Um encontro... Uma história
1 Caramel Machiato
—Você é solteira, vive em festas, não precisa prestar contas a ninguém... – Carlos gritou comigo enquanto o encarava boquiaberta.
—Então você acredita que sou a melhor pessoa que você tem disponível e decide minha vida, minha carreira sem ter a decência de me consultar? – Gritei de volta sabendo que aquilo resultaria em mais uma briga.
—Você é teimosa, arrogante... Trabalha muito bem... A idade meu bem... Chegará uma hora que você irá querer se casar, ter seus filhos – Carlos se aproximou me encarando como se fosse abrir a janela e me atirar por ela.
—O seu problema é que você sequer respeita as pessoas... – respondi sentando-me no canto da mesa e o encarei – Quer que eu vá para Virginia Beach... Eu irei... – respondi observando seu olhar agudo se tornar curioso – Não espere que eu mande cartões e presentes de Natal... Estamos combinados?
—Você irá se aperfeiçoar em uma das maiores universidades da região qual o problema? – Carlos olhou para meu pescoço e viu a gargantilha de prata.
—Você acredita que irei deixar de usá-la? – murmurei quase soltando uma risada.
—Você é cruel... – Carlos olhou para a janela – Se não quiser ir, a escolha é sua.
—Você vai me culpar se eu recusar? – perguntei erguendo uma das sobrancelhas.
—Se sabe a resposta... – Carlos respondeu e sorriu – Vou pedir para mandarem buscar você no aeroporto de Norfolk.
—Adeus Carlos, daqui seis meses nos veremos novamente – disse balançando os dedos ironicamente enquanto saía do escritório.
Desde que rompi o noivado com Carlos antes de terminarmos a faculdade nosso relacionamento havia se transformado... Do vinho para vinagre... Brigávamos quase todos os dias, mesmo trabalhando em consultórios separados, éramos sócios em uma clínica médica e ele estava constantemente me perseguindo, me obrigando fazer milhares de coisas além de atender meus pacientes para pagar minha dívida que ele gentilmente assumira na época que namorávamos. Enfim, medicina não é para pobres, esse era o resumo da ópera e agora ele me obrigava ir para Old Dominion fazer um semestre de um curso de psiquiatria onde eu receberia o treinamento para poder avaliar e tratar distúrbios do sono. Voltei ao meu consultório com a cabeça explodindo e a recepcionista da clinica sabia que havíamos discutido pelo bico que eu fazia.
—Drª.Vanessa... – A recepcionista me chamou quando passei por ela.
—Raquel – parei e voltei ao balcão de entrada da clínica.
—Dr. Carlos obrigou você ir pros Estados Unidos mesmo? – Raquel perguntou curiosa.
—Claro – respondi soltando uma risada irritada – Você sabe como ele é... Enquanto não ganhar o suficiente pra enfiar todo o dinheiro que ele me emprestou em seu... Você sabe aonde... – falei em um tom de voz mais baixo por causa dos pacientes esperavam atendimento – Serei obrigada a abaixar as calças... Me fará perder as festas de fim de ano... Claro que não é proposital, ele só está aproveitando as oportunidades.
—O estágio começa semana que vem? – Raquel murmurou olhando a agenda.
—Não se preocupe Dr. Breno irá me substituir – murmurei ironicamente devido minha rivalidade com o amiguinho predileto de Carlos que também era um dos sócios da maior bobagem que eu assinara na vida – Você sabe que ele me ama mais do que o próprio Carlos.
—Você não pode vender a sua parte? – Raquel tentava encontrar uma solução agradável em sua visão romântica de como acabar com um relacionamento e ser amiga do ex.
—Vou vender para um dos estudantes da Old Dominion... – falei ironicamente e dei uma risada afetada – Brazil, futebol... Mulheres adoram médicos...
—Você não faria isso... – Raquel respondeu digitando no computador os dados do paciente que olhava pra mim com as sobrancelhas levantadas – Além disso, você não me deixaria sozinha nessa porcaria trabalhando com aqueles dois vampiros.
