Um estranho em Seattle
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Josh Rainey
Minha vida? Não é das mais fáceis, mas também não comi o pão que o diabo amassou. Sou um escritor falido e como já disse, tenho uns motivos pra morar nessa cidade pequena, eu até posso ir pra uma grande metrópole tentar outra editora, mas tenho um motivo maior pra ficar aqui. E esse motivo estava ali bem ao meu lado, sorrindo pra mim com uma caneca nas mãos. Depois de ameaçar contar os podres de Eddard pra todos na cidade e ferrar com a candidatura dele a prefeito, tenho certeza que ele vai deixar Julie em paz aqui comigo. Ela estava animada pra ir a feira e já tinha até trazido o jornal pra dentro, observei-a ler enquanto tomava seu café. Ela estava concentrada nas notícias, com a testa franzida e os lábios em apenas uma linha. Ficava ainda mais linda quando ficava séria concentrada.
Sou tirado dos meus pensamentos quando percebo ela balançando a cabeça em desaprovação e jogando o jornal de lado.
_Idiota. -Ela diz.
Percebi que se referia ao seu pai que estava estampado no jornal. Pensei que ela ia falar algo sobre ele, mas ela rapidamente muda de expressão, e de assunto.
_Então você amou uma mulher só? -Ela pega um rascunho de meu livro inacabado e tira uma mecha de cabelo dos olhos.
_Porque a pergunta? — Ela me pegou de surpresa nessa.
_"É tão absurdo dizer que um homem não pode amar a mesma mulher por toda a vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música..."
Ela se referia a frase que coloquei na contracapa. Eu acreditava nisso, até conhecer Julie.
_Vejo que você gosta dos meus livros.
_Eu já disse que gosto. Você deveria tentar uma editora maior, você tem muito talento e é um desperdício ficar aqui... Mas você não respondeu minha pergunta... Você acredita nisso realmente?
_Você quer saber se já tive alguém. -Digo achando que ela ia ficar envergonhada, mas pra minha surpresa ela balança a cabeça dizendo que sim. Ela era imprevisível.
_Sim, eu escrevi a frase porque tive alguém, e acreditava profundamente nela. Mas depois de um tempo, tenho dúvidas quanto a isso. Eu acho que o amor é um tragédia meio relativa, depende do ponto de vista. E sim, um homem pode amar a mesma ou mais de uma mulher e um violinista pode ter quantos violinos ele quiser.
_Você foi casado.
_Isso é uma pergunta ou uma afirmação? -Pergunto intrigado.
_Afirmação. Estou errada?
_Não. Fui casado por 13 anos, ela me deixou. Então me mudei pra cá. E conheci você.
Finalmente ela ficou envergonhada, tem um pouco de menina naquela mulher sentada a minha frente.
_Sinto muito. Acho que todo mundo tem problemas, e eu concordo com você, o amor é uma tragédia mesmo.
_Você quer ir a feira? -Mudo de assunto, essa conversa já foi bem além do que eu esperava. Ela sorri lindamente e vai pro banheiro se arrumar.
Caminhamos para a feira, o sol brilhava levemente e ela enganchou seu braço no meu.
Pra nossa surpresa, o pai dela estava na feira fazendo a cara de boa vizinhança. Ela o ignora e age naturalmente, como se nem conhecesse aquela pessoa. Ela estava feliz, sentamos nas poltronas e ela ficava sorrindo pras crianças que pintavam desenhos nas mesinhas, ela se encanta por uma garotinha com um vestido azul que pintava um gato com olhos verdes imensos e um sorriso sacana no rosto, e pra surpresa dela, a menina sorriu e lhe entregou o desenho, dizendo que o gatinho era maluco e que era um presente pra Julie. Ao perguntar o nome da menina, ela respondeu que era Alice e que todos pensavam que ela maluca como o gato do desenho. Julie carinhosa, disse pra Alice que era pra ela não ligar, pois as pessoas malucas são as melhores. A criança beijou o rosto de Julie e saiu correndo pelo saguão.
Compramos dois livros e ela ganhou um terceiro, tomamos sorvete e passamos uma tarde agradável. Quando saímos uma chuva ameaçava cair, mais como um temporal... Andamos rápido mas não teve jeito, chegamos ensopados em casa. Rapidamente, ela enrolou uma toalha nos livros, e eu não deixei de notar como seu corpo é bonito, o vestido que usava colou em seu corpo e tive que afastar esses pensamentos da minha cabeça ao olhar suas curvas.
Tentei de várias formas entender o porquê eu pensava que aquilo era tão errado e me lembrei de Evelyn, que nada é o que parece e que a ideia de outra mulher na minha vida me dava arrepios pois eu tinha medo do que aquilo me causaria. Julie tinha uma vida fudida, eu sentia que precisava ajuda-la e a forma como ela me olhava, parecia que eu era a única pessoa que lhe importasse.
Ultimamente eu só tinha olhos e pensamentos pra aquela moça, e sentia uma vontade imensa de beija-la, pois ela era o pior tipo de vicio que um homem poderia ter, aquele que não te deixa pensar em outra coisa e eu me odiava por isso. Ela era mais nova, eu era um homem de quase 40 anos com um emprego estranho e uma mente danificada. E ainda assim, com tudo errado, eu ia na direção dela... Pensei nela como minha amante, minha mulher, minha amiga ou minha inimiga, tanto faz, ela era tudo que eu queria e estava difícil resistir à tentação de toma-la em meus braços. Ela parecia errada e ao mesmo tempo certa, perfeita e cheia de defeitos, amava crianças e eu gostava disso, ela me enlouqueceu e me roubou de mim mesmo e eu gostava dela e dessa loucura. Não, eu não gostava. Eu amava Julie, com todo meu coração.
Julie Simons
Minha primeira preocupação foi secar os livros que trouxemos e o desenho do gatinho maluco que ganhei da doce Alice. Josh secava os cabelos em uma toalha de um jeito sexy, procurei não olhar muito, pois senti que ele me observava. Lá fora uma chuva caia deixando a atmosfera mais fresca. Não foi um dia quente, mas comparado com os outros dias daqui, foi calor, coisa raríssima de acontecer. Notei que ele me observava, e mesmo constrangida me aproximei dele, tirando os cabelos que cobriam os olhos. Ah, aqueles olhos dele me arrancaram noites de sono.
Ele coloca uma mão no meu rosto, eu gosto da sensação do seu toque, sua mão macia e fria pela chuva acariciou minha pele. Ele se aproximou e pude sentir sua respiração quente e seu perfume único, pousei uma mão sobre seu peito e a outra enterrei nos seus cabelos. Josh abriu os lábios e nossas bocas se tocaram suavemente, logo nossas línguas dançaram uma com a outra. Ele me beijava como se o mundo fosse desabar sobre nós, sua outra mão segurava minha cintura firmemente e cada vez mais o beijo se intensificava. Nossos corpos estavam colados e pude sentir que ele estava tão louco quanto eu. Nós afastamos nossas bocas por um minuto pra recuperar o ar ficando com as testas coladas.
_Por que demorou tanto? -Sussurro, sorrindo assim que encontro seus olhos. Ele me beija novamente, agora com mais calma.
_Eu não sei. -O som da sua risada se misturou com os trovões, e eu me perdi naquela maravilhosa melodia.
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