Um engano do destino?
9 Capítulo 9
– Ronald? Posso entrar?
— A porta está aberta. — Hermione vestira a camisola e o roupão, e aproximou-se.
— Trouxe suas pílulas.
Ele já estava sob os lençóis, e agradeceu.
— Já tomei as que estavam no armário do banheiro.
A esposa colocou o copo com água sobre a mesinha, e sentou-se no outro lado da cama, sem cerimônia.
— Vou contar tudo desde o início.
Sem parar para tomar fôlego, relatou sobre as visitas que fizera ao apartamento de Victor, quando dera dinheiro a Parvati. Explicou que utilizara Rúbeo Hagrid e Jorge como intérpretes, e que a ajuda financeira do irmão de Ronald fora um gesto espontâneo. Depois narrou a conversa que tivera com John Regan, e o telefonema de Rúbeo Hagrid no píer, avisando da chegada de Parvati ao navio.
— Juro que não pretendia abusar de sua boa vontade. Quando deixei Lead, retirei todas as minhas economias do banco. Não é muito, mas dará para pagar o hospital e um quarto até Parvati se recuperar.
— Isso vai levar algum tempo, considerando que teve um parto difícil — replicou Ronald com voz calma. — Receio que ela não possa permanecer nas dependências da tripulação com um bebê.
Hermione percebeu que seu plano de manter Parvati por muito tempo no Atlantis era tolice.
— Sei disso, Ronald.
— Então, qual a sua idéia?
Ronald não parecia zangado.
— Quando sair do hospital irei com ela até Guayaquil ajudá-la a encontrar um trabalho e a se estabelecer com a criança.
— Muito caridoso. Agora me conte sobre seu plano B. — Hermione sentiu o rosto em brasa, pois nunca conseguia esconder seus pensamentos do marido.
— Bem, talvez se conseguir que o conselho permita a entrada de famílias com crianças no navio, quem sabe parte de um condomínio que ainda não foi vendida possa ser transformada em creche.
Ronald deixou escapar o som abafado e rouco que costumava emitir no hospital, e Hermione tratou de falar bem depressa:
— Isso permitiria que as mães tivessem uma folga de algumas horas durante o dia. Mesmo as mulheres muito ricas, como quase todas que morarão no Atlantis, têm suas atividades. Precisaremos encontrar pessoas capacitadas para dirigir a creche. Talvez treinem Parvati para fazer parte da equipe, e ela poderia morar com a filha aqui.
Ronald inclinou-se para a esposa.
— E quando todos os bebês crescerem e já não puderem freqüentar a creche?
— Significará que é preciso também um jardim de infância, e uma escola elementar. Quando fiz meu giro pelo Atlantis hoje, descobri que no Deque do Sol há uma grande área vazia sem função específica. E fica perto das piscinas.
Ronald estendeu a mão e acariciou uma mecha de cabelos castanha que insistia em cair sobre a testa de Hermione. Ela estremeceu, tomada por uma forte emoção.
— Receio que os diretores queiram construir um cassino ali — murmurou ele.
— Mas existem dezenas de bares por todo o navio! Por certo alguns poderiam se transformar em cassino a um preço bem mais baixo!
Ronald sacudiu o corpo em sua característica risada silenciosa.
— Adoraria continuar ouvindo suas idéias, mas está batendo o queixo de frio. Entre debaixo das cobertas.
Hermione sentiu um nó na garganta. O marido acabara de pedir que fossem para a cama juntos, e era isso que desejara fazer desde que chegara ao Atlantis. O convite seria porque a desejava ou estava cansado demais para ficar sentado?
Desesperada por descobrir, Hermione enfiou-se debaixo das cobertas, sentindo o calor do corpo de Ronald ao seu lado. Nervosa, começou a tagarelar:
— Luna diz que Nev não sente frio, e deixa o ar-condicionado ligado no quarto mesmo com temperaturas muito baixas.
— Mistérios da mente masculina.
— Quanto às mulheres, não consigo explicar essa história de tensão pré-menstrual.
Ele sorriu.
— Também não sei. Mas pode me responder uma coisa?
— Diga.
— Compreendo que queira ajudar essa tal de Parvati, entretanto tentar encontrar um emprego para ela e resolver sua vida é um pouco demais, não?
— Por certo pensa que é uma esquisitice.
