— Não sabia — murmurou Hermione.

Porém seria mentira dizer que esta­va muito surpresa. Desde o primeiro instante, no hospital, quando fitara os olhos do estranho enfaixado, percebera que havia algo de magnético em sua personalidade, que o destacava do resto das pessoas.

Acabara de compreender as palavras do capitão Rúbeo Hagrid. "Ele é uma pessoa muito importante. Se a imprensa tivesse tomado conhecimento do acidente, seria a manchete dos jornais. A se­nhora nos poupou uma grande confusão."

— Para ser honesta, Harry eu e meu ex-marido nunca mais entramos em contato depois do divórcio. Não fazia idéia que trabalhava fora dos Estados Unidos. Fiquei muito surpresa.

— Como eu fiquei ao receber o telefonema do hospital — replicou Harry em voz baixa.

Hermione sabia que devia ter sido um grande choque, e tratou de mudar de assunto:

— O Sr. Weasley precisa descansar depois da terrível expe­riência por que passou. O condomínio é longe daqui?

— Moro no Atlantis. Vamos? — sussurrou Ronald com simpli­cidade, saindo do carro.

Enquanto Hermione digeria mais essa revelação surpreendente, apressou-se a reunir alguns dos pacotes, e também deixou o veículo.

Dúzias de trabalhadores das docas circundaram Ronald, e enquanto ele acenava e respondia em monossílabos, alguns vieram ajudá-la com as compras. Mas o tempo todo sentia os olhos cinzentos que a observavam, enquanto era auxiliada a entrar em uma das lanchas que conduziam ao navio.

Ele a seguiu, recusando ajuda, e entrou na embarcação com movimentos ágeis e másculos, que a fizeram prender a respi­ração. Em breve estavam ambos sentados frente a frente na lancha confortável.

Harry foi o último a entrar no bote, com seu carregamento de pacotes. Entregou coletes salva-vidas para Hermione e Ronald, e dirigiu-se à popa do barco, onde um marujo ligava o motor. Em breve zarparam do píer.

Hermione sempre amara o oceano, o odor característico de sal que permeava o ar. A água estava muito azul, fazendo o imenso navio ressaltar como um desenho a giz em um quadro negro limpo.

Os cabelos escuros de Ronald dançavam ao vento, ocultando o curativo na testa, e o queixo nem parecia machucado. Possuía um ar de intensa saúde para alguém que estivera tão próximo da morte.

Quando Hermione aceitara o encargo de ser sua assistente por alguns dias, nem imaginara que viveriam no mar, e quanto mais se aproximavam do Atlantis, mais se impressionava com a imponente, construção de engenharia.

— É fabuloso! Estou sem palavras — murmurou, fitando Ronald.

Um sorriso aflorou aos lábios sensuais, fazendo-a enrubescer.

Chegaram até os deques inferiores, e Hermione calculou que o navio devia estar ancorado em águas bastante profundas, e que seriam poucos os portos no mundo com capacidade para conter uma construção colossal como aquela.

Estremeceu ao lembrar de Victor, que devia ter perdido a vida ali perto.

Com gesto inesperado, Ronald colocou a mão em seu braço.

— Não pense nisso agora. Explicarei tudo mais tarde, quan­do estivermos sozinhos.

Ele sempre parecia ler seus pensamentos, refletiu Hermione, que aquiesceu, sem nada dizer. Entraram no navio, e vários mem­bros da tripulação vieram recebê-los.

Hermione sorriu para Harry

— Não vem conosco?

— Preciso trabalhar, mas nos veremos logo.

— Obrigada pela ajuda.

— Digo o mesmo — murmurou Ronald.

— Foi um prazer — replicou o gerente, voltando para a lancha.

Dentro do navio, Hermione sentiu-se em um hotel, repleto de escadarias, corredores e elevadores. Ronald segurou-a pelo cotovelo e conduziu-a por um corredor até chegarem a um pequeno ele­vador particular.

— Pode trazer a mala e os pacotes — pediu ao camareiro com uniforme azul e branco, muito elegante e profissional.

Ronald e Hermione subiram no elevador, e ela começou a tremer junto ao homem em quem pensava sem parar nos últimos dias. Por sorte logo a porta se abriu, evitando que fizesse papel de tola.

Esperava ver-se em outro grande vestíbulo ou corredor, mas depois que recebera o telefonema em Lead sobre o acidente de Victor, nada mais em sua vida fora simples ou previsível.