—Se eu conhecer um americano rico e me casar com ele... – comecei a rir como se fosse a melhor piada do mundo – Eu buscarei você para ser minha assistente por lá, combinado?
—Desejo do fundo do coração que seus desejos se tornem realidade – Raquel respondeu rindo enquanto eu voltava ao consultório e limpava minha mesa e saía daquela clínica como se fosse a pessoa mais feliz do mundo, distribuindo sorrisos, abraços e acenos.
Dois dias depois estava dentro do avião em Cumbica rumo à Norfolk e eu lia a revista de bordo enquanto o avião taxiava e levantava voo rumo ao meu futuro incerto em uma universidade desconhecida. Uma viagenzinha com 10 horas de duração até o aeroporto Washington Dulles onde esperaria mais 3 horas para pegar a conexão rumo ao meu destino final. Estava saindo do Brasil num domingo às 21:30 e chegaria à Norfolk na segunda-feira às 10:30 da manhã se tudo acontecesse conforme o roteiro, diga-se de passagem. A verdade que a maior parte do tempo fiquei conversando com um senhor texano que era pai de uma garota de 15 anos que havia nascido no Brasil e que ele trazia todos os anos para passar férias no Brasil com os avós maternos e estava voltando para assumir seu trabalho no ramo de construção civil, a vantagem que ele falava bastante e no fim estávamos dando risada e eu acabei me distraindo até desembarcarmos e nos despedimos devido a diferença de horários entre nossas conexões Eram seis horas da manhã e eu andava pelo aeroporto, as lojas dutyfree estavam fechadas, a única coisa aberta era um Starbucks, para variar, Carlos havia me mandando para o curso de outono e já estava frio, ainda mais seis horas da manhã, eu não pensei dois segundos, entrei na cafeteria e pedi um Caramel Machiato e um cookie de macadamia e me sentei no fundo da cafeteria próximo ao aquecedor que estava ligado.
—Bom dia, posso me sentar aqui? – um dos clientes estava parado ao lado da cadeira vazia e esperava pela minha resposta.
—Está bem... – respondi olhando para a bandeja sem prestar atenção no cara.
—Você está esperando a conexão para onde? – ele perguntou enquanto eu mexia nos tíquetes de embarque e no passaporte.
—Norfolk – respondi erguendo meus olhos do tíquete e ele usava gorro, óculos e um casaco de inverno.
—Vírginia? – ele perguntou rasgando o pacote de açúcar e mexeu seu expresso.
—É – respondi olhando novamente para ele e ele deu um sorriso estilo comercial de pasta de dente, dei um sorriso amarelo e mexi a colher misturando a espuma e tomei um longo gole.
—Seu passaporte... Você vem de Onde? – Ele perguntou olhando para meu passaporte.
—Brasil – respondi prestando atenção em seus dedos puxando a caneta e anotando em um bloco – O quê você está escrevendo?
—Meu telefone – ele murmurou dando outro sorriso brilhante – Quando conseguir comprar um, entre em contato comigo...
—Contato com você? – passei o dedo sobre a asa da caneca – Por que eu faria isso?
—Vai querer conversar com alguém de fora do seu... intercâmbio? – Ele chutou rindo.
—Você tem um sorriso bonito, mas deveria se envergonhar de dar em cima de estrangeiras desacompanhadas em aeroportos... – murmurei simulando uma tosse.
—Dar em cima? – Ele riu me encarando e eu vi seus belos olhos azuis atrás das grossas lentes dos óculos – Sou um escritor e gosto de conversar com as pessoas... Só isso...
—Escritor? – Murmurei olhando para aquele americano e comprei sua história – Vai escrever uma história para mim ou vai me transformar em um personagem de uma história pronta?
—Não decidi... Não conheço você preciso de mais informações... O quê você faz na vida? – Ele perguntou olhando para meus dedos.
—Não fui ou, sou casada, se está procurando por marcas de aliança – disse erguendo meus dedos – Sou psiquiatra.
—Whoa...- Ele murmurou olhando para mim e sorriu – Terminou sua especialização há quanto tempo?