— Não, mas talvez signifique que não esqueceu Victor ainda.
— Ele não teve nada a ver com isso! — exclamou Hermione, exasperada e com toda a sinceridade. — Nosso casamento terminou na lua-de-mel, porém fizera um juramento e desejava cumpri-lo. Então pensei que, se tivesse um filho, poderia dedicar todo o amor que tinha no coração para ele.
Ronald acariciou-lhe o rosto, com um olhar cheio de ternura, e Hermione continuou:
— Victor estava fora de casa nas duas vezes em que abortei, mas o que não lhe contei é que deixou várias mulheres grávidas quando ficou um período na Califórnia. Por isso não parava em lugar nenhum. Não queria assumir responsabilidades.
Ronald não sabia o que dizer, começando a sentir uma grande indignação.
— Quando me contaram que Victor só trabalhava aqui havia quatro meses, percebi que o bebê de Parvati não era dele, portanto o pai da criança a abandonara do mesmo modo que Victor tratara mal a mim e a outras mais.
Lágrimas quentes começaram a escorrer pelas faces de Hermione, e Ronald segurou-lhe a mão com carinho.
— Não diga mais nada.
— Preciso continuar. O capitão Rúbeo Hagrid me contou a história de Parvati. Ela veio de um lar desajustado e, sem dúvida, não fora feliz com o homem que amara. Embora soubesse que Victor a enganava também, ficou ao seu lado porque, pelo menos, ele não a surrava.
Teve que parar a narrativa, pois soluços convulsos a dominaram. Ronald ofereceu-lhe um lenço da mesinha-de-cabeceira.
— Quando soube que Victor se afogara, percebi que ela voltara a ficar só, e que continuaria a sofrer na vida. Parvati é jovem e bonita, e merece uma vida melhor. Rúbeo Hagrid me avisou que tentaria extorquir mais dinheiro, porém na verdade ela não me pediu nada, nem a Jorge. Graças a Deus vim de um lar feliz, estudei e tive um bom emprego, portanto sinto que devo ajudar quem é menos afortunado.
Assoou o nariz com força, fazendo Ronald sorrir.
— Por fim o coração de Rúbeo Hagrid amoleceu, e ele a trouxe até o navio. Aqui termina a história, comigo tendo um problema e atirando-o em suas mãos também. Lamento muito, Ronald.
Em um impulso, saiu correndo da cama.
— Hermione! Volte para cá!
Mas ela já se trancara no banheiro de hóspedes.
— Hermione, abra a porta! Precisamos conversar.
— Por favor, vá embora. Prometo que partirei com Parvati quando ela se restabelecer, e nunca mais precisará se preocupar com um estorvo como eu.
Ronald brincou:
— Deve estar com TPM. Chore bastante e, quando sair daí, o quarto estará bem aquecido e voltará para a cama. Que tal?
— Amanhã será o dia mais importante de sua vida. Precisa dormir.
— Preciso mais de outras coisas. Seja uma esposa maravilhosa, e venha me fazer uma massagem. Funcionou como mágica no hospital. Mesmo um magnata como eu fica nervoso em certas ocasiões.
Hermione fungou do outro lado da porta.
— Está apreensivo?
— Sim. Já pensou se o Atlantis não flutuar?
— E a coisa mais ridícula que já ouvi!
— Por isso preciso de você. Para me dizer que tudo dará certo.
Ronald Weasley era uma figura tão forte e decidida que ninguém poderia supor que também tinha suas fraquezas, como todo ser humano, pensou Hermione. Porém ela vira seu lado vulnerável quando fitara os olhos cinzentos que brilhavam sob as ataduras no leito de hospital. Olhos que suplicavam e sofriam.
Sem titubear, pegou a loção do armário do banheiro, e abriu a porta. Ronald já não estava ali. Sem dúvida voltara para a cama, e desistira de esperá-la porque se mostrava irracional e infantil.
Entrou no quarto e murmurou:
— Por que não se deita de costas?
Ronald afastou as cobertas e obedeceu, enquanto Hermione erguia-lhe a calça do pijama até o joelho, e começava a massagear. A paixão a fazia adorar cada movimento que lhe permitia tocar a pele rija do homem amado.
— Que delícia! Não pare — pediu Ronald.