Nesse caso, o elevador servia como entrada para uma resi­dência que parecia tirada de uma revista de decoração. Lem­brava a casa de algum milionário em uma ilha grega, refletiu Hermione, sem fôlego. Paredes brancas e uma profusão de tapetes e poltronas davam um ar alegre ao ambiente.

Ficou parada no vestíbulo fantástico, e murmurou:

— Que beleza!

— Deixe-me mostrar tudo.

Ela fitou o rosto cansado de Ronald, e balançou a cabeça em negativa.

— Farei isso sozinha. Está muito pálido. Deixe tudo no ele­vador, que me encarregarei de guardar.

— Mas posso chamar um empregado e...

— Não é necessário. Será um corre-corre, e precisa se deitar logo, sem barulho. Vamos!

Ronald a fitou por um instante, e depois rumou para a direita. A residência devia ter ar condicionado central, pois a temperatura era muito agradável.

— O quarto de hóspedes é ali — indicou Ronald.

Continuaram até a suíte principal, muito espaçosa e bem decorada.

— Enquanto vai ao banheiro — disse Hermione — arrumarei sua cama.

A cama era enorme, com uma bela coberta. Quadros multi-coloridos e o resto da mobília escura contrastavam com as pa­redes brancas.

Quando Ronald saiu do banheiro ainda usando as mesmas rou­pas, Hermione tratou de fazer com que se deitasse, ajeitando os travesseiros. Sem pedir permissão, removeu seus sapatos e meias, e quando ele suspirou de alívio, percebeu que fizera a coisa certa.

— Descanse. Trarei algo para comer.

Saiu do quarto, e teve a impressão de que ele a chamava, mas não parou. Ronald precisava se alimentar. Logo encon­trou a cozinha, que ficava junto à sala de jantar. Adorava co­zinhar e sentiu-se em um paraíso, vendo as instalações moder­nas e a quantidade de utensílios à disposição.

Tratou de fazer um suculento caldo de carne, que colocou sobre uma bandeja, junto com um suco de frutas, um copo com água, e analgésicos.

Quando regressou ao quarto, Ronald estava de olhos fecha­dos, mas o aroma devia tê-lo feito despertar, porque ergueu as pálpebras.

— Vamos acabar com sua fraqueza. Na minha opinião, Sr. Weasley, deveria ter ficado no hospital mais um dia.

— Precisava sair de lá.

Hermione não replicou, porque entendia seus sentimentos.

— Quer um analgésico?

Ronald concordou com um aceno, e depois de engolir os comprimidos tomou o caldo com grande prazer.

— Há mais se desejar.

— Que tal daqui a meia hora? Tenho um enorme apetite, como irá descobrir. Enquanto tomo o suco, pode me trazer a pasta azul sobre a escrivaninha?

Hermione obedeceu.

— Sente-se perto da cama. Quero lhe mostrar uma coisa. — Ronald entregou-lhe uma brochura luxuosa. — Percebi no carro que estava louca para fazer perguntas. Isso responderá algumas.

Nos vinte minutos que se seguiram, Hermione leu, muito inte­ressada, uma descrição completa do navio e seus objetivos.

"O Espírito de Atlantis é uma cidade flutuante que nos próximos anos viajará por todo o mundo. Além de oferecer um complexo de edifícios de escritórios, com salas de conferências, possui uma zona industrial com fábricas e armazéns.

Famílias irão habitar os diversos deques residenciais. Também há televisão a cabo, telefones, escolas, uma biblio­teca, um hospital de primeira linha, departamentos de bombeiros, polícia, shopping center, supermercados, ban­cos, correios, restaurantes, cafés, teatros, capelas, uma sala de concertos, quadras de recreação e ginástica com pistas para correr, piscinas, quadras de tênis, futebol, salões de beleza, um parque, floriculturas, aeroporto e heliporto para os passageiros que chegam e partem nas lanchas, e para convidados de cidades costeiras em todo o mundo."

O conceito era fantástico. Hermione virou a página para a planta baixa do navio, e viu os carrinhos do tipo usado nos gramados de golfe, para os que não desejavam caminhar o tempo todo.

Por fim, colocou a brochura sobre uma mesinha, e ergueu o rosto para o criador daquele sonho, que a fitava com grande interesse.

