados -- A gente não via a hora do inverno acabar para as pessoas irem pra rua jogar bola, nossa como era difícil jogar futebol nos Estados Unidos!
–- Só que tinha um probleminha, lá o "soccer" é muito mais popular entre as mulheres e praticamente só garotas apareciam para jogar ali. Para nossa sorte as nossas vizinhas, como exceção a regra, eram muito ruins de bola -- ele sorriu e continuou
–- Ai o Antônio teve uma ideia genial para podermos participar da brincadeira e matar a vontade do futebol. Ele sempre foi muito inteligente -- ele se permitiu elogiar o irmão
–- Pena que ele não soube tirar proveito disso, ele faz péssima utilidade dessa qualidade -- ela acabou dizendo
–- Você tem razão, hoje ele se utiliza dela para fazer maldades, mas naquela época ainda não era assim. Ele propôs que nós fôssemos os treinadores delas para poder ensinar a técnica. Mostramos nossas habilidades e fomos aceitos na equipe. Eu como era um pouquinho melhor de bola e também mais velho e expansivo, virei o técnico e ele meu auxiliar. As meninas aprenderam direitinho a jogar, nós jogávamos sempre. No princípio era muito divertido!
–- Estou vendo pela sua expressão leve com as lembranças de agora -- ela disse
–- Acabamos contagiando uns meninos com a nossa alegria nos pés e eles se interessaram em aprender. Montamos uma escolinha e foi onde começamos a ganhar dinheiro, meu primeiro trabalho
–- Pras meninas você não cobrava né? -- ela deu um tapa de leve nele
–- Como cobrar delas Princesa? Nos unirmos a elas foi a única chance que tivemos de jogar futebol! Sem elas não teríamos tido vez.
–- Sei bem! -- ela se fez de chateada -- Eu achei que você gostasse de futebol americano
–- Era o que eu praticava no high school, mas como todo bom brasileiro, o nosso futebol está no sangue
–- Deve ter sido uma época boa
–- De certo modo foi ... Pensando bem ... -- a expressão dele voltou a se fechar -- Acho que foi ai que as coisas começaram a desandar e se transformar para o pior
–- Porque?
–- Tinha uma menina ... -- ele olhou para Anita com carinho e a deu um selinho
–- Pode falar! -- ela sorriu e segurou as mãos dele
–- Ela era a goleira, era muito bonita e por ter uma liderança nata virou a capitã. Acabamos tendo um namorico, coisa de adolescentes, só que o Antônio também se interessou por ela -- ele disse em tom de lamento
–- Que surpresa! -- falou Anita
–- Quando eu percebi, eu fui falar com ele e me propus a abrir mão daquela paquera. Não era um sentimento importante e ele era o meu irmão
–- E o que ele disse?
–- Que era para eu seguir em frente, que ele sabia que era muito novo pra ela e que na verdade só a achava bonita. Pareceu sincero, mas depois eu vi que não.
–- O que aconteceu?
–- Nosso namoro não durou muito e ele ficou revoltado quando terminamos, insinuou que eu tinha me envolvido com ela por capricho e competição. A partir daí ele passou a querer tudo que era meu, ficava me observando o tempo todo, começou a cortejar as minhas namoradas, tentar roubar as minhas amizades e fazer intrigas em casa ... Como eu fui otário em acreditar que tudo não passava de uma rebeldia de adolescente. Na verdade já era o caráter torpe dele gritando
–- Te acusou de sentir tudo que quem na verdade sentia era ele, isso aliado a uma boa dose de inveja. Ele sempre tenta inverter os papéis com você
–- Pois é -- ele concordou
–- E eu já cai nesse joguinho -- ela se entristeceu
–- Esquece isso princesa -- ele segurou o rosto dela e o ergueu com carinho para um selinho
–- Quantos anos vocês tinham?
–- Ela 16, eu 15 e ele 13 pra 14. Eu tinha que ter percebido
–- Ben, você não vai se culpar pelas loucuras do Antônio agora, vai?