—Oito meses – respondi balançando a cabeça e o encarei – Qual o motivo do espanto?
—Tema clássico... Psiquiatras amam serial-Killers... Eu estou escrevendo uma história sobre um e encontro uma psiquiatra? Os anjos nos guiaram até essa cafeteria – disse rindo.
—Fictício? – Perguntei achando engraçado a maneira que ele escrevia em seu bloco, ele era canhoto e girava a caneta entre os dedos a cada parada que fazia – Posso fazer uma pergunta?
—Claro, Manda... – Ele disse olhando para mim tirou os óculos e puxou uma flanelinha do bolso e se concentrou em limpar as lentes enquanto eu o observava.
—Você jogava futebol americano ou era nadador na época da faculdade? – chutei rindo.
—Ah... – Ele deu um sorriso envergonhado e balançou os ombros – Mariners.
—Você largou o Baseball para virar escritor? – balancei a cabeça sorrindo.
—Não, fraturei o cotovelo... – Ele respondeu rindo e eu o encarei – Você também tem um sorriso muito bonito.
—Você tem olhos muito bonitos – respondi com as mãos erguidas e ri – adoraria ficar aqui conversando com você... Mas preciso pegar minha conexão, fazer o check-in... Sabe como são essas coisas... – disse enquanto ele levantava-se da cadeira sorrindo e levava as duas bandejas até o balcão.
—Posso acompanha-la até seu embarque? – o escritor me acompanhava para fora da cafeteria e puxou uma das malas e me acompanhava até o balcão da companhia aérea. Tirei o passaporte e o bilhete e entreguei à atendente que conferia meus dados e terminou o procedimento enquanto despachava as malas e o escritor ficava ao meu lado.
—Vanessa – ele balançou a cabeça enquanto andávamos rumo ao portão de embarque – Gostei do seu nome...
—Você... Jacob, não... David... – respondi rindo – Como se chama Sr. Escritor?
—Brian... Brian Kelly – ele respondeu entortando os lábios em um sorriso charmoso.
—Brian... Bem Sr. Brian foi um prazer conhece-lo desejo sorte com seu livro – disse sorrindo enquanto ele me observava com seu sorriso charmoso.
—Ainda nem anunciaram seu voo – Brian disse sentando-se em uma das cadeiras e me apontou a outra — Drª Vanessa.
—Então me fale sobre seu livro... – murmurei enquanto ele puxava os óculos e me observava – Qual a história do seu serial killer?
—Um garoto de 12 anos que é arrancado de casa enquanto sua família é assassinada, mandado para um internato treinado para se tornar um agente do F.B.I. trabalhando em missões suicidas e altamente perigosas até que ele se apaixona por uma das vítimas que deveria assassinar, então, diante desse romance e a impossibilidade de cumprir seu dever ele foge, para muito longe dela... Entretanto outros agentes são convocados e ele descobre sua execução pelo obituário nacional dois meses depois de desaparecer, a morte da amada se torna o gatilho para ativar o serial killer, ele mata os agentes responsáveis por sua morte, seu ex-chefe e, todos envolvidos naquele incidente. Entra para a lista do F.B.I. como procurado, se esconde, muda seu visual, cria um personagem e esquece o passado.
—Até que... – chutei por pura indução.
—Não cheguei nessa parte... – Brian respondeu franzindo o cenho e sorriu – Ele ainda está na zona cinza... Tem alguma sugestão?
—Ele conhece uma psiquiatra e se apaixona por ela? – disse rindo observando a movimentação da companhia aérea em sua preparação para o embarque.
—Ele se apaixona por ela por qual motivo? – Brian perguntou em um tom debochado.
—Ela é bonita, sexy e inteligente – murmurei mexendo nos cabelos e dei um sorriso torto.
—E como eles se conhecem? – Brian empurrou os óculos para baixo e sorriu.
—Em um aeroporto... – sussurrei enquanto ele franzia os lábios e erguia as sobrancelhas.
—E o que acontece depois? – Brian pegou o bloco e pegou a caneta rindo.
—Uh... – disse apertando os lábios com o dedo enquanto o voo era anunciado e ele ria.