Ela continuou, até perceber a respiração ritmada do marido, indicando que adormecera. Precisava muito descansar porque o dia seguinte seria de grande tensão, a começar às seis e meia da manhã, com o batismo do navio.
Ronald lhe dissera que a esposa do capitão Rogers seria a madrinha, e que assim que quebrasse a garrafa de champanhe no casco, o Atlantis zarparia para sua primeira viagem pela América do Sul.
Quinze horas mais tarde, Hermione apoiou-se na balaustrada do convés, a brisa fazendo dançar seu conjunto cor de laranja. O estaleiro e o píer haviam desaparecido ao longe, havia muitas horas.
Ronald fizera com que suas famílias pegassem barcos que seguiram o Atlantis a distância, até onde foi possível. Com um par de binóculos, Hermione vira sua mãe e irmã. Junto ao marido, acenara, até que os barcos desapareceram no horizonte. O tempo todo Ronald mantivera o braço ao redor de seus ombros, e algumas vezes mergulhara o rosto em seus cabelos. Hermione nem ousava se mexer, com medo de quebrar o encanto de momentos tão preciosos.
Ronald devia estar vibrando de emoção, pensou, e sentia-se muito feliz e aliviado por tudo ter dado certo. Agradecia a Deus o fato de estar vivo e saudável para aproveitar seu grande triunfo.
— Poderá visitar sua família sempre que quiser — murmurara ele de encontro ao seu ouvido, pela primeira vez não lendo seu pensamentos.
Na verdade, nesse momento ela só pensava no marido, que ainda não sabia que se tornara o centro de seu universo.
O navio entrara em alto-mar, e Hermione nunca tivera tal experiência, mas não se sentia enjoada nem tonta. Antes de reunir-se a Harry e outros funcionários de bordo, Ronald pediu que tomasse pílulas contra enjôo, e ela prometera fazer isso quando voltasse ao condomínio. Com um beijo, o marido a deixara.
Isso acontecera havia várias horas, e Hermione continuava na balaustrada junto a outros residentes do Atlantis, apreciando o cenário. Segundo Ronald, iriam enfrentar mau tempo, e estava ansioso para ver o desempenho do navio na tempestade, antes que chegassem a Buenos Aires. Ali receberiam mais residentes.
Por fim Hermione abandonou seu posto, e voltou ao apartamento para comer um sanduíche e trocar as roupas por jeans, camiseta e tênis.
Depois rumou para o hospital, a fim de ver o bebê de Parvati. No caminho, recebeu um telefonema de um funcionário de bordo perguntando onde desejava que colocasse sua bagagem. Teria que mudar de planos e voltar para o apartamento.
A querida Luna organizara todos os seus pertences e pusera etiquetas em todas as caixas. Hermione pediu que fossem para o condomínio, menos as marcadas para o escritório, que ficariam na sala do Departamento de Turismo.
Quando começou a abrir as caixas, não viu mais o tempo passar. John Regan se aproximou de seu escritório, e ajudou-a a arrumar as coisas nos devidos lugares, inclusive o computador.
Enquanto trabalhavam, perguntou-lhe sobre Parvati.
— Já viu o bebê?
— Não, mas irei assim que terminar com isto.
— O que mais posso fazer para ajudá-la?
— Dê uma opinião sobre estes quadros. Onde devo pregá-los?
— São todos lindos, e creio que ficarão bem nesta parede. Adorei a foto da motocicleta. Tenho uma Harley.
— Verdade?
— Pretendo usá-la quando estivermos ancorados.
— Tive um amigo em minha cidade que dirigia uma moto. Costumava andar com ele escondida, porque meus pais me proibiam.
— Então quem sabe possa lhe dar uma carona quando estivermos em terra firme, se a senhora desejar.
— Proposta interessante — disse uma voz masculina à porta. John e Hermione se voltaram ao mesmo tempo.
— Ronald!
Como sempre, o coração de Hermione disparou ao ver o marido. Entretanto ele não parecia contente por vê-la e ficou parado, os olhos semicerrados.
— Parabéns pela primeira viagem do Atlantis, Sr. Weasley — disse John.
— Obrigado, Sr. Regan. — Sentindo a tensão, Hermione explicou:
— John estava me ajudando a arrumar o escritório.
— Então ele passou na minha frente. — Regan sorriu.
— Permita dizer que é uma satisfação ter sua esposa a bordo.