– É que é difícil de aceitar, ele era meu melhor amigo, confidente, companheiro em tudo. Nós crescemos e descobrimos muitas coisas juntos. A transição de criança para adolescente nós passamos juntos, voz engrossando, barba, pêlo no corpo ... Eu tinha muito mais intimidade e até amor por ele do que pelos meus irmãos de sangue, já te disse isso -- ele comentou cabisbaixo
–- Eu entendo isso
–- O Antônio se transformou num covarde insensível que age no intuito de destruir as pessoas. Alguém que se alimenta de espalhar sofrimento. Como é que eu ainda tenho lembranças boas deste cara depois de tudo que ele aprontou com nós dois. Que raiva de mim! – ele disse contrariado
–- É absolutamente normal isso, ainda mais que vocês tiveram bons momentos juntos, essas recordações boas da infância não se apagam. E é justamente essa pureza no seu coração que faz eu a cada dia me apaixonar mais e mais por você.
–- Ele me torturou psicologicamente, maltratou o Hernandez, enganou minha família que o abrigou, te manipulou contra mim, nos expôs cruelmente, me fez te fazer sofrer e eu jurei que nunca faria isso, nos arrastou para aquela casa para mais um pouco de tortura ...
–- Eu fui uma idiota também, um joguete nas mãos dele -- ela lamentou
–- Ele quase te tirou de mim pra sempre com aquele tiro. Ele quis me acertar, errou o alvo e com isso quase acabou comigo de uma forma bem mais implacável -- ele a encarou e se lembrou do momento que a teve nos braços ferida e lutando para sobreviver
–- Você está assim por causa da conversa com o Hernandez ontem e a notícia do julgamento? -- perguntou Anita
–- É, eu queria muito que esse dia chegasse, mas agora que se aproxima eu fico muito preocupado com você. Não queria que você tivesse que vivenciar todo esse horror de novo -- ele disse a abraçando
–- Impossível, nós somos testemunhas de acusação, seremos obrigados a comparecer, ao menos que o advogado nos dispense. Agora, não é isso que eu quero, quero ajudar a fazer justiça – ela disse firme
–- Já eu daria tudo para te poupar, viajar com você e só voltar com este pesadelo terminado
–- Vai ficar tudo bem amor, nós estamos juntos e é isso que importa. Olha em volta, nós estamos procurando um apartamento para morarmos juntos, estamos construindo algo maior para nós dois. Ele não logrou nada com as armações dele
–- É mas eu não sou bonzinho assim como você está me descrevendo não. Apesar da nossa infância e de qualquer resquício de lembrança boa, eu também guardo uma revolta enorme por esse cara -- ele buscou fôlego e continuou -- Eu quero que ele pague por tudo e apodreça na cadeia
–- Para Ben eu não quero me lembrar disso, não agora -- disse Anita deixando as lágrimas caírem -- Nós viemos aqui hoje para sermos felizes
–- Tá certo, desculpe – ele enxugou o rosto dela -- Vou deixar para pensar neste assunto na semana que vem, quando infelizmente nós estaremos frente a frente. Não fique assim. Por favor!
–- Melhor -- ela disse e os dois trocaram um longo abraço em silêncio e muito afetuoso
–- O que você estava falando deste apartamento mesmo? -- ele perguntou tentando afastar as lembranças do Antônio
–- Quer um resumo? -- ela esboçou um sorriso e se recompôs
–- Pode ser
–- Bom, eu disse basicamente que vamos ter que continuar procurando! -- ela sorriu
–- Porque será que eu não me surpreendi com isso?
–- Porque você me conhece, e também tem o mínino senso crítico e percebeu que aqui não dá
–- Mas tem uma cama macia -- ele brincou
–- Bom se ela é tão importante assim então fique com ela. Eu estou indo
–- Pera ai ... Volta aqui -- ele a puxou -- Está pensando que vai aonde?
–- Vou sair e te deixar a sós com seu novo amor: a cama macia do amigo da tia Lu -- ela zombou dele
–- Nada disso ... Meu único amor é você. E a sua presença nela que a deixaria perfeita. Nós três formaríamos um ninho de amor -- ele a abraçou
–- Ai que cafona! -- ela o beijou apaixonada
Após o beijo eles se encararam com os olhos mais brilhantes do que nunca. De alguma forma o desabafo de Ben conseguiu os unir ainda mais naquele instante, eles sabiam que enfrentariam uma semana difícil, mas que um teria o apoio do outro. Na verdade eles estavam felizes por terem conseguido relaxar depois do clima pesado que se formou de repente. O beijo apaixonado foi o alívio final no coração deles naquele início de tarde.
Autora: Carol
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