—Sexo? – Brian balançou a cabeça como se imaginasse a história – Okay, eles se beijam alucinadamente e vão para o banheiro em uma área abandonada do aeroporto.
—Sim... – respondi rindo – O aeroporto está em reformas para expansão... Ele estuda muito bem a área e sabe que não tem câmeras ligadas naquele lugar por estar em construção.
—Oh... – Brian riu – Então eles fazem sexo e depois?
—Você deveria estudar um pouco de neurologia e criar um gatilho para ele usar para tirá-la do aeroporto de maneira segura e totalmente explicável... – respondi rindo.
—Sério? Vai me deixar salivando diante do prato pronto e simplesmente me dar a lista dos ingredientes? – Brian balançou a cabeça negativamente e sorriu – Você é muito má...
—Não, você é o escritor, eu só sou um personagem do seu livro... – disse rindo.
—Posso usar seu primeiro nome? – Brian perguntou enquanto a classe econômica se reunia em frente ao portão de embarque e eu me levantei com intuito de tomar meu lugar.
—Claro... – respondi enquanto andávamos rumo a fila que diminuía – Brian Kelly foi um prazer conhecê-lo, desejo sucesso com seu livro, juro que ficarei atenta ao seu nome nas prateleiras dos best-sellers daqui alguns meses – disse estendendo-lhe a mão.
—Drª Vanessa... – Brian segurou minha mão e a beijou enquanto algumas pessoas olhavam para ele curiosas – Encontrá-la foi uma obra do destino que agradecerei por meses, muito obrigado... Só posso agradecê-la por me inspirar e partirá com a certeza que se tornará uma das minhas personagens prediletas.
—Adeus... – murmurei enquanto entregava meu tíquete de embarque e a atendente liberava meu embarque.
—Vanessa... – Brian murmurou enquanto eu andava rumo ao corredor e parei olhando para trás enquanto ele corria em minha direção segurava meus braços me envolvendo com os dele e beijava meus lábios em uma daquelas cenas de filmes que eu achava totalmente falsas e exageradas até aquele momento – Eu não poderia deixar você embarcar sem meu telefone – Ele sorriu e enfiou o papel no bolso do meu casaco enquanto os funcionários da companhia aérea e passageiros nos observavam rindo e ele me deixava de pé e saía correndo e eu andava rapidamente evitando os olhares curiosos.
Tomei meu lugar e afivelei os cintos pegando a revista enquanto olhava o papel amassado com os números marcados e o nome do escritor na esquerda do papel. Seria inevitável sorrir, um café em um aeroporto em plena madrugada de segunda-feira, dobrei o papel e o devolvi ao bolso enquanto o avião levantava voo rumo à Norfolk, eu olhava pela janela dando adeus ao aeroporto Washington Dulles e puxava o folheto da programação do curso da Old Dominion enquanto Brian corria pelo aeroporto até o balcão de uma companhia aérea.
—Gostaria de uma passagem classe econômica para Norfolk no próximo voo que vocês tiverem – Brian murmurou enquanto a atendente procurava vagas e os horários disponíveis e ele empurrava a habilitação no balcão.
—Temos uma vaga disponível para o voo de duas horas senhor – a atendente digitou o nome – Sr. Balthis sua vaga será no corredor.
—Obrigado, me chame de David – ele respondeu guardando o documento na carteira.
—David você precisa enviar alguma bagagem? – a atendente perguntou sorrindo.
—Não, não tenho nenhuma bagagem – Ele respondeu, instintivamente acariciou o bolso – Mas sou portador de epilepsia e preciso manter minhas injeções de fenobarbital caso tenha uma crise durante o voo devido à alteração da pressão atmosférica ele empurrou o laudo médico enquanto a atendente lia o atestado e anotava os dados da clinica no computador.
—Sem problemas David, desejo uma boa viagem – a atendente entregou o bilhete de embarque enquanto ele dava seu sorriso torto.
—Obrigado – disse e saiu rumo ao portão de embarque pensando em um novo encontro surpresa entre seu personagem principal e a fascinante Drª Vanessa.
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