— Acho que a vê mais que eu.
Caso Hermione não soubesse a verdade, pensaria que o marido estava com ciúme! O olhar observador de Ronald a procurou.
— Se já terminou aqui, podemos ver o bebê. Ou já fez isso com Regan?
— Não.
O marido estava muito zangado!
John devia ter sentido o mesmo, porque consultou o relógio de pulso.
— Não fazia idéia que era tão tarde. Verei a senhora amanhã, Sra. Weasley.
— Não se esqueça da caixa de ferramentas!
Antes de ir embora, o rapaz cumprimentou Ronald, que permaneceu no mesmo lugar, como uma estátua.
— O que acha da decoração? — perguntou Hermione, esforçando-se por soar alegre e despreocupada.
— Temos um almoxarifado no Atlantis que forneceria tudo que desejasse. Não sabia que pretendia colocar seus objetos pessoais aqui.
Sem compreender o motivo de tanta irritação, ela explicou:
— Nosso apartamento não tem lugar para mais um escritório, e como já possuía todas essas coisas, achei conveniente aproveitá-las aqui. Se acha que é tudo muito velho ou que não combina com o resto da decoração do navio, posso tirar.
— Não. Criou um ninho encantador que expressa sua personalidade, e está bem assim. Vamos?
Hermione obedeceu, determinada a fazê-lo recuperar o bom humor.
— Não precisava se preocupar. Tudo deu certo com o Atlantis, Ronald.
— Foi o que disseram sobre o Titanic — replicou ele com azedume.
A esposa soltou uma risada, e segurou-lhe a mão. Para sua alegria, o marido correspondeu ao carinho.
— Esse é um filme a que não quero assistir. Mas que tal se assistirmos à continuação do Ataque dos Tomates Assassinos? Também trouxe comigo. Poderemos ver comendo pizza.
— Não está enjoada com o balanço do navio?
— Ainda não. E nem tomei as pílulas.
Foram recebidos no hospital pela mesma enfermeira da noite anterior, que lhes sorriu.
— Boa noite, Sr. e Sra. Weasley. Estava pensando quando iria vê-los. Quase todos a bordo já vieram dar uma olhada no bebê.
— E como está a mãe? — quis saber Ronald, surpreendendo Hermione.
— Teve muitas dores, e está sedada. Mas venham ver a menina.
Dentro de minutos estavam postados junto ao vidro que separava a sala de cirurgia, e que fora transformada às pressas em um berçário provisório. Outra enfermeira usando máscara segurava um pequeno fardo embrulhado em cobertores cor-de-rosa.
— Oh, Ronald! Ela é um encanto! Olhe os cabelos pretos! Espero que Parvati me deixe segurá-la.
Ronald a cingiu pelo ombro, sorrindo.
— Claro que sim. Mas no momento só estou pensando na pizza que prometeu.
Já não parecia aborrecido, pensou Hermione. Feliz, replicou:
— Também estou faminta. Vamos!
A cama do casal passara a ser seu lugar favorito, mas não pelo motivo que poderia ser o mais provável, porque ainda não haviam feito amor. Apenas gostava da intimidade e do calor do corpo de Ronald ao seu lado, das conversas sinceras e risadas que davam.
Quando chegaram ao apartamento, Ronald a fez prometer que esperaria por ele para abrir o resto das caixas vindas de Lead, que ocupavam o vestíbulo e a sala de estar.
Mais tarde, enquanto jogavam cartas, Hermione lembrou-se que ele lhe dissera, em Dakota do Sul, que gostaria de ver seu apartamento para conhecê-la melhor.
— Ronald, desculpe se não pedi sua ajuda para arrumar o escritório. Aliás, se a situação fosse inversa, ficaria aborrecida se o visse decorar um ambiente com seus objetos pessoais, ajudado por uma pessoa estranha. Não refleti que poderia aborrecê-lo, chamando John. No futuro prometo pensar antes de agir.
— Não precisa se desculpar, Hermione. Se pareci aborrecido foi porque não a encontrei em casa. Fui egoísta.
— E há outra coisa.
— O quê?
— Sinto-me ridícula desde que disse a várias pessoas que seria assessora no Departamento de Turismo. Foi um comentário tolo e arrogante, mas queria que sentisse orgulho a meu respeito.