— Isso é... Inacreditável — murmurou, tentando abranger toda a idéia. — Quanto tempo sonhou com este projeto antes de realizá-lo? — Mas levantou-se, com um repelão. — Não res­ponda! Sua garganta precisa sarar. Vou me acomodar no quarto de hóspedes, e mais tarde voltarei para ver como está.

— Hermione? Obrigado. Amanhã a levarei para o local onde acon­teceu o acidente. Lamento não ter dado maiores explicações até agora.

Uma onda de remorso a atingiu ao lembrar que, desde que Ronald Weasley surgira na porta do quarto do hotel naquela manhã, mal pensara em Victor, muito menos no motivo que a fizera vir para o Equador.

Sem dúvida Ronald precisava de repouso, porque só despertou às seis horas da tarde. Hermione entendia que uma dieta de líquidos não seria suficiente para um homem tão grande e forte, então tratou de esquentar um pote de alimento para bebê. Isso des­ceria pela garganta do convalescente sem problemas.

De fato, Ronald se serviu de dois potes, e tomou três taças de sorvete de diferentes sabores. Hermione deu-lhe mais dois analgé­sicos, e disse para dormir de novo.

Da próxima vez que veio dar uma olhada no quarto, Ronald dormia como uma pedra. Nada como estar na sua própria cama para um repouso tranqüilo, refletiu. Com cuidado, ela o cobriu com a manta e apagou a luz do abajur do criado-mudo.

Depois de limpar a cozinha, rumou para o quarto de hóspe­des, e deixou a porta aberta.

Tomou banho e preparou-se para dormir, mas antes dirigiu-se à escotilha, que descortinava o cenário da costa à distância. Não sabia em que deque estavam, porém devia ser alto. Sen­tia-se não em um navio, mas em uma cidade portuária, com as luzes brilhando nas águas.

Esfregou os braços pelo corpo, como se quisesse lembrar que não estava sonhando. Parecia impossível estar em uma cidade flutuante na América do Sul, se preparando para dormir em um quarto perto de um homem que não era nem seu marido nem noivo, e que conhecera menos de uma semana atrás!

Seus pensamentos correram para Victor. A idéia de traba­lhar em um navio como aquele devia tê-lo empolgado como nun­ca, e era possível que tivesse largado qualquer coisa que esti­vesse fazendo nos Estados Unidos para voar até o Equador.

No dia seguinte, Ronald iria lhe fornecer as informações que precisava, refletiu. Pressentia que não seria uma história agra­dável.

Soltou um longo suspiro, e deitou-se na enorme cama. Mal acabara de apagar a luz do abajur, quando o telefone tocou. Com medo de despertar Ronald, atendeu após o primeiro toque.

— Hermione? — disse uma voz masculina bastante familiar.

— Jorge?

— Que bom que reconheceu.- O homem não desistia!

— Se queria conversar com seu irmão, ele está dormindo no quarto ao lado, e não pretendo perturbá-lo.

— Acontece que desejo falar com você.

— Também estava dormindo — mentiu.

Não queria alimentar nenhuma ilusão, e era melhor termi­nar logo com o entusiasmo de Jorge a seu respeito.

— Um conselho. Não permita que Ronald lhe dê ordens. Meu irmão é um verdadeiro feitor de escravos. ,

Hermione sentou-se na cama com um repelão, muito aborrecida.

— Seu irmão devia estar no hospital, isso sim!

— Como já deve ter descoberto, ele sempre faz o que quer.- Ela desejou gritar que por isso mesmo era uma pessoa fora de série, mas replicou:

— Agradeço o interesse, Jorge, porém preciso desligar.

— Por quê? Ele a está chamando?

— Estou, sim — sussurrou a voz de Ronald na extensão. Hermione segurou com força o aparelho. Embora lamentasse que Jorge tivesse despertado o irmão, sentia-se aliviada por dar um fim naquela conversa sem sentido.

— Adeus, Jorge — murmurou.

Desligou, pulou para fora da cama, e enrolou-se em um rou­pão. Acendeu a luz no corredor, e encaminhou-se para o quarto de Ronald. Na metade do percurso, ouviu o telefone tocar de novo, o que significava que seu anfitrião já terminara de falar com o irmão.

— Quer que atenda? — perguntou à porta.

— Por favor.

Ela atendeu, e foi logo dizendo:

— Jorge, não insista! Lamento, mas não podemos conversar com você agora. Talvez amanhã, certo?

