Um espinheiro em meio a tempestade
17 A terceira ferida
Notas iniciais
Durante o treinamento ambos pareciam desapontados, isso porque até agora não haviam conseguido absolutamente nenhum resultado, até que com mais um pouco de esforço dele um dos espinhos se retraiu entrando completamente para dentro do galho.
— Atsu! Atsu! Deu certo!!! – Yuna disse feliz e ele abriu os olhos.
— É sério? – Disse ele antes de constatar que era mesmo verdade e sorriu. Ela o abraçou num impulso, gargalhando.
— É ótimo! Se continuarmos, logo você vai ter total controle sobre eles!! – Ele retribuiu o abraço, animado, ter controle tanto dos espinhos quanto dos galhos significava não machucar mais ninguém, e essa sim era a grande vitória.
Quando em demasiado se afastaram ela continuou próxima, o olhando com ambos os braços em volta de seu pescoço, por algum motivo ele ainda não a soltara. Isso foi concertado quando ele finalmente se deu conta do que fazia e se afastou.
— Vamos continuar, certo?
*S-O-N*
Mishiro ainda fazia um caminho por entre rochas fora do vilarejo, quando já podia avistar Yuna viu ela com o mutante, aquele dos espinhos, congelou por instantes...
Tantas perguntas passavam na cabeça dele e o mesmo se escondeu, embora não conseguisse formular nenhuma explicação para aquilo tudo que viu, uma coisa era certa: O mutante era uma ameaça e deveria ser aniquilado.
Retirou uma faca da bota e respirou fundo, atingiria o ponto vital, cravaria a faca no centro das costas, de onde saiam os espinhos, aquilo o deixaria fraco o suficiente para que pudesse dar o próximo passo, o pescoço, se nem os soldados do castelo haviam conseguido definitivamente acabar com aquela coisa, então mata–lo não seria algo fácil e não podia esquecer que teria de proteger Yuna.
Ligeiramente Mishiro se aproximou, num grito de fúria, houve um ricochetear de galhos e o barulho de uma pancada forte, sangue espirrou.
Os galhos de Atsu se expandiram e o lançaram contra uma rocha, Yuna caiu do outro lado, Mishiro só teve tempo de vê–la tombar antes que seu corpo pendesse no ar e sua cabeça se chocasse contra uma pedra no chão.
Antes que Atsu pudesse se dar contra do que acontecia os dois a sua volta estavam caídos, Mishiro tinha sido atingido em cheio no peito, foi arremessado contra uma pedra, caiu e bateu a cabeça, a terra acinzentada ao seu redor já estava úmida com o liquido de cor escarlate, Yuna também havia sido atingida, somente de relance num ricochetear dos galhos, o real problema era o veneno dos espinhos...Aquela era a terceira vez.
Flashback
— Yuna, quantas vezes você se machucou nesses espinhos?
— Não sei...Acho que duas...Porquê?
O monge sentou–se no chão em posição de Lótus.
— Você não vai resistir a próxima, tome cuidado.
***
— De inicio os efeitos não são tão perigosos, costumam variar entre febre, sede, algumas dores e enjoos, mas aos poucos o veneno derrete os órgãos por dentro e leva a morte.
***
— Meu pai se feriu três vezes nos espinhos, ele acabou vomitando os órgãos...
Flashback
Assustado Atsu correu até ela e a ajudou a se levantar.
— Yuna, você tá bem? Quem era aquele? – Ele perguntou, confuso com a situação.
O braço direito dela sangrava e a mesma pressionava o ferimento com a mão, os olhos lacrimejavam cheios de pavor.
— Era Mishiro...Acho que...Me seguiu.
Atsu respirou fundo e recolheu seus galhos, Yuna mantinha o olhar em movimento tentando entender o que tinha acontecido, um milhão de coisas corriam em sua mente.
— Atsu...Essa é a terceira vez... – Ela disse com a voz tremula e lágrimas escorrendo pelo rosto, o olhava com preocupação, sentia o sangue ferver em suas veias, seu estômago ardia.
— Não! Impossível...!
Os dois beiravam o desespero, a visão dela ficou turva e tudo começou a girar, Atsu a pegou no colo para leva–la até a caverna, não sabia direito o que fazer e ao chegarem lá o tormento começou.
Yuna vomitava sangue novamente, ela gritava e chorava, as vezes se contorcia de dor, sentia seu corpo queimar por dentro e algumas vezes pequenos pedaços de carne saiam junto com o sangue, Atsu se sentia no inferno, seus olhos lacrimejavam muito, ele suava frio e não acreditava que teria que ver aquilo acontecer de novo, lembrava–se de seu pai e se desesperava com toda a cena, ela...Era a ultima pessoa que queria ferir.
— Eu vou morrer? – Ela perguntou entre soluços e golfadas, ele a observou sem nada pra dizer, mordeu o lábio inferior e lágrimas desceram silenciosamente pelo rosto pálido.
Ficaram em silêncio por um tempo enquanto ela tossia violentamente e vez ou outra vomitava mais.
— Eu sinto muito Yuna...Eu...Nunca quis... – Ele balbuciou em choque sem conseguir olha–la nos olhos, sabia que teria o mesmo olhar de seu pai e isso era apavorante.
A dor era lancinante, ela parou de vomitar depois de um tempo, estava completamente pálida e tremula.
— Atsu...Tem de aprender a controlar essas coisas...Se não controlar, mortes assim...Vão continuar acontecendo. Tem de fazer isso Atsu...Prometa. – Ela disse em sussurros tentando se erguer em vão.
Ele permaneceu em silêncio com o olhar tão morto quanto quando ela o encontrou pela primeira vez.
— Se não prometer nunca vou te perdoar. – Yuna continuou enquanto limpava o sangue do rosto com as costas da mão.
Ele a olhou por segundos, a visão embaçada por conta das lágrimas, a voz saiu em um sussurro vacilante.
— Eu prometo.
Ela sorriu, se colocando de joelhos por fim, foi o suficiente pra suas forças e tombou sobre a poça de sangue. Atsu estava traumatizado por ter acontecido de novo, não queria aquilo, não queria ver aquilo, odiava tudo aquilo...Mas não poderia tê–la deixado sozinha. Não quebraria aquela promessa por não saber como o fazer.
Sua mente estava um caos e quando conseguiu normalizar a respiração puxou–a pra perto num abraço, droga de vida, o silêncio na caverna foi quebrado por um grito agonizante e estrondos horríveis, os galhos cresceram violentamente devastando o lugar, exatamente como havia acontecido em sua casa um ano atrás, a sangria do espinheiro havia voltado.
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