— Não vamos tomar decisões sobre isso ainda. Amanhã, quando estivermos repousados, venha até meu escritório e conversaremos.
— Ótimo! Parece cansado. Está com dores?
— Estou bem. Não precisarei de analgésicos esta noite.
— Isso porque usou a tipóia o dia todo.
— Claro! Você não me deu opção.
— Faz parte das minhas funções. — Ambos riram.
— Trouxe um presente para você de Lead, Ronald. Esperei para lhe dar no dia em que o Atlantis zarpasse. Está no quarto de hóspedes.
Voltou trazendo uma caixa pequena, que Ronald abriu com curiosidade. Era um anel de homem, em ouro, com uma pedra de ônix, onde se lia Atlantis.
— Acho que o joalheiro fez um bom trabalho, considerando que encomendei de um dia para o outro.
Tomou a mão do marido, mas antes que pudesse colocar o anel, ele a beijou no rosto.
— É um tesouro que sempre usarei — murmurou Ronald. Desapontada por não ter recebido um beijo na boca, Hermione concluiu que Ronald não aproveitara a oportunidade de propósito. Precisava aprender a não forçar os acontecimentos, refletiu. A paixão deveria surgir de modo espontâneo. Evitando fitá-lo, tratou de se afastar.
— O balanço do navio me deu sono. Boa noite, Ronald. Vejo-o amanhã.
Correu para o quarto de hóspedes, e depois de trancar a porta, atirou-se sobre a cama e deu vazão às lágrimas. Acabou adormecendo com o rosto molhado.
Ao despertar na manhã seguinte, percebeu que o balanço do navio se tornara mais forte. O mar estava agitado. Relanceou um olhar para o relógio de cabeceira e viu que passava das nove horas. Por que Ronald não a acordara? Pretendera preparar-lhe o café, e dormira até tarde. Que esposa se saíra!
Tomou banho e lavou a cabeça em tempo recorde. Depois vestiu calça branca, uma camiseta, e blazer azul-marinho, correndo logo para a cozinha. Surpresa, lá encontrou um bilhete:
"Seu café da manhã está no forno, dorminhoca. Depois do presente que me deu, era o mínimo que poderia fazer para demonstrar minha gratidão. Venha me ver quando quiser. Ronald."
Hermione abriu a porta do forno e deparou com salsichas, ovos mexidos e torradas ainda quentes. Novas lágrimas voltaram a rolar por suas faces. Estava ficando muito sentimental, pensou.
Tratou de comer tudo, acompanhando com um suco de laranja, e ensaiou um sorriso feliz. Ronald não precisava saber de seu sofrimento.
Tomou o elevador que a conduziu para o andar da diretoria, e lá chegando ouviu vozes na sala de conferências. Refletiu que Ronald a esperara mais cedo e, com medo de incomodar, dirigiu-se ao escritório particular do marido.
— Pode entrar — disse ele, por trás da escrivaninha de mogno.
Sem dúvida parecia o principal executivo, com seu terno azul e cabelos bem penteados.
— Desculpe o atraso, Ronald.
— Tudo bem. Precisava descansar.
— Obrigada pelo delicioso café da manhã.
— De nada. Era tempo de fazer algo por você. — Ela arregalou os olhos.
— O que está, dizendo? Desde que nos casamos só recebo mimos!
— Então venha comigo.
Ao perceber que rumavam para a sala de conferências, Hermione estremeceu.
— Se quer que tome notas, saiba que não sei estenografia.
— Tem idéias muito antiquadas sobre o que uma secretária moderna faz. Temos um equipamento que grava e imprime tudo.
— Então não entendo o motivo para me fazer entrar lá.
— Porque sim. Não é um bom argumento?
— Eu...
— Então está resolvido.
Com as mãos em seus ombros, empurrou-a para dentro da sala. Um mar de rostos se voltou para a porta, e Hermione reconheceu todos os executivos da festa de casamento.
Sorrindo e cumprimentando cada um, dirigiu-se à cabeceira com o marido.
— Senhores, todos já conhecem minha esposa Hermione. Se bem recordo seu discurso na festa do nosso casamento, mencionou que desejava fazer algumas inovações no Atlantis. Como a nomeei diretora de nosso Departamento de Turismo, trouxe-a aqui para que exponha suas idéias.
Voltou-se para Hermione e sorriu.
— Pode começar.
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