— Para sua informação, Sra. Krum, aqui fala Lilá Brown. Telefonei para o hospital e me disseram que Ronald recebera alta, portanto creio que deve estar bem para falar comigo. Não ima­gino o que a senhora faz aí. Por favor, coloque-o na linha.

— Um momento.

Respirando fundo, cobriu o bocal com a mão e voltou-se para Ronald, muito atraente na semi-escuridão.

— Diga a Lilá que estou dormindo. — Hermione piscou diversas vezes.

— Como sabia que era ela?

— O acidente me dotou com poderes paranormais.

Ela imaginou se os dois não estariam em meio a uma rusga de namorados, e disse:

— Lilá se importa muito com sua situação. Será que pode passar um recado que a tranqüilize?

— Não.

Já o conhecia o suficiente para saber que não mudaria de idéia, então voltou a falar ao telefone:

— Lamento, mas terá que chamar amanhã.

— Farei mais que isso, Sra. Krum. Diga a Ronald que irei vê-lo pessoalmente.

Um estalido seco fez perceber que Lilá desligara. Hermione sentiu um ridículo mal-estar ao pensar que não ficaria mais a sós com Ronald, depois que a outra chegasse ao navio.

— Por que ficou pálida?

— Fiquei? Talvez porque Lilá parecesse muito magoada. Disse que virá vê-lo amanhã.

Ronald praguejou em voz baixa.

— Posso compreender os sentimentos dela, Sr. Weasley. Pen­sa que sou uma espécie de ameaça, e é claro que isso é ridículo, mas Lilá não sabe. Não teria sido melhor que tivesse lhe sussurrado que a ama?

Mal fizera a pergunta, Hermione se arrependeu. O relacionamen­to de Ronald Weasley com Lilá Brown não era da sua conta, e dada à estranha expressão que surgiu no rosto do convales­cente, percebeu que o aborrecera.

Seu falecido pai sempre dizia que sua mania de querer pôr ordem no mundo era um belo traço de personalidade, porém existiam ocasiões em que se metia em confusão, e precisava tomar cuidado. Pena não ter se lembrado desse conselho pouco antes.

— Desculpe, Ronald. Falei sem pensar. É um grave defeito meu.

— Pelo menos me chamou pelo primeiro nome. Estamos fa­zendo progressos. Sente-se na cadeira, Hermione. Quero lhe falar.

Ela obedeceu, sentindo um nó no estômago.

— De onde tirou a idéia de que amo Lilá Brown?

A pergunta a encheu de tanta alegria que mal pôde respirar. Tomou fôlego, e explicou:

— Quando Jorge me levou ao apartamento de Victor, con­versamos sobre ela, e comentei que meus instintos me diziam que Lilá devia estar apaixonada por você. Então seu irmão ficou calado e mudou de assunto. — Fez uma pausa, e brincou com o cinto do roupão. — Presumi que estivessem tendo um romance, em especial porque ela não parava de telefonar para o hospital. Quando recusou-se a atender seus telefonemas, pen­sei que talvez fosse uma rusga de namorados. Não sabia...

Ronald soltou um profundo suspiro, que a fez se calar.

— Lilá é a ex-esposa de Jorge.- Hermione quase caiu da cadeira.

— Há muito tempo foi trabalhar como secretária de meu irmão Fred, que hoje dirige a empresa petrolífera da fa­mília. Em uma de minhas viagens a Houston, há alguns anos, fui apresentado a ela, que tentou flertar comigo. Embora seja uma mulher atraente, prefiro tomar a iniciativa, e dei a enten­der que não estava interessado, mas Lilá não desistiu, e continuou me perseguindo.

Hermione mal conseguia respirar, e ouvia com a máxima atenção, sem mover um músculo. Ronald tomou fôlego e prosseguiu:

— Tempos depois soube que Jorge se apaixonara por ela. Amo meu irmão e não quis magoá-lo entrando em detalhes so­bre Lilá. Quando me contou que pretendia se casar, em vez de revelar o assédio que ela me fazia, tratei apenas de dissua­di-lo do casamento alegando que era muito jovem. — Fez uma pausa, tomou um gole de água, e prosseguiu: — Jorge não me deu ouvidos, e quando o grande dia chegou, dei uma desculpa para não comparecer à cerimônia. Não levou muito tempo para meu irmão descobrir que se casara com uma mulher interes­seira, ambiciosa e egocêntrica. O divórcio foi inevitável.

— Que pena!

— O acordo, é claro, foi bastante generoso. Mas mesmo assim ela só concordou em dar o divórcio se pudesse voltar ao antigo emprego com Fred. De início meu irmão mais velho não quis, porém acabou por aceitar, a fim de acelerar o processo de separação. Mas houve a ressalva de que Lilá deveria adotar de volta o sobrenome de solteira. — Suspirou. — Jamais me perdoarei por não ter dito a Jorge, antes do casamento, que Lilá me perseguia.

Após ouvir a explicação, Hermione teve certeza de que a outra estava apaixonada pelo solteiro da família Weasley. Sem dúvida sempre estivera, mesmo antes de se casar com Jorge, e en­tendia muito bem tal paixão. Ronald era maravilhoso em todos os aspectos. Porém, Lilá não deveria ter casado com Jorge sem amá-lo.

— Gostaria de ter sabido disso antes de ser indiscreta, e confidenciar a Jorge que Lilá devia estar apaixonada por você. Desculpe. O que posso fazer para consertar isso?

— Nada. Não tinha como conhecer a história. Porém, quem sabe, sem querer fez um favor ao meu irmão. Desde o divórcio ele se culpa pela ruína do casamento.

— E agora irá culpar... você.

— Não, Hermione. Sabe que moro no Equador há oito anos, e que não teria um caso com sua esposa. Mas sua observação inocente poderá fazer com que perceba que ela nunca o amou de verdade. Talvez tenha retirado um peso de seus ombros.

— Espero que tenha razão. Como Lilá consegue viver sem remorso? Jorge deve ser uma excelente pessoa, e foi cruel casar-se com ele sem amor.

— Isso são águas passadas. Logo após o divórcio Jorge voou para cá e ficou aqui durante um mês. Foi a época em que nos sentimos mais unidos.

— E se Lilá vier vê-lo amanhã?

— Espero que isso não aconteça.

— Por quê?

— Levará o maior choque de sua vida. Amanhã cedo conver­saremos sobre isso.

A longa conversa o deixara exausto, e Hermione tratou de se levantar da cadeira.

— Obrigada por me contar a verdade.

— Parece que pensa que isso é o fim do mundo. Não é, e trate de não consolar Jorge.

— Nunca pensei em tal coisa.

— Talvez não de modo consciente, mas o simples fato de vocês dois terem se divorciado já é um ponto em comum. Espero que também não se culpe pelo fracasso do seu casamento, Hermione.

— No início foi isso mesmo que senti, mas logo compreendi que Victor não gostava das responsabilidades de homem casado. Foi educado por tios muito severos, quando os pais fale­ceram. Nunca falava sobre eles, e sempre se queixava que a vida não era justa. Casou-se comigo muito jovem, e passei a representar um empecilho para seus planos.

— Então devia ser muito imaturo para não perceber que ganhara na loteria. O mesmo se aplica a Lilá. Perdeu um homem maravilhoso.

— Concordo.

— E agora Jorge acha que se apaixonou de novo. Possui algo que atrai os homens, Hermione. Receio que devamos tomar medidas drásticas.

Hermione franziu a testa.

— O que quer dizer?

— Como já disse, conversaremos amanhã. Boa noite.

— Boa noite, Ronald.

Na manhã seguinte, nuvens pesadas encobriam o sol, e Ronald disse a Hermione que uma tempestade se aproximava, sugerindo que fossem logo ao local do acidente, e tomassem o café da manhã depois.

Caminharam a estibordo, e entraram em uma lancha, diri­gindo—se para alto-mar. Em breve ele anunciou:

— Estamos perto do local do acidente, porém o mar está muito agitado. Vamos voltar ao navio, e contarei toda a história.

Hermione sentiu-se aliviada, pois dava para perceber a fúria do mar, e não queria ser atingida pela tempestade no meio do oceano.

— Obrigada por ter me trazido até aqui.

— Era o mínimo que poderia fazer.

Voltaram ao navio, e rumaram para o elevador particular.

— Deve estar cansado. Enquanto preparo o café, por que não digita no computador a explicação que quer me dar? Vi que há um sobre a escrivaninha de seu quarto. E use só um dedo, para não sentir dor nas mãos. Demore o tempo que for preciso.

Ronald sorriu, como se aprovasse a sugestão.

Percorrendo o deque, Hermione soube que estavam no décimo quinto andar do navio. Mal conseguia acreditar que tudo aquilo era verdade.

Assim que chegaram ao apartamento, tratou de preparar a refeição e, ao observar como Ronald já mastigava direito, achou que poderia lhe oferecer ovos mexidos, cereais e suco.

Em breve entrou no quarto, trazendo uma bandeja.

— Como se sente?

— Ótimo.

— A voz está mais forte, e já não sussurra. É um bom sinal.

— Sinto-me bem melhor.

— Outro motivo para se poupar por mais um dia ou dois.- Ao ver o que ela lhe trouxera, Ronald sorriu, satisfeito.

— Acho que leu meus pensamentos.

— Pensei que devia estar cansado de papinhas de bebê. -Ronald soltou uma gargalhada, e Hermione se assustou.

— Cuidado! Não vá arrebentar os pontos no queixo!

Ele se sentou para tomar o café, enquanto ela lia o que já escrevera na tela do computador. Chegara a hora de conhecer a verdade sobre o dia fatal do desastre.

"Em várias ocasiões seu ex-marido chegou tarde ao traba­lho ou nem apareceu o dia inteiro. Por muitas vezes apresen­tou-se de ressaca. O encarregado das obras lhe deu muitas oportunidades, mas o mau comportamento continuou.

Para despedi-lo, era preciso pedir minha permissão pri­meiro. Então, antes de chegar a mim, Harry deu-lhe um ultimato, mas foi em vão. Só então o problema me foi trazido para uma decisão.

Examinei a ficha de seu ex-marido. Ele alegara que seu último emprego fora em Baton Rouge. Liguei para o número indicado, e fui informado que deixara o serviço para traba­lhar na Weasley Corporation. Lá também não demonstrara ser de confiança e, caso não tivesse se demitido, o teriam mandado embora.

Não há nada que me desagrade mais do que despedir um funcionário, em especial quando tem família. Seu ex-marido alegou que tinha uma esposa chamada Hermione, sua de­pendente. Deu como endereço residencial Lead, Dakota do Sul, nos Estados Unidos. Talvez pensasse que assim não seria despedido com facilidade.

No dia do acidente, fui procurá-lo depois do expediente, e avisei que desejava ter uma conversa com ele sem perda de tempo, em particular. Pegamos uma lancha e nos afas­tamos um pouco da costa.

Então uma tempestade desabou, e fomos arrastados para alto mar. Percebi que Victor não colocara o salva-vidas. Ordenei que obedecesse, mas recebi uma recusa. Então dei a volta com a lancha para voltar ao navio, lutando contra as ondas enormes.

Entrei em pânico ao ver um barco a motor fora de controle que vinha em nossa direção, em meio ao mar enfurecido. Dois rapazes também sem salva-vidas, que provavelmente haviam resolvido passear mesmo com a tempestade, bate­ram de frente na lancha. O barco se partiu em dois, e seus corpos voaram no ar.

Olhei para Victor e vi que estava desacordado. Tentei agarrá-lo, mas o combustível tinha vazado e a embarcação começara a pegar fogo. Houve um estrondo e vi seu ex-marido ser atirado para fora, assim como eu.

Tive a sorte de não perder os sentidos, e contornei a lancha em chamas, procurando por ele, porém não o encon­trei. Três homens haviam desaparecido no acidente, e me senti culpado por ainda estar vivo. A última coisa de que tenho lembrança é do pescador me resgatando em seu barco. Antes de desmaiar, preocupado com Victor, lembro que gritei seu nome, Hermione, e implorei para que o pescador a localizasse."

Ela terminou a leitura e sussurrou:

— Que pesadelo! Graças a Deus que está salvo! — Tomou-lhe as mãos em um impulso. — Prometa-me que não mais se sen­tirá culpado pelo que aconteceu com Victor. Talvez também tivesse sobrevivido, se usasse o salva-vidas, mas isso jamais saberemos. Como os dois rapazes imprudentes do barco a motor, meu ex-marido se julgava imortal.

— Se tivesse esperado e despedido Victor no escritório de Harry no píer, nada disso teria acontecido. Até o acidente, sempre me orgulhara de nunca ter havido problemas sérios com os trabalhadores do Atlantis.

Hermione se levantou de modo abrupto.

— Pare de dizer "se isso... se aquilo...". Desejou poupar Victor de um constrangimento, despedindo-o em particular, lon­ge dos colegas. Não teve culpa de nada. Acidentes acontecem.

— Segundo Harry a polícia já concluiu que foram dois tu­ristas brasileiros que, naquela noite, se aventuraram em alto-mar no barco a motor. Contratei mergulhadores para encontrar os corpos, mas nada surgiu. A guarda costeira diz que é uma busca inútil, a essa altura.

— Isso não me surpreende, Ronald. Depois que me levou ao local do acidente, percebi como as águas são profundas ali. A corrente marítima deve ter levado os corpos para longe, sem falar nos peixes que não deixarão muita coisa para se ver.

— E como se sente, Hermione? Saber de tudo isso não a en­louquece?

— Não. Se pensa que ainda estava apaixonada por Victor, saiba que não é verdade. Com certeza lamento muito que tenha morrido tão jovem, mas aconteceu. Quanto a você, Ronald, precisa parar de se culpar. Centenas de pessoas dependem do emprego que lhes dá para sobreviver. Não permita que um remorso iló­gico o consuma. — Fez uma pausa e pareceu refletir. — A pes­soa mais prejudicada com tudo isso é Parvati Rosário, mas tenho certeza que o bebê lhe trará uma nova disposição para viver. — Hermione suspirou. — Agora compreendo por que Victor alegou ainda ser casado comigo.

Fitou Ronald, que tinha uma expressão interrogativa, co­mo se também esperasse uma explicação.

— Victor sempre foi mulherengo, porém detestava compro­missos. E provável que tenha dito a Parvati que ainda era casado, para que ela não criasse muitas expectativas.

— Também pensei nisso. Prometo não me culpar mais, e ajudarei a encomendar um serviço fúnebre para seu ex-marido.

— Obrigada — replicou Hermione, emocionada. — Mas já con­versei a esse respeito com minha mãe, e achamos que seria melhor fazer isso em Spearfish, onde Victor nasceu. Ela já está providenciando.

— Faz sentido. Vou conversar com o capitão de minha em­presa de jatos, e voaremos para Dakota do Sul pela manhã.

— Tem certeza que pode viajar? Em breve seu navio deixará o porto.

A expressão de Ronald tornou—se sombria.

— Um funcionário morreu sob as minhas vistas. Tudo pode esperar até que ele receba uma homenagem póstuma.

Hermione só conseguiu murmurar outra vez:

— Obrigada.

E de repente a verdade a atingiu como um raio. Estava apai­xonada por Ronald Weasley! Sentira uma enorme afinidade desde o primeiro instante que o vira, e tudo acontecera inde­pendente de sua vontade.

Com medo que Ronald descobrisse seu segredo, já que conseguia ler seus pensamentos, começou a arrumar a bandeja do café, e a tagarelar.

— Talvez seja a hora de falar sobre a surpresa que planejei. -Ronald sorriu.

— Tem algo a ver com comida?

— Sim, já sei que vive sonhando com um belo bife suculento, mas não é isso. Primeiro precisa se deitar.

Com largas passadas, ele voltou para a cama que já fora arrumada por uma empregada, e estirou-se sobre a coberta, um sorriso maroto nos lábios sensuais.

— Como soube que estava rezando por outra massagem nas pernas?

— Errou. Não é isso.

Hermione ligou o aparelho de vídeo em frente à cama, e em breve Ronald sacudia o corpo na muda e característica risada, ao ver o início do filme A Múmia.

— Achei que seria a melhor maneira de passar o tempo, já que chove tanto. Comprei no shopping center quando fizemos as compras.

— Será ainda melhor se trouxer sorvete de chocolate e as­sistir comigo.

Não foi preciso pedir duas vezes. Hermione correu para a cozinha, preparou duas enormes taças, e voltou para o quarto.

Ronald afofou o travesseiro ao seu lado, mas ela preferiu se sen­tar em uma poltrona. Era menos arriscado, refletiu. Ficar muito próxima de Ronald Weasley sempre constituía um perigo.

Quando o telefone tocou, ele mesmo atendeu com má vonta­de, e Hermione correu a desligar o vídeo, com receio de atrapalhar a conversa. Entretanto, quando voltou a se sentar, viu que já desligara.

— Algo errado, Ronald?- Ele semicerrou os olhos.

— Não, se concordar em me ajudar, Hermione.

Notas finais
Comentarios sao bem vindo... diga o que acham da historia.